Friday, October 23, 2015

Nova Logomarca da Bandeirantes

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 06/04/1981

O ''OLHO'' DA BANDEIRANTES

SÃO PAULO - Primeiro foi um pavão, símbolo adequado, mas muito figurativo. Mais figurativo ainda era o pequeno bandeirante, parecido demais com o indiozinho da Tupi. Finalmente, uma agência de publicidade criou o "olho", até hoje o símbolo da Rede Bandeirantes de Televisão, mas agora o olho (antigamente, duas salsichas envolvendo uma bola) ganhou novo design.

O símbolo já está no ar, a anunciar a nova programação, principalmente a do Departamento de Jornalismo, que vai estrear amanhã, em Rede. E também tem um autor: o designer, diretor de arte, arquiteto e artista plástico paulista Sérgio Fridman Roberg, que impôs seu conceito, mesmo concorrendo com pré-projetos de famosos desenhistas industriais brasileiros, como Aloísio Magalhães e Alexandre Wollner.

O novo visual da Bandeirantes começa justamente com o esquema de reformulação iniciado a partir da compra de 17 milhões de dólares em equipamentos na Europa e coroado com a contratação de Walter Clark como o novo diretor-geral da Rede de Televisão. O logotipo, segundo explicou Sérgio Roberg, vai ser usado em tudo o que refletir a empresa, desde os veículos, até vinhetas, fachadas, papelaria, uniformes de funcionários etc. Segundo ele, "a idéia é a de se criar um verdadeiro programa de identidade visual como todas, as grandes corporações têm".

- A idéia inicial era a de se mudar completamente o visual existente, mas foram realizadas pesquisas que indicaram que a Bandeirantes tinha um bom conceito junto ao público. uma imagem de confiabilidade e que se ainda não tinha conseguido uma boa programação, ela sem dúvida viria. Por isso, optei por um aperfeiçoamento do visual existente - contou Roberg.

O símbolo anterior da Bandeirantes, além do aspecto de salsicha, tinha o problema de ser muito semelhante ao da Globo. Além disso, era considerado de difícil reprodução e não tinha um fácil significado aparente. As letras usadas para a identificação, em caixa alta, eram consideradas muito pesadas. Por isso, Roberg fez o título em caixa baixa sob um olho mais fácil de ser reproduzido.

- O primeiro passo foi estabelecer um conceito. A idéia era a de se aproximar o vídeo do espectador, que já está cansado de ver um mundinho separado do dele, piscando (Globo). Daí a idéia do olho, porque assim o vídeo cria vida, está observando o observador, dialogando com ele, Junto à idéia foi somado um lettering (letreiro) de formas modernas e arrojadas - disse o designer.

Para chegar à solução final, Sérgio Fridman Roberg fez mais de 370 modelos e passou três meses tentando aperfeiçoar o desenho, procurando uma forma de aproximá-lo cada vez mais do conceito que julgava acertado. Para fazer isso, contou com a experiência de quem trabalhou, como diretor de arte de agências 'de publicidade, obteve premiações internacionais como desenhista industrial e viu muitos trabalhos seus publicados em livros e revistas especializadas da Europa e dos Estados Unidos.

Sérgio Fridman Roberg foi o primeiro designer brasileiro a exportar um projeto de desenho industrial inteiramente realizado no Brasil, o da K.A. International Corp., levado para 27 países de sete idiomas diferentes. Criador de embalagens, tem escritório em São Paulo.

1981 - Jornalismo da Bandeirantes

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 16/08/1981
Autor: Alberto Beuttenmuller
A BANDEIRANTES É NOTÍCIA
Seis horas diárias de jornalismo no vídeo

SÃO Paulo - A TV Bandeirantes parece ter descoberto no jornalismo e na realidade do cotidiano seu principal veio para alcançar o todo-poderoso Ibope e vencer a guerra, a cada dia mais acirrada, com sua principal rival - é a TV Globo. Assim, a emissora paulista dividiu sua estratégia em três segmentos - telejornalismo, divisão de realidade e divisão de ficção (novelas). Para conseguir chegar a bom termo nessa sua campanha, depois da contratação de Walter Clark, uma espécie de Napoleão da TV brasileira, graças ao sucesso alcançado na Globo, chegou a vez de Sérgio de Souza, anteriormente responsável pelo Fantástico, e agora novamente às voltas com um programa semelhante, onde se mesclam música, humor e jornalismo. Na última quarta-feira, era a vez de José Trajano assumir o departamento de esportes da rede, dizendo que o enfoque principal da emissora será para o esporte amador, "aliás tradição que a Bandeirantes vem mantendo, com as coberturas de basquete, vôlei, Fórmula-1, entre outros eventos desportivos."

A abertura política do Presidente Figueiredo, segundo Joelmir Betting, "é a grande oportunidade que nós, jornalistas, temos de conquistar a televisão brasileira, criando o hábito, no espectador, da informação e do comentário político e econômico". Joelmir Betting descobriu-a e aproveitou-se da informação do dia-a-dia para fazer seus comentários econômicos numa linguagem simples, criando assim um tipo novo de telejornalismo. Após a notícia, lida pelo fluente e sóbrio Ferreira Martins - outro profissional que a Globo perdeu para a Bandeirantes - Joelmir explica como aquele manchete ira afetar o bolso do espectador, em apenas 40 segundos. A Bandeirantes terá, a partir de agora, cerca de seis horas diárias de jornalismo, seja noticiário, sob o comando de Sílvia Jafet, seja reportagem, agora sob comando de Sérgio de Souza, diretor do Departamento de Realidade, responsável por Cidade Aberta, Canal Livre e os novos programas. Paulo Mário Mansur continuará sendo o diretor responsável pelo Departamento de Telejornalismo de toda a Rede Bandeirantes, além de articulador da nova estratégia.

Paulo Mário Mansur passou 10 anos na Globo, entre São Paulo e Rio, nos seus 21 anos de jornalismo, notadamente o de rádio e TV. Em jornal, só trabalhou no Diário do Comércio e na Folha de S. Paulo. Em sua nova função de diretor responsável por todo o telejornalismo da Rede Bandeirantes, ele explica que "houve um deslocamento na programação do lazer para o jornalismo. Assim temos o noticiário do cotidiano, o Jornal Bandeirantes, O Repórter e os vários Atenção. Agora, teremos ainda reportagens nos demais programas, como Cidade Aberta e nos programas que estão sendo criados em equipe. Iremos reformular a programação da para torná-la mais ágil, logo após recebermos os novos equipamentos de tape, quando poderemos sair com a camará na mão. Toda essa mudança de salas deve-se à criação da Central Técnica de Jornalismo, onde ficará toda a estrutura jornalística da Bandeirantes. As redações ficarão agrupadas, mas independentes entre si".

Pelas mudanças, sente-se que até a novela Os Adolescentes, de Ivani Ribeiro, em fase de gravação, e que entrará em setembro no ar, terá um cunho realista e atingirá a juventude e seus problemas psicológicos. Essa novela segue a linha de realismo da emissora.

Instalado no quarto andar da Bandeirantes, em sua sala atapetada - só no quarto andar existem tapetes na emissora -Walter Clark parece mais um jogador de xadrez que, a cada momento, mexe uma peça em busca do xeque-mate. Sua advertência é de que toda essa mudança "não será a toque de caixa, pois ha muito por fazer. Creio que dentro de dois anos (embora isso também seja perigoso dizer, a emissora estará em pleno funcionamento. Pretendemos fazer um programa de entrevistas, às 23h, sempre em debates com convidados. Mas precisamos ainda acertar a programação da tarde e da nova faixa das 20 às 22h. Como se vê, há muito ainda para se fazer."

Walter Clark é cuidadoso quando fala dos novos planos, pois sabe que em televisão só vale aquilo que o espectador vê e que tais modificações sempre acontecem com lentidão. Mas a Bandeirantes continua com novidades, incluindo-se a possibilidade de contratar Osmar Santos, o mais famoso locutor de futebol do país e que pertence aos quadros da Rádio Globo. Ninguém quer comentar o fato, pois, de certa maneira, Osmar Santos pertence à Organização Globo e, por isso mesmo, pode haver alguma dificuldade para sua contratação. Sabe-se que há um emissário cuidando disso, segundo informaram Paulo Mário Mansur e outros funcionários da Bandeirantes.

Sérgio de Souza já se encontra na Bandeirantes há uma semana. O namoro, como se vê, acabou em casamento, pois de há muito a Bandeirantes queria tê-lo em seus quadros. Seus planos são contados aqui com certa cautela, a mesma cautela sentida em Walter Clark, o que demonstra uma certa sintonia de atitudes entre os dois amigos. O principal projeto é um programa semelhante ao Fantástico da Globo, onde se irão mesclar humor, música e jornalismo. O maestro Júlio Medaglia será o responsável pela parte musical. Para o setor de humor, estão pensando em Millôr Fernandes, embora isso pareça mais um sonho para Sérgio de Souza, já que todos acreditam ser bastante difícil a vinda do humorista. Para o horário das 20h às 21h30m, haverá uma programação baseada em reportagens, alguma coisa gravada e acontecimentos recentes, mas também mesclados a música e humor, pois a Bandeirantes acredita que há público para esse horário. "Nem todos vivem de novelas", como diria Joelmir Betting.

O programa Cidade Aberta, um tanto descosido, sem ritmo, que se vai arrastando tarde afora, sofrerá mudanças básicas, segundo informou Sérgio de Souza, que agora dirige a própria Rose Nogueira, a responsável pelo programa. O visual também deverá sofrer modificações, já que ninguém mais agüenta essas salas de espera de consultório médico em que se tornaram esses programas. Sérgio de Souza tem muito cuidado no que fala, pois as coisas ainda estão em projetos e "precisamos usar de muita criatividade para compormos determinadas coisas e compormos outras". Um projeto que deverá merecer bastante atenção de Sérgio de Souza será o programa de 23h, de debates, diariamente, mas que ainda não tem data certa, pois estão no campo da discussão de como será, quais os temas a serem abordados, qual a linguagem. O esporte, departamento que estará também sob o comando geral de Sérgio de Souza, passará por algumas modificações. A principal é o novo diretor - José Trajano - um editor esportivo com passagens nos principais jornais e revistas brasileiros. Trajano fez questão de frisar que sua linha será de total apoio ao esporte amador - basquete, vôlei, etc., sem se esquecer, obviamente, dos grandes acontecimentos do esporte profissional, como automobilismo, principalmente a Fórmula-1.

O jornalista Joelmir Betting é, sem dúvida, o padrão do telejornalismo da Bandeirantes. Sóbrio, com uma linguagem exemplar e fácil, sem perder o estilo fluente, consegue dar seu recado econômico de maneira que todos entendam. "A TV deixou de ser teatro de variedades para ser teatro de revistas. Depois passou a ser uma vitrola mágica (tempo dos festivais) e acabou cineteatro, com filmes e novelas. Agora chegou a vez de tornar-se informação e realidade." Joelmir Betting acredita que precisamos aproveitar a abertura política e a crise econômica, que obrigaram a todos ficarem atentos ao noticiário, e partirmos para a informação jornalística. Segundo ele, tentar passar 20 notícias em 15 minutos é dar "informação de isopor", pois ninguém fixa nada. O ideal é colocar seis notícias importantes e comentá-las. Depois da manchete, sempre vem o comentário econômico. Assim, o telespectador fica sabendo "o que influirá economicamente em seu bolso, por exemplo, o tiro que o Reagan tomou nos Estados Unidos." Joelmir Betting acredita que o telejornalismo, aos poucos, está deixando de ser uma janela de novela para ter seu próprio valor e sua linguagem. "Precisamos criar o hábito do debate, do comentário político e econômico, com uma linguagem fácil, que todos entendam". Betting conseguiu ganhar a confiança do espectador, pois se um Ministro tentar esconder alguma coisa, ele não se faz de rogado e toca na ferida. Há pouco tempo deixou todo mundo preocupado quando disse que o gasto com o uso do automóvel deixou de ser 6% para uma família composta de casal jovem e dois filhos com menos de 10 anos, índice de 1970, para, em 1980, atingir 17%. Essa foi a crise do automobilismo brasileiro, mas ninguém quer entender. As famílias estão procurando gastar menos com o uso de seus carros, por isso está havendo desemprego e as fábricas terão de baixar seus índices de produtividade. Afinal, o Brasil é um país pobre e não têm sentido tais gastos. Talvez esta crise seja realmente a saída para a realidade. "Atualmente", complementa o comentarista econômico, "o gasto com o uso do automóvel é o terceiro item que mais pesa na família, são dados colhidos em fontes seguras", diz ainda. "Como a família brasileira está bloqueando o carro, deixando de usá-lo - atualmente uma família tem um carro e meio, jamais três ou quatro como era no passado - houve a crise de São Bernardo. O uso do carro ficou caro."

Com essa linguagem simples, sem arroubos, sem palavras rebuscadas, Betting consegue prender o espectador em seu comentário econômico, caso único no jornalismo nacional e hoje modelo de todos os comentaristas, que estão deixando de lado os nomes para falar abertamente. Hoje, ele escreve para 22 jornais (cerca de 1 milhão de pessoas), fala em rádio (2 milhões de ouvintes) e na Bandeirantes, para 12 milhões de pessoas em todo o Brasil, vendo-o e ouvindo-o atentamente. E a Bandeirantes começa a ser opção maior para aqueles que queiram fugir da noveletas, em busca de uma programação mais inteligente - este é o desejo de todas da emissora, segundo Betting.

Globo rouba toda equipe de humor de Sílvio Santos

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 20/12/1981

A TVS SE VÊ FORTE AO PERDER ''REAPERTURA''

A contratação, pela TV Globo, de toda a equipe do programa Reapertura, que a TVS transmite nas noites de quarta-feira, não representa qualquer perda substancial para a emissora do animador Sílvio Santos. Pelo menos é o que afirma o diretor do Sistema Brasileiro de Televisão, Moyses Weltman. Ele anuncia uma nova atração na TV S, já para o início de 1982: a Turma da Mônica - Mônica, Cebolinha, Cascão e outros - do artista Maurício de Souza, autor da mensagem de fim de ano da emissora.

- O Reapertura - diz Moyses -é exibido apenas uma vez por semana. Sua ausência, assim, não significará uma alteração importante na nossa programação. Além disso, haverá tempo para uma substituição adequada, pois o contrato dos artistas, técnicos e operadores - a Globo só faltou levar o rapaz que serve cafezinho - vai até março. E eles, como bons profissionais, vão cumpri-lo até lá.

Com uma tranqüilidade assegurada pelo segundo lugar em audiência no Rio e em São Paulo, Moyses Weltman assegura que já se foi o tempo em que a TVS, dependia de um ou dois programas. E, pesquisas do IBOPE nas mãos, mostra os números com os quais a Globo tem de se defrontar.

No caso do Reapertura garante - a perda é muito mais de caráter sentimental do que comercial.

A filosofia de programação da TV S permanecerá a mesma, segundo o diretor do SBT:

Continuaremos dando espaço ao artista brasileiro, lançando novos talentos e relançando antigos profissionais.

Weltman diz que os salários oferecidos pela TV Globo à equipe de Reapertura são irresistíveis. E cita exemplos: Paulo Celestino via ganhar Cr$ 1 milhão, Geraldo Alves Cr$ 600 mil, Tutuca Cr$ 400 mil e assim por diante:

- Nós não quisemos entrar no leilão que se caracterizou em determinado momento.

As propostas da emissora revela concorrente em foram feitas - revela Weltman - em novembro, quando Reapertura completava um ano e três meses de apresentação:

- O programa se transformou num sucesso, em nossos termos. A Globo, todo-poderosa, tem o maior elenco de artistas. No humor, tem Chico Anísio, Agildo Ribeiro, Jô Soares. Por que levaria os nossos humoristas, os que há um ano e meio estavam na rua da amargura, fazendo greve para receber os salários atrasados em outra emissora? Ela passou o maior recibo do crescimento da TVS, está incomodada porque até há pouco tempo não tinha concorrente.

Dizendo que a imprensa foi irônica com esses humoristas quando a TVS os contratou, chamando-os de "rebotalho da Tupi", Weltman ressalta que a contratação simultânea de todo um elenco é coisa difícil de acontecer:

- O caso mais parecido ocorreu no início da década de 60, quando a TV Excelsior, com o dinheiro da exportação do café, levou metade da TV Rio em 24 horas. O mais recente é o da contratação dos Trapalhões, levados da TV Tupi para a Globo.

A TVS, segundo Weltman, não pretende uma revanche. Não pensa em tirar ninguém da Globo, embora saiba que lá há profissionais que, mesmo contratados, não atuam.

Não vamos entrar na loucura de inflacionar salários ou propiciar leilões.

1981 - Jogo da Vida

O Globo
Data de Publicação: 08/11/1981
Autor: Artur da Távola
JOGO DA VIDA - PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Telenovelas são um mistério, ainda, por mais que se lhe conheçam muitas peculiaridades, fórmulas etc. Umas pegam de imediato; outras, demoram a pegar; terceiras, jamais pegam.

Parecem pessoas. Há pessoas imediatas: logo passam os elementos de sua simpatia. Há pessoas mediatas, aos poucos sendo descobertas pelos demais. Há pessoas que jamais transmitem elementos favoráveis ao julgamento empático.

"Jogo da Vida" já havia "pegado" no segundo capítulo. Ao fim da primeira semana já incendiara o interesse do público. Isso de "pegar", em telenovela independe de qualidade, proposta, elenco, direção, etc. Uma grande parte de seus mecanismos de comunicação ainda são secretos.

"Brilhante", por exemplo, só agora começa a "pegar". Tem ótimo elenco, direção, boa história, produção, mistério, elementos clássicos do folhetim, tem tudo. Mas custou a pegar. "O Amor é nosso" idem, inclusive uma proposta de alta qualidade e seriedade. Jamais pegou. "Marron Glacê" foi pegando aos poucos e ao fim incendiara o interesse dos telespectadores.

"Jogo da Vida" "pegou" de imediato. Tenho procurado estudar esse fenômeno. Não tenho, ainda, respostas prontas. Parece-me ser algo ligado a uma imediata assimilação empática dos personagens. O grande público não resiste muito tempo sem definir simpatias, antipatias, preferências, identificações fáceis do papel e dos símbolos representados pelos personagens.

E necessário que os símbolos representados pelos personagens estejam dentro dos marcos de expectativa e conhecimento dos telespectadores.

Outro elemento fundamental pa. ra a novela "pegar" de imediato é começar não no começo mas no meio de uma história. Exemplo: a separação de Jordana (Glória Menezes) e o marido (Paulo Goulart) com que não é casada mas vive há mais de vinte anos. Esta separação já está em fase de acabamento quando a novela começa. As histórias pegam assim pelo meio, aquecem a trama. Idem, o caso de ''Badaró" (Carlos Vereza) que já aparece fugindo da policia. Idem o da irmã dele (Rosamaria Murtinho), que não quer que se saiba ser da família de um marginal.

O fato de "pegar" rápido, porém, não diz dos méritos totais de uma novela. É um dos elementos. Os demais surgirão (ou não) do andamento da obra. É cedo para analisar.

Sylvio de Abreu, o autor, mesmo quando apenas substituía outros, como aconteceu quando do enfarte de Cassiano Gabus Mendes, no meio de "Plumas e Paetês", revelara-se, já um ótimo construtor de situações cômicas. Isso ressalta no clima solto e alegre, indispensável para o agrado do telespectador das sete da noite.

Os atores estão muito bem. Talvez Paulo Goulart ainda tenha que definir a linha de seu personagem. Percebe-se o ótimo ator tateando entre fazê-lo caricato ou apenas levemente cômico e algo romântico (a mim me parece melhor este caminho). Lúcia Alves anda querendo repetir a Veroca de "Plumas e paetês". Deve cuidar. Carlos Vereza e Cláudio Correia e Castro já estão sensacionais no papel. Conseguiram compor os personagens de imediato. Isso é essencial. Maitê Proença parece que tomou vitaminas. De "As três Marias" (novela na qual estreou na Rede Globo) para agora, deu impressionante salto de beleza e densidade de atuação. Ótima, igualmente, desde o primeiro capitulo em que apareceu. Elizangela como a menina sonsa que se faz e boba.

Talentosíssimos os letreiros. Cenografia e vestuário muito bons.

TV Guaíba - Fala Produtor

Folha da Tarde
Data de Publicação: 31/10/1981

''A PRODUÇÃO É A ESPINHA DORSAL DE UM PROGRAMA''

Maria Helena é produtora do quadro de Fernando Vieira no Guaíba ao Vivo, que a TV2 apresenta de segunda a sábado, a partir das 19h30min.

Maria Helena trabalha há dois anos e meio em rádio, onde vem acumulando experiência em vários setores: começou com reportagem geral, passou pela economia, aeroporto e politica.

Atualmente, para poder conciliar rádio e televisão fazer reportagem geral. Para ela, é importante trabalhar tanto em rádio quanto em televisão mas "a tv oferece mais condições de futuro - já que o rádio está um pouco estático - a tv é mais envolvente e é onde o mercado de trabalho também é maior, inclusive por exigir um número maior de tarefas."

Com relação ao quadro de Fernando Vieira, Maria Helena o considera gostoso de produzir, "é movimentado, exige bastante criatividade e é uma coisa que tem muito a ver comigo''.

Além de fazer a produção do quadro, Maria Helena faz as externas e todo o trabalho de edição, acompanhando o desenrolar do programa. Talvez por todo esse acompanhamento é que Maria Helena considere mais que o rádio, embora pense que este crie que a TV acrescenta um embasamento essencial para a profissão de jornalista.

Atualmente, Fernando está realizando um concurso que vai sortear dez cartas para receberem uma viagem ao Rio de Janeiro (fim-de-semana com direito a ingressos aos shows de Roberto Carlos, no Canecão e Simone).

Também está em andamento - e as inscrições encerram no próximo dia 15 - um concurso para modelo fotográfico, em que as vencedoras irão apresentar o programa durante uma semana com Fernando Vieira, vão receber um guarda-roupa completo da marca LEE, e mais outros prêmios, que serão conhecidos posteriormente.

TRABALHO ANÔNIMO - Na opinião de Maria Helena, "o trabalho de produtor é um trabalho anônimo, que serve para embalar não só o apresentador, mas todo o programa. Para mim a produção é a espinha dorsal de um programa, embora muitas vezes ela seja ignorada pelo telespectador. Tem muita gente que não sabe que dentro de uma emissora de televisão é necessário produzir, montar, editar, etc, etc, etc. É muito fácil ver o programa todo prontinho como chega ao telespectador, mas para nós é o resultado extremamente gratificante de um trabalho de horas e horas"

1981 - Eduardo Mascarenhas na TV

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 27/10/1981
Autora: Maria Lúcia Rangel
A INTIMIDADE PARA MILHÕES DE ESPECTADORES

Na casa dos pais do psicanalista Eduardo Mascarenhas, nunca se conheceu a depressão. O clima sempre foi de permanente vibração pela vida. Seu avó, precursor talvez do temperamento de neto, era chamado de "mosquito elétrico". Mas não foi exatamente um mosquito elétrico que aguardava, minutos antes de entrar no ar, a estréia do programa Interiores. No apartamento da Lagoa, cercado de um grupo de amigos, garçons passando todo o tempo champanha gelado e canapés, Eduardo Masceranhas demonstrava, pelo olhar ansioso, a insegurança normal de quem se está dedicando a uma nova profissão. Circulou entre a sala e o quarto - onde colocou estrategicamente as duas televisões coloridas - tentando captar os comentários - poucos - dos amigos durante a transmissão. Encerrado o programa, os telefones espoucaram e ninguém se furtou a falar de Interiores. A aprovação foi quase geral, inclusive da própria entrevistada, Danusa Leão que, abraçando o anfitrião, comentou: "A única coisa da qual você vai depender é de pessoas que digam as coisas, porque você nos coloca inteiramente à vontade." Tão à vontade que Cacá Diegues, já entrevistado - Eduardo já tem 10 programas prontos - afirmou ter achado a experiência fascinante: "Nunca ninguém havia conseguido abordar a minha vida pessoal como ele."

- Realmente, fiquei tenso logo que o programa foi para o ar - admite Eduardo em meio à festa. -Posteriormente, fui sentindo que alcançava os propósitos pretendidos por Fernando (Barbosa Lima), Maurício (Shermann) e eu, ou seja, urna linguagem televisiva.

O diretor de cinema Neville D'Almeida brinca ser Eduardo "o J. Silvestre da alma", enquanto um jornalista afirma que "o bom entrevistador tem que ser psicanalista." Eduardo ri:

- Fiquei feliz, sim, quando percebi que tinha possibilidade de fazer Danuza falar o que podia. E também quando senti que minha presença era vivificadora e vivenciadora das possibilidades reais do entrevistado. Eu não estava nem encaminhando, nem intimidando, a pessoa que estava comigo, mas funcionando rigorosamente como psicanalista, aquele que se retrai para possibilitar a vida, que silencia para possibilitar a fala.

Foi exatamente este o ponto comentado por Roberto D'Avila, o entrevistador de Canal Livre, na TV Bandeirantes:

- Gostei de Interiores exatamente porque não poderia ter sido feito por um jornalista. Mascarenhas, além das perguntas, fez comentários. Se o programa não chega a ser psicanalítico, trata do existencial.

Para Eduardo, a diferença fundamental entre o jornalista e o psicanalista é, exclusivamente, de media:

- Na realidade, o clima do programa é o mesmo de um consultório psicanalítico, ao nível possível de uma transmissão televisiva.

O ambiente vermelho representa o interior, o sangue, a vida, o útero - idéia de Maurício Shermann. Já a lembrança dos dois tempos é de Mascarenhas, assim como õ verde que indica os intervalos, "anúncio da esperança". Interiores, ele admite, é simbólico todo o tempo:

- É mais uma tentativa de trazer o interior de Ingmar Bergman - apesar de ele não ser um apaixonado pelo diretor sueco - nórdico, para o interior embodeado brasileiro, esperançoso, caloroso, alegre e tropical. O importante é conseguir o nível de revelação profunda sem deboches, sem climas pornochanchadescos, sem imprensa marrom, sem escândalo, sem perguntas maliciosas, sem armadilhas ou intrigas. É uma demonstração de que, através do respeito, muito mais do que através da malícia, se pode alcançar a verdade e os níveis mais profundos da vida.

E, se em sua opinião, o psicanalista é o jornalista da alma, há certos aspectos para ele difíceis de abordar: "Não existe apenas a alma."

Uma das poucas críticas dos amigos foi quanto ao ritmo do programa, um pouco lento. O cineasta Arnaldo Jabor considera que está exatamente aí a maior qualidade de Interiores:

- Ele devolve à televisão o espaço democratizado para a pessoa falar como quer e não dentro da tiranis do timing. Porque há certos ritmos narrativos que são totalmente fascistas.

Jabor parodia o critico francês Luc Moullet, que diz ser a moral uma questão de travellings:

- Eu acho que a liberdade é uma questão de ritmo e de espaço livre. Você não pode circunscrever uma idéia a um tempo pré-determinado. Outra coisa importante é que a vida social, atualmente, tem que ser psicanalizada. E o Eduardo está fazendo a psicopatotologia da vida cotidiana brasileira. Isto por si só já é importante.

A psicanalista Eleonora Barbosa Mello também foi tomada por esta impressão. Ela considerava praticamente impossível Mascarenhas ocupar uma função psicanalítica:

- E durante todo o tempo, o que mais notei foi seu compromisso grande com a verdade. Ficou mais na escuta do que procurando aparecer como estrela. Foi um belo programa sobre uma mulher e acho que os demais também darão certo.

A visão profissional do cineasta Cacá Diegues registrou o surgimento, pela primeira vez na televisão brasileira, de um programa baseado na montagem:

- Tenho medo de dizer a palavra "cinematográfico" porque não existe diferença entre cinema e televisão. A TV é outra forma de fazer cinema. Além disso, durante uma hora, não assisti a um psicanalista, mas a um astro da televisão, uma pessoa transando este veículo.

Chamaram atenção dos cineastas presentes na casa do psicanalista os enquadramentos corretos, a cabeça dourada da entrevistada que em certos momentos parecia estar apoiada na moldura do aparelho e as mãos de Mascarenhas. Em meio às despedidas, Rui Solberg, profissional de audiovisuais, fez o comentário bem-humorado: "Enfim, alguém nos fez justiça." Falava mais como homem do que como profissional. Danuza havia se mostrado toda feminina. Nem um pouco feminista.

1981 - Primeira Novela de Sylvio de Abreu.

 O Globo
Data de Publicação: 25/10/1981

UMA NOVELA DIVERTIDA QUE PODE ATÉ CHEGAR À LOUCURA!

A partir de amanhã, às 19 horas, a Rede Globo vai mostrar uma nova trama, que valoriza o ser humano, encara seus problemas com muito humor e tem como regras fundamentais a luta, a esperança e a coragem. Seu nome: "Jogo da vida". A idéia básica surgiu de um conto - já publicado de Janete Clair. Juntos, Janete e Sylvio de Abreu criaram a sinopse. Dai para frente, sem perder o contato com a autora - ''se eu tenho a possibilidade de recorrer a ela, por que não?" -, Sylvio desenvolveu sua novela, a quarta que escreve para a TV. Entre suas propostas iniciais, está a de dividir a história em três fases. As duas primeiras, ele define como uma comédia humana, "uma grande preparação psicológica, em que os personagens se transformam em gente de verdade". A terceira já será uma comédia maluca mesmo, onde o autor fará as pessoas "enlouquecerem atrás de uma herança desaparecida".

A estréia de amanhã traz novidade em termos de novela: é a primeira vez que um autor - Sylvio de Abreu trabalha a partir da idéia de outro - Janete Clair. Ainda de férias, Janete aproveita seu tempo para brincar com o único neto, Ricardo, de 1 ano, enquanto se prepara para viver uma experiencia inédita em sua carreira: ser apenas espectadora de um trabalho seu.

- Vai ser ótimo acompanhar "Jogo da vida" sem nenhuma preocupação de autora. Nunca havia feito uma coisa assim. Sempre levo meus trabalhos até o fim. Mas o Sylvio é competentíssimo e achou o tom ideal para transformar minha história em uma novela alegre e de ritmo rápido, como convém ao horário das sete.

No original, eram apenas oito os personagens. Sylvio criou muitos outros e desenvolveu suas tramas. No centro de tudo, um casal, que se separa assim que a novela começa: Silas e Jordana. Neles, especialmente, o autor fundamenta a "questão feminina", que será um dos pontos mais destacados na história:

- "Jogo da vida" é uma novela para a mulher. O homem, inclusive, adquire um certo papel de vilão. Comparando o Silas e a Jordana, ele é o vilão e ela é a mocinha. Mas ela também tem erros. Submeteu-se ao marido, atrelou sua vida à dele durante 18 anos de convivência. Os dois começaram juntos, pobres. Jordana ajudou Silas a subir, mas não se ajudou. Ele procurou se aprimorar, estudou, enquanto ela continuou valorizando o passado. Até ser abandonada, aos 42 anos, por causa de uma menina de 20, que sabe se comportar, se vestir, e é uma boa presença para Silas, melhora seu status.

Entra aí o valor principal deste jogo: a luta Sozinha, Jordana é, força,da a se refazer, procurar caminhos próprios, reformular seus valores. Acaba indo trabalhar com d. Mena, uma velhinha excêntrica, e solitária, dona de grande fortuna, mas que vive num cortiço.

- Quatro sobrinhos que a abandonaram são o que resta de sua família. Eles não sabem que ela tem um milhão de dólares escondidos, além de um velho casarão. Quando os personagens descobrem a existência desse dinheiro, partem para a caça. A novela vira uma comédia louca!

Mas isto só vai acontecer lá pelo capítulo 100, segundo Sylvio. Até lá, sua maior preocupação é humanizar os tipos que criou:

- A novela é engraçada, mas com um outro tipo de humor, Mais próximo dei neorealismo, onde eu posso simular o singelo, o mágico, o simples. Existe uma intenção, é claro, um ponto de partida bastante sério. Lógico que tenho propostas! Mas elas aparecem dentro da comédia. E, para a gente achar uma coisa engraçada e ao mesmo tempo séria, é preciso acreditar nos personagens. Por isso, estamos tentando colocar humanidade dentro dos personagens. Quando o público passar a aceitá-los, eu posso partir para a comédia maluca. Faço as pessoas enlouquecerem atrás do dinheiro. Se eu pusesse isso de cara, no início da trama, ia fazer uma novela de brincadeira, cairia no erro de uma comédia superficial. Então optei por fazer primeiro uma preparação psicológica dos personagens, para o público entender o que cada um quer. Um verdadeiro quem é quem.

Em cima deste "quem é quem", Sylvio mexe com faixas etárias e sociais diferentes. Das histórias da mulher de classe média, de mais de 40 anos, e da velhice de d. Mena, surge a problemática dos jovens, que vão habitar o velho casarão, transformado em pensionato por Jordana. E é claro que o autor não pára por aí:

- Outro destaque é o Etevaldo, um homem de cerca de 60 anos, que sofre do coração e acredita que vai morrer. Tem a Beatriz, que não assume a vida, a filha, o amor, e vive sozinha, passiva. E também a Loreta, que já é um outro tipo de mulher. Os personagens femininos têm grande força na novela.

Mas é quase impossível falar de todos. Para cada um, Sylvio tem uma proposta, onde pretende discutir meros temas. Pau. lista, 38 anos, diretor e autor de roteiros cinematográficos, ele só faz questão de frisar que seu trabalho não tem a pretensão de se aprofundar em termos sociológicos:

- O que eu quero é levar "Jogo da vi" da" com muito humor, escrever uma história divertida de assistir. Eu acho que, para fazer uma novela que diga alguma coisa, não preciso, necessariamente, escrever uma obra sisuda. Posso ser profundo, mesmo na diversão.

PRINCIPAIS PERSONAGENS

Conhecedor de seu trabalho, Sylvio de Abreu sabe que, "no decorrer de uma novela, mil coisas podem acontecer". Por enquanto, tudo que tem é "uma história, um monte de personagens e uma trilha que eles estão seguindo, mas nada pode ser planejado com rigidez". Quer dizer, muita coisa pode mudar em "Jogo da vida" mas, basicamente, os tipos que ele criou serão assim:

- Jordana (Glória Menezes) - Alegre, extrovertida, boa mãe, amigo e excelente caráter, diz tudo que lhe vem à cabaça. Depois que enriquece, se inibe um pouco, com medo a cometer alguma gafe, mas mesmo assim comete várias. Esforça-se para melhorar e acompanhar a ascensão do marido, mas não consegue. Quando ele a abandona, sofre muito, pois o ama com grande intensidade. Só volta a ser otimista quando começa o construir um pensionato.

- Silos Ramos Cruz (Paulo Goulart) - Marido de Jordana. É simpático, educado e, ao mesmo tempo, machista, egoísta e ciumento. Só pensa em si e no seu próprio bem-estar. Depois que subiu na vida, passou a acreditar muito nos aparências. Freqüenta ótimas ambientes, tem amizades influentes e sente uma certa vergonha da esposa. Decide abandoná-la por absoluto e completo paixão por uma jovem de 20 anos, Carla.

- Lívia Ramos Cruz (Débora Bloch) - Filho de Jordana a Silas. Foi pobre na infância e não quer deixar de aproveitar tudo que o dinheiro pode oferecer. Admira o pai e gosta da mãe, embora preferisse que ela fosse diferente. Sofre com a separação dos dois e custa a aceitar a ligação de Silos com uma de suas melhores amigas.

- Oswaldo Ramos Cruz (Gracindo Júnior) - Irmão de Silos e seu testa-de-ferro nos negócios. Homem bom, até meio ingênuo, é mais tolerante com sua mulher do que Silos com Jordana.

- Rosana Ramos Cruz (Maria Zildo) - Mulher de Oswaldo. É o oposto de Jordana, a quem admira. Não faz muito boa idéia dos homens em geral. Confia desconfiando. Extremamente ciumento, está sempre atento ao marido, pois não quer perdê-lo de jeito nenhum. Cuida do cosa o do filho, Valdinho (Felipe Saddy), sem exageros. Trabalha numa empresa, como assistente social.

- Filomena Madureiro (Norma Geraldy) - É a grande chave da novela, conduzindo, desde o inicio, o fio principal da história. Desequilibrada, exótica, excêntrica, veio de família pobre, mas casou com um conde alemão. Só que ninguém acredita nela. Sente uma profunda magoa por ter sido abandonado pelo que lhe resta da família. Seu sonho é reabrir o pensionato, no antigo casarão que tem, poro fazer com que as mulheres voltem a ser femininas, embora acredite que elas têm todo o direito de conquistar um lugar melhor no sociedade.

- Beatriz Madureira (Débora Duarte) - Sobrinha de d. Mena, mãe de Ingrid (Cássia Fourreaux). Mulher difícil, introspectiva e amarga. Não se cuida, vive por viver. Culpa a todos por suas fraquezas. Com a volta do filho, que morou muitos anos no exterior, vai tentar recuperar o tempo perdido.

- Lafaiete Madureira (Carlos Vereza) - Sobrinho de d. Mena, mais conhecido como Badaró. Trapaceiro, sentimental e absolutamente ladino. Procurado pela polícia, por inúmeros delitos. Típico pequeno vigarista, sempre pulando na corda bomba. Quando descobre que sua noiva está casada com um homem rico, resolve dar o golpe de sua vida.

- Loreta Pires de Camargo (Rosamaria Murtinho) - Sobrinha de d. Mena, irmã de Lafaiete. Tem um filho, Eduardo (Ernesto Piccolo), é casado com um homem rico o detesta que lhe lembrem que vem de família pobre. Gostaria de apagar o passado. Não quer nem ouvir falar nos nomes do irmão contraventor e da tia, até saber que ela tem dinheiro. É esnobe, chique e muito bem relacionada no society.

- Álvaro Pires de Camargo (Mouro Mendonça) - Marido de Loreta, pertence a uma família tradicional. Como sempre foi rico, não tem os esnobismos da mulher. Sente um carinho especial por d. Mena o tem pena de sua solidão. Gostaria de encontrá-la, mas Loreta não permite. Na juventude, teve uma ligação muito forte com Guida Rivera. Hoje, é seu amigo, mas ainda não se perdoa de não ter casado com ela, cedendo às pressões familiares.

- Carla Barros (Maitê Proença) - Mimada pelos pais, pertence à classe média baixa, mas foi criado com todos os gostos e conforto das classes mais altas. Sempre teve de tudo o foi preparado para um casamento rico, o que vai conseguir através do relacionamento com Silos. Exigente, sabe que a beleza é um triunfo e usa a sua sem pestanejar. Fútil, alegre e de bom gosto, não é mau-caráter. Apenas sabe aproveitar as oportunidades que aparecem.

- Cacilda Barros (Suely Franco) - mãe de Carla. É despachada, ambiciosa e sempre sonhou com um bom futuro para a filha. Vive discutindo com os vizinhos, é meio reclamona, mas simpática. Usa e abusa da chantagem sentimental para conseguir o que quer.

- Celinho Barros (Ary Fontoura) - Pai de Carla, marido de Cacilda, é o oposta do mulher. Caladão, amigo, não entende como ela consegue arrumar confusão até com o verdureiro. Trabalho numa repartição público há muitos anos e tem como hobby fazer arranjos musicais para bandos do interior. Aliás, foi maestro de uma em sua cidade, antes de se mudar para a capital paulista.

- Adriano Barros Solos (Carlos Augusto Strazzer) - Afilhado de Celinho, advogado, veio do interior para completar seus estudos em São Paulo. É homem de muitas mulheres, está sempre bem acompanhado. Quando se sentir apaixonado por Lívia, vai se achar meio ridículo, gostando de uma garotinha.

- Dr. Etevaldo de Alencastro (Cláudio Corrêa e Castro) - Banqueiro riquíssimo, acredito que tem poucos meses de vida. Quando conhece Clarita, apaixono-se como nunca, uma verdadeira obsessão. Seu relacionamento com ela terá o efeito de um elixir da juventude, mas também trará conflitos.

- Clarita Madeiros (Lúcia Alvos) - Noiva de Rodará, telefonista de uma grande empresa, vai acabar casando com Etevaldo. Sentimental ao extremo, chora até com os recados românticos que ouve ao telefone, no trabalho. Obsecada por vestido de noivo, tem como um de seus divertimentos prediletos assistir a casamentos nos sábados à tarde. A volta de Badaró será um tormento para ela.

- Zelito Bonalutti (Roberto Azevedo) - Enfermeiro, confidente e grande amigo de Etevaldo, é quem tem a incumbência de aproximar Clarita do patrão. Depois do casamento dos dois, trata bem de Clarita, pois percebe que ela gosta realmente do marido.

- Manoel Vieira de Souza (Gianfrancesco Guarnieri) - Dono da padaria da rua em que mora Jordana, por quem é apaixonado. Sincero, ingênuo e sonhador, nasceu em Portugal, mas ama o Brasil, pois foi aqui que cresceu, lutou e conseguiu vencer. É alegre no serviço e muito querido no bairro. Não tom coragem de confessar sua paixão, mas vai ajudar Jordana a abrir o pensionato. Tem grande amor por seu filho de criação, embora implique com algumas de suas atitudes.

- Jerônimo Vieira de Souza (Mário Gomes) - Filho adotivo de seu Vieira, a quem adora. Seu apelido é Gero. Trabalha na padaria, sabe atender os fregueses e é um verdadeiro gala das domésticas do região. Sai com uma por dia. Vive metido em encrencas por causa de mulheres. Tipo gozador, que mexe com todo mundo, vai se transformar no terror das meninas do pensionato.

- Mariúcha (Elisângela) - Filha de uma amiga de Rosana, vem do interior para ficar em sua casa. À primeiro vista, parece uma santa, sempre disposta a ajudar e elogiar as pessoas. No íntimo, é extremamente o oposto. Má, não tem o menor escrúpulo para conseguir tudo o que quer. Usa a mentira como sua grande arma e o rosto de menina como escudo.

- Doris Gumm (Kate Lyro) - Eficiente professora de inglês, chegou há pouco tempo dos Estados Unidos. Dá aulas particulares para Eduardo, filho de Álvaro e Loreta, que costuma vê-la em sonhos de forma provocante, nas situações mais absurdas. É amiga de Beatriz e será uma das do pensionato.

- Guida Rivera (Íris Bruzzi) - Já foi vedete famosa no passado e quase casou com Álvaro. Hoje, sente-se frustrada por ter que trabalhar em pequenos shows noturnos, depois de ter sido uma grande estrelo do teatro de revista. É mulher de muitos segredos.

- Aurélia Creonte (Renato Franzi) - É a locatária de d. Mena, proprietária do cortiço onde a velha senhora aluga um quarto. Mulher esperto, cheio de planos mirabolantes, não perdoa um dia de atraso no pagamento de seus inquilinos. Só Filomena consegue enrolá-la e, por isso, ela tem raiva da velha. Não acredita que Mena tenha dinheiro e, para conseguir o pagamento do aluguel do quarto, começo o vender suas coisas às escondidas.

- Arnaldinho Rombo (Ricardo Petraglia) - Professor de etiqueta do pensionato de Jordana. Muito tímido e recatado, mas só no ambiente de trabalho. Assim que termina suas aulas, torna-se um farrista do pior espécie. Grande freqüentador do noite, é também admirador entusiasmado de Guido Rivera.

- Flávia (Angelina Muniz) - Aluna do pensionato, mente que veio do interior, mas é de São Paulo mesmo. Quer aprender boas maneiras, línguas, etiqueta, tudo que o pensionato pode ensinar. Como não tem dinheiro para isso, arruma emprego como uma dos moças do show de Guida. Tem sonhos de casar e melhorar de vida, mas não acha possível que isso aconteça, se continuar morando com a família. Terá ligação afetiva com Jerônimo, mas vai sofrer ao descobrir que ele não é o tipo que idealizou.

Eliana (Tássia Camargo) - Filha de um fazendeiro riquíssimo do Paraná, vai estudar no pensionato. Muito livre e alegre, torna-se amigo de Lívia. Seus pais são muito severos e, de vez em quando, vão ao pensionato, para ver como tudo funciona ali. Terá ligação forte com Jerônimo, mas cheio de obstáculos.

QUEM É QUEM

GLÓRIA MENEZES - Jordana

PAULO GOULART - Silas Ramos Cruz

DÉBORA DUARTE - Beatriz Madureiro

CARLOS AUGUSTO STRAZZER - Adriano Barros Cruz

GRACINDO JR - Oswaldo Ramos Cruz

MARIAZILDA - Rosana Ramos Cruz

MÁRIO GOMES - Jerônimo

LUCIA ALVES - Clarita Medeiros de Alencastro

MAITÊ PROENÇA - Carla Barros

ARY FONTOURA - Celinho Barros

SUELY FRANCO - Cacilda Barros

ELIZÂNGELA - Mariúcha

RICARDO PETRAGLIA - Arnaldinho Romão

DÉBORA BLOCH - Lívia Ramos Cruz

ÍRIS BRUZZI - Guida Rivera

RENATA FRONZI - Aurélia Creonte

KATELYRA - Doris Gumm

SONIA MAMEDE - Odete

ROBERTO AZEVEDO - Zelito Bonaiutti

ANGELINA MUNIZ - Flávia

ERNESTO PICCOLO - Eduardo Pires de Camargo

CÁSSIA FOUREAUX - Ingrid Madureira

ROSAMARIA MURTINHO - Loreta Pires de Camargo

MAURO MENDONÇA - Álvaro Pires de Camargo

NORMA GERALDY - Filomena Madureiro

CLÁUDIO CORRÊA E CASTRO - Dr. Etevaldo de Alencastro

GIANFRANCESCO GUARNIERI - Manoel Vieira de Souza

CARLOS VEREZA - Lafaiete Madureira

FELIPE SADDY - Valdinho Ramos Cruz

TÁSSIA CAMARGO - Eliana

Monday, August 10, 2015

1979 - Coojornal sobre a inauguração da TV Guaíba

Coojornal
Data de Publicação: 01/01/1979
Autor: Lenora Vargas
UMA TV CONTRA DUAS DITADURAS


Está no ar, desde o dia 10 de março, a quinta emissora de televisão de Porto Alegre - a TV Guaíba, canal 2, de propriedade do mais tradicional grupo jornalístico do Rio Grande do sul, a Companhia Caldas Júnior (Correio do Povo, Folha da Manhã, Folha da Tarde e Rádio Guaíba).

Adiado duas vezes em função de inúmeras dificuldades, o lançamento não se deu em condições ideais. A nova emissora, investimento entre 60 e 70 milhões de cruzeiros, entra no ar com menos de um terço das suas necessidades reais de equipamentos, com uma programação pensada em 40 dias e cobrindo apenas uma parte do horário normal.

Por trás dessas dificuldades, porém, uma proposta sempre sonhada e raras vezes oferecidas aos profissionais brasileiros de TV: a independência do jugo imposto pelas cadeias nacionais, controladas por emissoras do Rio e São Paulo. Até quando a TV Guaíba manterá sua pretensão inicial é uma questão que a própria equipe, embora confiante se coloca.

É questão fechada pelo diretor-presidente da Companhia Jornalística Caldas Júnior, Breno Caldas, a não filiação a qualquer rede. "Isso nos dá independência com o público, liberdade para colocar cada programa no horário que lhe é conveniente e não nos rabichos de tempo da transmissão nacional. Temos liberdade para mudar a programação à hora que acharmos interessante", assegura o diretor de programação, Clóvis Prates.

A pretensão vai ao ponto de a direção da Caldas Júnior, como já faz com a Rádio Guaíba, desprezar por completo o Ibope, o IVC (Instituto Verificador de Circulação) ou qualquer tipo de aferição padronizada. "Não estamos preocupados em competir com a novela, com a audiência massificada, mas em oferecer uma opção ao telespectador. Queremos um público intelectualmente mais elevado', expõe Prates. Ele acredita que a Guaíba conseguirá uma boa fatia desse público, "que tem sede de diálogo com o televisor".

Limitada pela falta de equipamento, a equipe foi obrigada a dividir a programação em fases. Na fase I - a atual nada mais do que uma etapa experimental, que deve durar até junho, está sendo veiculada produção local e nacional (programas comprados da TV 2 Cultura, da TV Sílvio Santos e das distribuidoras internacionais). Os programas locais onde predominam os temas políticos, econômicos ou esportivos - procuram valorizar o debate, ingrediente um tanto esquecido pelas nossas televisões de pós-64. Neste primeiro mês, a Guaíba tem colocado ao espectador temas tão polêmicos como a inflação, a denuncia vazia, o seqüestro do casal de uruguaio em Porto Alegre. "Em horário nobre, já temos mais produção local que a soma das outras emissoras (Piratini, Gaúcha, Difusora e a TV Educativa, estatal)", calcula Prates.

As chefias contratadas pela Caldas Júnior contam com dois outros valiosos trunfos para quem pretende fazer uma TV independente e de qualidade: carta branca da direção e tempo para elaborar os programas. Um terceiro elemento indispensável: bons salários, pelo menos para o mercado local. Um repórter de quatro horas ganha Cr$ 9.000,00, passando a Cr$ 9.600,00 em maio, informa Prates, também responsável pelas contratações, enquanto um da TV Difusora, por exemplo, recebe hoje Cr$ 4.300,00.

Com orgulho, Prates e Nelci Castro, o gerente de produção, afirmam que a ênfase para a programação local causou um tumulto (no bom sentido) no apertado mercado profissional gaúcho.

"Da Gaúcha, tiramos quinze profissionais, da Difusora treze, só para as áreas de produção e de programação (repórteres, cinegrafistas, editores de imagem, diretores e outros), ganhando desde 20% a mais até o dobro. Tem gente que quer vir por menos ou pelo mesmo salário, por estar descontente com seu emprego", afirma Prates. Ciaton Selistre, gerente de telejornalismo, atesta: "Tenho mais de sessenta fichas preenchidas de candidatos a minha área, uma loucura. A TV Gaúcha elevou os salários para poder segurar o pessoal".

Embora pagando o equipamento norte-americano, que ainda não tem data certa para chegar, mas é aguardado para maio/junho, a emissora adquiriu outros que não condizem com a sua filosofia de operação. "O problema", diz o gerente de produção, "não é botar uma emissora no ar, mas sustentá-la, corno estamos fazendo". O ideal, segundo ele, seria começar em julho, pois a preparação de uma nova emissora leva no mínimo seis meses. Por enquanto, a TV Guaíba opera com uma estação móvel equipada com quatro câmeras (duas fixas e duas semiportáteis), 1 câmera portátil e 2 filmadoras.

Para a fase II, quando os norte-americanos e japoneses já tiverem enviado as sete câmeras portáteis com vt (vídeo teipe) e as três ilhas de edição de vt, a Guaíba entrará com os noticiosos, programas do dia-a-dia e ampliará a cobertura esportiva, itens considerados como o filé da empresa Caldas Júnior.

O desafio mais difícil que a Guaíba enfrenta neste começo é na área comercial. No meio publicitário, há um consenso de que o mercado não comporta quatro emissoras comerciais, que pelo menos uma irá sucumbir na disputa. Acrescente-se a isso os quase quinze anos, de domínio absoluto do mercado pela TV Gaúcha, canal 12, integrante da Rede Globo, que gera até mesmo os pacotes de espaços publicitários a serem divididos pelas suas filiadas, em cada praça.

"O trabalho tem sido duro, eu posso dizer", confessa um dos diretores do departamento comercial, Paulo Russomano, profissional com mais de trinta anos de experiência neste ramo. Entrando em março, a Guaíba ficou fora das verbas normais das agências e, por ser nova, sua programação ainda não captou a confiança dos mídias, embora elogiada pelos publicitários. O departamento comercial tem lutado para conseguir as verbas adicionais das agências. "Tem ainda a mudança de Governo, em que o pessoal está pensando onde e como vai aplicar o dinheiro", acrescenta Russomano.

Para tentar uma brecha,a Guaíba saiu com uma tabela abaixo do mercado, válida para estes três primeiros meses, e dela não se afasta, segundo orientação rígida da direção. "Perdemos negócio mas não vendemos por menos". Os concorrentes, porém, já contra-atacaram: com exceção da TV Gaúcha, que está tranqüila, as outras emissoras deram ampla flexibilidade às suas tabelas, chegando a reduzi-las à metade. Também barganham com o alcance de suas transmissões, enquanto a Guaíba, ainda está medindo até onde vai a sua imagem.

No contra-ataque estão previstas também mudanças nas programações. A TV Piratini, canal 5, terceira colocada em audiência no estado, prepara uma serie de novos programas não só para a TV como para a Rádio Farroupilha, que receberá 21 programas bolados pelo seu novo diretor de programação, Flávio Alcaraz Comes. Em relação à audiência, a Guaíba sofrerá mais um impacto: desde o dia 4 de abril está no ar a novela das 20 horas da Bandeirantes, retransmitida no Rio Grande pela TV Difusora. "Já pensou nós no meio disso tudo"? - pergunta. Russomano.

Estas questões, porém, não preocupam os escalões mais altos da empresa, unânimes em afirmar que a Guaíba briga pelo segundo lugar. "Só fixaremos metas após estudar o comportamento dos três primeiros meses", garante o diretor do Departamento comercial, Ênio Berwanger. Uma certeza pelo menos todos manifestam - a de que o grande pique virá no segundo semestre, quando o filé for ao ar.

1981 - Presidente Figueiredo e as TVs

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 29/05/1981

FIGUEIREDO AUTORIZA PRORROGAÇÃO PARA CONTRATOS DE TVS

Brasília - O Presidente da República autorizou o Ministério das Comunicações a prorrogar por mais 30 dias o prazo para a assinatura dos contratos de concessão entre o Ministério e os dois grupos vencedores da licitação para a exploração de duas novas redes de televisão. O pedido do Ministro Haroldo Correa de Mattos foi feito em exposição de motivos ao Chefe do Governo.

O Ministro das Comunicações informar que no processo de análise dos contratos surgiram algumas dúvidas jurídicas que precisam ser esclarecidas, "para que mais tarde, num futuro remoto, não surjam problemas". Disse que se está buscando uma solução definitiva que atenda o direito de todos e não prejudique o mercado de trabalho.

DIÁRIOS ASSOCIADOS - Em São Paulo, o Sindicato dos Radialistas e os funcionários dos Diários Associados aguardam para segunda-feira, 1° de junho, a visita do diretor do departamento jurídico do Ministério das Comunicações. Tomarão, na ocasião, uma posição diante dos novos problemas apresentados: o pedido do Grupo Sílvio Santos para que os funcionários façam um contrato coletivo de trabalho e a ação de Edmundo Monteiro e Armando Oliveira, que pedem indenização como condôminos.

A audiência de instrução e julgamento da reclamação trabalhista proposta pelos dois ex-condôminos contra empresas do condomínio acionário das Emissoras e Diários Associados foi marcada para 5 de junho, às 14h15m, na 16ª Junta de Conciliação e Julgamento.

Os reclamantes, Edmundo Monteiro e Armando de Oliveira, alegam que desde o dia 18 de julho de 1977 não recebem salários, estando assim caracterizada a despedida indireta. Eles pretendem receber Cr$ 24 milhões de salários vencidos: Cr$ 10 milhões 846 mil 221,25, para Edmundo Monteiro, e Cr$ 13 milhões 414 mil 474,50 para Armando Oliveira.

A proposta dos dois excondôminos repercutiu negativamente entre os empregados em greve há um ano, e um porta-voz Sindicato dos Radialistas, Humberto Mesquita, declarou: "É profundamente lamentável que o Governo federal não tome providências contra o abuso dos condôminos dos Diários Associados, que ainda querem indenização por um patrimônio que dilapidaram". O sindicato dos Radialistas promoverá, no dia 5 de junho, uma passeata diante da sede da Justiça do Trabalho, em protesto contra o pedido de indenização dos dois ex-condôminos.

DIVIDAS - A segunda assembléia marcada pelo Sindicato dos Radialistas para atender o pedido do Grupo Sílvio Santos de que façam um contrato coletivo de trabalho não obteve quorum. Seria necessária a presença de 292 funcionários das Emissoras e Diários Associados, mas só compareceram 230. Como esta é a segunda vez em que não há quorum, "o assunto não será mais alvo de discussão.

Ficou claro para a entidade que os funcionários não estão interessados na idéia do contrato coletivo de trabalho, proposto pelo Grupo Sílvio Santos, e segundo o qual os salários de abril e maio já estariam por conta do novo dono dos Diários Associados, embora ainda não tivesse sido assinado o acordo de concessão do canal pelo Governo federal.

O Grupo Sílvio Santos não assinou essa concessão porque passaria a ser o sucessor de toda a dívida da empresa, cifra até agora impossível de calcular devido a dificuldades criadas pelo próprio sistema de condomínio. Sabe-se, porém, que a dívida dos funcionários com a Caixa Econômica Federal, durante todo esse tempo de greve, chega a mais de Cr$ 300 milhões. Na Justiça do Trabalho, a dívida dos Diários Associados atinge Cr$ 1 bilhão e 500 milhões.

1970 - Chacrinha, o Velho Guerreiro

 Última Hora
Data de Publicação: 21/5/1970
Autor: Dácio Malta
CHACRINHA DÁ AULA NA FACULDADE
A Faculdade Cândido Mendes inaugura, em Junho, um novo curso - o de Comunicação. Entre os professores, estará Abelardo Barbosa. É como ele vai ser chamado pelos alunos. Seus ensinamentos - diz - não terão a norma de aula e sim de debate.

McLuhan é McLuhan, Pignatari é Pignatari. Chacrinha prefere ficar na dele.

- Minhas aulas serão dadas dentro das minhas possibilidades. Como eu sou e como sinto No meu português.

Nas suas aulas, o "Velho Guerreiro'' pretende ser o professor, no duro, não o animador da "Discoteca" ou da "Buzina".

- Trabalharei dentro da maior dignidade. Pode ser que me apresente até de fantasia. Mas com dignidade.

O convite não foi o primeiro. No ano passado, Chacrinha havia sido chamado para fazer uma das conferências do ciclo sobre Comunicação de Massa promovido pela Maison de France. Na próxima semana, o Museu da Imagem e do Som também começa um curso sobre comunicação. As fantasias do "Guerreiro" estarão expostas .

EM 43, OS GRITOS - Chacrínha surgiu no rádio em 1943. Já naquele tempo, ele gritava: "Teresinha". Não existia o termo comunicador. Dizia-se que fulano ''transmitia".

- Heber de Bôscoll era um homem que "transmitia" muito, quando eu entrei para o rádio. César de Alencar e Paulo Gracindo também "transmitiam" muito bem.

Mas Chacrinha quis logo romper com tudo. Criou a imagem de um novo comunicador. Em seu programa - Cassino do Chacrinha - ele já berrava, cantava, fazia barulho e tudo aquilo que fizesse o programa parecer ao vivo.

Começava assim:

- O Mandarim manda ou não manda? O mandarim manda, porque é o rei dos barateiros. Está aqui o Joaquim com a jaca na cabeça e Linda Batista cantando para vocês...

No ano em que ele começou no radio, houve, certa vez, um "show" na Quinta da Boa Vista.

- Eu me lembro como se fosse hoje. Era um espetáculo promovido pela P-R-E-Neno, uma espécie de "cast" de amadores mantido pela Casa Neno. E eu fui convidado. Quando cheguei, a Quinta estava superlotada. Subi no palco, olhei a multidão e lancei, pela primeira vez, em público, o meu grito de guerra: "Teresiiiiiinha". Aquilo ressoou por toda a Quinta e todos responderam: "ôô, ôôôô". Portanto, se a gente for acreditar na autenticidade das coisas, eu já devia ser comunicador desde 1943. Só que naquele tempo a palavra era "transmitir", em vez de "comunicar"'.

DEPOIS, A TELÉVISÃO

Veio a televisão. Chacrinha tinha tamanha certeza de que faria sucesso no novo veiculo, que não desanimou. Insistiu sempre.

Logo que a televisão chegou, somente a Classe A tinha poder aquisitivo para comprar um aparelho. Chacrinha começou a fazer, na televisão, as mesmas coisas que fazia no rádio. O publico não aceitou: "Este sujeito e doido varrido, é débil mental, e louco perigoso".

- Durante vinte anos, os caras pensaram que eu era maluco, bobalhão. Eu sou meio bobalhão mesmo, mas não tanto assim.

Em 1961, Chacrinha saiu da TV-Tupi e foi para a Rio. Foi aí que a Discoteca principiou a tomar corpo. O público passou a aceitá-lo. Mas os críticos não.

Chacrinha, mais uma vez, começou a ser malhado.

Mas ai chegou ao Brasil, "um francês chamado Edgar Morin".

- Antes de voltar para a França, Morin declarou que eu era o maior comunicador de massas do Pais. Como o francês era um sujeito considerado, a critica passou a abrir os olhos para mim e as coisas começaram a tomar um novo aspecto para o meu lado. Começaram a falar bem e falando, falando, falando, eu acabei virando ''comunicador''. E fazendo as mesmas coisas que fazia antes: dançando, cantando, berrando, vestindo fantasias e todas essas coisas.

CAETANO AJUDOU

Chacrinha admite que Caetano Veloso muito o ajudou na conquista da Classe A.

- Ontem mesmo eu estava falando sobre isso. Caetano, através de seu empresário Guilherme Araújo, mandou-me um recado, dizendo que queria conquistar o meu público. Mas eu também queria conquistar o público dele. Fizemos um acordo e "reaaaalmente" Caetano, Gil e Gal muito contribuíram para que eu conquistasse a classe média intelectualizada e a Classe A.

Quanto às fantasias, Chacrinha diz que as usa desde 1956.

- E olha que naquele tempo ninguém ainda falava em "hippie", em "happening", nem em porcaria nenhuma.

Para o "Velho Guerreiro", todos nós somos comunicador:

- Uns mais, outros menos.. Juscelino Lacerda, Getúlio e Pelé: grandes comunicadores Até um balconista é comunicador. Você entre numa loja para comprar uma gravata e se tiver dinheiro, compra até uma dúzia, isso porque aquele balconista é bom balconista, porque é um bom comunicador.

AS NOVAS IDÉIAS

"Teresinha, roda, roda vamos raciocinar em bloco". Chacrinha não parou aí. O mais novo trono da "Buzina" é o das novelas.

- Isso foi idéia do Boni, diretor da TV-Globo. Ele agora nos Estados Unidos e viu um programa que era feito por amadores que satirizavam os filmes. Isso eu já fazia no meu programa "Rancho Alegre", em que o primeiro "cowboy" foi o Paulo Bob. Depois, foi ó Carlos Imperial e, por fim, o Jorge Fridman. Eu era o xerife. Tudo que fazem por ai afora, eu já fiz há muito tempo. Outro exemplo é o disc-jóquei Eu sou considerado o primeiro discjóquei do Brasil Em 1943, eu já fazia isso no rádio. Depois foi que eu soube, em 1947, que esse tipo de programa era o maior sucesso nos Estados Unidos.

Chacrinha encerra a entrevista:

- E... eu acho que sou o cara do ano 2000.

A AUTORIDADE DO MESTRE

Esse homem, José Abelardo Barbosa de Medeiros, lutou desde 1943 para que o público o aceitasse com a sua loucura. De tanto insistir, conseguiu a aprovação do público e da crítica, que o considera hoje o maior comunicador de massas do Brasil.


No ano passado, em São Paulo, durante a solenidade de formatura dos alunos da Escola Superior de Propaganda, o paraninfo Fernando Almada fez até um apelo aos ex-alunos:

- Eu gostaria de pedir a vocês que lessem sempre o "Advertising Age", (a mais importante revista de publicidade do mundo), mas sem deixar de assistir, de vez em quando, aos programas do Chacrinha.

1981 - Galvão Bueno na Bandeirantes

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 24/01/1981
BANDEIRANTES QUER HUMOR NO ESPORTE

A TV Bandeirantes está reformulando completamente seu setor esportivo. Logo após o Mundialito, durante a Copa Internacional de Futebol promovida pela Portuguesa de Desportos, Fernando Solera deixou de ser a voz principal nas transmissões esportivas. Em seu lugar estreou o narrador Nei Costa, até então apresentador de um dos programas da emissora, o musical "As Mais Mais". Com ele, voltou ao jornalismo esportivo Edson Curi, que perdeu seu programa de auditório em meados do ano passado. "Bolinha" faz as reportagens de campo.

Agora, as modificações atingiram o chefe do Departamento de Esportes, Darci Reis. Um dos mais antigos profissionais da Bandeirantes, responsável por uma programação esportiva que liderou a audiência durante alguns anos, ele foi demitido nesta semana e substituído interinamente, por Fernando Solera. Galvão Bueno, produtor e narrador do departamento (fez as transmissões do campeonato de Fórmula -1), foi transferido para a Bandeirantes do Rio de Janeiro, onde chefiará o esporte, junto com Paulo Stein.

Segundo o diretor de programação da emissora, Cláudio Petraglia, as modificações foram necessárias para a implantação de um novo esquema de esportes, que terá uma transmissão de futebol mais descontraída. A Bandeirantes está atualmente no terceiro lugar da audiência de futebol, atrás da Record, que tem sucesso justamente pelo estilo descontraído do narrador Sílvio Luís. Mas Petraglia nega que a Bandeirantes esteja optando por uma narração mais "leve" por razões de mercado.

- Nós vamos fazer uma programação toda baseada na alegria e no bom humor em 1981 - explica ele. -Vamos enfrentar uma crise terrível neste ano e a indústria de diversões tem a obrigação de trabalhar para levantar os ânimos, manter elevado o humor. De um modo geral, esse será o esquema de toda a programação e do esporte também.

Ainda não foi definido quem substituirá Darci Reis no comando do esporte da Bandeirantes. A emissora procura também narradores para Belo Horizonte e Salvador. O objetivo é formar equipes esportivas em cada uma das emissoras da rede e manter Nei Costa para as transmissões de âmbito nacional.

1981 - Novelas Brasileiras em Portugal

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 19/01/1981
Autor: Juarez Bahia
A TELENOVELA BRASILEIRA MUDA DE HORÁRIO
LISBOA - Água Viva, a nova telenovela brasileira do canal 1 - o de maior audiência - da Radio-televisão Portuguesa e que substitui Dona Xepa, com um elenco encabeçado por Lucélia Santos, Betty Faria e Reginaldo Farias, ainda não se impôs à admiração dos telespectadores, pois acaba de estrear, mas já se tornou o assunto mais discutido no país, por causa do horário.

A direção de programas da Radio-televisão Portuguesa resolveu antecipar a telenovela das 20h30m para as 19h45m. Isso foi o suficiente para desencadear um profundo mal-estar nos telespectadores e dilúvios de protestos encaminhados ao Governo, ao Parlamento e naturalmente ao canal 1. Milhares de cartas e telefonemas, declarações "os jornais e no rádio reclamam o horário antigo.

O horário de apresentação das telenovelas brasileiras em Portugal - os canais 1 e 2 têm sempre uma em exibição e, agora mesmo, enquanto Água Viva passa no 1, Malu Mulher passa no 2 - é uma velha questão que apaixona os diretores da Radio-televisão Portuguesa, os telespectadores e parcelas especiais dos espetáculos públicos como o cinema, o teatro e os shows.

Há quatro anos que a Radio-televisão Portuguesa apresenta as telenovelas brasileiras, consideradas aqui as mais perfeitas do mundo. E sempre no horário das 20h30m, apesar da oposição dos exibidores cinematográficos e do pessoal de teatro e shows, que têm como ajuda o apoio dos sindicatos do comércio varejista e de bares e restaurantes.

Foi para atender a esse clamor, que acusava telenovela de retirar público desses locais, que Radio-televisão Portuguesa criou o novo horário das 19h45m, sem contar que nesse momento população urbana ainda está-se deslocando de seus serviços para casa. Daí a grande quantidade de reclamações encaminhadas por populares e donas-de-casa à direção de programas do canal 1.

O canal 1 está diante de um impasse. Como Portugal enfrenta os rigores de uma seca que transforma 1981 no pior ano agrícola de sua história, e há racionamento de eletricidade, as transmissões normais da Radio-televisão Portuguesa só vão até às 23h. Em nome dessa realidade é que também foi alterado o horário da telenovela. Ma os portugueses não querem saber disso e pedem que outros programas sejam alterados, mas não telenovela.

Um debate na própria televisão, com a presença da Secretaria de Estado para a Família, de representantes do cinema e do teatro e de diretores do canal 1, aconselhou a direção de programa a reestudar o horário e tentar atender o clamo popular que deseja voltar às 20h30m. Segundo o canal 1, a grande dificuldade reside em ajustar telenovela ao telejornal e ao resto da programação do horário nobre, dentro dos limites da portaria governamental que impõe as transmissões até à 23h.

1981 - Dercy Gonçalves em novela de Sérgio Jockyman

 Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 10/01/1981

DERCY EM ''DULCINÉA'', AGORA COMO ELA GOSTA


A partir do capítulo 41, que deve ir ao ar no próximo dia 22, os telespectadores de "Dulcinéa Vai à Guerra", na Bandeirantes, terão uma boa surpresa: Dulcinéa, a dona do café-teatro Mambembe, terá um comportamento muito mais irreverente, popular, e um linguajar "desbocado", para valer, do jeito que os fãs de Dercy Gonçalves gostam.

Quem decidiu fortalecer ou simplesmente soltar a personalidade da personagem foi Jorge Andrade, dramaturgo que para o canal 13 só escreveu "A Mulher Diaba", terceiro programa da série "Brasil Especial", mas que é respeitado por outros trabalhos no ramo da telenovela (e também, claro, por sua obra teatral). Há alguns anos escreveu para a Globo "Os Ossos do Barão" e a polêmica "O Grito", e depois, para a extinta Tupi, "As Gaivotas".

Convidado na semana passada por Walter Avancini, diretor-geral de novelas da emissora para substituir Sérgio Jockyman, Jorge aceitou e se dedica inteiramente ao trabalho: "Estou mudando tudo. Pretendo aproveitar a capacidade histriônica de Derci e fazer tudo girar em volta dela, que tem um tom de humor magnífico. Vou respeitar a personalidade da atriz, para mim a melhor do teatro brasileiro. De agora em diante, Derci Gonçalves terá o comportamento que deveria ter falando o que pensa. Mas isso vai ser tratado com profundidade."

Jorge Andrade não quer dizer tudo sobre essa reviravolta, mas revela alterações importantes no elenco, ou melhor, inclusões que se tornaram necessárias conforme nasceu sua história. Entram, Maria Fernanda, Benjamin Catan, Sônia Oiticica, Bete Mendes e Hélio Souto: ''Não posso falar sobre seus papéis porque estragaria a surpresa, só digo que Maria Fernanda vai fazer uma suposta nobre portuguesa, que na verdade é uma vigarista internacional. Do elenco anterior alguns saíram, mas porque já não tinham nada a fazer na novela.

De acordo com a sinopse apresentada pela emissora no lançamento de "Dulcinéa Vai à Guerra", no início do mês de dezembro, quando Jockyman já havia escrito metade da novela, um dos objetivos principais era tratar do problema do menor abandonado. Jorge afirma que a centralização da história em Dulcinéa não quer dizer que os outros atores terão menos importância. "Suas personagens são vivas e cada uma tem sua dimensão. A proposta era discutir o problema do menor, mas o fato de colocar meia dúzia de garotos no elenco, não significa isso. Agora dou a importância que o problema tem, através da Dulcinéa, mostro a grandeza, a beleza de sua alma ao fazer tudo pelos meninos, marco a força de uma mulher que aceita um jogo cômico para conseguir Isso. ''

O dramaturgo não quer aprofundar a conversa sobre o que representou a novela até agora, mas crê que ela será mais polêmica: "Como estou mexendo na história, dei outra dimensão ao papel de Agnaldo Raiol, o Tales, um médico que saiu de uma favela. O objetivo, ao tocar no assunto do menor abandonado, é dar informações e discutir a coisa de verdade."

Enquanto membros da família de Sérgio Jockyman, em Porto Alegre, alegam que o autor está acamado, com gripe e sem possibilidade de dar entrevista, aqui Valter Avancini explica sua saída com tranqüilidade: "A bem da verdade, o estilo de Jockyman provocou um equívoco quanto ao melhor aproveitamento de Dercy Gonçalves na novela. Foi só isso, um problema de estilo de texto. Então nos reunimos, conversamos, e ficou tudo bem. Partimos para um novo esquema junto com Jorge Andrade, que tem um espírito que conhecemos, basta lembrar de "Os Ossos do Barão". A previsão é que ''Dulcinéa'' continue até principio de março, com a mesma direção, de Henrique Martins, e quanto a Jorge, há projetos futuros na área dos especiais.

1981 - Bruna Lombardi demitida da Bandeirates

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 07/01/1981

NOVO CAPÍTULO DE BRUNA COM A BANDEIRANTES

"Um mal-entendido, uma informação deturpada e distorcida intencionalmente, que chegou à direção e provocou uma reação muito drástica". Assim a atriz Bruna Lombardi explicou ontem o incidente com a TV Bandeirantes, que resultou em sua demissão e na do ator Carlos Alberto Riccelli dos quadros da emissora. Os dois foram demitidos anteontem porque faltaram à gravação da novela "Um Homem Muito Especial", marcada para os dias 2 e 3 de janeiro, e teriam aliciado outros atores a também faltarem ao trabalho, segundo o supervisor do núcleo de novelas da Bandeirantes, Valter Avancini.

Bruna disse que está doente há 15 dias, enfrentando um processo alérgico provocado por estafa e que agravou-se em um começo de desidratação. Por recomendação médica, deveria licenciar-se do trabalho por um período mínimo de uma semana, mas não o fez para não prejudicar os trabalhos finais de gravação da novela, que terminam no próximo sábado. Com o feriado de final de ano no meio da semana passada, Bruna disse que ela e Riccelli pediram "com antecedência" ao diretor da novela, Atílio Riccó,, para faltar no dia 2, já que não tinham gravação no dia 3.

- Nós avisamos que íamos faltar e a coisa ficou assim, não houve proibição, nem nada. A gente nunca faltou nenhum dia e nunca teve um atraso. O nosso trabalho é profissional e responsável. Com uma ficha limpa, achamos que não tinha importância faltar um dia, já que estava avisado. E por consideração ao resto da equipe, telefonamos para os colegas avisando que não íamos gravar. Foi uma coisa muito aberta, não houve nada de "aliciamento" ou coisa do tipo. O problema é que em televisão há muita fofoca e a informação chegou deturpada à direção, como se nós estivéssemos nos recusando a trabalhar e dizendo aos outros para fazer o mesmo.

Atestado médico na mão, acompanhados de um advogado, Bruna e Riccelli reuniram-se anteontem com o presidente da Bandeirantes, João Saad, e Valter Avancini até depois das 23 horas. Os dois têm contrato com a emissora até maio e não aceitam a demissão, muito menos a multa por rescisão do contrato. Se for o caso, irão à Justiça.

- A medida legalmente não é válida - disse Bruna. Você não pode demitir alguém porque faltou um dia. Se puder, está-se abrindo um precedente muito perigoso. Mas eu creio que a Bandeirantes é uma empresa idônea, que vai honrar o contrato conosco.

Demitidos ou não, o certo é que Bruna e Riccelli não serão vistos nos Capítulos finais de "Um Homem Muito Especial''.

1981 - Rosa Baiana na Bandeirantes

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 06/01/1981
Autor/Repórter: Tarso de Castro
BANDEIRANTES ACERTA, DESTA VEZ

A direção da TV Bandeirantes merece elogios, vejam só. Pois encontro, quase que ao acaso, em Salvador, figuras como Gianfrancesco Guarnieri, Maurício do Vale, Aninha Magalhães, enfim, um excelente grupo de atores que se dedicam à gravação da novela "Rosa Baiana". Hoje não entro em detalhes sobre o que a novela virá a ser, exatamente. Nem posso, nem é muito do meu ramo, já que disso se encarrega a nossa Helena Silveira, noveleira e novelada emérita. Me atenho aos propósitos - e creio que isto, com o perdão da palavra - é o que há de mais positivo no que pude verificar.

Vejamos: tenho brigado muito com a Bandeirantes quanto à sua mania de entrar no mesmo esquema da Globo em muitos aspectos de seu trabalho. E um desses aspectos se refere justamente ao fato de que, de uma maneira geral, a Bandeirantes insistiu em se manter dentro dos mesmos padrões que 'fizeram da emissora do "integro e jovem" doutor Roberto Marinho o dono da opinião pública nacional. Isso com uma generosa dose de "nihil obstat" governamental.

Pois bem: vinha a acontecer, então, que todo o esquema de novelas feito pela emissora paulista seguia rigidamente o jogo anteriormente traçado pelos cariocas globais. Vai dai que se incorria em todos os erros possíveis do ponto de criatividade, uma vez que nunca, em hipótese alguma, se saia do estúdio. Existem cenas externas, é claro, mas estas também obedecendo ao pobre esquema de estúdio, coisa que o cinema abandonou há muito tempo, pois representava uma verdadeira agressão ao público.

"Rosa Baiana" é, assim, a primeira novela feita em locação. Por isso, naturalmente que o seu resultado, surjam falhas de onde surgirem, só poderá ser positivo. Atestam isso os entusiasmados atores desse trabalho pioneiro que agora se realiza em Salvador.

Vejamos um outro aspecto do negócio: ele é culturalmente importante. Mais ainda quando se sabe que, de maneira geral, as televisões praticamente evitam mostrar qualquer coisa realmente ligada à natureza. Se vocês observarem bem, o telespectador brasileiro conhece mais as cidades de São Francisco e Nova York, como conhece o Hawai, enquanto desconhece o que há no seu próprio País. É claro: as emissoras adoram as séries estrangeiras, em detrimento das brasileiras, que vão acabando suas carreiras melancolicamente. Claro que entra uma questão de economia no caso: nada mais evidente que os patrões preferem pagar cem dólares por um péssimo produto estrangeiro - com toda sua carga de colonialismo - do que bancar um bom espetáculo que tenha nossos costumes e nossos atores. É um crime contra a cultura nacional.

O que isso tem a ver com novela? Simples: à medida em que você condiciona o telespectador a engolir o lixo alienante internacional, ele estará automaticamente preparado para ver qualquer outra coisa, ainda que produzida aqui mesmo, dentro de um enfoque copiado do exterior.

Assim são os musicais da Globo, por exemplo - na sua grande maioria "chupados" das coisas lá de fora. Em parte, sobram, às vezes, os especiais feitos pela equipe de Daniel Filho, Luis Carlos Maciel, etc. Mas é pouca coisa. Do "Fantástico", nem falar.

Volto a "Rosa Baiana": ela vai mostrar ao brasileiro, finalmente, a Bahia, que é um dos mais belos quadros do País e um dos que mais têm a oferecer a todos nós, pela sua postura e cultura. No mais, se estará anulando o terrível estúdio, onde cada ator se acha um cachorro. E é - dependendo do humor dos diretores. No caso dessa novela da Bandeirantes, torço muito: é um belo passo. E uma bela escola para os atores e diretores. Todo mundo tem se perguntado como se poderia renovar o esquema de novelas. Gostaria que "Rosa Baiana" trouxesse a bela resposta que deverá ser.

A benção, santos.

1981 - Ferrugem e as crianças famosas da TV

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 01/01/1981

OS FILHOS PROBLEMA DA FAMÍLIA TV

Provavelmente muitos deles já estão condenados pela máquina a serem psicologicamente crianças-adulto para sempre. Ou fisicamente, como Ferrugem aos 11 anos tem tamanho de seis e gasta tudo o que ganha na TV para vencer um distúrbio da hipófise que atrapalha seu crescimento

Crescer sempre foi o grande problema dos meninos prodígios do cinema e da televisão. Hollywood, por exemplo, nunca soube muito bem o que fazer com Mickey Rooney quando ele começou a ter de se barbear duas vezes por dia. E Judy Garland era constantemente multada pela Metro por se apresentar de ressaca para a filmagem, embora tivesse apenas 14 anos. A carreira de Shirley Temple começou a declinar quando o estúdio se deu conta de que seus cachos não estavam combinando com o busto que insistia em emergir. No fundo, o problema do cinema não foi exatamente o de que seus meninos prodígios cresciam - a idade mental dos espectadores é que estava crescendo. Em meados dos anos 30, ninguém mais seria capaz de admitir Mary Pickford - mãe de família várias vezes - interpretando Pollyanna.

Seja como for, o menino Luís Alves Pereira Neto, conhecido no Brasil inteiro pelo apelido de Ferrugem, provavelmente nunca terá esse problema: aos 11 anos, sua altura não ultrapassa a de uma criança normal de seis - e tudo indica que ele não crescerá muito mais, devido a um distúrbio em sua glândula hipófise. Assim, enquanto tamanho for documento para seu estrelato infantil, Ferrugem terá futuro assegurado na televisão.

Claro que, para seus pais, a carreira artística de Ferrugem é, por enquanto, um acidente. Na realidade, só querem que ele cresça, e quanto mais depressa melhor. D Maura, sua mãe e agente, explica:

Já não sei o que fazer. Ferrugem fez um tratamento, mas cresceu muito pouco. Agora precisamos comprar um remédio sueco que custa Cr$ 1 mil a ampola, num total de 10 por mês. Como ele ganha apenas Cr$ 5 mil na TV Tupi, tem de se defender trabalhando em comerciais. Se não, o dinheiro não daria nem para o tratamento.

Isto, de certa forma, abala bastante a idéia de que a vida de um miniastro é um sonho dourado, trabalhando em pé de igualdade com os grandes ídolos da televisão e ele próprio convertendo-se, aos poucos, também num ídolo. A carreira de Ferrugem nunca chegou a ser fácil. Morando com sua família em Barretos, a 450 quilômetros de São Paulo, foi descoberto pelo produtor Lúcio Mauro e convidado a trabalhar em Gente Inocente. Durante um ano Ferrugem dividiu-se entre São Paulo e Barretos, para trabalhar e estudar, acabando por não fazer direito nem uma coisa, nem outra. Finalmente sua família mudou-se para São Paulo, indo morar na Lapa (um bairro tradicionalmente de operários), o que pelo menos poupou-o das idas e vindas.

Há algum tempo, Ferrugem saiu do Gente Inocente, passando a aparecer em Domingo É Dia de Graça, ao lado de Costinha. Ás vezes grava oito horas por dia na TV Tupi, ao vivo, ouvindo toda espécie de desaforos que os produtores dirigem ao auditório, pedindo silêncio. Ferrugem sempre sabe suas falas de cor, porque, segundo sua mãe, não gosta de usar o ponto na orelha - um aparelhinho que dá as deixas para a entrada em cena e que hoje substitui o antigo ponto do teatro, encerrado numa caixa. (Costinha, por exemplo, não consegue decorar seus textos. Apesar disso, os dois se dão bem, e há pouco fizeram um filme juntos, Costinha e o King Monk, a estrear em junho.)

Ferrugem tem oito irmãos. Seu dia é passado em cima de scripts e dos deveres do Colégio Campos Sales, em São Paulo. "As aulas em primeiro lugar", diz. D Maura acrescenta que ele é "um garoto responsável e aplicado." Mas, com todo o seu sucesso, Ferrugem não se sente satisfeito: o que gostaria mesmo é de morar no Rio, para ir à praia e - embora corintiano de coração - ver o Flamengo (seu time favorito) jogar. Seu prato favorito é macarrão com batata frita e ele tem rigorosa formação religiosa:

Nunca vi Nossa Senhora, mas deve ser parecida com minha irmã Marisa.

Em novela, criança e bicho são indispensáveis. Se possível, reúna os dois", diz Gilberto Garcia, que trabalha no Departamento de Elenco da TV Globo. Nos seus fichários contendo nomes, fotografias, idade, peso e habilidades de centenas de pessoas, há também inúmeras crianças que esperam por um contrato como atores. Por coincidência, seus três filhos foram alguns dos contemplados:

Rosana, Isabela e Ricardo são extremamente profissionais na hora das gravações. Fora da televisão, são crianças normais. Encaram o trabalho apenas como diversão. E faço questão de que estejam na cama às nove da noite.

Rosana, a Narizinho do Sítio do Pica-Pau Amarelo, está longe de ser estreante. Aos cinco anos trabalhou com Sérgio Cardoso em O Primeiro Amor. Agora tem 12 e muito mais experiência. Até já sabe o que não quer:

Quando crescer não pretendo ser atriz e sim psicóloga infantil, porque adoro crianças. Mas fico contente quando gostam do meu trabalho. No começo faziam muitas perguntas, mas agora já estou acostumada.

No Parque Lage, onde são gravadas as externas do Sítio, Rosana tem de descobrir tempo para fazer alguns dos deveres da escola. Ma começa, é chamada pelo diretor Geraldo Casé e tem de entrar nova mente em cena com Pedrinho e com c Marquês de Rabicó, um leitãozinho que reluta em comer as jabuticabas indispensáveis ao quadro. Distraída, Narizinho esquece o texto, e Casé já nervoso com o atraso, berra:

- Você é macaca velha, Rosana. Não pode esquecer nada!

Longe dali, sua irmã Isabela explica a personagem que representará na próxima novela das 10 - A la Garçonne - e que trará uma mudança radical na sua tumultuada vida de miniartista: passará a deitar-se quase às 11, depois de ter assistido aos capítulos que terá gravado algumas semanas antes:

Vou fazer uma menina chamada Isadora, de sete ou oito anos, que perdeu a mãe quando ainda era muito pequena. O pai dela, prof. Frazão, dá aulas de dança. A história se passa nos anos 20 ou 30, não sei bem, acho que é isso. Aliás, eu só recebi o primeiro capítulo. Ainda não conheço o script completo.

Atualmente, Isabela vai à escola de manhã e depois participa (com seus colegas mais velhos) das reuniões de elenco que antecedem as primeiras tomadas. Não perde uma só palavra e não tira os olhos de Maria Fernanda, que também está na novela:

Maria Fernanda é muito inteligente e imito tudo que ela faz. Se ela ri, eu também rio, porque assim finjo que estou entendendo tudo e não passo por boba.

Mais tarde, Isabela acompanha com sua mãe e a irmã as gravações do Sítio do Pica-Pau Amarelo e, antes do jantar repassa com seu pai os textos a serem decorados para as filmagens de A la Garçonne. Só então Isabela está livre para fazer o que quiser. E o que ela mais gosta de fazer, naturalmente, é ver televisão.

Chegar à posição de Isabela é hoje o sonho de muitas crianças brasileiras. As vezes é apenas o sonho dos pais, que inscrevem os seus prodigiosos filhos nos pesados catálogos de candidatos a artistas de TV. Os mais velhos pensam que ali pode estar a garantia para o futuro de seus filhos. Mas estes, quase sempre, encaram a coisa apenas como uma brincadeira divertida.

- Na época em que fazia O Feijão e o Sonho, diz Márcio Bernstein, de 12 anos - tinha muita garota que dava em cima de mim. Na escola só me chamavam de Edgar, que era o nome do meu personagem. Mas foi bom. Naquele tempo, ganhava Cr$ 2 mil 600 por mês e emprestava uma parte para minha mãe. Cheguei até a comprar uma bicicleta, daquelas bacanas, com 10 marchas. Hoje só estou aceitando propostas de trabalho se não atrapalharem minhas provas na escola.

Depois de gravar alguns capítulos da censurada Despedida de Casado, onde fazia o papel de filho de Regina Duarte e Antônio Fagundes ("menino bagunceiro, filho de pais separados"), Márcio impõe agora certas condições para aceitar personagens:

- Se for muito cansativo, não faço mesmo. Também não quero fazer papel de gente besta. E, de mulherzinha, não faço de jeito nenhum.

A mesma sinopse do personagem que Márcio exige, para saber se aceitará ou não o papel, é também enviada ao Juizado de Menores. Gilberto Garcia explica como isso é feito:

-Junto ao pedido de autorização, enviamos o perfil do personagem e normalmente não há cortes. Todas as crianças são obrigadas a comprovar que estudam e seus horários são limitados. A produção faz a divisão de maneira a que nenhuma criança fique nos estúdios depois das 19 horas. Elas vêm aqui e tiram as medidas para suas roupas, exatamente como os adultos. Todos os atores têm guarda-roupa próprio, mesmo que a novela não seja de época. Também tomam parte nas reuniões e devem ser acompanhadas por responsáveis até o local da gravação. E no contrato está estipulado que deverão trabalhar durante seis meses, embora o personagem possa ser esticado para mais quatro meses.

Carlinhos Poyart é o Téo de Duas Vidas, filho de Bete Faria e Francisco Cuoco. Mas quem cuida de sua carreira e o leva diariamente aos estúdios da Usina é a sua mãe na vida real, D Inês:

- Foi tudo muito natural. Moro perto da Ruth de Sousa, que é atriz, e tentei saber quais eram as possibilidades de Carlinhos. Depois, perguntei a ele se gostaria de trabalhar. Quando fez o teste final, junto a outras crianças, a Bete o escolheu logo. Era o que tinha maior sensibilidade. Os dois têm-se dado muito bem. A vida de artista não está atrapalhando em nada o dia-a-dia de Carlinhos. Acho que foi até muito bom porque, aos oito anos, ele desenvolveu um enorme senso de responsabilidade.

Carlinhos também está vibrando: - Gosto de ser ator, e acho que vou continuar sendo quando crescer. No princípio não foi muito legal. Minha mãe me botou para fazer o teste e acharam que eu era o melhor, mas foi meio chato porque os outros meninos ficaram dizendo que eu era sortudo. Agora dizem que tenho talento. Não sei bem o que é isso, mas devo ter. Afinal, não é qualquer um que entra aqui. Lá na escola, os outros dizem que gostariam de ser eu. Não sabem como essa vida é sacrificada!

O próprio Carlinhos se surpreende com sua loquacidade:

Eu acho gozado, assim, sei lá, eu ficar batendo papo. Mas é bom, porque, se eu falo errado, não tem importância, não é? Não estou sendo adulto, estou? Criança fala assim mesmo. Meu signo é Touro. No colégio, não sou o melhor aluno, mas tenho amigos até no ginásio. Tem até um lá que me defende. Hoje não brigo tanto, mas antigamente era muito folgado e apanhava pra valer. Eu era um chato. Agora todos gostam de mim.

Gisela Carneiro não tem muito tempo para conversar. Aos 10 anos, sua preocupação maior é a de que as gravações de As Loco Motivas acabem logo, para que possa ter umas férias. Em sua pasta carrega apenas o material da novela - roteiro para mais uma semana de trabalho que terá de decorar em casa.

Não vejo televisão, não tenho tempo. Fico lendo o script de manhã à noite e só paro para filmar. Por isso quase não dá para estudar. Que trabalho cansativo!

E Gisela pede licença porque o diretor ("Ele é muito legal"! quer fazer as últimas cenas da manhã. A troca de roupa é rápida e ela reaparece de biquíni e camiseta, pois a próxima locação será num clube da Barra da Tijuca. Mais uma cena e Gisela sai correndo. Recebe as últimas instruções pára a cena da tarde e sai apressada, porque sua babá está lá fora, esperando para levá-la ao colégio.

Com os Cr$ 500 que recebe por dia de trabalho, Gisela já comprou um anel, uma pulseira e um relógio. Só lamenta ainda não ter recebido nenhuma carta de fã.

Não sei o que pensam de mim. Ela diz ansiosa - mas sou uma estrela. Ou não sou?

Hoje, aos 22 anos e com uma filha de três, Elisângela - o grande exemplo da criança que cresceu artista - divide com Míriam Fisher e Gisela Carneiro o sucesso de As Loco Motivas junto ao público infantil. Diz ela:

Prodígio, nunca fui. O que eu tinha era murta "Sensibilidade. Mas não imaginava que ficaria na profissão por tanto tempo. Comecei aos sete anos, fazendo um programa para adultos, e achei que aquilo tudo fazia parte de mim. Mas só na adolescência comecei a perceber o que realmente estava fazendo e tive estrutura para sustentar-me. Para os que estão começando, eu diria que nunca esquecessem o lado infantil. Ganhei muita noção de responsabilidade, mas perdi a infância e custei a perceber isso. Fui adulta demais.

Pelo menos por enquanto, Júlio César, de 12 anos, não tem nenhuma queixa de sua vida profissional. Depois de ser filho de Tarcísio Meira em várias novelas, o atual Pedrinho do Sitio do Pica-Pau Amarelo não dá entrevistas durante o almoço, não diz quanto ganha e não erra suas falas:

- Não me considero muito adulto para minha idade. O que interessa é que estou trabalhando. Todos dizem que sou minigênio, mas o que eles não sabem é que vou me aposentar muito mais cedo do que pensam.

Nas gravações do Sítio, Narizinho pergunta:

Você não acha que a gente devia continuar brincando de faz-dei conta?

Ao que Pedrinho responde:

- Acho que fiz de conta errado!

Narizinho deixa a cena. Desta vez para retocar a maquilagem, um problema de fácil solução. Nenhum deles sente o drama de Ferrugem, condenado a ser criança, mas com todas as responsabilidades de um adulto, sem poder crescer o bastante para se defender de gente, quase sempre, muito pouco inocente.

UM SACI PERERÊ DE VERDADE - Da Vila América, em Salvador, para o Sitio do Pica Pau Amarelo, em Guaratiba, a vida de Genivaldo dos Santos transformou-se radicalmente. Aos 13 anos ele representa o Saci Pererê, um papel fácil para quem, com uma perna só, caminha, corre e joga bola sem qualquer ajuda.

A encarnação do mitológico personagem do folclore do Norte brasileiro foi muito natural para Genivaldo, que fuma tranqüilo seu pito e enverga o capuz vermelho com ar maroto.

"Não sei decorar o texto, mas acho que ainda vou aprender como é."

Seus espertos olhos pretos mexem-se rapidamente e Genivaldo prepara-se para atirar uma pedra em seu doublé, Romeu Evaristo, ou no Tio Barnabé, também personagem do Sítio, com quem ele vive no camping da Barra da Tijuca.

"Quando é sábado pra domingo, os meninos vão ao camping e aí eu jogo bola. Não, caio não. Agora a praia que mais gosto de ir é a de Botafogo, porque lá o mar é mais calmo."

Enquanto alguém da produção interrompe para dizer que ele nunca esteve na praia de Botafogo, ele continua: "Só estive até agora no parque de diversões e outros lugares. Falta ainda o Pão de Açúcar, o Cristo, muita coisa.

Com a responsabilidade de comparecer às gravações da novela, Genivaldo sabe bem o que veio fazer no Rio: "Vim trabalhar. Mas vou começar a estudar também. Lá em Salvador, fazia o 3° primário. Era muito melhor, porque tinha amigos para brincar. E depois eu volto para Salvador, já estou com saudades!"

Romeu Evaristo diz as falas de Genivaldo, que segundo ele, "não tem expressão como ator, por isso me chamaram". Tendo participado da novela João da Silva, ele é operador de telecine na TVE à noite e estuda Comunicação de manhã. A tarde está gravando o Sítio: "Em termos de ator, estou realizado". E relembra alto as falas da gravação: "Pensei que isso fosse coisa do meu primo Curupira, que é tinhoso feito eu, mas que tem dois pés, só que virado para trás". E dá uma risada.

Como Curupira, Romeu tem duas pernas e pés, só que na posição normal, e ganha Cr$ 4 mil 800. Genivaldo não diz quanto ganha. Está mais preocupado em brincar, arrancando galhos das árvores em que sobe com a maior rapidez. Soltando fumaça, ele ri: "Vocês tão me abusando. Não vou falar mais nada."

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