Monday, August 10, 2015

1974 - O Domingo de Sílvio Santos

Jornal do Livro
Data de Publicação: 01/01/1974
Autor: Haroldo Marinho
O DOMINGO DE SÍLVIO SANTOS

De acordo com os gráficos de audiência, um número considerável de pessoas acredita que a melhor maneira de atravessar uma tarde de domingo é colocar-se frente a um aparelho de televisão e acompanhar atentamente a incrível maratona do programa Sílvio Santos. Ou então, o que é mais grave, fazer parte de seu auditório composto apenas de mulheres, que gritam e dançam, programadas para não só aplaudir ou vaiar mas também intervir decisivamente no corpo do programa, agitando bandeirolas, dialogando com o animador ou cantando jingles dos sapatos Vulcabrás e do sabão OMO (total) em verdadeiros (e frenéticos) comerciais ao vivo, sem os quais, de acordo com um animador substituto (dia 15), "nenhum de nós estaria aqui", ou seja, ele, o juri, o auditório, a coisa, enfim. Claro que seria uma alternativa melhor pois então, talvez, aquelas ingênuas e agitadas participantes do auditório (verdadeiras inocentes úteis em delírio) descubram que, mesmo em São Paulo, há melhores formas de se passar um domingo (o dia de descanso), sem ter, necessariamente, que atuar como "companheiras de trabalho" (conforme as chama o animador, talvez com boas intenções), o que afinal de contas as coloca numa incômoda posição de cúmplices da transação.

Na verdade o programa tem sua estrutura inteiramente apoiada nas características pessoais do seu idealizador; assim, do sorriso impessoal de Sílvio Santos à falsa "alegria de viver" do auditório e da música do programa ("agora é hora de alegria, vamos sorrir e cantar, do mundo não se leva nada, vamos sorrir e cantar") não há absolutamente, nenhuma diferença de tom da mesma forma que seu tipo de relação com o júri define a agressividade geral de que são vítimas os calouros. Até mesmo o animador substituto mantém a marca original do sorriso bestificado, achando graça em alguma coisa provavelmente muito triste. Talvez que, do palco, a visão do auditório acarneirado possa ter algum toque de humor, vislumbrável, apenas, aquele ponto de vista particular; de casa, pelo menos, o espetáculo é bastante desagradável, e é sintomático que dure mais de oito horas, 11h30m às 20h, e ocupe uma tarde de domingo no mais poderoso canal de televisão. Claro que, como de hábito, existe um carnê por trás de tudo, que promete as maravilhas de sempre atraindo esperanças e economias dos que só possuem isso para dar. Para esses, talvez, seja a única possibilidade de ser feliz(?), subitamente; o nome do carnê é escolhido de forma a alimentar o sonho (impossível): o baú da felicidade.

O importante, então, é descobrir o caminho que leva do sorriso ao carnê, e essa, na verdade, é a chave do programa. A forma de aliciamento tem que ser perfeita e requer para isso uma vítima tão ingênua quanto possível, capaz de entrar no jogo em que a honestidade das regras é garantida pela "alegria" do animador e seu sorriso imutável. A partir do clima de "simpatia" criado tudo passa a ser permitido, desde chamar (aos gritos) a atenção do auditório, como que num colégio interno em que ele fosse o professor(?), até ameaçar despedir um subalterno que cometeu um engano. Claro que tudo é de mentirinha pois o sorriso não desaparece nunca, funcionando como o aval necessário para que a caminhada continue. A injeção de animo, fundamental para o prosseguimento, fica por conta dos momentos grotescos; os calouros novos, vindos quase sempre do interior de São Paulo, inteiramente despreparados, servem para demonstrar ao auditório que, por incrível que pareça, há quem esteja em pior situação.

Encoberto pelo sorriso; o carnê só se revela aos poucos; o programa cumpre sua finalidade de "divertir" preenchendo suas longas horas de duração com discussões entre o júri, músicas de péssimo gosto ou uma incrível disputa de frases ridículas que para o auditório soam como verdades definitivas. As oito da noite o programa sai do ar mas seu verdadeiro final é que caixas dos bancos na segunda-feira, onde todos têm que colocar as prestações em dia, pois como lembrou o animador (várias vezes ), só assim é possível o acesso ao baú mágico, à felicidade.

1 comment:

  1. Quantas críticas em cima do Silvio! Sua força de comunicação sempre causou inveja! Críticos realmente nunca serviram pra nada!

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