Monday, August 10, 2015

1981 - Rosa Baiana na Bandeirantes

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 06/01/1981
Autor/Repórter: Tarso de Castro
BANDEIRANTES ACERTA, DESTA VEZ

A direção da TV Bandeirantes merece elogios, vejam só. Pois encontro, quase que ao acaso, em Salvador, figuras como Gianfrancesco Guarnieri, Maurício do Vale, Aninha Magalhães, enfim, um excelente grupo de atores que se dedicam à gravação da novela "Rosa Baiana". Hoje não entro em detalhes sobre o que a novela virá a ser, exatamente. Nem posso, nem é muito do meu ramo, já que disso se encarrega a nossa Helena Silveira, noveleira e novelada emérita. Me atenho aos propósitos - e creio que isto, com o perdão da palavra - é o que há de mais positivo no que pude verificar.

Vejamos: tenho brigado muito com a Bandeirantes quanto à sua mania de entrar no mesmo esquema da Globo em muitos aspectos de seu trabalho. E um desses aspectos se refere justamente ao fato de que, de uma maneira geral, a Bandeirantes insistiu em se manter dentro dos mesmos padrões que 'fizeram da emissora do "integro e jovem" doutor Roberto Marinho o dono da opinião pública nacional. Isso com uma generosa dose de "nihil obstat" governamental.

Pois bem: vinha a acontecer, então, que todo o esquema de novelas feito pela emissora paulista seguia rigidamente o jogo anteriormente traçado pelos cariocas globais. Vai dai que se incorria em todos os erros possíveis do ponto de criatividade, uma vez que nunca, em hipótese alguma, se saia do estúdio. Existem cenas externas, é claro, mas estas também obedecendo ao pobre esquema de estúdio, coisa que o cinema abandonou há muito tempo, pois representava uma verdadeira agressão ao público.

"Rosa Baiana" é, assim, a primeira novela feita em locação. Por isso, naturalmente que o seu resultado, surjam falhas de onde surgirem, só poderá ser positivo. Atestam isso os entusiasmados atores desse trabalho pioneiro que agora se realiza em Salvador.

Vejamos um outro aspecto do negócio: ele é culturalmente importante. Mais ainda quando se sabe que, de maneira geral, as televisões praticamente evitam mostrar qualquer coisa realmente ligada à natureza. Se vocês observarem bem, o telespectador brasileiro conhece mais as cidades de São Francisco e Nova York, como conhece o Hawai, enquanto desconhece o que há no seu próprio País. É claro: as emissoras adoram as séries estrangeiras, em detrimento das brasileiras, que vão acabando suas carreiras melancolicamente. Claro que entra uma questão de economia no caso: nada mais evidente que os patrões preferem pagar cem dólares por um péssimo produto estrangeiro - com toda sua carga de colonialismo - do que bancar um bom espetáculo que tenha nossos costumes e nossos atores. É um crime contra a cultura nacional.

O que isso tem a ver com novela? Simples: à medida em que você condiciona o telespectador a engolir o lixo alienante internacional, ele estará automaticamente preparado para ver qualquer outra coisa, ainda que produzida aqui mesmo, dentro de um enfoque copiado do exterior.

Assim são os musicais da Globo, por exemplo - na sua grande maioria "chupados" das coisas lá de fora. Em parte, sobram, às vezes, os especiais feitos pela equipe de Daniel Filho, Luis Carlos Maciel, etc. Mas é pouca coisa. Do "Fantástico", nem falar.

Volto a "Rosa Baiana": ela vai mostrar ao brasileiro, finalmente, a Bahia, que é um dos mais belos quadros do País e um dos que mais têm a oferecer a todos nós, pela sua postura e cultura. No mais, se estará anulando o terrível estúdio, onde cada ator se acha um cachorro. E é - dependendo do humor dos diretores. No caso dessa novela da Bandeirantes, torço muito: é um belo passo. E uma bela escola para os atores e diretores. Todo mundo tem se perguntado como se poderia renovar o esquema de novelas. Gostaria que "Rosa Baiana" trouxesse a bela resposta que deverá ser.

A benção, santos.

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