Monday, September 4, 2017

Manchete em 1982

 Jornal do Brasil
Data de Publicação: 25/01/1982
Autora: Cleusa Maria
NO AR, QUANDO SETEMBRO VIER, UM NOVO CANAL ''COM PADRÃO EUROPEU''
Se as duas antenas (uma para o Rio, outra para São Paulo) de alta potência e polarização circular, capa zes de emitir seus sinais na horizonte também na vertical, abrangendo 360 graus, forem entregues no prazo previsto de oito meses após a encomenda e se não apresentarem problemas na instalação, a Rede Manchete de Televisão entrará no ar em meados de setembro. Caso contrário, as transmissões começam no princípio de novembro.

Cento e vinte dias depois de ganhar a concorrência para os canais 6 do Rio, 13 de São Paulo, 4 de Belo Horizonte, 6 de Recife e 2 de Fortaleza, a nova rede já encomendou cerca de 35 milhões de dólares em equipamentos (americanos japoneses e ingleses), mais da metade do orçamento total estimado em 50 milhões de dólares. Todas as instalações físicas da emissora local estão prontas à espera dos equipamentos. Enquanto isso, o arquiteto Oscar Niemeyer trabalha no projeto do centro de produção nacional que funcionará num terreno de 100 mil metros quadrados, na Barra da Tijuca.

Se por um lado a direção da emissora parece não fazer muito segredo em tomo de equipamentos, instalações e técnicas, o mesmo não acontece com a programação da futura rede. Sabe-se apenas que se dirigirá a ,um público inteligente que assiste ou não à televisão ("classe A e B'') e que, com certeza, estará voltada para temas brasileiros, dentro de um padrão que mais se aproxima do europeu. "Mais sério, menos apelativo e menos eletrônico".

Nos corredores do "antigo" prédio da Bloch Editores, na praia do Russel, ressoam as ferramentas dos operários que trabalham nos arremates das instalações. A esses ruídos se alia o barulho das máquinas que preparam os alicerces de um terceiro prédio da empresa, ao lado do recém-construído também na praia do Russel.

Instalações - Em três andares interligados destes três prédios funcionará o novo canal 6 do Rio (a parte administrativa ocupará outros dois andares). O estúdio de jornalismo local, com 200 metros quadrados, três câmaras e cenários, fica no quarto andar ao lado de uma redação com espaço semelhante. Segue-se a sala de controle, onde estarão os suiters, monitores, geradores de caracteres e tudo o que se precisa para o sistema de jornalismo.



Caminhando para a direita há oito salas, cada uma com duas "ilhas de edição", o que permitirá que 16 jornalistas produzam suas matérias ao mesmo tempo. Atravessando-se uma porta de segurança, regulada por computador, por onde só passará quem tiver um ingresso (espécie de chave de segurança), entra-se na estação geradora central, isso já no segundo prédio da empresa.

Esta parte se divide em três áreas. A engineering ("estação do Rio no ar"), onde haverá, num espaço de 600 metros quadrados, telecines, vídeos-tapes, racks de recepção e transmissão, salas de VT. Em frente, numa sala de 300 metros quadrados, fica o coração da emissora: o master control. Aí, segundo a direção da rede, será instalado o que existe de mais moderno em eletrônica.

Ao lado do master control, estão duas grandes salas com 18 vídeo-tapes de uma polegada que trabalham por sistema de computador, cada um cuidando de seis máquinas. Paralelamente, funcionarão duas mesas de efeitos digitais que permitem todos os recursos de imagem pensáveis ("diminui, aumenta, multiplica, roda, gira").

No terceiro prédio, atualmente em construção, se localizará o control room para o estúdio 2, que tem 240 metros quadrados e ocupa o espaço de dois andares, destinado ao jornalismo nacional. O estúdio 3 funcionará no prédio do meio, no térreo - 240 metros quadrados - e se prestará a produção de shows e musicais. Um quarto estúdio utilizará o espaço e as instalações do atual Teatro Adolfo Bloch, englobando a piscina que fica ao fundo do palco móvel. Será usado também na linha de shows.

No 12º andar do prédio do meio haverá um quinto estúdio para a produção de musicais, entrevistas. Do master control, um operador poderá jogar imagens, simultânea mente, para a sala de emissão. Mais os três carros móveis que poderão estar na rua, serão oito os pontos de transmissão simultânea.

Para a instalação do centro de produção da rede ("ainda sem orçamento, mas com certeza acima de 50 milhões de dólares"), o presidente da empresa, Adolfo Bloch, adquiriu um terreno de 100 mil metros quadrados na Barra da Tijuca. O centro, que está sendo projetado por Oscar Niemeyer, terá, no conceito arquiteto, uma cúpula de 60 metros de raio. Ela deverá dividir-se em duas partes.

Numa arte coberta estarão três grandes estúdios somando, no total, 2 mil 800 metros quadrados, cada um com capacidade para 300 pessoas.

A parte semi-coberta funcionará como teatro, anfiteatro e concha acústica e receberá 3 mil pessoas sentadas. Ao fundo da cúpula, haverá a marcenaria ("para a construção de cenários") e camarins. Numa lâmina anexa, funcionará a administração central de rede.

Tudo isso será circundado por espelhos d'água, cenários naturais e nos traços iniciais e Oscar Niemeyer (mostrados, mas impossíveis de serem fotografados) percebe-se a preocupação com o espaço para o descanso do artista. O centro deverá estar funcionando daqui a dois anos.

Nos Estados Unidos já foram comprados pela direção da Rede Manchete de Televisão quatro transmissores RCA (dois para o Rio, dois para São Paulo) e duas antenas ainda inexistentes no Brasil, pois "as usadas aqui emitem na horizontal, essas emitem também na vertical".

Para as estações de Recife, Belo Horizonte, Fortaleza foram adquiridos seis transmissores Pye - Philips, da Inglaterra. Os vídeo-tapes e câmaras (já comprados) virão do Japão, assim como os computadores de edição. Mesa e efeitos digitais foram comprados também nos Estados Unidos.

Todos os equipamentos, como diz a direção da empresa, são, sem dúvida, o que existe de melhor na avançada indústria desses países. Começam a chegar em abril e as últimas entregas (as antenas), em agosto.

A direção da rede calcula também que 1 mil 500 pessoas serão necessárias para movimentar o sistema. Com isso, "a Bloch vai chegar a 7 mil funcionários".

Programação - O grande mistério da nova rede de televisão fica por conta do que será mostrado através desses equipamentos fantásticos. A direção revela, por alto, que a rede Manchete de Televisão estará preocupada com o Jornalismo, os shows de alto nível, a criança, e que haverá um grande enfoque na área da Educação e Cultura.

E justifica: "O Sílvio Santos já está com as classes C e D, a Globo tenta fazer uma televisão eclética, mas parece que está puxando o cobertor para os pés ao contratara equipe de Reapertura e fala-se até em Chacrinha. A Bandeirantes, pretensamente, ocuparia a faixa A e B, mas ainda não ocupa".

O modelo, segundo garantem, será integramente nacional, pois entendem que a TV brasileira se voltou demais para o padrão americano. A idéia da direção da TV Manchete é fazer uma emissora que dê muito espaço para a música, agricultura, área rural, medicina, comportamento brasileiros. ''Com um padrão europeu".

Ainda para a direção da emissora, não se pode acreditar que não exista no Brasil espaço entre anunciantes e público para este tipo de televisão, "menos apelativa, sem concessões". Assim, pretende fazer um trabalho de bom nível com os custos compatíveis com a realidade brasileira.

Outra idéia é a de produzir o máximo possível e, já no início, a rede poderá entrar no ar com 50% da programação de produção própria. Há uns 40 nomes pensados (mas jamais revelados) para o elenco da TV Manchete. Somente em julho, quando a programação estiver pronta, se saberá concretamente o que será a nova rede,

A direção explica: "em televisão tudo é muito veloz. O que se planeja muda muito rápido. Quem sabe se até lá a TVS não será a campeã de audiência?". E, a muito custo, adianta: "a Rede Manchete de Televisão será alegre, extrovertida, jovial, mas também séria e o menos eletrônica possível.''

Monday, July 24, 2017

Bafão na Pampa

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 18/04/1985

PRATES DA SILVEIRA É ESCOLTADO PARA SAIR DE PROGRAMA NA TV
Porto Alegre - Só com proteção policial foi que o ex-presidente do Grupo Sul Brasileiro, Coronel R/1 Hélio Prates da Silveira, conseguiu sair da Televisão Pampa, após participar do programa Pampa Debate, no qual abordou a crise da instituição. Mesmo assim, os bancários do Sul Brasileiro, que faziam manifestação na saída da emissora, jogaram dezenas de ovos e tomates no carro de Silveira, que fugiu rapidamente do local.

O incidente ocorreu no início da madrugada de ontem, após Silveira participar, com outro ex-diretor do Sul Brasileiro, Alceu Francisconi, do programa na Televisão Pampa (afiliada à TV Manchete), coordenado pelo jornalista Rogério Mendelski. No programa, Silveira voltou a responsabilizar o ex-Ministro Delfim Neto pela intervenção no Grupo, já que o Ministro aceitara um aporte de recursos de 62 milhões de dólares, por parte do Citibank, mas, antes que a negociação fosse concluída, divulgou a intervenção.

Na época, um dia antes da intervenção, Delfim Neto disse que o rombo do Sul Brasileiro era de Cr$ 115 bilhões e o Governo federal não aceitou um aporte de 300 milhões de dólares do Citibank, pois daria o controle acionário a um banco estrangeiro. Silveira disse que na reunião ficou acertado o aporte de 62 milhões de dólares, e que Delfim chegou a abraçá-lo dizendo que estava tudo certo. Segundo seu relato, foi, então, ao Rio de Janeiro e acertou com o advogado do banco norte-americano a liberação imediata dos recursos.

Ao tentar comunicar o fato, já acertado, a Delfim, o Coronel Hélio Prates ficou sabendo que o Ministro viajara a São Paulo. Tentou localizá-lo, sem sucesso, em vários locais, inclusive pelo rádio do jatinho em que Delfim viajava. Logo depois, o Governo anunciava a intervenção. Alceu Francisconi, por sua vez, admitiu que somente no primeiro ano, em 1973, o Sul Brasileiro fechou tranqüilamente seu balanço; nos anos seguintes, sempre houve dificuldades no fechamento dos balanços.

Perguntado por Mendelski sobre como via as notícias de que estava sendo solicitada pelo Governo sua prisão preventiva, o Coronel Hélio da Silveira reclamou: "E um absurdo que na Nova República, que fala tanto em direitos humanos, o Governo fale em me prender, se não há nenhuma acusação formal contra mim, não fui chamado, nem fui citado ainda. Mas estou tranqüilo". No final do programa, a Brigada Militar foi obrigada a colocar vários policiais para custodiar a saída do carro do Coronel Silveira e, mesmo assim, foram jogados ovos e tomates contra o veiculo, enquanto os bancários gritavam "ladrão".

TV Pampa X Guaíba em 1981

Revista: Gazeta Mercantil
Data de Publicação: 18/03/1981
Autora: Jane Filipon



A DIVISÃO DA AUDIÊNCIA

Todas as quatro televisões do Rio Grande do Sul neste início de ano estão empreendendo modificações em suas programações e investimentos em novos equipamentos. O alvo das emissoras menores é conseguir, numa primeira etapa, a divisão mais eqüitativa do mercado quase todo concentrado em torno da bem estruturada Televisão Gaúcha (programação da Rede Globo). Durante todo o ano de 1980, a Gaúcha manteve uma média de 60% de audiência, na Grande Porto Alegre, e liderança quase absoluta no interior do estado, onde conta com nove estações retransmissoras e apenas a concorrência da Televisão Difusora (da Rede Bandeirantes). TV Guaíba e TV Pampa, sem ligações com redes nacionais, ainda não atuam em áreas interioranas.

MUDANÇAS - A Guaíba, da Empresa Jornalística Caldas Júnior, foi a emissora que introduz modificações mais substanciais, porque passou a ocupar 45% de sua linha de programas com produções locais (antes era 35%), o restante do espaço ocupado com filmes e desenhos. A Guaíba, que atualmente ocupa a última posição com 4% de audiência, perdendo para TV Pampa que, segundo o IBOPE, tem 24,6% da preferência do público e para a Difusora com 8%, antecipou seu horário de entrada no ar para as 9h30 (durante dois anos a programação iniciava-se às 16 horas).

PERSONALIZAR - "Nesses dois anos de presença no mercado", afirmou a este jornal o diretor de programação, Sérgio Reis, "tivemos como principal objetivo de nosso trabalho personalizar a estação como uma emissora eminentemente local e fora de rede, tendo, porém, como público-alvo o sexo masculino." Nesta nova arrancada e com um faturamento triplicado (Cr$ 24 milhões mensais segundo a empresa), a programação foi estratificada de forma tradicional (pela manhã, infanto-juvenil, do meio-dia às 14 horas, eminentemente feminina; para crianças à tarde; e no começo da noite um programa de informações, comentários e esportes), encerrando com filmes.

A briga pela audiência feminina no horário das 12 horas se dará basicamente entre três emissoras: TV Gaúcha, TV Guaíba e TV Difusora. Programas neste horário se mantêm em bons níveis de audiência no interior e em Porto Alegre, porque o hábito de a família se reunir em casa, ao meio-dia, ainda permanece. Reis acha, porém, que na capital a presença maior neste horário é fundamentalmente feminina e por isto entra com programa exclusivamente nessa linha. "Nas demais emissoras se justifica porque cobrem todo o estado. Pode ser, portanto, um programa bem mais variado que o nosso, pois os homens do interior ainda almoçam em casa", explicou ele. A Televisão Gaúcha, segundo seu diretor executivo, Fernando Miranda, pretende mexer no seu jornal do almoço, buscando novos cenários e maior descontração, pois está no ar há 10 anos, praticamente sem alterações fundamentais.

PÚBLICO - O público-alvo da programação da Gaúcha não será, porém, modificado. Isto porque a pesquisa encomendada à Marplan, para introduzir inovações, caso fossem necessárias, constatou que, das 12 às 13 horas, 49% de seus telespectadores são homens e 51%, mulheres, e "a Gaúcha das 13 às 14 horas, 45% do público é masculino e 55%, feminino. A Gaúcha pretende, este ano, produzir, ainda, pelo menos dois casos especiais com artistas gaúchos e há uma idéia, ainda embrionária, de fazer um noticioso pela manhã. A linha de programação da TV Difusora não sofrerá grandes ajustes, estando reservada para a emissora a transmissão dos novos programas da Bandeirantes.

EQUIPAMENTOS - A TV Pampa parece ter encontrado sua linha: desenhos e filmes. Mas o diretor presidente, Otávio Dumet Gadret, e o diretor de programação, Gilberto Lessa, também estão pensando em alterar a fórmula, embora tenha dado certo, pois, com menos de um ano de atuação, ficaram com a segunda posição. Enquanto em dois anos a Pampa anuncia que estará cobrindo todo o estado e a Guaíba, ainda este ano, 70% do Rio Grande do Sul, com este tipo de expansão superado, a Gaúcha parte para outros investimentos: um novo prédio de 1.700 m2 para instalação da área técnica e operacional; compra de cinco câmaras portáteis mais atualizadas e três unidades de microondas portáteis.

Programação Antiga 1974








Pout-pourri































1968 - Censura na TV

Revista: Realidade
Data de Publicação: 01/06/1967
Autor: José Carlos Marão e Afonso de Souza



ISTO É PROIBIDO

Em Brasília, 17 funcionários públicos decidem que filmes crianças podem ver, o que os adultos podem ver e o que ninguém pode ver. Com esses 17 homens está o poder de decretar...

Ele aparece todos os dias, em todos os filmes - desde um desenho animado até uma tragédia mexicana.

Ele trabalha atrás de uma mesa de aço, no quarto andar de um edifício de paredes de vidro, em Brasília.

Mais criticado que elogiado, é ele quem determina o que o brasileiro pode e o que não pode ver no cinema.

Ele é o censor, e nas telas seu nome e assinatura nunca falham: "A. Romero do Lago, chefe do Serviço de Censura de Diversões Públicas".

- Trabalho de censor desperta curiosidade muito grande - comenta um pouco vaidoso.

Romero do Lago chefia uma equipe de 16 homens, encarregada de cortar, dos filmes, cenas que - segundo eles - chocam, despertam violência, ofendem o decoro público ou subvertem. Com nível de cultura de média para baixo, esses 16 cidadãos têm o poder de proibir filmes para menores, cortar cenas e até interditar uma fita inteira.

Já houve tempo que se limitava um filme "impróprio para menores até..." só pelo título. Hoje não. Todas as fitas, nacionais ou estrangeiras são vistas.

O chefe Romero do Lago, porém, não gosta de cinema. Quase nunca entra na sala de projeções do departamento. Sem confessar sua indiferença, explica que não assiste aos filmes para poder opinar posteriormente, em grau de recurso, sobre qualquer dúvida surgida entre os censores.

A equipe agüenta ver quatro filmes de longa metragem por dia, mais um tanto de documentários e jornais cinematográficos. A ordem de exibição é a de chegada, mas os nacionais têm preferência. Os censores trabalham em grupos de dois, três ou quatro. No subsolo do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico (onde a Censura ocupa metade do quarto andar), eles têm uma sala de projeção: 300 lugares, luz e som perfeitos.

Depois de visto o filme, cada censor dá seu parecer por escrito. Se houver empate, Romero do Lago, ou um segundo grupo de censores, desempata. Se não houver, Augusto da Costa, que já teve seu nome conhecido no Brasil inteiro, pois foi o beque da Seleção Brasileira na Copa de 1950 - recebe os pareceres, prepara os certificados, passa ao chefe para assinar e despacha aos distribuidores.

Funcionários federais (dos níveis 17 e 18), os censores ganham no máximo NCrS 356,50 por mês e só podem ter outro emprego se forem jornalistas.

O CENSOR NASCEU DE UM BEIJO

A censura do cinema começou um pouco antes do cinema. Em 1896, no filme A Viúva Jones (do tempo da lanterna mágica), Mary Irvin e John C. Rice assustaram o público americano com um beijo mais ou menos longo. Membros do clero, escandalizados, denunciaram a fita como a lyric of the stockyards (um lirismo de matadouro).

Estava criada a censura. O censor oficial foi a conseqüência.

No Brasil, 71 anos depois, o censor é um funcionário público que ainda faz restrições aos beijos:

- O beijo passa, é claro, mas se o galã começa a dar mordidinhas nos lábios da mocinha, aí vamos estudar o caso.

No estudo do caso, há pelo menos 16 critérios para julgar o que o povo não pode ver: um para cada censor. Além da orientação geral de Romero do Lago, através das portarias que vai baixando.

Serviço de Censura de Diversões Públicas foi criado em 1946, dentro do Departamento Federal de Segurança Pública (hoje Departamento de Polícia Federal). Na mesma ocasião foi feito um regulamento de 136 artigos, onde só um - o "41" - fala dessas coisas que são proibidas: "Será negada a autorização sempre que a representação" exibição ou transmissão: a) contiver qualquer ofensa ao decoro público; b) contiver cenas de ferocidade ou for capaz de sugerir a prática de crimes; c) divulgar ou induzir aos maus costumes; d) for ofensiva à coletividade ou às religiões; e) puder prejudicar a cordialidade com outros povos; f) for capaz de provocar o incitamento contra o regime vigente, à ordem pública, às autoridades e seus agentes; g) ferir, por qualquer forma, a dignidade e o interesse nacional; h) induzir ao desprestigio das forças armadas."

São proibidas por lei, portanto, entre outras, cenas que ofendem o decoro público. Mas como até hoje ninguém definiu nem indicou quando o decoro público é ofendido, os censores usam, para julgar, a intuição e o bom senso pessoal.

BAIANO NÃO ENTENDE "O SILÊNCIO"?

Todo censor é a favor da censura: - Como é que aquela gente do interior da Bahia vai entender ou suportar um filme como O Silêncio, se não for cortado?

A frase é de Pedro José Chediak, que antecedeu Romero do Lago na chefia do departamento. O Silêncio, filme de Ingmar Bergman, premiado no mundo inteiro, saiu da censura brasileira com quatro cortes de cenas consideradas imorais: duas de relações sexuais, uma de masturbação e outra em que aparece um seio de mulher. Apesar de alguns dos censores admitirem que foram filmadas tão sutilmente que não chegavam a ferir o decoro público, Chediak foi categórico:

- O Silêncio não tem mensagem nenhuma, é vazio. O Ingmar Bergman fez fama e deitou na cama.

A VEZ DA SUBVERSÃO

Recentemente, o filme nacional Terra em Transe, de Glauber Rocha, foi submetido à censura, sendo inicialmente interditado por cinco votos contra um. Romero do Lago nem precisou ver o filme; examinou os pareceres e deu o veredicto:

- Realmente esse filme leva uma mensagem marxista de subversão da ordem.

José Vieira Madeira, o único censor que opinou por sua liberação, pensa diferente:

- O filme é pura ficção, que pode ter semelhança com o Brasil de hoje, mas pode ter também com outros países latino-americanos. É exagero dizer que o tirano do filme seja Castelo Branco e o Governador do Estado do Alecrim seja João Goulart.

Enquanto isso Terra em Transe era inscrito no Festival de Cannes, na França.

O recorde de cortes na censura é de um filme também nacional: Noite Vazia; de Walther Hugo Khouri. Cinco cenas foram cortadas - a considerada mais forte era aquela em que Norma Benguel e Odete Lara apareciam numa cama. Essa cena teve que ser exibida só com o começo e o fim, sem o meio.

Outro filme brasileiro, Canalha em Crise, só foi liberado dois anos e meio depois de sua entrada no departamento. Nesse período houve trocas na chefia e, quando a fita ia sendo liberada por uma equipe, Miguel Borges, o diretor, não concordava com os cortes e entrava com o recurso. De mudança em mudança, afinal, Canalha em Crise saiu de Brasília - depois de dois anos e meio - com duas cenas de sexo a menos, e ainda deixando os censores preocupados, porque é o bandido quem ganha no fim.

Mas acontecem coisas ainda mais estranhas: Katu no Mundo do Nudismo, liberado com alguns cortes, encontra-se em exibição. Enquanto isso, seu trailler_ está há vários meses aguardando liberação, pois chegou a Brasília atrasado.

Viva Maria, francês, foi liberado por acaso: tinha sido interditado pelos censores por ser considerado subversivo. Acontece que ao mesmo tempo o general Riograndino Kruel - então diretor do Departamento de Polícia Federal - via o filme em exibição especial e dava boas gargalhadas com as ''guerrilheiras'' Brigitte Bardot e Jeanne Moreau.

Quando soube da interdição, não achou graça nenhuma. Chefe do chefe da censura, mandou que Viva Maria fosse liberado.

Pode acontecer também que o público nem fique sabendo que certos filmes entram no Brasil. Delírio Noturno, japonês, foi devolvido pela censura para reexportação, por "imoral e antiestético''. Outros começam a passar e depois são apreendidos: Tentação Morena, mexicano, teve sua exibição interrompida em Belo Horizonte. Os distribuidores tinham esquecido de tirar daquela cópia uma cena cortada pela censura, em que a atriz Izabel Sarli toma banho num rio, completamente nua.

MAS NEM SÓ SEXO E SUBVERSÃO DÃO TRABALHO AOS CENSORES

- Crime com arma branca que tem sangue, eu corto - diz um dos homens do serviço.

005 contra o "strip-tease"

O ex-chefe Chediak baixou uma portaria - de número 005 - proibindo o strip-tease para todo o território nacional. Romero do Lago derrubou essa portaria. Agora o strip-tease não é mais proibido, desde que as câmaras estejam a mais de cinco metros do objetivo. Isso é o que diz a nova portaria, que assim exige um requisito a mais dos censores: golpe de vista.

Além dessa liberalidade, Romero do Lago juntou uma importante inovação ao Serviço de Censura de Diversões Públicas:

- O SCDP -diz ele - concederá certificados especiais de censura cinematográfica a filmes considerados de valor educativo, para exibição em entidades culturais, onde entidade cultural é definida como universidade, cinemateca, fundação cultural ou cineclube filiado à Associação Brasileira de Cinema de Arte.

Veridiana, de Luiz Bunel, foi o primeiro a obter essa categoria de filme de valor educativo" tendo sido liberado integralmente" com a condição de não ser exibido comercialmente. Antes da portaria, o filme fora censurado e cortada uma cena em que um grupo de mendigos se banqueteia numa mesa com talheres finíssimos, num salão medieval, durante a ausência dos donos da casa. A cena é uma paródia da passagem bíblica pintada por Leonardo Da Vinci.

Augusto da Costa, o ex-beque da seleção, afirma:

- É uma tentativa de ridicularizar a Santa Ceia, e o filme é anticlerical.

Antônio Fernandes de Sylos, um dos censores, está com o beque:

- E quem é que garante que não é mesmo a Santa Ceia?

PROIBIDO PARA CENSORES

Extraconjugal, filme italiano com quatro histórias, entrou na censura normalmente. A última das histórias deu um susto nos censores: era forte demais. Resolveram interditar a fita a não ser que aquele episódio fosse eliminado.

Os distribuidores entraram com recurso, pedindo reexame. Extraconjugal foi revisto e a censura acabou autorizando a emissão do certificado, mas proibindo o filme para menores até 21 anos. Assim, um brasileiro de 18 anos, pode ser eleitor, funcionário público (e até censor), mas está proibido de ver a fita.

Não existe nenhuma lei, decreto ou portaria que permita proibir filmes em estágios fora dos níveis de 10, 14 e 18 anos. Uma vez ou outra, porém, há essas exceções: Dr. Jivago, de custo caríssimo, tinha sido proibido para menores até 18 anos. Os distribuidores, desesperados, apresentaram recurso. Resultado - foi proibido para menores até 16 anos. Afinal, o filme mostrava muita guerra, um herói que vivia feliz com a amante e.. o romance fora proibido em seu pais de origem, a Rússia.

Mas não são apenas essas as fórmulas de censura vigentes no Brasil. Cinemas de propriedade de padres e igrejas, principalmente nas cidades do interior, de vez em quando suspendem a exibição de algum filme, quando os gerentes foram enganados pelo titulo, na escolha do programa mensal.

Há pouco tempo, em Niterói, o governador do Estado do Rio, Jeremias Fontes, que é protestante, censurou a própria censura. Rasgou e jogou no lixo uma foto de mulher nua que encontrou emoldurada, carimbada censurado, enfeitando a mesa do chefe da censura estadual.

QUEM ESTÁ CONTRA A CENSURA

Nem todos, porém, pensam como o governador Jeremias Fontes. Entre os intelectuais brasileiros, por exemplo, será difícil encontrar-se alguém favorável à censura. Para Carlos Diegues, cineasta, diretor de Ganga Zumba e A Grande Cidade, "não deveria existir censura nenhuma". Esta é a sua opinião:

-- Sou contra qualquer tentativa de impedir a expressão livre de quem quer que seja.

Por outro lado compreendo os motivos pelos quais o Estado se protege através de instrumentos odiosos como o da censura: ele precisa se precaver contra as "doenças sociais", animadas, quase sempre, pelo livre pensamento condutor da opinião pública e da crítica. A censura moral encobre, no final das contas, a censura política. E é em nome desta que se faz a primeira. Para quem faz cinema (ou qualquer outra coisa) a presença da censura é asfixiante, estamos sempre medindo nossa possibilidade de enfrentá-la. A única maneira de conviver com ela, já que é impossível evitá-la, é lutar pela sua liberalização, tentar fazé-la progredir, para que possa se transformar num instrumento menos obscuro, como já é em tantos países do mundo. O melhor modo para se chegar a isso é estabelecer uma discussão da qual ela sairá, quase que fatalmente, mais moderna.

"SOU CONTRA QUALQUER TIPO DE CENSURA"

O jornalista, ensaísta e crítico literário Paulo Francis faz comparações entre o Brasil e os Estados Unidos:

- Sou contrário a qualquer tipo de censura: política, moral etc. É evidente que o excesso de liberdade pode acarretar alguns excessos anárquicos. Mas está provado, pela experiência de países como os Estados Unidos, que qualquer sociedade civilizada é perfeitamente capaz de absorver esses excessos sem nenhum prejuízo para a sua estrutura. Um bom exemplo é a peca Mac Bird, onde o presidente Johnson é explicitamente acusado de haver assassinado o presidente Kennedy. A peça não foi censurada, e o govêrno Johnson não caiu.

Isto é válido também para a censura dos livros ditos obscenos. No Brasil, em particular, a censura tem sido um fator de obscurantismo político e sexual. Um bom exemplo do primeiro caso foram as apreensões de livros no governo Castelo Branco; e, no segundo, as apreensões de livros como O Casamento e Fanny Hill. Uma sociedade que não pode ler a respeito de um ato fisiológico normal, como é o sexual, não está preparada para o desenvolvimento industrial e para a era da tecnologia.

"CRÍTICA SIM, CENSURA NÃO"

Josué Montelo, escritor e membro do Conselho Nacional de Cultura, também condena a censura:

- Só aceito como válida à obra de arte a censura feita em nome de princípios de ordem estética. E esta é exercida ou pelo artista - no momento da criação - ou pelo espectador, diante da obra realizada. Esta censura chama-se crítica e só interfere na criação por iniciativa de seu criador. Fora dai, a censura aparece numa faixa de ordem ética. Fala a moral onde deveria falar a estética. Ora, a obra de arte deve ser permanente, como mensagem humana, enquanto os princípios de ordem ética - onde a censura se baseia - variam com o tempo e as latitudes.

"O CENSOR VIVE ASSUSTADO"

O JURISTA EVARISTO DE MORAIS VÊ O PROBLEMA ASSIM:

- A censura, do ponto de vista jurídico, pouco se diferencia da censura do ponto de vista sociológico. Pois ela representa nada mais do que aquele controle social, difuso e inorganizado, mas formal e institucionalizado através de códigos, leis e tribunais e policias. Em qualquer país do mundo, a censura é sempre a defesa da ordem social e econômica constituída. Por isso mesmo, o govêrno - apesar de todas as criticas - prefere sempre a censura prévia, em lugar da exercida depois do fato consumado, com plena responsabilidade de seu autor. Com a censura prévia o que se procura é evitar que o público tenha conhecimento daquilo que poderá causar dano aos valores, interesses e crenças dos poderes constituídos. Infelizmente, salvo raras exceções, os censores vivem assustados e vêem atentados contra a ordem dominante por toda parte, mutilando as livres criações do espírito humano.

"ELA CRIA HIPÓCRITAS"

Napoleão Moniz Freire autor e atualmente do Departamento de Teatro da Guanabara, encerra a série de críticas:

- Há um perpétuo conflito, na marcha do mundo, entre o bem e o mal. Existe a idéia. Existe a liberdade de pensamento. Existe a liberdade de opinião, de exame e deliberação. A liberdade de expressão sofre, às vezes, censura. Acontece que, existindo a liberdade de pensamento e a de opinião, não será a censura que irá eliminar a idéia. Uma idéia só poderá ser eliminada quando voar e sofrer o embate da dignidade. Nunca será eliminada pela censura, que somente cria hipócritas.

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