Friday, October 23, 2015

1981 - Jogo da Vida

O Globo
Data de Publicação: 08/11/1981
Autor: Artur da Távola
JOGO DA VIDA - PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Telenovelas são um mistério, ainda, por mais que se lhe conheçam muitas peculiaridades, fórmulas etc. Umas pegam de imediato; outras, demoram a pegar; terceiras, jamais pegam.

Parecem pessoas. Há pessoas imediatas: logo passam os elementos de sua simpatia. Há pessoas mediatas, aos poucos sendo descobertas pelos demais. Há pessoas que jamais transmitem elementos favoráveis ao julgamento empático.

"Jogo da Vida" já havia "pegado" no segundo capítulo. Ao fim da primeira semana já incendiara o interesse do público. Isso de "pegar", em telenovela independe de qualidade, proposta, elenco, direção, etc. Uma grande parte de seus mecanismos de comunicação ainda são secretos.

"Brilhante", por exemplo, só agora começa a "pegar". Tem ótimo elenco, direção, boa história, produção, mistério, elementos clássicos do folhetim, tem tudo. Mas custou a pegar. "O Amor é nosso" idem, inclusive uma proposta de alta qualidade e seriedade. Jamais pegou. "Marron Glacê" foi pegando aos poucos e ao fim incendiara o interesse dos telespectadores.

"Jogo da Vida" "pegou" de imediato. Tenho procurado estudar esse fenômeno. Não tenho, ainda, respostas prontas. Parece-me ser algo ligado a uma imediata assimilação empática dos personagens. O grande público não resiste muito tempo sem definir simpatias, antipatias, preferências, identificações fáceis do papel e dos símbolos representados pelos personagens.

E necessário que os símbolos representados pelos personagens estejam dentro dos marcos de expectativa e conhecimento dos telespectadores.

Outro elemento fundamental pa. ra a novela "pegar" de imediato é começar não no começo mas no meio de uma história. Exemplo: a separação de Jordana (Glória Menezes) e o marido (Paulo Goulart) com que não é casada mas vive há mais de vinte anos. Esta separação já está em fase de acabamento quando a novela começa. As histórias pegam assim pelo meio, aquecem a trama. Idem, o caso de ''Badaró" (Carlos Vereza) que já aparece fugindo da policia. Idem o da irmã dele (Rosamaria Murtinho), que não quer que se saiba ser da família de um marginal.

O fato de "pegar" rápido, porém, não diz dos méritos totais de uma novela. É um dos elementos. Os demais surgirão (ou não) do andamento da obra. É cedo para analisar.

Sylvio de Abreu, o autor, mesmo quando apenas substituía outros, como aconteceu quando do enfarte de Cassiano Gabus Mendes, no meio de "Plumas e Paetês", revelara-se, já um ótimo construtor de situações cômicas. Isso ressalta no clima solto e alegre, indispensável para o agrado do telespectador das sete da noite.

Os atores estão muito bem. Talvez Paulo Goulart ainda tenha que definir a linha de seu personagem. Percebe-se o ótimo ator tateando entre fazê-lo caricato ou apenas levemente cômico e algo romântico (a mim me parece melhor este caminho). Lúcia Alves anda querendo repetir a Veroca de "Plumas e paetês". Deve cuidar. Carlos Vereza e Cláudio Correia e Castro já estão sensacionais no papel. Conseguiram compor os personagens de imediato. Isso é essencial. Maitê Proença parece que tomou vitaminas. De "As três Marias" (novela na qual estreou na Rede Globo) para agora, deu impressionante salto de beleza e densidade de atuação. Ótima, igualmente, desde o primeiro capitulo em que apareceu. Elizangela como a menina sonsa que se faz e boba.

Talentosíssimos os letreiros. Cenografia e vestuário muito bons.

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