Monday, August 10, 2015

1979 - Coojornal sobre a inauguração da TV Guaíba

Coojornal
Data de Publicação: 01/01/1979
Autor: Lenora Vargas
UMA TV CONTRA DUAS DITADURAS


Está no ar, desde o dia 10 de março, a quinta emissora de televisão de Porto Alegre - a TV Guaíba, canal 2, de propriedade do mais tradicional grupo jornalístico do Rio Grande do sul, a Companhia Caldas Júnior (Correio do Povo, Folha da Manhã, Folha da Tarde e Rádio Guaíba).

Adiado duas vezes em função de inúmeras dificuldades, o lançamento não se deu em condições ideais. A nova emissora, investimento entre 60 e 70 milhões de cruzeiros, entra no ar com menos de um terço das suas necessidades reais de equipamentos, com uma programação pensada em 40 dias e cobrindo apenas uma parte do horário normal.

Por trás dessas dificuldades, porém, uma proposta sempre sonhada e raras vezes oferecidas aos profissionais brasileiros de TV: a independência do jugo imposto pelas cadeias nacionais, controladas por emissoras do Rio e São Paulo. Até quando a TV Guaíba manterá sua pretensão inicial é uma questão que a própria equipe, embora confiante se coloca.

É questão fechada pelo diretor-presidente da Companhia Jornalística Caldas Júnior, Breno Caldas, a não filiação a qualquer rede. "Isso nos dá independência com o público, liberdade para colocar cada programa no horário que lhe é conveniente e não nos rabichos de tempo da transmissão nacional. Temos liberdade para mudar a programação à hora que acharmos interessante", assegura o diretor de programação, Clóvis Prates.

A pretensão vai ao ponto de a direção da Caldas Júnior, como já faz com a Rádio Guaíba, desprezar por completo o Ibope, o IVC (Instituto Verificador de Circulação) ou qualquer tipo de aferição padronizada. "Não estamos preocupados em competir com a novela, com a audiência massificada, mas em oferecer uma opção ao telespectador. Queremos um público intelectualmente mais elevado', expõe Prates. Ele acredita que a Guaíba conseguirá uma boa fatia desse público, "que tem sede de diálogo com o televisor".

Limitada pela falta de equipamento, a equipe foi obrigada a dividir a programação em fases. Na fase I - a atual nada mais do que uma etapa experimental, que deve durar até junho, está sendo veiculada produção local e nacional (programas comprados da TV 2 Cultura, da TV Sílvio Santos e das distribuidoras internacionais). Os programas locais onde predominam os temas políticos, econômicos ou esportivos - procuram valorizar o debate, ingrediente um tanto esquecido pelas nossas televisões de pós-64. Neste primeiro mês, a Guaíba tem colocado ao espectador temas tão polêmicos como a inflação, a denuncia vazia, o seqüestro do casal de uruguaio em Porto Alegre. "Em horário nobre, já temos mais produção local que a soma das outras emissoras (Piratini, Gaúcha, Difusora e a TV Educativa, estatal)", calcula Prates.

As chefias contratadas pela Caldas Júnior contam com dois outros valiosos trunfos para quem pretende fazer uma TV independente e de qualidade: carta branca da direção e tempo para elaborar os programas. Um terceiro elemento indispensável: bons salários, pelo menos para o mercado local. Um repórter de quatro horas ganha Cr$ 9.000,00, passando a Cr$ 9.600,00 em maio, informa Prates, também responsável pelas contratações, enquanto um da TV Difusora, por exemplo, recebe hoje Cr$ 4.300,00.

Com orgulho, Prates e Nelci Castro, o gerente de produção, afirmam que a ênfase para a programação local causou um tumulto (no bom sentido) no apertado mercado profissional gaúcho.

"Da Gaúcha, tiramos quinze profissionais, da Difusora treze, só para as áreas de produção e de programação (repórteres, cinegrafistas, editores de imagem, diretores e outros), ganhando desde 20% a mais até o dobro. Tem gente que quer vir por menos ou pelo mesmo salário, por estar descontente com seu emprego", afirma Prates. Ciaton Selistre, gerente de telejornalismo, atesta: "Tenho mais de sessenta fichas preenchidas de candidatos a minha área, uma loucura. A TV Gaúcha elevou os salários para poder segurar o pessoal".

Embora pagando o equipamento norte-americano, que ainda não tem data certa para chegar, mas é aguardado para maio/junho, a emissora adquiriu outros que não condizem com a sua filosofia de operação. "O problema", diz o gerente de produção, "não é botar uma emissora no ar, mas sustentá-la, corno estamos fazendo". O ideal, segundo ele, seria começar em julho, pois a preparação de uma nova emissora leva no mínimo seis meses. Por enquanto, a TV Guaíba opera com uma estação móvel equipada com quatro câmeras (duas fixas e duas semiportáteis), 1 câmera portátil e 2 filmadoras.

Para a fase II, quando os norte-americanos e japoneses já tiverem enviado as sete câmeras portáteis com vt (vídeo teipe) e as três ilhas de edição de vt, a Guaíba entrará com os noticiosos, programas do dia-a-dia e ampliará a cobertura esportiva, itens considerados como o filé da empresa Caldas Júnior.

O desafio mais difícil que a Guaíba enfrenta neste começo é na área comercial. No meio publicitário, há um consenso de que o mercado não comporta quatro emissoras comerciais, que pelo menos uma irá sucumbir na disputa. Acrescente-se a isso os quase quinze anos, de domínio absoluto do mercado pela TV Gaúcha, canal 12, integrante da Rede Globo, que gera até mesmo os pacotes de espaços publicitários a serem divididos pelas suas filiadas, em cada praça.

"O trabalho tem sido duro, eu posso dizer", confessa um dos diretores do departamento comercial, Paulo Russomano, profissional com mais de trinta anos de experiência neste ramo. Entrando em março, a Guaíba ficou fora das verbas normais das agências e, por ser nova, sua programação ainda não captou a confiança dos mídias, embora elogiada pelos publicitários. O departamento comercial tem lutado para conseguir as verbas adicionais das agências. "Tem ainda a mudança de Governo, em que o pessoal está pensando onde e como vai aplicar o dinheiro", acrescenta Russomano.

Para tentar uma brecha,a Guaíba saiu com uma tabela abaixo do mercado, válida para estes três primeiros meses, e dela não se afasta, segundo orientação rígida da direção. "Perdemos negócio mas não vendemos por menos". Os concorrentes, porém, já contra-atacaram: com exceção da TV Gaúcha, que está tranqüila, as outras emissoras deram ampla flexibilidade às suas tabelas, chegando a reduzi-las à metade. Também barganham com o alcance de suas transmissões, enquanto a Guaíba, ainda está medindo até onde vai a sua imagem.

No contra-ataque estão previstas também mudanças nas programações. A TV Piratini, canal 5, terceira colocada em audiência no estado, prepara uma serie de novos programas não só para a TV como para a Rádio Farroupilha, que receberá 21 programas bolados pelo seu novo diretor de programação, Flávio Alcaraz Comes. Em relação à audiência, a Guaíba sofrerá mais um impacto: desde o dia 4 de abril está no ar a novela das 20 horas da Bandeirantes, retransmitida no Rio Grande pela TV Difusora. "Já pensou nós no meio disso tudo"? - pergunta. Russomano.

Estas questões, porém, não preocupam os escalões mais altos da empresa, unânimes em afirmar que a Guaíba briga pelo segundo lugar. "Só fixaremos metas após estudar o comportamento dos três primeiros meses", garante o diretor do Departamento comercial, Ênio Berwanger. Uma certeza pelo menos todos manifestam - a de que o grande pique virá no segundo semestre, quando o filé for ao ar.

1981 - Presidente Figueiredo e as TVs

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 29/05/1981

FIGUEIREDO AUTORIZA PRORROGAÇÃO PARA CONTRATOS DE TVS

Brasília - O Presidente da República autorizou o Ministério das Comunicações a prorrogar por mais 30 dias o prazo para a assinatura dos contratos de concessão entre o Ministério e os dois grupos vencedores da licitação para a exploração de duas novas redes de televisão. O pedido do Ministro Haroldo Correa de Mattos foi feito em exposição de motivos ao Chefe do Governo.

O Ministro das Comunicações informar que no processo de análise dos contratos surgiram algumas dúvidas jurídicas que precisam ser esclarecidas, "para que mais tarde, num futuro remoto, não surjam problemas". Disse que se está buscando uma solução definitiva que atenda o direito de todos e não prejudique o mercado de trabalho.

DIÁRIOS ASSOCIADOS - Em São Paulo, o Sindicato dos Radialistas e os funcionários dos Diários Associados aguardam para segunda-feira, 1° de junho, a visita do diretor do departamento jurídico do Ministério das Comunicações. Tomarão, na ocasião, uma posição diante dos novos problemas apresentados: o pedido do Grupo Sílvio Santos para que os funcionários façam um contrato coletivo de trabalho e a ação de Edmundo Monteiro e Armando Oliveira, que pedem indenização como condôminos.

A audiência de instrução e julgamento da reclamação trabalhista proposta pelos dois ex-condôminos contra empresas do condomínio acionário das Emissoras e Diários Associados foi marcada para 5 de junho, às 14h15m, na 16ª Junta de Conciliação e Julgamento.

Os reclamantes, Edmundo Monteiro e Armando de Oliveira, alegam que desde o dia 18 de julho de 1977 não recebem salários, estando assim caracterizada a despedida indireta. Eles pretendem receber Cr$ 24 milhões de salários vencidos: Cr$ 10 milhões 846 mil 221,25, para Edmundo Monteiro, e Cr$ 13 milhões 414 mil 474,50 para Armando Oliveira.

A proposta dos dois excondôminos repercutiu negativamente entre os empregados em greve há um ano, e um porta-voz Sindicato dos Radialistas, Humberto Mesquita, declarou: "É profundamente lamentável que o Governo federal não tome providências contra o abuso dos condôminos dos Diários Associados, que ainda querem indenização por um patrimônio que dilapidaram". O sindicato dos Radialistas promoverá, no dia 5 de junho, uma passeata diante da sede da Justiça do Trabalho, em protesto contra o pedido de indenização dos dois ex-condôminos.

DIVIDAS - A segunda assembléia marcada pelo Sindicato dos Radialistas para atender o pedido do Grupo Sílvio Santos de que façam um contrato coletivo de trabalho não obteve quorum. Seria necessária a presença de 292 funcionários das Emissoras e Diários Associados, mas só compareceram 230. Como esta é a segunda vez em que não há quorum, "o assunto não será mais alvo de discussão.

Ficou claro para a entidade que os funcionários não estão interessados na idéia do contrato coletivo de trabalho, proposto pelo Grupo Sílvio Santos, e segundo o qual os salários de abril e maio já estariam por conta do novo dono dos Diários Associados, embora ainda não tivesse sido assinado o acordo de concessão do canal pelo Governo federal.

O Grupo Sílvio Santos não assinou essa concessão porque passaria a ser o sucessor de toda a dívida da empresa, cifra até agora impossível de calcular devido a dificuldades criadas pelo próprio sistema de condomínio. Sabe-se, porém, que a dívida dos funcionários com a Caixa Econômica Federal, durante todo esse tempo de greve, chega a mais de Cr$ 300 milhões. Na Justiça do Trabalho, a dívida dos Diários Associados atinge Cr$ 1 bilhão e 500 milhões.

1970 - Chacrinha, o Velho Guerreiro

 Última Hora
Data de Publicação: 21/5/1970
Autor: Dácio Malta
CHACRINHA DÁ AULA NA FACULDADE
A Faculdade Cândido Mendes inaugura, em Junho, um novo curso - o de Comunicação. Entre os professores, estará Abelardo Barbosa. É como ele vai ser chamado pelos alunos. Seus ensinamentos - diz - não terão a norma de aula e sim de debate.

McLuhan é McLuhan, Pignatari é Pignatari. Chacrinha prefere ficar na dele.

- Minhas aulas serão dadas dentro das minhas possibilidades. Como eu sou e como sinto No meu português.

Nas suas aulas, o "Velho Guerreiro'' pretende ser o professor, no duro, não o animador da "Discoteca" ou da "Buzina".

- Trabalharei dentro da maior dignidade. Pode ser que me apresente até de fantasia. Mas com dignidade.

O convite não foi o primeiro. No ano passado, Chacrinha havia sido chamado para fazer uma das conferências do ciclo sobre Comunicação de Massa promovido pela Maison de France. Na próxima semana, o Museu da Imagem e do Som também começa um curso sobre comunicação. As fantasias do "Guerreiro" estarão expostas .

EM 43, OS GRITOS - Chacrínha surgiu no rádio em 1943. Já naquele tempo, ele gritava: "Teresinha". Não existia o termo comunicador. Dizia-se que fulano ''transmitia".

- Heber de Bôscoll era um homem que "transmitia" muito, quando eu entrei para o rádio. César de Alencar e Paulo Gracindo também "transmitiam" muito bem.

Mas Chacrinha quis logo romper com tudo. Criou a imagem de um novo comunicador. Em seu programa - Cassino do Chacrinha - ele já berrava, cantava, fazia barulho e tudo aquilo que fizesse o programa parecer ao vivo.

Começava assim:

- O Mandarim manda ou não manda? O mandarim manda, porque é o rei dos barateiros. Está aqui o Joaquim com a jaca na cabeça e Linda Batista cantando para vocês...

No ano em que ele começou no radio, houve, certa vez, um "show" na Quinta da Boa Vista.

- Eu me lembro como se fosse hoje. Era um espetáculo promovido pela P-R-E-Neno, uma espécie de "cast" de amadores mantido pela Casa Neno. E eu fui convidado. Quando cheguei, a Quinta estava superlotada. Subi no palco, olhei a multidão e lancei, pela primeira vez, em público, o meu grito de guerra: "Teresiiiiiinha". Aquilo ressoou por toda a Quinta e todos responderam: "ôô, ôôôô". Portanto, se a gente for acreditar na autenticidade das coisas, eu já devia ser comunicador desde 1943. Só que naquele tempo a palavra era "transmitir", em vez de "comunicar"'.

DEPOIS, A TELÉVISÃO

Veio a televisão. Chacrinha tinha tamanha certeza de que faria sucesso no novo veiculo, que não desanimou. Insistiu sempre.

Logo que a televisão chegou, somente a Classe A tinha poder aquisitivo para comprar um aparelho. Chacrinha começou a fazer, na televisão, as mesmas coisas que fazia no rádio. O publico não aceitou: "Este sujeito e doido varrido, é débil mental, e louco perigoso".

- Durante vinte anos, os caras pensaram que eu era maluco, bobalhão. Eu sou meio bobalhão mesmo, mas não tanto assim.

Em 1961, Chacrinha saiu da TV-Tupi e foi para a Rio. Foi aí que a Discoteca principiou a tomar corpo. O público passou a aceitá-lo. Mas os críticos não.

Chacrinha, mais uma vez, começou a ser malhado.

Mas ai chegou ao Brasil, "um francês chamado Edgar Morin".

- Antes de voltar para a França, Morin declarou que eu era o maior comunicador de massas do Pais. Como o francês era um sujeito considerado, a critica passou a abrir os olhos para mim e as coisas começaram a tomar um novo aspecto para o meu lado. Começaram a falar bem e falando, falando, falando, eu acabei virando ''comunicador''. E fazendo as mesmas coisas que fazia antes: dançando, cantando, berrando, vestindo fantasias e todas essas coisas.

CAETANO AJUDOU

Chacrinha admite que Caetano Veloso muito o ajudou na conquista da Classe A.

- Ontem mesmo eu estava falando sobre isso. Caetano, através de seu empresário Guilherme Araújo, mandou-me um recado, dizendo que queria conquistar o meu público. Mas eu também queria conquistar o público dele. Fizemos um acordo e "reaaaalmente" Caetano, Gil e Gal muito contribuíram para que eu conquistasse a classe média intelectualizada e a Classe A.

Quanto às fantasias, Chacrinha diz que as usa desde 1956.

- E olha que naquele tempo ninguém ainda falava em "hippie", em "happening", nem em porcaria nenhuma.

Para o "Velho Guerreiro", todos nós somos comunicador:

- Uns mais, outros menos.. Juscelino Lacerda, Getúlio e Pelé: grandes comunicadores Até um balconista é comunicador. Você entre numa loja para comprar uma gravata e se tiver dinheiro, compra até uma dúzia, isso porque aquele balconista é bom balconista, porque é um bom comunicador.

AS NOVAS IDÉIAS

"Teresinha, roda, roda vamos raciocinar em bloco". Chacrinha não parou aí. O mais novo trono da "Buzina" é o das novelas.

- Isso foi idéia do Boni, diretor da TV-Globo. Ele agora nos Estados Unidos e viu um programa que era feito por amadores que satirizavam os filmes. Isso eu já fazia no meu programa "Rancho Alegre", em que o primeiro "cowboy" foi o Paulo Bob. Depois, foi ó Carlos Imperial e, por fim, o Jorge Fridman. Eu era o xerife. Tudo que fazem por ai afora, eu já fiz há muito tempo. Outro exemplo é o disc-jóquei Eu sou considerado o primeiro discjóquei do Brasil Em 1943, eu já fazia isso no rádio. Depois foi que eu soube, em 1947, que esse tipo de programa era o maior sucesso nos Estados Unidos.

Chacrinha encerra a entrevista:

- E... eu acho que sou o cara do ano 2000.

A AUTORIDADE DO MESTRE

Esse homem, José Abelardo Barbosa de Medeiros, lutou desde 1943 para que o público o aceitasse com a sua loucura. De tanto insistir, conseguiu a aprovação do público e da crítica, que o considera hoje o maior comunicador de massas do Brasil.


No ano passado, em São Paulo, durante a solenidade de formatura dos alunos da Escola Superior de Propaganda, o paraninfo Fernando Almada fez até um apelo aos ex-alunos:

- Eu gostaria de pedir a vocês que lessem sempre o "Advertising Age", (a mais importante revista de publicidade do mundo), mas sem deixar de assistir, de vez em quando, aos programas do Chacrinha.

1981 - Galvão Bueno na Bandeirantes

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 24/01/1981
BANDEIRANTES QUER HUMOR NO ESPORTE

A TV Bandeirantes está reformulando completamente seu setor esportivo. Logo após o Mundialito, durante a Copa Internacional de Futebol promovida pela Portuguesa de Desportos, Fernando Solera deixou de ser a voz principal nas transmissões esportivas. Em seu lugar estreou o narrador Nei Costa, até então apresentador de um dos programas da emissora, o musical "As Mais Mais". Com ele, voltou ao jornalismo esportivo Edson Curi, que perdeu seu programa de auditório em meados do ano passado. "Bolinha" faz as reportagens de campo.

Agora, as modificações atingiram o chefe do Departamento de Esportes, Darci Reis. Um dos mais antigos profissionais da Bandeirantes, responsável por uma programação esportiva que liderou a audiência durante alguns anos, ele foi demitido nesta semana e substituído interinamente, por Fernando Solera. Galvão Bueno, produtor e narrador do departamento (fez as transmissões do campeonato de Fórmula -1), foi transferido para a Bandeirantes do Rio de Janeiro, onde chefiará o esporte, junto com Paulo Stein.

Segundo o diretor de programação da emissora, Cláudio Petraglia, as modificações foram necessárias para a implantação de um novo esquema de esportes, que terá uma transmissão de futebol mais descontraída. A Bandeirantes está atualmente no terceiro lugar da audiência de futebol, atrás da Record, que tem sucesso justamente pelo estilo descontraído do narrador Sílvio Luís. Mas Petraglia nega que a Bandeirantes esteja optando por uma narração mais "leve" por razões de mercado.

- Nós vamos fazer uma programação toda baseada na alegria e no bom humor em 1981 - explica ele. -Vamos enfrentar uma crise terrível neste ano e a indústria de diversões tem a obrigação de trabalhar para levantar os ânimos, manter elevado o humor. De um modo geral, esse será o esquema de toda a programação e do esporte também.

Ainda não foi definido quem substituirá Darci Reis no comando do esporte da Bandeirantes. A emissora procura também narradores para Belo Horizonte e Salvador. O objetivo é formar equipes esportivas em cada uma das emissoras da rede e manter Nei Costa para as transmissões de âmbito nacional.

1981 - Novelas Brasileiras em Portugal

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 19/01/1981
Autor: Juarez Bahia
A TELENOVELA BRASILEIRA MUDA DE HORÁRIO
LISBOA - Água Viva, a nova telenovela brasileira do canal 1 - o de maior audiência - da Radio-televisão Portuguesa e que substitui Dona Xepa, com um elenco encabeçado por Lucélia Santos, Betty Faria e Reginaldo Farias, ainda não se impôs à admiração dos telespectadores, pois acaba de estrear, mas já se tornou o assunto mais discutido no país, por causa do horário.

A direção de programas da Radio-televisão Portuguesa resolveu antecipar a telenovela das 20h30m para as 19h45m. Isso foi o suficiente para desencadear um profundo mal-estar nos telespectadores e dilúvios de protestos encaminhados ao Governo, ao Parlamento e naturalmente ao canal 1. Milhares de cartas e telefonemas, declarações "os jornais e no rádio reclamam o horário antigo.

O horário de apresentação das telenovelas brasileiras em Portugal - os canais 1 e 2 têm sempre uma em exibição e, agora mesmo, enquanto Água Viva passa no 1, Malu Mulher passa no 2 - é uma velha questão que apaixona os diretores da Radio-televisão Portuguesa, os telespectadores e parcelas especiais dos espetáculos públicos como o cinema, o teatro e os shows.

Há quatro anos que a Radio-televisão Portuguesa apresenta as telenovelas brasileiras, consideradas aqui as mais perfeitas do mundo. E sempre no horário das 20h30m, apesar da oposição dos exibidores cinematográficos e do pessoal de teatro e shows, que têm como ajuda o apoio dos sindicatos do comércio varejista e de bares e restaurantes.

Foi para atender a esse clamor, que acusava telenovela de retirar público desses locais, que Radio-televisão Portuguesa criou o novo horário das 19h45m, sem contar que nesse momento população urbana ainda está-se deslocando de seus serviços para casa. Daí a grande quantidade de reclamações encaminhadas por populares e donas-de-casa à direção de programas do canal 1.

O canal 1 está diante de um impasse. Como Portugal enfrenta os rigores de uma seca que transforma 1981 no pior ano agrícola de sua história, e há racionamento de eletricidade, as transmissões normais da Radio-televisão Portuguesa só vão até às 23h. Em nome dessa realidade é que também foi alterado o horário da telenovela. Ma os portugueses não querem saber disso e pedem que outros programas sejam alterados, mas não telenovela.

Um debate na própria televisão, com a presença da Secretaria de Estado para a Família, de representantes do cinema e do teatro e de diretores do canal 1, aconselhou a direção de programa a reestudar o horário e tentar atender o clamo popular que deseja voltar às 20h30m. Segundo o canal 1, a grande dificuldade reside em ajustar telenovela ao telejornal e ao resto da programação do horário nobre, dentro dos limites da portaria governamental que impõe as transmissões até à 23h.

1981 - Dercy Gonçalves em novela de Sérgio Jockyman

 Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 10/01/1981

DERCY EM ''DULCINÉA'', AGORA COMO ELA GOSTA


A partir do capítulo 41, que deve ir ao ar no próximo dia 22, os telespectadores de "Dulcinéa Vai à Guerra", na Bandeirantes, terão uma boa surpresa: Dulcinéa, a dona do café-teatro Mambembe, terá um comportamento muito mais irreverente, popular, e um linguajar "desbocado", para valer, do jeito que os fãs de Dercy Gonçalves gostam.

Quem decidiu fortalecer ou simplesmente soltar a personalidade da personagem foi Jorge Andrade, dramaturgo que para o canal 13 só escreveu "A Mulher Diaba", terceiro programa da série "Brasil Especial", mas que é respeitado por outros trabalhos no ramo da telenovela (e também, claro, por sua obra teatral). Há alguns anos escreveu para a Globo "Os Ossos do Barão" e a polêmica "O Grito", e depois, para a extinta Tupi, "As Gaivotas".

Convidado na semana passada por Walter Avancini, diretor-geral de novelas da emissora para substituir Sérgio Jockyman, Jorge aceitou e se dedica inteiramente ao trabalho: "Estou mudando tudo. Pretendo aproveitar a capacidade histriônica de Derci e fazer tudo girar em volta dela, que tem um tom de humor magnífico. Vou respeitar a personalidade da atriz, para mim a melhor do teatro brasileiro. De agora em diante, Derci Gonçalves terá o comportamento que deveria ter falando o que pensa. Mas isso vai ser tratado com profundidade."

Jorge Andrade não quer dizer tudo sobre essa reviravolta, mas revela alterações importantes no elenco, ou melhor, inclusões que se tornaram necessárias conforme nasceu sua história. Entram, Maria Fernanda, Benjamin Catan, Sônia Oiticica, Bete Mendes e Hélio Souto: ''Não posso falar sobre seus papéis porque estragaria a surpresa, só digo que Maria Fernanda vai fazer uma suposta nobre portuguesa, que na verdade é uma vigarista internacional. Do elenco anterior alguns saíram, mas porque já não tinham nada a fazer na novela.

De acordo com a sinopse apresentada pela emissora no lançamento de "Dulcinéa Vai à Guerra", no início do mês de dezembro, quando Jockyman já havia escrito metade da novela, um dos objetivos principais era tratar do problema do menor abandonado. Jorge afirma que a centralização da história em Dulcinéa não quer dizer que os outros atores terão menos importância. "Suas personagens são vivas e cada uma tem sua dimensão. A proposta era discutir o problema do menor, mas o fato de colocar meia dúzia de garotos no elenco, não significa isso. Agora dou a importância que o problema tem, através da Dulcinéa, mostro a grandeza, a beleza de sua alma ao fazer tudo pelos meninos, marco a força de uma mulher que aceita um jogo cômico para conseguir Isso. ''

O dramaturgo não quer aprofundar a conversa sobre o que representou a novela até agora, mas crê que ela será mais polêmica: "Como estou mexendo na história, dei outra dimensão ao papel de Agnaldo Raiol, o Tales, um médico que saiu de uma favela. O objetivo, ao tocar no assunto do menor abandonado, é dar informações e discutir a coisa de verdade."

Enquanto membros da família de Sérgio Jockyman, em Porto Alegre, alegam que o autor está acamado, com gripe e sem possibilidade de dar entrevista, aqui Valter Avancini explica sua saída com tranqüilidade: "A bem da verdade, o estilo de Jockyman provocou um equívoco quanto ao melhor aproveitamento de Dercy Gonçalves na novela. Foi só isso, um problema de estilo de texto. Então nos reunimos, conversamos, e ficou tudo bem. Partimos para um novo esquema junto com Jorge Andrade, que tem um espírito que conhecemos, basta lembrar de "Os Ossos do Barão". A previsão é que ''Dulcinéa'' continue até principio de março, com a mesma direção, de Henrique Martins, e quanto a Jorge, há projetos futuros na área dos especiais.

1981 - Bruna Lombardi demitida da Bandeirates

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 07/01/1981

NOVO CAPÍTULO DE BRUNA COM A BANDEIRANTES

"Um mal-entendido, uma informação deturpada e distorcida intencionalmente, que chegou à direção e provocou uma reação muito drástica". Assim a atriz Bruna Lombardi explicou ontem o incidente com a TV Bandeirantes, que resultou em sua demissão e na do ator Carlos Alberto Riccelli dos quadros da emissora. Os dois foram demitidos anteontem porque faltaram à gravação da novela "Um Homem Muito Especial", marcada para os dias 2 e 3 de janeiro, e teriam aliciado outros atores a também faltarem ao trabalho, segundo o supervisor do núcleo de novelas da Bandeirantes, Valter Avancini.

Bruna disse que está doente há 15 dias, enfrentando um processo alérgico provocado por estafa e que agravou-se em um começo de desidratação. Por recomendação médica, deveria licenciar-se do trabalho por um período mínimo de uma semana, mas não o fez para não prejudicar os trabalhos finais de gravação da novela, que terminam no próximo sábado. Com o feriado de final de ano no meio da semana passada, Bruna disse que ela e Riccelli pediram "com antecedência" ao diretor da novela, Atílio Riccó,, para faltar no dia 2, já que não tinham gravação no dia 3.

- Nós avisamos que íamos faltar e a coisa ficou assim, não houve proibição, nem nada. A gente nunca faltou nenhum dia e nunca teve um atraso. O nosso trabalho é profissional e responsável. Com uma ficha limpa, achamos que não tinha importância faltar um dia, já que estava avisado. E por consideração ao resto da equipe, telefonamos para os colegas avisando que não íamos gravar. Foi uma coisa muito aberta, não houve nada de "aliciamento" ou coisa do tipo. O problema é que em televisão há muita fofoca e a informação chegou deturpada à direção, como se nós estivéssemos nos recusando a trabalhar e dizendo aos outros para fazer o mesmo.

Atestado médico na mão, acompanhados de um advogado, Bruna e Riccelli reuniram-se anteontem com o presidente da Bandeirantes, João Saad, e Valter Avancini até depois das 23 horas. Os dois têm contrato com a emissora até maio e não aceitam a demissão, muito menos a multa por rescisão do contrato. Se for o caso, irão à Justiça.

- A medida legalmente não é válida - disse Bruna. Você não pode demitir alguém porque faltou um dia. Se puder, está-se abrindo um precedente muito perigoso. Mas eu creio que a Bandeirantes é uma empresa idônea, que vai honrar o contrato conosco.

Demitidos ou não, o certo é que Bruna e Riccelli não serão vistos nos Capítulos finais de "Um Homem Muito Especial''.

1981 - Rosa Baiana na Bandeirantes

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 06/01/1981
Autor/Repórter: Tarso de Castro
BANDEIRANTES ACERTA, DESTA VEZ

A direção da TV Bandeirantes merece elogios, vejam só. Pois encontro, quase que ao acaso, em Salvador, figuras como Gianfrancesco Guarnieri, Maurício do Vale, Aninha Magalhães, enfim, um excelente grupo de atores que se dedicam à gravação da novela "Rosa Baiana". Hoje não entro em detalhes sobre o que a novela virá a ser, exatamente. Nem posso, nem é muito do meu ramo, já que disso se encarrega a nossa Helena Silveira, noveleira e novelada emérita. Me atenho aos propósitos - e creio que isto, com o perdão da palavra - é o que há de mais positivo no que pude verificar.

Vejamos: tenho brigado muito com a Bandeirantes quanto à sua mania de entrar no mesmo esquema da Globo em muitos aspectos de seu trabalho. E um desses aspectos se refere justamente ao fato de que, de uma maneira geral, a Bandeirantes insistiu em se manter dentro dos mesmos padrões que 'fizeram da emissora do "integro e jovem" doutor Roberto Marinho o dono da opinião pública nacional. Isso com uma generosa dose de "nihil obstat" governamental.

Pois bem: vinha a acontecer, então, que todo o esquema de novelas feito pela emissora paulista seguia rigidamente o jogo anteriormente traçado pelos cariocas globais. Vai dai que se incorria em todos os erros possíveis do ponto de criatividade, uma vez que nunca, em hipótese alguma, se saia do estúdio. Existem cenas externas, é claro, mas estas também obedecendo ao pobre esquema de estúdio, coisa que o cinema abandonou há muito tempo, pois representava uma verdadeira agressão ao público.

"Rosa Baiana" é, assim, a primeira novela feita em locação. Por isso, naturalmente que o seu resultado, surjam falhas de onde surgirem, só poderá ser positivo. Atestam isso os entusiasmados atores desse trabalho pioneiro que agora se realiza em Salvador.

Vejamos um outro aspecto do negócio: ele é culturalmente importante. Mais ainda quando se sabe que, de maneira geral, as televisões praticamente evitam mostrar qualquer coisa realmente ligada à natureza. Se vocês observarem bem, o telespectador brasileiro conhece mais as cidades de São Francisco e Nova York, como conhece o Hawai, enquanto desconhece o que há no seu próprio País. É claro: as emissoras adoram as séries estrangeiras, em detrimento das brasileiras, que vão acabando suas carreiras melancolicamente. Claro que entra uma questão de economia no caso: nada mais evidente que os patrões preferem pagar cem dólares por um péssimo produto estrangeiro - com toda sua carga de colonialismo - do que bancar um bom espetáculo que tenha nossos costumes e nossos atores. É um crime contra a cultura nacional.

O que isso tem a ver com novela? Simples: à medida em que você condiciona o telespectador a engolir o lixo alienante internacional, ele estará automaticamente preparado para ver qualquer outra coisa, ainda que produzida aqui mesmo, dentro de um enfoque copiado do exterior.

Assim são os musicais da Globo, por exemplo - na sua grande maioria "chupados" das coisas lá de fora. Em parte, sobram, às vezes, os especiais feitos pela equipe de Daniel Filho, Luis Carlos Maciel, etc. Mas é pouca coisa. Do "Fantástico", nem falar.

Volto a "Rosa Baiana": ela vai mostrar ao brasileiro, finalmente, a Bahia, que é um dos mais belos quadros do País e um dos que mais têm a oferecer a todos nós, pela sua postura e cultura. No mais, se estará anulando o terrível estúdio, onde cada ator se acha um cachorro. E é - dependendo do humor dos diretores. No caso dessa novela da Bandeirantes, torço muito: é um belo passo. E uma bela escola para os atores e diretores. Todo mundo tem se perguntado como se poderia renovar o esquema de novelas. Gostaria que "Rosa Baiana" trouxesse a bela resposta que deverá ser.

A benção, santos.

1981 - Ferrugem e as crianças famosas da TV

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 01/01/1981

OS FILHOS PROBLEMA DA FAMÍLIA TV

Provavelmente muitos deles já estão condenados pela máquina a serem psicologicamente crianças-adulto para sempre. Ou fisicamente, como Ferrugem aos 11 anos tem tamanho de seis e gasta tudo o que ganha na TV para vencer um distúrbio da hipófise que atrapalha seu crescimento

Crescer sempre foi o grande problema dos meninos prodígios do cinema e da televisão. Hollywood, por exemplo, nunca soube muito bem o que fazer com Mickey Rooney quando ele começou a ter de se barbear duas vezes por dia. E Judy Garland era constantemente multada pela Metro por se apresentar de ressaca para a filmagem, embora tivesse apenas 14 anos. A carreira de Shirley Temple começou a declinar quando o estúdio se deu conta de que seus cachos não estavam combinando com o busto que insistia em emergir. No fundo, o problema do cinema não foi exatamente o de que seus meninos prodígios cresciam - a idade mental dos espectadores é que estava crescendo. Em meados dos anos 30, ninguém mais seria capaz de admitir Mary Pickford - mãe de família várias vezes - interpretando Pollyanna.

Seja como for, o menino Luís Alves Pereira Neto, conhecido no Brasil inteiro pelo apelido de Ferrugem, provavelmente nunca terá esse problema: aos 11 anos, sua altura não ultrapassa a de uma criança normal de seis - e tudo indica que ele não crescerá muito mais, devido a um distúrbio em sua glândula hipófise. Assim, enquanto tamanho for documento para seu estrelato infantil, Ferrugem terá futuro assegurado na televisão.

Claro que, para seus pais, a carreira artística de Ferrugem é, por enquanto, um acidente. Na realidade, só querem que ele cresça, e quanto mais depressa melhor. D Maura, sua mãe e agente, explica:

Já não sei o que fazer. Ferrugem fez um tratamento, mas cresceu muito pouco. Agora precisamos comprar um remédio sueco que custa Cr$ 1 mil a ampola, num total de 10 por mês. Como ele ganha apenas Cr$ 5 mil na TV Tupi, tem de se defender trabalhando em comerciais. Se não, o dinheiro não daria nem para o tratamento.

Isto, de certa forma, abala bastante a idéia de que a vida de um miniastro é um sonho dourado, trabalhando em pé de igualdade com os grandes ídolos da televisão e ele próprio convertendo-se, aos poucos, também num ídolo. A carreira de Ferrugem nunca chegou a ser fácil. Morando com sua família em Barretos, a 450 quilômetros de São Paulo, foi descoberto pelo produtor Lúcio Mauro e convidado a trabalhar em Gente Inocente. Durante um ano Ferrugem dividiu-se entre São Paulo e Barretos, para trabalhar e estudar, acabando por não fazer direito nem uma coisa, nem outra. Finalmente sua família mudou-se para São Paulo, indo morar na Lapa (um bairro tradicionalmente de operários), o que pelo menos poupou-o das idas e vindas.

Há algum tempo, Ferrugem saiu do Gente Inocente, passando a aparecer em Domingo É Dia de Graça, ao lado de Costinha. Ás vezes grava oito horas por dia na TV Tupi, ao vivo, ouvindo toda espécie de desaforos que os produtores dirigem ao auditório, pedindo silêncio. Ferrugem sempre sabe suas falas de cor, porque, segundo sua mãe, não gosta de usar o ponto na orelha - um aparelhinho que dá as deixas para a entrada em cena e que hoje substitui o antigo ponto do teatro, encerrado numa caixa. (Costinha, por exemplo, não consegue decorar seus textos. Apesar disso, os dois se dão bem, e há pouco fizeram um filme juntos, Costinha e o King Monk, a estrear em junho.)

Ferrugem tem oito irmãos. Seu dia é passado em cima de scripts e dos deveres do Colégio Campos Sales, em São Paulo. "As aulas em primeiro lugar", diz. D Maura acrescenta que ele é "um garoto responsável e aplicado." Mas, com todo o seu sucesso, Ferrugem não se sente satisfeito: o que gostaria mesmo é de morar no Rio, para ir à praia e - embora corintiano de coração - ver o Flamengo (seu time favorito) jogar. Seu prato favorito é macarrão com batata frita e ele tem rigorosa formação religiosa:

Nunca vi Nossa Senhora, mas deve ser parecida com minha irmã Marisa.

Em novela, criança e bicho são indispensáveis. Se possível, reúna os dois", diz Gilberto Garcia, que trabalha no Departamento de Elenco da TV Globo. Nos seus fichários contendo nomes, fotografias, idade, peso e habilidades de centenas de pessoas, há também inúmeras crianças que esperam por um contrato como atores. Por coincidência, seus três filhos foram alguns dos contemplados:

Rosana, Isabela e Ricardo são extremamente profissionais na hora das gravações. Fora da televisão, são crianças normais. Encaram o trabalho apenas como diversão. E faço questão de que estejam na cama às nove da noite.

Rosana, a Narizinho do Sítio do Pica-Pau Amarelo, está longe de ser estreante. Aos cinco anos trabalhou com Sérgio Cardoso em O Primeiro Amor. Agora tem 12 e muito mais experiência. Até já sabe o que não quer:

Quando crescer não pretendo ser atriz e sim psicóloga infantil, porque adoro crianças. Mas fico contente quando gostam do meu trabalho. No começo faziam muitas perguntas, mas agora já estou acostumada.

No Parque Lage, onde são gravadas as externas do Sítio, Rosana tem de descobrir tempo para fazer alguns dos deveres da escola. Ma começa, é chamada pelo diretor Geraldo Casé e tem de entrar nova mente em cena com Pedrinho e com c Marquês de Rabicó, um leitãozinho que reluta em comer as jabuticabas indispensáveis ao quadro. Distraída, Narizinho esquece o texto, e Casé já nervoso com o atraso, berra:

- Você é macaca velha, Rosana. Não pode esquecer nada!

Longe dali, sua irmã Isabela explica a personagem que representará na próxima novela das 10 - A la Garçonne - e que trará uma mudança radical na sua tumultuada vida de miniartista: passará a deitar-se quase às 11, depois de ter assistido aos capítulos que terá gravado algumas semanas antes:

Vou fazer uma menina chamada Isadora, de sete ou oito anos, que perdeu a mãe quando ainda era muito pequena. O pai dela, prof. Frazão, dá aulas de dança. A história se passa nos anos 20 ou 30, não sei bem, acho que é isso. Aliás, eu só recebi o primeiro capítulo. Ainda não conheço o script completo.

Atualmente, Isabela vai à escola de manhã e depois participa (com seus colegas mais velhos) das reuniões de elenco que antecedem as primeiras tomadas. Não perde uma só palavra e não tira os olhos de Maria Fernanda, que também está na novela:

Maria Fernanda é muito inteligente e imito tudo que ela faz. Se ela ri, eu também rio, porque assim finjo que estou entendendo tudo e não passo por boba.

Mais tarde, Isabela acompanha com sua mãe e a irmã as gravações do Sítio do Pica-Pau Amarelo e, antes do jantar repassa com seu pai os textos a serem decorados para as filmagens de A la Garçonne. Só então Isabela está livre para fazer o que quiser. E o que ela mais gosta de fazer, naturalmente, é ver televisão.

Chegar à posição de Isabela é hoje o sonho de muitas crianças brasileiras. As vezes é apenas o sonho dos pais, que inscrevem os seus prodigiosos filhos nos pesados catálogos de candidatos a artistas de TV. Os mais velhos pensam que ali pode estar a garantia para o futuro de seus filhos. Mas estes, quase sempre, encaram a coisa apenas como uma brincadeira divertida.

- Na época em que fazia O Feijão e o Sonho, diz Márcio Bernstein, de 12 anos - tinha muita garota que dava em cima de mim. Na escola só me chamavam de Edgar, que era o nome do meu personagem. Mas foi bom. Naquele tempo, ganhava Cr$ 2 mil 600 por mês e emprestava uma parte para minha mãe. Cheguei até a comprar uma bicicleta, daquelas bacanas, com 10 marchas. Hoje só estou aceitando propostas de trabalho se não atrapalharem minhas provas na escola.

Depois de gravar alguns capítulos da censurada Despedida de Casado, onde fazia o papel de filho de Regina Duarte e Antônio Fagundes ("menino bagunceiro, filho de pais separados"), Márcio impõe agora certas condições para aceitar personagens:

- Se for muito cansativo, não faço mesmo. Também não quero fazer papel de gente besta. E, de mulherzinha, não faço de jeito nenhum.

A mesma sinopse do personagem que Márcio exige, para saber se aceitará ou não o papel, é também enviada ao Juizado de Menores. Gilberto Garcia explica como isso é feito:

-Junto ao pedido de autorização, enviamos o perfil do personagem e normalmente não há cortes. Todas as crianças são obrigadas a comprovar que estudam e seus horários são limitados. A produção faz a divisão de maneira a que nenhuma criança fique nos estúdios depois das 19 horas. Elas vêm aqui e tiram as medidas para suas roupas, exatamente como os adultos. Todos os atores têm guarda-roupa próprio, mesmo que a novela não seja de época. Também tomam parte nas reuniões e devem ser acompanhadas por responsáveis até o local da gravação. E no contrato está estipulado que deverão trabalhar durante seis meses, embora o personagem possa ser esticado para mais quatro meses.

Carlinhos Poyart é o Téo de Duas Vidas, filho de Bete Faria e Francisco Cuoco. Mas quem cuida de sua carreira e o leva diariamente aos estúdios da Usina é a sua mãe na vida real, D Inês:

- Foi tudo muito natural. Moro perto da Ruth de Sousa, que é atriz, e tentei saber quais eram as possibilidades de Carlinhos. Depois, perguntei a ele se gostaria de trabalhar. Quando fez o teste final, junto a outras crianças, a Bete o escolheu logo. Era o que tinha maior sensibilidade. Os dois têm-se dado muito bem. A vida de artista não está atrapalhando em nada o dia-a-dia de Carlinhos. Acho que foi até muito bom porque, aos oito anos, ele desenvolveu um enorme senso de responsabilidade.

Carlinhos também está vibrando: - Gosto de ser ator, e acho que vou continuar sendo quando crescer. No princípio não foi muito legal. Minha mãe me botou para fazer o teste e acharam que eu era o melhor, mas foi meio chato porque os outros meninos ficaram dizendo que eu era sortudo. Agora dizem que tenho talento. Não sei bem o que é isso, mas devo ter. Afinal, não é qualquer um que entra aqui. Lá na escola, os outros dizem que gostariam de ser eu. Não sabem como essa vida é sacrificada!

O próprio Carlinhos se surpreende com sua loquacidade:

Eu acho gozado, assim, sei lá, eu ficar batendo papo. Mas é bom, porque, se eu falo errado, não tem importância, não é? Não estou sendo adulto, estou? Criança fala assim mesmo. Meu signo é Touro. No colégio, não sou o melhor aluno, mas tenho amigos até no ginásio. Tem até um lá que me defende. Hoje não brigo tanto, mas antigamente era muito folgado e apanhava pra valer. Eu era um chato. Agora todos gostam de mim.

Gisela Carneiro não tem muito tempo para conversar. Aos 10 anos, sua preocupação maior é a de que as gravações de As Loco Motivas acabem logo, para que possa ter umas férias. Em sua pasta carrega apenas o material da novela - roteiro para mais uma semana de trabalho que terá de decorar em casa.

Não vejo televisão, não tenho tempo. Fico lendo o script de manhã à noite e só paro para filmar. Por isso quase não dá para estudar. Que trabalho cansativo!

E Gisela pede licença porque o diretor ("Ele é muito legal"! quer fazer as últimas cenas da manhã. A troca de roupa é rápida e ela reaparece de biquíni e camiseta, pois a próxima locação será num clube da Barra da Tijuca. Mais uma cena e Gisela sai correndo. Recebe as últimas instruções pára a cena da tarde e sai apressada, porque sua babá está lá fora, esperando para levá-la ao colégio.

Com os Cr$ 500 que recebe por dia de trabalho, Gisela já comprou um anel, uma pulseira e um relógio. Só lamenta ainda não ter recebido nenhuma carta de fã.

Não sei o que pensam de mim. Ela diz ansiosa - mas sou uma estrela. Ou não sou?

Hoje, aos 22 anos e com uma filha de três, Elisângela - o grande exemplo da criança que cresceu artista - divide com Míriam Fisher e Gisela Carneiro o sucesso de As Loco Motivas junto ao público infantil. Diz ela:

Prodígio, nunca fui. O que eu tinha era murta "Sensibilidade. Mas não imaginava que ficaria na profissão por tanto tempo. Comecei aos sete anos, fazendo um programa para adultos, e achei que aquilo tudo fazia parte de mim. Mas só na adolescência comecei a perceber o que realmente estava fazendo e tive estrutura para sustentar-me. Para os que estão começando, eu diria que nunca esquecessem o lado infantil. Ganhei muita noção de responsabilidade, mas perdi a infância e custei a perceber isso. Fui adulta demais.

Pelo menos por enquanto, Júlio César, de 12 anos, não tem nenhuma queixa de sua vida profissional. Depois de ser filho de Tarcísio Meira em várias novelas, o atual Pedrinho do Sitio do Pica-Pau Amarelo não dá entrevistas durante o almoço, não diz quanto ganha e não erra suas falas:

- Não me considero muito adulto para minha idade. O que interessa é que estou trabalhando. Todos dizem que sou minigênio, mas o que eles não sabem é que vou me aposentar muito mais cedo do que pensam.

Nas gravações do Sítio, Narizinho pergunta:

Você não acha que a gente devia continuar brincando de faz-dei conta?

Ao que Pedrinho responde:

- Acho que fiz de conta errado!

Narizinho deixa a cena. Desta vez para retocar a maquilagem, um problema de fácil solução. Nenhum deles sente o drama de Ferrugem, condenado a ser criança, mas com todas as responsabilidades de um adulto, sem poder crescer o bastante para se defender de gente, quase sempre, muito pouco inocente.

UM SACI PERERÊ DE VERDADE - Da Vila América, em Salvador, para o Sitio do Pica Pau Amarelo, em Guaratiba, a vida de Genivaldo dos Santos transformou-se radicalmente. Aos 13 anos ele representa o Saci Pererê, um papel fácil para quem, com uma perna só, caminha, corre e joga bola sem qualquer ajuda.

A encarnação do mitológico personagem do folclore do Norte brasileiro foi muito natural para Genivaldo, que fuma tranqüilo seu pito e enverga o capuz vermelho com ar maroto.

"Não sei decorar o texto, mas acho que ainda vou aprender como é."

Seus espertos olhos pretos mexem-se rapidamente e Genivaldo prepara-se para atirar uma pedra em seu doublé, Romeu Evaristo, ou no Tio Barnabé, também personagem do Sítio, com quem ele vive no camping da Barra da Tijuca.

"Quando é sábado pra domingo, os meninos vão ao camping e aí eu jogo bola. Não, caio não. Agora a praia que mais gosto de ir é a de Botafogo, porque lá o mar é mais calmo."

Enquanto alguém da produção interrompe para dizer que ele nunca esteve na praia de Botafogo, ele continua: "Só estive até agora no parque de diversões e outros lugares. Falta ainda o Pão de Açúcar, o Cristo, muita coisa.

Com a responsabilidade de comparecer às gravações da novela, Genivaldo sabe bem o que veio fazer no Rio: "Vim trabalhar. Mas vou começar a estudar também. Lá em Salvador, fazia o 3° primário. Era muito melhor, porque tinha amigos para brincar. E depois eu volto para Salvador, já estou com saudades!"

Romeu Evaristo diz as falas de Genivaldo, que segundo ele, "não tem expressão como ator, por isso me chamaram". Tendo participado da novela João da Silva, ele é operador de telecine na TVE à noite e estuda Comunicação de manhã. A tarde está gravando o Sítio: "Em termos de ator, estou realizado". E relembra alto as falas da gravação: "Pensei que isso fosse coisa do meu primo Curupira, que é tinhoso feito eu, mas que tem dois pés, só que virado para trás". E dá uma risada.

Como Curupira, Romeu tem duas pernas e pés, só que na posição normal, e ganha Cr$ 4 mil 800. Genivaldo não diz quanto ganha. Está mais preocupado em brincar, arrancando galhos das árvores em que sobe com a maior rapidez. Soltando fumaça, ele ri: "Vocês tão me abusando. Não vou falar mais nada."

1974 - Entrevista com Lima Duarte

O Globo
Data de Publicação: 02/01/1974

LIMA DUARTE: SOMENTE O ÓDIO É AUTÊNTICO

Numa usina de sonhos, como é a televisão, onde trabalham mais de três mil pessoas, a falta de tempo é um muito cruel. Na nossa folhinha, não existe a palavra domingo. Somos vítimas de um despertador que está sempre nos dizendo que é preciso começar tudo novamente, como uma roda gigante que perdeu a memória. Lima Duarte sempre me deu a impressão de ser um artista sério e, no trivial, um homem habitado de timidez:

Modestamente nasci em Minas.

Marcamos um encontro na hora de almoço. As duas horas compareceu britanicamente, com um sorriso irônico: - Como vai ser nossa entrevista? Eu digo o que penso, você ouve o que quer e o copy desk publica o que acha bonito:

- Onde tudo começou?

- Numa fazenda. Um dia apareceu um circo na minha cidade. Minha mãe trabalhava nele. O circo partiu sem ela. Nasci do circo e da boiada. Fui boiadeiro, ajudante de caminhão, trabalhei em escritórios e me formei na Faculdade de Ciências. A essência do ator é herança de minha mãe.

- O sucesso é importante para você?

- Nesta altura de minha vida, eu prefiro o fracasso ao sucesso. O fracasso não tem mistificação, mentira, ele é claro. O fracasso deixa a gente diante de nós mesmos. O sucesso é inebriante. Diante do sucesso o ser humano é muito fraco. O fracasso permite começar tudo de novo, sem compromissos. Não sou um intérprete. Sou sempre EU. Exponho tipos. A minha visão do mundo é tudo aquilo que vivi, eu, meus pais, tios, amigos, paisagens, alegrias, tristezas, solidões vividas. A função do artista não é mostrar as coisas de verdade. É mostrar de verdade as coisas. Quando interpreto um italiano, um caipira, mostro como eu os sinto. Os críticos precisam saber disso.

- Qual seria o seu epitáfio ideal?

- Ele foi como um sapo: Não pulou por boniteza. Pulou por precisão.

- O homem se define melhor no ódio ou no amor?

- No ódio, pois só o ódio é um sentimento autêntico. O amor pode ser mentido. E também a gente se engana muito no amor, à força de tanto menti-lo a gente acaba acreditando nele. Já o ódio não, ele existe ou não, é um sentimento puro. Em estado de ódio nenhum homem mistifica.

- Quando o homem começa a envelhecer?

- Acho que quando começamos a aceitar o inaceitável. Quando a solidão já não faz mal, a injustiça não fere, a liberdade deixa de ser pão, água, ar e passa a ser apenas uma bela palavra.

- O que existe de menos engraçado no homem?

- A humilhação.

- Qual a herança mais positiva que sua geração deixou para a juventude atual?

- O ódio à bomba atômica. A confiança na vida e uma certa admiração pela maravilhosa aventura humana. Veja você, no tempo do Castro Alves, Gonçalves Dias, Augusto dos Anjos, todos lamentavelmente morreram cedo. A minha geração, um pouco, consertou isso, e nos ensinou que o que a gente tem mesmo é a vida para ser vivida e exercida.

- Na guerra da sobrevivência, quem o comove mais: o derrotado ou o vitorioso?

- A derrota. Não o derrotado, pois este geralmente se transforma em ódio e é menor.

- Você já pensou alguma vez em suicídio?

- Conscientemente, não. Mas houve uma época que eu tive sérios problemas nessa área. Sofri ao todo sete acidentes de carro, consecutivos, ao cabo dos quais um médico amigo concluiu: Se você não é barbeiro, nem cego, nem débil mental, você só pode ser um suicida potencial. E eu era.

- O que desejava fazer quando menino?

- Sair do lugar onde vivia. E só agora eu sei que vivia num lugar lindo.

- O que gostava de fazer e sonhar na infância?

- Mentir. Inventar para os amigos filmes que nunca tinham sido feitos e, é claro, me colocar no centro desses filmes. Eu sempre tive uma imaginação funambulesca, doentia mesmo.

- Como enfrenta o medo?

- Eu fui assaltado uma vez. Levaram-me para o mato e disseram que iam me matar. Eu chorei, implorei, enfim, não tive nenhuma grandeza.

- Você acredita na eternidade do amor entre duas pessoas?

- Não. As pequenas vilanias do cotidiano são terríveis.

- Como é o seu relacionamento com o amor?

- Eu, minha mulher e minhas duas filhas somos os únicos amores de nossas vidas.

- Há quantos anos você não faz teatro?

- Cinema, acabo de fazer um filme ceou o Joaquim Pedro, mas teatro, depois que acabou o Arena, nunca mais votei a um palco. A última vez foi em Marselha. na França.

- O que você acha da televisão brasileira?

- Televisão é uma barra pesada. Eu gosto dela. Ela prolonga, reflete; estende o teatro, a música, a pintura. Ela não cria. Documenta. A maioria das pessoas não esta interessada na criação. Minha sensibilidade de ator funciona bem na televisão. Necessito do relacionamento das pessoas. Não me comove a tranqüilidade. O texto das novelas e dos especiais está melhorando. A melhoria é uma das exigências do telespectador.

- Se você se julgasse, o que não perdoaria em sua vida?

- Ter fraquejado em alguns momentos definitivos, conceder na profissão e, sobretudo, não ter amado meu pai tanto quanto ele precisou.

Lima Duarte é um homem que olha sempre nos olhos de quem está conversando. É um ser humano simpático. O seu sorriso é a prestação, ri aos pedaços e é viciado em tudo que é autêntico. Como todo mineiro, de repente fica fechado como um canivete.

1974 - O Domingo de Sílvio Santos

Jornal do Livro
Data de Publicação: 01/01/1974
Autor: Haroldo Marinho
O DOMINGO DE SÍLVIO SANTOS

De acordo com os gráficos de audiência, um número considerável de pessoas acredita que a melhor maneira de atravessar uma tarde de domingo é colocar-se frente a um aparelho de televisão e acompanhar atentamente a incrível maratona do programa Sílvio Santos. Ou então, o que é mais grave, fazer parte de seu auditório composto apenas de mulheres, que gritam e dançam, programadas para não só aplaudir ou vaiar mas também intervir decisivamente no corpo do programa, agitando bandeirolas, dialogando com o animador ou cantando jingles dos sapatos Vulcabrás e do sabão OMO (total) em verdadeiros (e frenéticos) comerciais ao vivo, sem os quais, de acordo com um animador substituto (dia 15), "nenhum de nós estaria aqui", ou seja, ele, o juri, o auditório, a coisa, enfim. Claro que seria uma alternativa melhor pois então, talvez, aquelas ingênuas e agitadas participantes do auditório (verdadeiras inocentes úteis em delírio) descubram que, mesmo em São Paulo, há melhores formas de se passar um domingo (o dia de descanso), sem ter, necessariamente, que atuar como "companheiras de trabalho" (conforme as chama o animador, talvez com boas intenções), o que afinal de contas as coloca numa incômoda posição de cúmplices da transação.

Na verdade o programa tem sua estrutura inteiramente apoiada nas características pessoais do seu idealizador; assim, do sorriso impessoal de Sílvio Santos à falsa "alegria de viver" do auditório e da música do programa ("agora é hora de alegria, vamos sorrir e cantar, do mundo não se leva nada, vamos sorrir e cantar") não há absolutamente, nenhuma diferença de tom da mesma forma que seu tipo de relação com o júri define a agressividade geral de que são vítimas os calouros. Até mesmo o animador substituto mantém a marca original do sorriso bestificado, achando graça em alguma coisa provavelmente muito triste. Talvez que, do palco, a visão do auditório acarneirado possa ter algum toque de humor, vislumbrável, apenas, aquele ponto de vista particular; de casa, pelo menos, o espetáculo é bastante desagradável, e é sintomático que dure mais de oito horas, 11h30m às 20h, e ocupe uma tarde de domingo no mais poderoso canal de televisão. Claro que, como de hábito, existe um carnê por trás de tudo, que promete as maravilhas de sempre atraindo esperanças e economias dos que só possuem isso para dar. Para esses, talvez, seja a única possibilidade de ser feliz(?), subitamente; o nome do carnê é escolhido de forma a alimentar o sonho (impossível): o baú da felicidade.

O importante, então, é descobrir o caminho que leva do sorriso ao carnê, e essa, na verdade, é a chave do programa. A forma de aliciamento tem que ser perfeita e requer para isso uma vítima tão ingênua quanto possível, capaz de entrar no jogo em que a honestidade das regras é garantida pela "alegria" do animador e seu sorriso imutável. A partir do clima de "simpatia" criado tudo passa a ser permitido, desde chamar (aos gritos) a atenção do auditório, como que num colégio interno em que ele fosse o professor(?), até ameaçar despedir um subalterno que cometeu um engano. Claro que tudo é de mentirinha pois o sorriso não desaparece nunca, funcionando como o aval necessário para que a caminhada continue. A injeção de animo, fundamental para o prosseguimento, fica por conta dos momentos grotescos; os calouros novos, vindos quase sempre do interior de São Paulo, inteiramente despreparados, servem para demonstrar ao auditório que, por incrível que pareça, há quem esteja em pior situação.

Encoberto pelo sorriso; o carnê só se revela aos poucos; o programa cumpre sua finalidade de "divertir" preenchendo suas longas horas de duração com discussões entre o júri, músicas de péssimo gosto ou uma incrível disputa de frases ridículas que para o auditório soam como verdades definitivas. As oito da noite o programa sai do ar mas seu verdadeiro final é que caixas dos bancos na segunda-feira, onde todos têm que colocar as prestações em dia, pois como lembrou o animador (várias vezes ), só assim é possível o acesso ao baú mágico, à felicidade.

1974 - Entrevista com Aloysio Legey

O Globo
Data de Publicação: 01/01/1974


UMA RECEITA DE DIRETOR DE TV

É muito difícil haver renovação de profissionais na televisão. Principalmente entre os técnicos, operadores e diretores de TV. O talento, a intuição e a disciplina são elementos que se somam, mas não são fundamentais na formação de um diretor de televisão: O homem que é responsável pelas imagens. O tempo é fundamental. Tempo, experiência e a vivência de trabalho, nos pequenos e grandes shows, é que amadurece o profissional.

É um caminho comprido e suado. É possível a renovação dos artistas porque o teatro e o cinema abastecem as novelas, assim como os jornais e as revistas contribuem muito para a qualidade de profissionais do departamento de jornalismo. Um grande câmera man raramente dá um bom diretor de TV, assim como é normal o diretor de TV falhar como diretor geral.

Na minha opinião, nestes últimos dez anos só houve uma exceção. Foi a do Aloysio Legey. É o mais novo diretor de programas da televisão brasileira. Trinta anos de idade e 16 de profissão. Há muito tempo é o responsável pela qualidade de imagem dos principais programas da linha de show. É atualmente o diretor do Globo de Ouro, Sábado Som e continua na direção de TV do Fantástico. Tem um estilo próprio, o que é raro.

- Legey, o que precisa um profissional para ser um bom diretor de tv?

- Tem que ter conhecimentos técnicos, conhecer lentes (ângulos fotográficos), principalmente conhecer uma câmera. É ele que dirige as câmeras, como é ele que é responsável pelo tráfico e mudanças de lentes durante uma gravação. Necessita ter bom conhecimento de iluminação e áudio. Paradoxalmente, tem que fiscalizar todos os instantes suas emoções. Uma emoção exagerada pode levá-lo a distrações, como cortes na hora errada, atraso nos pedidos de troca de lentes e ângulos. Ele tem que estar no mínimo 30 segundos adiante do que está acontecendo. No instante em que a imagem está no ar, o diretor de TV está preocupado com as seqüências. Ele é obrigado a cuidar da imagem, do tráfico das câmeras e das lentes, enquanto lê o seript. No momento que está olhando o script do programa, está checando se as câmeras estão no lugar certo, se o enquadramento é correto e se o som está com qualidade. No circuito de fone, trabalham simultaneamente ele, os operadores de TV, um coordenador de estúdio, de áudio, quatro câmeras, fora o microfone geral onde ele se comunica com o palco. Tem que ser um líder e dar segurança à sua equipe.

- Qual foi o momento mais importante, decisivo, em sua carreira como diretor de TV?

- Foi a última corrida de Interlagos. Estava sozinho numa pequena sala comandando 7 câmeras e três unidades de externa posicionadas em locais distantes e tinha muita dificuldade na identificação dos carros, pois não havia visual da sala para a pista. Um corte meio segundo atrasado numa corrida inverte o posicionamento dos carros de corrida. Ou seja, o carro que está correndo da esquerda para a direita no aparelho de televisão do telespectador passa a correr da direita para a esquerda. Os reflexos tinham que ser a 280 quilômetros por hora.

- Quem descobriu você na televisão?

- O Augusto César Vanucci.

- Como você define uma câmera?

- São os olhos do telespectador.

- E o diretor de TV?

- É o olhar do telespectador.

- E o diretor geral?

- É o que dá expressão, poesia, beleza, alegria, tristeza aos olhos e ao olhar do telespectador.

- Como você se sente dirigindo as imagens?

- Você bem sabe. Uma solidão incrível. Unia sensação de estar sozinho no mundo diante de centenas de problemas que a gente tem que resolver. Eu amo o meu trabalho e nele consigo transmitir até mesmo o que não sinto.

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