Monday, August 10, 2015

1974 - Entrevista com Aloysio Legey

O Globo
Data de Publicação: 01/01/1974


UMA RECEITA DE DIRETOR DE TV

É muito difícil haver renovação de profissionais na televisão. Principalmente entre os técnicos, operadores e diretores de TV. O talento, a intuição e a disciplina são elementos que se somam, mas não são fundamentais na formação de um diretor de televisão: O homem que é responsável pelas imagens. O tempo é fundamental. Tempo, experiência e a vivência de trabalho, nos pequenos e grandes shows, é que amadurece o profissional.

É um caminho comprido e suado. É possível a renovação dos artistas porque o teatro e o cinema abastecem as novelas, assim como os jornais e as revistas contribuem muito para a qualidade de profissionais do departamento de jornalismo. Um grande câmera man raramente dá um bom diretor de TV, assim como é normal o diretor de TV falhar como diretor geral.

Na minha opinião, nestes últimos dez anos só houve uma exceção. Foi a do Aloysio Legey. É o mais novo diretor de programas da televisão brasileira. Trinta anos de idade e 16 de profissão. Há muito tempo é o responsável pela qualidade de imagem dos principais programas da linha de show. É atualmente o diretor do Globo de Ouro, Sábado Som e continua na direção de TV do Fantástico. Tem um estilo próprio, o que é raro.

- Legey, o que precisa um profissional para ser um bom diretor de tv?

- Tem que ter conhecimentos técnicos, conhecer lentes (ângulos fotográficos), principalmente conhecer uma câmera. É ele que dirige as câmeras, como é ele que é responsável pelo tráfico e mudanças de lentes durante uma gravação. Necessita ter bom conhecimento de iluminação e áudio. Paradoxalmente, tem que fiscalizar todos os instantes suas emoções. Uma emoção exagerada pode levá-lo a distrações, como cortes na hora errada, atraso nos pedidos de troca de lentes e ângulos. Ele tem que estar no mínimo 30 segundos adiante do que está acontecendo. No instante em que a imagem está no ar, o diretor de TV está preocupado com as seqüências. Ele é obrigado a cuidar da imagem, do tráfico das câmeras e das lentes, enquanto lê o seript. No momento que está olhando o script do programa, está checando se as câmeras estão no lugar certo, se o enquadramento é correto e se o som está com qualidade. No circuito de fone, trabalham simultaneamente ele, os operadores de TV, um coordenador de estúdio, de áudio, quatro câmeras, fora o microfone geral onde ele se comunica com o palco. Tem que ser um líder e dar segurança à sua equipe.

- Qual foi o momento mais importante, decisivo, em sua carreira como diretor de TV?

- Foi a última corrida de Interlagos. Estava sozinho numa pequena sala comandando 7 câmeras e três unidades de externa posicionadas em locais distantes e tinha muita dificuldade na identificação dos carros, pois não havia visual da sala para a pista. Um corte meio segundo atrasado numa corrida inverte o posicionamento dos carros de corrida. Ou seja, o carro que está correndo da esquerda para a direita no aparelho de televisão do telespectador passa a correr da direita para a esquerda. Os reflexos tinham que ser a 280 quilômetros por hora.

- Quem descobriu você na televisão?

- O Augusto César Vanucci.

- Como você define uma câmera?

- São os olhos do telespectador.

- E o diretor de TV?

- É o olhar do telespectador.

- E o diretor geral?

- É o que dá expressão, poesia, beleza, alegria, tristeza aos olhos e ao olhar do telespectador.

- Como você se sente dirigindo as imagens?

- Você bem sabe. Uma solidão incrível. Unia sensação de estar sozinho no mundo diante de centenas de problemas que a gente tem que resolver. Eu amo o meu trabalho e nele consigo transmitir até mesmo o que não sinto.

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