Friday, October 23, 2015

1981 - Jornalismo da Bandeirantes

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 16/08/1981
Autor: Alberto Beuttenmuller
A BANDEIRANTES É NOTÍCIA
Seis horas diárias de jornalismo no vídeo

SÃO Paulo - A TV Bandeirantes parece ter descoberto no jornalismo e na realidade do cotidiano seu principal veio para alcançar o todo-poderoso Ibope e vencer a guerra, a cada dia mais acirrada, com sua principal rival - é a TV Globo. Assim, a emissora paulista dividiu sua estratégia em três segmentos - telejornalismo, divisão de realidade e divisão de ficção (novelas). Para conseguir chegar a bom termo nessa sua campanha, depois da contratação de Walter Clark, uma espécie de Napoleão da TV brasileira, graças ao sucesso alcançado na Globo, chegou a vez de Sérgio de Souza, anteriormente responsável pelo Fantástico, e agora novamente às voltas com um programa semelhante, onde se mesclam música, humor e jornalismo. Na última quarta-feira, era a vez de José Trajano assumir o departamento de esportes da rede, dizendo que o enfoque principal da emissora será para o esporte amador, "aliás tradição que a Bandeirantes vem mantendo, com as coberturas de basquete, vôlei, Fórmula-1, entre outros eventos desportivos."

A abertura política do Presidente Figueiredo, segundo Joelmir Betting, "é a grande oportunidade que nós, jornalistas, temos de conquistar a televisão brasileira, criando o hábito, no espectador, da informação e do comentário político e econômico". Joelmir Betting descobriu-a e aproveitou-se da informação do dia-a-dia para fazer seus comentários econômicos numa linguagem simples, criando assim um tipo novo de telejornalismo. Após a notícia, lida pelo fluente e sóbrio Ferreira Martins - outro profissional que a Globo perdeu para a Bandeirantes - Joelmir explica como aquele manchete ira afetar o bolso do espectador, em apenas 40 segundos. A Bandeirantes terá, a partir de agora, cerca de seis horas diárias de jornalismo, seja noticiário, sob o comando de Sílvia Jafet, seja reportagem, agora sob comando de Sérgio de Souza, diretor do Departamento de Realidade, responsável por Cidade Aberta, Canal Livre e os novos programas. Paulo Mário Mansur continuará sendo o diretor responsável pelo Departamento de Telejornalismo de toda a Rede Bandeirantes, além de articulador da nova estratégia.

Paulo Mário Mansur passou 10 anos na Globo, entre São Paulo e Rio, nos seus 21 anos de jornalismo, notadamente o de rádio e TV. Em jornal, só trabalhou no Diário do Comércio e na Folha de S. Paulo. Em sua nova função de diretor responsável por todo o telejornalismo da Rede Bandeirantes, ele explica que "houve um deslocamento na programação do lazer para o jornalismo. Assim temos o noticiário do cotidiano, o Jornal Bandeirantes, O Repórter e os vários Atenção. Agora, teremos ainda reportagens nos demais programas, como Cidade Aberta e nos programas que estão sendo criados em equipe. Iremos reformular a programação da para torná-la mais ágil, logo após recebermos os novos equipamentos de tape, quando poderemos sair com a camará na mão. Toda essa mudança de salas deve-se à criação da Central Técnica de Jornalismo, onde ficará toda a estrutura jornalística da Bandeirantes. As redações ficarão agrupadas, mas independentes entre si".

Pelas mudanças, sente-se que até a novela Os Adolescentes, de Ivani Ribeiro, em fase de gravação, e que entrará em setembro no ar, terá um cunho realista e atingirá a juventude e seus problemas psicológicos. Essa novela segue a linha de realismo da emissora.

Instalado no quarto andar da Bandeirantes, em sua sala atapetada - só no quarto andar existem tapetes na emissora -Walter Clark parece mais um jogador de xadrez que, a cada momento, mexe uma peça em busca do xeque-mate. Sua advertência é de que toda essa mudança "não será a toque de caixa, pois ha muito por fazer. Creio que dentro de dois anos (embora isso também seja perigoso dizer, a emissora estará em pleno funcionamento. Pretendemos fazer um programa de entrevistas, às 23h, sempre em debates com convidados. Mas precisamos ainda acertar a programação da tarde e da nova faixa das 20 às 22h. Como se vê, há muito ainda para se fazer."

Walter Clark é cuidadoso quando fala dos novos planos, pois sabe que em televisão só vale aquilo que o espectador vê e que tais modificações sempre acontecem com lentidão. Mas a Bandeirantes continua com novidades, incluindo-se a possibilidade de contratar Osmar Santos, o mais famoso locutor de futebol do país e que pertence aos quadros da Rádio Globo. Ninguém quer comentar o fato, pois, de certa maneira, Osmar Santos pertence à Organização Globo e, por isso mesmo, pode haver alguma dificuldade para sua contratação. Sabe-se que há um emissário cuidando disso, segundo informaram Paulo Mário Mansur e outros funcionários da Bandeirantes.

Sérgio de Souza já se encontra na Bandeirantes há uma semana. O namoro, como se vê, acabou em casamento, pois de há muito a Bandeirantes queria tê-lo em seus quadros. Seus planos são contados aqui com certa cautela, a mesma cautela sentida em Walter Clark, o que demonstra uma certa sintonia de atitudes entre os dois amigos. O principal projeto é um programa semelhante ao Fantástico da Globo, onde se irão mesclar humor, música e jornalismo. O maestro Júlio Medaglia será o responsável pela parte musical. Para o setor de humor, estão pensando em Millôr Fernandes, embora isso pareça mais um sonho para Sérgio de Souza, já que todos acreditam ser bastante difícil a vinda do humorista. Para o horário das 20h às 21h30m, haverá uma programação baseada em reportagens, alguma coisa gravada e acontecimentos recentes, mas também mesclados a música e humor, pois a Bandeirantes acredita que há público para esse horário. "Nem todos vivem de novelas", como diria Joelmir Betting.

O programa Cidade Aberta, um tanto descosido, sem ritmo, que se vai arrastando tarde afora, sofrerá mudanças básicas, segundo informou Sérgio de Souza, que agora dirige a própria Rose Nogueira, a responsável pelo programa. O visual também deverá sofrer modificações, já que ninguém mais agüenta essas salas de espera de consultório médico em que se tornaram esses programas. Sérgio de Souza tem muito cuidado no que fala, pois as coisas ainda estão em projetos e "precisamos usar de muita criatividade para compormos determinadas coisas e compormos outras". Um projeto que deverá merecer bastante atenção de Sérgio de Souza será o programa de 23h, de debates, diariamente, mas que ainda não tem data certa, pois estão no campo da discussão de como será, quais os temas a serem abordados, qual a linguagem. O esporte, departamento que estará também sob o comando geral de Sérgio de Souza, passará por algumas modificações. A principal é o novo diretor - José Trajano - um editor esportivo com passagens nos principais jornais e revistas brasileiros. Trajano fez questão de frisar que sua linha será de total apoio ao esporte amador - basquete, vôlei, etc., sem se esquecer, obviamente, dos grandes acontecimentos do esporte profissional, como automobilismo, principalmente a Fórmula-1.

O jornalista Joelmir Betting é, sem dúvida, o padrão do telejornalismo da Bandeirantes. Sóbrio, com uma linguagem exemplar e fácil, sem perder o estilo fluente, consegue dar seu recado econômico de maneira que todos entendam. "A TV deixou de ser teatro de variedades para ser teatro de revistas. Depois passou a ser uma vitrola mágica (tempo dos festivais) e acabou cineteatro, com filmes e novelas. Agora chegou a vez de tornar-se informação e realidade." Joelmir Betting acredita que precisamos aproveitar a abertura política e a crise econômica, que obrigaram a todos ficarem atentos ao noticiário, e partirmos para a informação jornalística. Segundo ele, tentar passar 20 notícias em 15 minutos é dar "informação de isopor", pois ninguém fixa nada. O ideal é colocar seis notícias importantes e comentá-las. Depois da manchete, sempre vem o comentário econômico. Assim, o telespectador fica sabendo "o que influirá economicamente em seu bolso, por exemplo, o tiro que o Reagan tomou nos Estados Unidos." Joelmir Betting acredita que o telejornalismo, aos poucos, está deixando de ser uma janela de novela para ter seu próprio valor e sua linguagem. "Precisamos criar o hábito do debate, do comentário político e econômico, com uma linguagem fácil, que todos entendam". Betting conseguiu ganhar a confiança do espectador, pois se um Ministro tentar esconder alguma coisa, ele não se faz de rogado e toca na ferida. Há pouco tempo deixou todo mundo preocupado quando disse que o gasto com o uso do automóvel deixou de ser 6% para uma família composta de casal jovem e dois filhos com menos de 10 anos, índice de 1970, para, em 1980, atingir 17%. Essa foi a crise do automobilismo brasileiro, mas ninguém quer entender. As famílias estão procurando gastar menos com o uso de seus carros, por isso está havendo desemprego e as fábricas terão de baixar seus índices de produtividade. Afinal, o Brasil é um país pobre e não têm sentido tais gastos. Talvez esta crise seja realmente a saída para a realidade. "Atualmente", complementa o comentarista econômico, "o gasto com o uso do automóvel é o terceiro item que mais pesa na família, são dados colhidos em fontes seguras", diz ainda. "Como a família brasileira está bloqueando o carro, deixando de usá-lo - atualmente uma família tem um carro e meio, jamais três ou quatro como era no passado - houve a crise de São Bernardo. O uso do carro ficou caro."

Com essa linguagem simples, sem arroubos, sem palavras rebuscadas, Betting consegue prender o espectador em seu comentário econômico, caso único no jornalismo nacional e hoje modelo de todos os comentaristas, que estão deixando de lado os nomes para falar abertamente. Hoje, ele escreve para 22 jornais (cerca de 1 milhão de pessoas), fala em rádio (2 milhões de ouvintes) e na Bandeirantes, para 12 milhões de pessoas em todo o Brasil, vendo-o e ouvindo-o atentamente. E a Bandeirantes começa a ser opção maior para aqueles que queiram fugir da noveletas, em busca de uma programação mais inteligente - este é o desejo de todas da emissora, segundo Betting.

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