Saturday, December 20, 2014

1972 - Discoteca do Chacrinha

O Globo
Data de Publicação: 1/3/1972

NO AR: O AUDITÓRIO DO CHACRINHA


Hoje é dia de Discoteca. Isso quer dizer: desde as seis horas da tarde, uma comprida fila contorna a Lagoa Rodrigo de Freitas até a porta lateral do Teatro Fênix. A maioria são, mocinhas e senhoras. Todas de micro ou calças compridas com tamancos ( a grã-finas lançaram a moda, as outras aderiram). A maioria passa as três horas que precedem o programa devorando sacos de biscoito, pipocas e balas. E discutindo onde vão sentar e como descobrir primeiros e os melhores lugares.

No auditório, Ferreira, diretor do programa, observa os últimos detalhes do cenário, que é renovado de mês em mês. As chacretes, de microssaias, ajeitam cachos e cílios e treinam os últimos passos de dança em grupo de três e quatro. Chacrinha, no meio do palco, de cruz de prata no pescoço, passeia nervoso e discute os detalhes finais. Duarte, o assistente, vigia a porta onde a multidão se comprime nervosa. Às oito horas abre-se o auditório ao público. Os guardas mal podem conter as pessoas que, apesar da ordem expressa de se manterem em fila indiana, acabam escapando ao controle dos guardas, e correm pelo meio do palco em direção as arquibancadas laterais. Uma senhora gorda de sandálias vermelhas se desequilibra e se estatela no chão. Mas não se dá por achada, Em meio minuto já está de novo correndo e empurrando até obter um lugar nas primeiras filas. Outras duas senhoras, já de idade avançada, brigam pela mesma cadeira. Aperta daqui, empurra dali, evidentemente só senta uma. A que sobrou leva vaia da platéia. Duarte é quem comanda o pelotão. Assoviando, toca o mulherio como se fosse rebanho. A turma acha graça, e vai seguindo, agora aos trambolhões. Chacrinha já vestido a caráter passeia nervosamente pelo palco, o fio do microfone passado entre as pernas, o qual é freqüentemente pisado pelas chacretes.

Com um safanão Chacrinha sacode o fio, tenta se liberar, e acaba pregado no chão, furioso.

Com muita reclamação, consegue se desprender para dar as últimas ordens.

Nas arquibancadas, a briga pelo lugar continua. Duarte se aproxima e diz conciliador (mas aos berros): "Vocês devem dar graças a Deus se no céu conseguirem um lugar igual a esse!" Depois volta-se para o auditório, e continua o sermão: ''Vocês aí, princesas, tratem de fazer cara alegre que aqui não morreu marido de ninguém. Meninas, vocês têm algum problema de ser vistas em casa? (Todas protestam que são fiéis e solteiras). Duarte se acalma. Faz-se silêncio. É hora de o programa entrar no ar.

O auditório, à medida que os quadros musicais e as reportagens se sucedem, participa intensamente do programa. Sabe todas as músicas de cor, acompanha o ritmo com palmas, e responde com um ensurdecedor: úúúúúúúúú quando Chacrinha pergunta periodicamente: "Teresinha?", ou então: "Viva a mãe do Jerry Adriani? Vivaaa!" Em cima do piano lateral, ficam os legumes que serão atirados no público.

O Russo, que segura o microfone para os cantores, é o encarregado de entregá-los a Chacrinha. Bacalhau não falta. Assim como pepinos que são disputados freneticamente no ar e que logo em seguida servirão para acompanhar o compasso, espetados para o alto como churrasco.

Nos intervalos, se sucedem os slogans do programa, cantados em conjunto por Chacrinha e a platéia: "Você pensa que mulher é bode? Mulher não é bode, não. Mulher cheira, bode, não."

No caso dos legumes mais pesados podem acontecer alguns acidentes. Por exemplo, quando Chacrinha se aproxima de uma senhora para entregar-lhe volumosa abóbora de vários quilos, se desequilibra, e cai sobre a abóbora e sobre a senhora formando, os três, insólito sanduíche. A platéia delira. Alguém levanta Chacrinha, com dificuldade. Uma vez em pé, ele continua a cantoria: Roda Roda e... avisa!

A medida que a Discoteca vai chegando ao fim o clima de nervosismo se acentua. No palco, Chacrinha comanda a torcida final.

Volta-se para as arquibancadas da direita e ordena: "Agora a cozinha!" Em coro as moçoilas repetem o refrão.

A seguir Chacrinha volta-se para as arquibancadas da direita e ordena: ''Agora a cozinha!". Em coro, as moçoilas repetem o refrão.

A seguir Chacrinha volta-se para as arquibancadas da esquerda: ''Agora o quintal!". Dá-se o repeteco. O programa se encerra com o corinho cantando alternado, acompanhando da platéia que bate o compasso com pepinos, bacalhaus e abóboras. Delirantes.

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