Friday, October 23, 2015

1981 - Eduardo Mascarenhas na TV

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 27/10/1981
Autora: Maria Lúcia Rangel
A INTIMIDADE PARA MILHÕES DE ESPECTADORES

Na casa dos pais do psicanalista Eduardo Mascarenhas, nunca se conheceu a depressão. O clima sempre foi de permanente vibração pela vida. Seu avó, precursor talvez do temperamento de neto, era chamado de "mosquito elétrico". Mas não foi exatamente um mosquito elétrico que aguardava, minutos antes de entrar no ar, a estréia do programa Interiores. No apartamento da Lagoa, cercado de um grupo de amigos, garçons passando todo o tempo champanha gelado e canapés, Eduardo Masceranhas demonstrava, pelo olhar ansioso, a insegurança normal de quem se está dedicando a uma nova profissão. Circulou entre a sala e o quarto - onde colocou estrategicamente as duas televisões coloridas - tentando captar os comentários - poucos - dos amigos durante a transmissão. Encerrado o programa, os telefones espoucaram e ninguém se furtou a falar de Interiores. A aprovação foi quase geral, inclusive da própria entrevistada, Danusa Leão que, abraçando o anfitrião, comentou: "A única coisa da qual você vai depender é de pessoas que digam as coisas, porque você nos coloca inteiramente à vontade." Tão à vontade que Cacá Diegues, já entrevistado - Eduardo já tem 10 programas prontos - afirmou ter achado a experiência fascinante: "Nunca ninguém havia conseguido abordar a minha vida pessoal como ele."

- Realmente, fiquei tenso logo que o programa foi para o ar - admite Eduardo em meio à festa. -Posteriormente, fui sentindo que alcançava os propósitos pretendidos por Fernando (Barbosa Lima), Maurício (Shermann) e eu, ou seja, urna linguagem televisiva.

O diretor de cinema Neville D'Almeida brinca ser Eduardo "o J. Silvestre da alma", enquanto um jornalista afirma que "o bom entrevistador tem que ser psicanalista." Eduardo ri:

- Fiquei feliz, sim, quando percebi que tinha possibilidade de fazer Danuza falar o que podia. E também quando senti que minha presença era vivificadora e vivenciadora das possibilidades reais do entrevistado. Eu não estava nem encaminhando, nem intimidando, a pessoa que estava comigo, mas funcionando rigorosamente como psicanalista, aquele que se retrai para possibilitar a vida, que silencia para possibilitar a fala.

Foi exatamente este o ponto comentado por Roberto D'Avila, o entrevistador de Canal Livre, na TV Bandeirantes:

- Gostei de Interiores exatamente porque não poderia ter sido feito por um jornalista. Mascarenhas, além das perguntas, fez comentários. Se o programa não chega a ser psicanalítico, trata do existencial.

Para Eduardo, a diferença fundamental entre o jornalista e o psicanalista é, exclusivamente, de media:

- Na realidade, o clima do programa é o mesmo de um consultório psicanalítico, ao nível possível de uma transmissão televisiva.

O ambiente vermelho representa o interior, o sangue, a vida, o útero - idéia de Maurício Shermann. Já a lembrança dos dois tempos é de Mascarenhas, assim como õ verde que indica os intervalos, "anúncio da esperança". Interiores, ele admite, é simbólico todo o tempo:

- É mais uma tentativa de trazer o interior de Ingmar Bergman - apesar de ele não ser um apaixonado pelo diretor sueco - nórdico, para o interior embodeado brasileiro, esperançoso, caloroso, alegre e tropical. O importante é conseguir o nível de revelação profunda sem deboches, sem climas pornochanchadescos, sem imprensa marrom, sem escândalo, sem perguntas maliciosas, sem armadilhas ou intrigas. É uma demonstração de que, através do respeito, muito mais do que através da malícia, se pode alcançar a verdade e os níveis mais profundos da vida.

E, se em sua opinião, o psicanalista é o jornalista da alma, há certos aspectos para ele difíceis de abordar: "Não existe apenas a alma."

Uma das poucas críticas dos amigos foi quanto ao ritmo do programa, um pouco lento. O cineasta Arnaldo Jabor considera que está exatamente aí a maior qualidade de Interiores:

- Ele devolve à televisão o espaço democratizado para a pessoa falar como quer e não dentro da tiranis do timing. Porque há certos ritmos narrativos que são totalmente fascistas.

Jabor parodia o critico francês Luc Moullet, que diz ser a moral uma questão de travellings:

- Eu acho que a liberdade é uma questão de ritmo e de espaço livre. Você não pode circunscrever uma idéia a um tempo pré-determinado. Outra coisa importante é que a vida social, atualmente, tem que ser psicanalizada. E o Eduardo está fazendo a psicopatotologia da vida cotidiana brasileira. Isto por si só já é importante.

A psicanalista Eleonora Barbosa Mello também foi tomada por esta impressão. Ela considerava praticamente impossível Mascarenhas ocupar uma função psicanalítica:

- E durante todo o tempo, o que mais notei foi seu compromisso grande com a verdade. Ficou mais na escuta do que procurando aparecer como estrela. Foi um belo programa sobre uma mulher e acho que os demais também darão certo.

A visão profissional do cineasta Cacá Diegues registrou o surgimento, pela primeira vez na televisão brasileira, de um programa baseado na montagem:

- Tenho medo de dizer a palavra "cinematográfico" porque não existe diferença entre cinema e televisão. A TV é outra forma de fazer cinema. Além disso, durante uma hora, não assisti a um psicanalista, mas a um astro da televisão, uma pessoa transando este veículo.

Chamaram atenção dos cineastas presentes na casa do psicanalista os enquadramentos corretos, a cabeça dourada da entrevistada que em certos momentos parecia estar apoiada na moldura do aparelho e as mãos de Mascarenhas. Em meio às despedidas, Rui Solberg, profissional de audiovisuais, fez o comentário bem-humorado: "Enfim, alguém nos fez justiça." Falava mais como homem do que como profissional. Danuza havia se mostrado toda feminina. Nem um pouco feminista.

No comments:

Post a Comment

Followers