Sunday, October 9, 2016

Flávio Cavalcanti X Fantástico - 1981 TV Bandeirantes Boa Noite Brasil

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 03/07/1983
Autor/Repórter: Maria Helena Dutra

AR CONDICIONADO PARA QUEM TEM FRIO
Fantástico. Junto a outras pessoas, fui testemunha de um momento certamente show da vida fornecido por Flávio Cavalcanti em seu programa na Bandeirantes. Em meio de um chorrilho de prêmios o apresentador disse mais ou menos a seguinte frase: ''E não se preocupe aquela senhora que me pediu cobertores por estar sentindo muito frio, pois querida você acaba de ganhar um ar condicionado."

Não se sabe a reação da até possivelmente agradecida senhora das neves. Mas é um flagrante que por mil palavras fala do tratamento tipo choque térmico que estes programas andam fazendo pelo Brasil. E com bastante audiência. Muito maior porém é o público que há 10 anos assiste à contrapartida global, embora sem prêmios, no Fantástico dominical com o mesmo jeito de mostrar uma fatia do mundo sempre envolta por sensacionalismo, atrações populares amparadas por gravadoras, muito exotismo e loucos de toda a parte, paranormalidade, testemunhos de especialistas sobre todas as coisas, principalmente médicas, e várias lições de moral. Esta receita, que em agosto completa uma década, é bem estudada no livro sobre televisão de Carlos Alberto M. Pereira e Ricardo Miranda, dentro da série sobre o esdrúxulo debate do que é Nacional e Popular na Cultura Brasileira, patrocinado em esquisita hora pela Funarte.

Sem nenhuma base concreta esta série não ajuda o nacional - e muito menos o popular. No caso da televisão, esta divisão fica ainda mais confusa, pois o estudo data de 1980 e os autores colocam o padrão Globo na classificação de sofisticado e todas as outras estações como se simples fossem. Mal sabiam eles que três anos mais tarde esta diferença não mais existiria, pois a campeã de audiência para competir e segurar o título colocou sob suas asas Chacrinha, Batalha dos Astros, Caso Verdade, Balão Mágico, A Festa é Nossa e, dentro em pouco, Domingo Bingo para competir com J. Silvestre, Programa Sílvio Santos, Povo na TV, Bozo, Reapertura e todos os sorteios da Bandeirantes. Enfim, farinha de um mesmo saco.

O antigo ingrediente Fantástico, porém, há muito já provava a semelhança com todas estas programações. Apenas o show da vida global disfarça até hoje seu jeito. Flávio Cavalcanti misturado com O Homem do Sapato Branco. Em lugar de um apresentador único cheio de carismas e truques, os locutores da casa bem-vestidos e impassíveis. À exceção do editorial, que de vez em quando volta, quando todos sorrisos, confiança e esperanças. No mais a mistura sempre bastante rápida de todos os supérfluos semanais. Exatamente o que necessita o sofrido espectador. Nas reportagens, causando todos os males, apenas muitos assaltantes, marginais, gente diferente e bem longe da normalidade da casa do espectador.

Mais distante ainda surgem as loucuras nacionais é internacionais. Tipo o sujeito que derruba trem com a unha ou pula de milhões de metros de altura armado apenas com sua fé. Um tipo de gracinha que a televisão adora mostrar e as pessoas as realizam só para aparecer na maquininha, num gasto de tempo e dinheiro que jamais condiz com o endividamento do país. Todos os milhares de exemplos disso poderiam ser colocados sob o rótulo "O que eu tenho com isso?", já que esta é a única reação de algum espectador ainda não anestesiado por esta carga de brigada pesada. Dentro deste rótulo também dava para incluir algumas entrevistas com pessoas contando suas experiências absolutamente pessoais e nada universais de vida.

Mas se tudo isso ainda poderia, com muito boa vontade, ser incluído no indolor, nenhuma paciência resta para as denúncias. Matérias sobre menores abandonados, panacéias das mais variadas originadas de plantas ou químicos, tarados, pobres, roubos contra a economia popular, educação deficiente ou velhinhos desamparados são realizadas apenas contra o vento. É sempre a mesma coisa. O escândalo ou fato endêmico é mostrado com mazelas em todos os detalhes. Mas jamais a alguém cabe qualquer culpa ou leve responsabilidade. Autoridades e sistemas, no caso deste programa, são não apenas onipotentes, mas razão têm sempre.

De joelhos, porém, não pode ser enquadrado o noticiário diário, que muitas vezes agride o pastel-de-vento que o circunda. Nem o humor de Chico Anysio que persiste em dar nomes a bois, vaqueiros e aboios. No balanço, tudo muito pouco para fazer sucesso e cabeças par 10 anos. Mas fez. Vai ver é muito mais nacional e popular do que a gente pensa. Quem está no Brasil errado?

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