Monday, August 10, 2015

1974 - Entrevista com Lima Duarte

O Globo
Data de Publicação: 02/01/1974

LIMA DUARTE: SOMENTE O ÓDIO É AUTÊNTICO

Numa usina de sonhos, como é a televisão, onde trabalham mais de três mil pessoas, a falta de tempo é um muito cruel. Na nossa folhinha, não existe a palavra domingo. Somos vítimas de um despertador que está sempre nos dizendo que é preciso começar tudo novamente, como uma roda gigante que perdeu a memória. Lima Duarte sempre me deu a impressão de ser um artista sério e, no trivial, um homem habitado de timidez:

Modestamente nasci em Minas.

Marcamos um encontro na hora de almoço. As duas horas compareceu britanicamente, com um sorriso irônico: - Como vai ser nossa entrevista? Eu digo o que penso, você ouve o que quer e o copy desk publica o que acha bonito:

- Onde tudo começou?

- Numa fazenda. Um dia apareceu um circo na minha cidade. Minha mãe trabalhava nele. O circo partiu sem ela. Nasci do circo e da boiada. Fui boiadeiro, ajudante de caminhão, trabalhei em escritórios e me formei na Faculdade de Ciências. A essência do ator é herança de minha mãe.

- O sucesso é importante para você?

- Nesta altura de minha vida, eu prefiro o fracasso ao sucesso. O fracasso não tem mistificação, mentira, ele é claro. O fracasso deixa a gente diante de nós mesmos. O sucesso é inebriante. Diante do sucesso o ser humano é muito fraco. O fracasso permite começar tudo de novo, sem compromissos. Não sou um intérprete. Sou sempre EU. Exponho tipos. A minha visão do mundo é tudo aquilo que vivi, eu, meus pais, tios, amigos, paisagens, alegrias, tristezas, solidões vividas. A função do artista não é mostrar as coisas de verdade. É mostrar de verdade as coisas. Quando interpreto um italiano, um caipira, mostro como eu os sinto. Os críticos precisam saber disso.

- Qual seria o seu epitáfio ideal?

- Ele foi como um sapo: Não pulou por boniteza. Pulou por precisão.

- O homem se define melhor no ódio ou no amor?

- No ódio, pois só o ódio é um sentimento autêntico. O amor pode ser mentido. E também a gente se engana muito no amor, à força de tanto menti-lo a gente acaba acreditando nele. Já o ódio não, ele existe ou não, é um sentimento puro. Em estado de ódio nenhum homem mistifica.

- Quando o homem começa a envelhecer?

- Acho que quando começamos a aceitar o inaceitável. Quando a solidão já não faz mal, a injustiça não fere, a liberdade deixa de ser pão, água, ar e passa a ser apenas uma bela palavra.

- O que existe de menos engraçado no homem?

- A humilhação.

- Qual a herança mais positiva que sua geração deixou para a juventude atual?

- O ódio à bomba atômica. A confiança na vida e uma certa admiração pela maravilhosa aventura humana. Veja você, no tempo do Castro Alves, Gonçalves Dias, Augusto dos Anjos, todos lamentavelmente morreram cedo. A minha geração, um pouco, consertou isso, e nos ensinou que o que a gente tem mesmo é a vida para ser vivida e exercida.

- Na guerra da sobrevivência, quem o comove mais: o derrotado ou o vitorioso?

- A derrota. Não o derrotado, pois este geralmente se transforma em ódio e é menor.

- Você já pensou alguma vez em suicídio?

- Conscientemente, não. Mas houve uma época que eu tive sérios problemas nessa área. Sofri ao todo sete acidentes de carro, consecutivos, ao cabo dos quais um médico amigo concluiu: Se você não é barbeiro, nem cego, nem débil mental, você só pode ser um suicida potencial. E eu era.

- O que desejava fazer quando menino?

- Sair do lugar onde vivia. E só agora eu sei que vivia num lugar lindo.

- O que gostava de fazer e sonhar na infância?

- Mentir. Inventar para os amigos filmes que nunca tinham sido feitos e, é claro, me colocar no centro desses filmes. Eu sempre tive uma imaginação funambulesca, doentia mesmo.

- Como enfrenta o medo?

- Eu fui assaltado uma vez. Levaram-me para o mato e disseram que iam me matar. Eu chorei, implorei, enfim, não tive nenhuma grandeza.

- Você acredita na eternidade do amor entre duas pessoas?

- Não. As pequenas vilanias do cotidiano são terríveis.

- Como é o seu relacionamento com o amor?

- Eu, minha mulher e minhas duas filhas somos os únicos amores de nossas vidas.

- Há quantos anos você não faz teatro?

- Cinema, acabo de fazer um filme ceou o Joaquim Pedro, mas teatro, depois que acabou o Arena, nunca mais votei a um palco. A última vez foi em Marselha. na França.

- O que você acha da televisão brasileira?

- Televisão é uma barra pesada. Eu gosto dela. Ela prolonga, reflete; estende o teatro, a música, a pintura. Ela não cria. Documenta. A maioria das pessoas não esta interessada na criação. Minha sensibilidade de ator funciona bem na televisão. Necessito do relacionamento das pessoas. Não me comove a tranqüilidade. O texto das novelas e dos especiais está melhorando. A melhoria é uma das exigências do telespectador.

- Se você se julgasse, o que não perdoaria em sua vida?

- Ter fraquejado em alguns momentos definitivos, conceder na profissão e, sobretudo, não ter amado meu pai tanto quanto ele precisou.

Lima Duarte é um homem que olha sempre nos olhos de quem está conversando. É um ser humano simpático. O seu sorriso é a prestação, ri aos pedaços e é viciado em tudo que é autêntico. Como todo mineiro, de repente fica fechado como um canivete.

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