Saturday, December 20, 2014

1990 - A Sobrevida das Chacretes

O Globo
Data de Publicação: 22/7/1990
Autor: Luis Carlos Lourenço
BRILHO DAS CHACRETES AINDA NÃO SE APAGOU

Dois anos depois da morte de Abelardo Barbosa, o Chacrinha, apesar de afastadas do brilho dos refletores da TV Globo, a maior parte das chacretes não caiu no anonimato e ainda é requisitada para fazer shows em outros Estados e no Interior. Elas fizeram surgir mais um verbete no Novo Dicionário Aurélio, foram imitadas em outros programas de auditório e hoje, órfãs do "painho", "veio" ou "guerreiro", como chamavam o animador, são unânimes em atribuir a Chacrinha a notoriedade que conseguiram.

Quase todas as chacretes ainda estão na faixa de 22 a 30 anos e se beneficiam dos rostos bonitos e corpos bem modelados que possuem. Fazendo questão de preservar os nomes artísticos ou apelidos com os quais se tornaram conhecidas, elas ainda são reconhecidas na rua, abordadas com pedidos de autógrafos e recebem cartas e bilhetes com declarações de amor de fãs ardorosos. Na TV Globo chegam envelopes endereçados a Esther Bem-Me-Quer, Cristina Azul, Regina Polivalente, Valéria Mon Amour, Fátima Boa Viagem, Rita Cadillac, Luciana Ti-Ti-Ti, Gleice Maravilha, Sandrinha Radical, Rosane da Camiseta, Gracinha Copacabana e Erica Selvagem. Esses nomes foram criados por Chacrinha, que buscava no rosto, nas origens ou no modo de vestir ou dançar o apelido mais adequado a cada chacrete.

Maria Esther Antunes Straube, carioca de 29 anos, a Esther Bem-Me-Quer, foi a única chacrete que ficou diretamente ligada à família de Chacrinha, porque foi trabalhar com Na-nato (Renato) Barbosa, um dos filhos do animador, nos programas "Cassino do Chacrinha' e "Discoteca do Chacrinha" que ele apresenta nas Rádios Nacional e Roquete Pinto: - Até hoje não me conformo com a morte do Chacrinha, uma pessoa admirável, a quem devo tudo o que conquistei até hoje. Apesar de o programa na televisão ter tido um fim com a morte do Velho Guerreiro, o show deve continuar. E continuamos lutando, ainda sobrevivendo graças a esse legado que ele nos deixou.

Nanato fala com carinho das chacretes:

- Elas sempre foram uma peça fundamental de apoio nas apresentações do velho. Muitas ficaram meio desarvoradas com sua morte, mas depois cada uma seguiu seu caminho, quase sempre dentro do cenário artístico. A Rita Cadillac, por exemplo, uma das mais antigas, virou cantora e estrela de cinema e está muito bem em São Paulo. Outra, a Valéria Mon Amour, casou com um italiano e trabalha como modelo em Roma. Muitas já cuidavam de suas vidas e estavam se preparando para uma eventualidade, fazendo cursos de Letras e Educação Física ou realizando trabalhos paralelos como modelo e manequim. Até hoje, a fama como chacretes permite que elas sejam contratadas para apresentações em festas regionais, clubes, ginásios, convenções e feiras por todo o País. Elas ainda são lembradas pelo público com muito carinho. A Esther Bem-Me-Quer é que continuou conosco. Ela divide o espaço comigo nas rádios contando as fofocas dos bastidores do mundo artístico.

As chacretes surgiram em meados dos anos 60, segundo José Aurélio Barbosa, o Leleco, outro dos três filhos de Chacrinha. No início, o animador enfrentou vários problemas com a censura, que não se conformava com os requebros sensuais e os ousados figurinos das dançarinas. Mesmo assim, ser bailarina do Chacrinha foi, durante muito tempo, o sonho dourado de muitas adolescentes. Muitas belas moças passaram a atuar como chacretes depois de se destacarem no concurso que escolhia, no programa, a mais bela estudante.

A disciplina rígida imposta às chacretes também era uma das características do programa do animador. Gracinha Copacabana recorda que o Velho Guerreiro era muito exigente e não permitia que ninguém chegasse perto das garotas:

- Os namorados ficavam proibidos de buscar ou levar as meninas e quando nós viajávamos não podíamos tomar nem banho de piscina nos hotéis. Havia um regulamento rígido e muitas coisas eram proibidas, como aceitar convites, entrar em carro de estranhos e "badalar" durante as viagens. Quando o show era fora do Rio ficávamos no hotel e só saíamos para a apresentação. Não podia haver qualquer excesso.

Sônia Cristina Matos dos Santos, de 24 anos, é uma bela loura que atua no show "Golden Brazil", mas é com o apelido de chacrete, Cristina Azul, que é conhecida no meio artístico e pelos fãs. Ela conta os rumos que sua vida tomou, após a morte do animador: - No princípio fiquei chocada, sem rumo, mas logo vi que a minha vida tinha que continuar. Fui para o show do Scala e passei a dar maior: tempo à casa, ao meu marido e agora ao meu filho Giuseppe, que está com sete meses. Ainda aparecem shows para chacretes em cidades do Interior, mas nem sempre a gente pode viajar, em função dos compromissos artísticos aqui no Rio.

Cristina diz que não acredita mais que o programa do Cassino possa ser remontado, com um substituto:

- Cheguei a pensar que o programa continuaria na Globo, com a mesma estrutura e tendo o Leleco, filho do Chacrinha, como principal animador. Um projeto foi apresentado nesse sentido mas depois todo mundo viu que ele era insubstituível. Poderiam até imitá-lo, mas nada seria igual ao que ele fazia. Ele era imprevisível. Tinha certeza do que fazia, do ritmo que deveria dar ao programa de televisão ou numa apresentação pública. Fazia tudo no tom certo, na medida exata. Ninguém poderia fazer o que ele fazia.

Regina Polivalente diz que ela e muitas colegas devem a Chacrinha os convites que ainda recebem para apresentações como chacretes:

- Ainda no mês passado estivemos por dez dias em Quirinópolis, em Goiás. numa grande feira agropecuária. Fomos levadas a convite da Márcia Gabrielle, ex-Miss Brasil, e foi um grande sucesso. As chacretes foram se apresentando em conjunto e depois em atuações individuais, fazendo solos de dança, como no programa do Chacrinha. Quando o programa acabou, fui dar aulas de ginástica na Academia do Rômulo Arantes, mas agora estou juntando dinheiro para montar minha própria academia. Reconheço que devo muito ao Chacrinha, que apesar de muito exigente e rigoroso com sua equipe sempre incentivou as garotas para que pensassem em outras opções de vida, além das apresentações na televisão. Parece que ele estava se preocupando com o nosso futuro, caso ele faltasse. Segui o que ele me ensinou e está dando certo.

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