Saturday, December 20, 2014

1988 - R.I.P. Chacrinha

O Globo
Data de Publicação: 2/7/1988

O DESCANSO DO VELHO GUERREIRO

A morte de Chacrinha sacudiu o Brasil. O corpo ficou desde as 5h25m de ontem no prédio da Câmara dos Vereadores, onde foi velado por milhares de artistas e populares. Alguns deles, como o comerciário Altair Lopes Rodrigues - que foi calouro no programa de TV - não agüentaram a emoção e desmaiaram.

As chacretes, todas vestidas de preto, choravam muito. Uma delas chegou a dizer. "Para nós, acabou tudo, não há mais nada". O cortejo começou às 15h e houve um princípio de tumulto. Foi pedido um reforço no policiamento. O caixão saiu do local carrega do, entre outros, pelo humorista João Kleber - substituto de Chacrinha nos últimos programas - que pediu aplausos para o Velho Guerreiro.

Em todos os cantos do País, artistas manifestaram pesar pela morte de Abelardo Barbosa, o animador mais carismático da televisão brasileira. Roberto Carlos disse que Chacrinha era como um pai para ele. Erasmo Carlos afirmou nunca ter conhecido alguém como Chacrinha. Chico Anysio acha que ele o ensinou a maior lição de sua vida: o trabalho é a melhor terapia. O roqueiro Lobão se disse "baqueado" pela morte de Chacrinha. Gilberto Gil, que compôs "Aquele abraço" em homenagem a ele, lembrou que sua linguagem popular acabou sendo respeitada pelos intelectuais, e Eduardo Dusek comparou a importância do apresentador à de Tarsila do Amaral, Glauber Rocha, Caetano Veloso e Carmem Miranda.

O ADEUS DOS CARIOCAS

Às 15h56m de ontem, Chacrinha foi enterrado na sepultura 3511-A da quadra 2 do Cemitério São João Batista, onde estão também sepultados sua mãe e o neto Jorginho. Milhares de cariocas foram ao saguão da Câmara dos Vereadores, onde foi velado o Velho Guerreiro. O esquife e a família chegaram cerca das 5h da madrugada e, das 6h30m, quando foi aberta a visitação, até as 15h, quando o prédio foi interditado ao público para a saída do cortejo, a extensa fila que começava diante do Teatro Municipal e cruzava a Praça Marechal Floriano moveu-se sem cessar em direção à brecha no cordão de isolamento que permitia a passagem de apenas uma pessoa. Durante a manhã os visitantes organizaram-se espontaneamente, sem dar muito trabalho aos 220 homens de quatro batalhões da PM (1º, 5º, 6º e 16º) e aos 120 seguranças (80 da Câmara e 40 da TV Globo) que guardavam o interior e as imediações. A medida que se aproximava a hora da saída do corpo, porem, a multidão começou impacientar-se, temendo não conseguir entrar. E, a partir das 13h30m, houve tentativas de invasão e muito empurra-empurra.

Mais de 50 coroas ocupavam todo o espaço disponível do saguão da Câmara Municipal. Junto as três encomendadas pela própria família (esposa, filhos e parentes), estavam as enviadas pelo Presidente Sarney e Dona Marly e por Sarney Filho. Rede Globo, Som Livre e "Jornal da Globo", Boni e o Dr. Roberto Marinho assinavam as faixas de outras coroas. Gal Costa, Lecy Brandão, Fafã de Belém, Wando, Joana, escolas de samba Mangueira, Portela, Império Serrano e Unidos de Vila Isabel, Rádio Nacional, Governo do Maranhão, Vasco da Gama, Café Lamas e a Socimpro eram outros remetentes. "Você é meu ídolo. Obrigada pelos ensinamentos e exemplo de vida - Xuxa Meneghel", lia-se em uma delas.

Os visitantes anônimos e os repórteres não podiam acercar-se do caixão, guardado pela PM e pelo cordão de isolamento que isolava um raio de cerca de 2 metros ao redor, ainda só tinham acesso parentes e amigos. Os que se decepcionavam por não poder ver o rosto do morto, consolavam-se olhando demoradamente ao redor, em busca de celebridades. Em vão. O cantor e compositor Roberto Carlos acompanhado da atriz Míriam Rios, por exemplo, foram à casa de Chacrinha na Barra, por volta das 2h30m. Muito emocionado e os olhos vermelhos de chorar disse:

- Ele era meu amigo. Era como se fosse o meu pai. Foi o responsável por meu lançamento. Eu o conheci na TV Tupi apresentado por Carlos Imperial. Chacrinha teve grande participação para a gravação do meu primeiro disco. E, emocionado desabafou: - Não irei ao sepultamento de meu amigo, para evitar tumulto. Mas meu coração estará junto com ele.

Na Câmara, durante o velório, a maioria das personalidades entrava pelo portão lateral, onde estavam Dona Florinda, os filhos Leleco e Jorge, as noras Maninha e Lilian, a neta mais velha, Andréa e sua mãe Verônica, ex-mulher de Jorge e os demais parentes. O filho José Renato passou a manhã em casa, à espera da ex-mulher Wanderleia, que veio de São Paulo. As 13h15m, ambos entraram pela porta lateral e, dez minutos depois, em companhia da cantora, toda a família, inclusive a viúva, saiu da sala e rodeou o caixão. De blazer e saia pretos, chorando muito, Wanderleia recusou a proteção do segurança que queria afastar os repórteres e os atendeu: "Pode deixar, eu falo. Mas falar o que? E um pedaço da minha vida, da minha história e da vida e da história de vocês também, do Brasil todo. O Chacrinha não é aquele corpo que está ali; é um sentimento que vai permanecer vivo em nossos corações".

Também de preto e fortemente maquiada como de costume, com muito rímel, Dercy Gonçalves, depois de cumprimentar a viúva, foi despedir-se do amigo há 40 anos e falou bastante para os microfones e gravadores estendidos em sua direção:

- Ele era muito parecido comigo. Tão condenado e tão amado como eu. Felizmente pôde trabalhar até pouco antes de morrer e teve morte tranqüila, sem muito sofrimento. E o que também quero ter, mas vocês vão ter de esperar muito para fazer reportagem do meu enterro. Tenho 81 anos e garanto que sobrevivo a vocês todos - disse aos interlocutores, cuja média de idade não passava muito dos 25 anos.

Todas de preto e olhos inchados, as chacretes, sempre em grupo, circulavam pelo salão. A deputada federal Benedita da Silva, do PT, era uma das poucas representantes da Constituinte presentes. Flávio Cavalcanti Filho, o compositor Dunga, Ademilde Fonseca, Terezinha Sodré e Carlos Alberto e o empresário Chico Recarey foram, entre os presentes ao velório, dos poucos que circularam na área aberta ao público.

A DOR DOS AMIGOS

"Trabalhei com o Chacrinha desde os tempos do rádio, em Niterói. Depois voltamos a trabalhar juntos em várias TVs, como a Excelsior, a Rio, a Tupi e a Globo. Para mim, ele contraria a tese de que ninguém é insubstituível. Ele é insubstituível. Como Dercy, Chacrinha criou um estilo de animação e interpretação que foi seguido e imitado por muitos, mas ninguém consegue substitui-to, em nenhuma hipótese. Eu acabei de chegar de seu velório e guardo ainda sua maior lição de vida: a de que o trabalho é a melhor terapia". Chico Anísio, 57 anos, humorista.

"O maior nome da comunicação não existe mais. Ninguém conseguiu, até agora, fazer uma frase como a máxima do Chacrinha: 'quem não se comunica se trumbica'. Tenho muitas lembranças dele, inclusive a daquela vez em que ganhei, em seu programa, um aparelho de TV. Elizeth Cardoso, 68 anos, cantora.

"Sempre achei Chacrinha bárbaro, desde muito antes dele ser reconhecido e valorizado pela elite. Ele criou um ritmo inconfundível de comunicação. Chacrinha era uma verdadeira revolução, uma fórmula sensacional. Acho que, na verdade, era um santo que 'baixava' nele, diante das câmeras". Perfeito Fortuna, 38 anos, animador cultural do Circo Voador.

"Fiquei dez anos sem ir ao programa, do Chacrinha depois que uma vez, na época dos Secos e Molhados, apareci com o grupo e não gostei muito da repercussão do nosso show. Mas Chacrinha não teve nada a ver com a história e nós dois resolvemos acabar com esta história de ressentimento. Foi ótimo, porque ir ao Chacrinha sempre foi muito bom para qualquer artista: era o acesso direto ao povão. Eu não estou triste, não acredito em morte como um fim - senão a vida não teria sentido. Não sinto como perda, acho que deveríamos olhar sob outro ponto de vista e acreditar que Chacrinha cumpriu seu tempo e está em outro, muito melhor". Ney Matogrosso, 40 anos, cantor.

"Chacrinha é um dos brasileiros mais típicos e autênticos que eu conheci. Um verdadeiro tropicalista, tão importante na cultura visual quanto na comunicativa. Tão importante quanto uma Carmem Miranda, um Caetano Veloso, um Glauber Rocha, uma Tarsila. Além disso, era uma grande pessoa, ao mesmo tempo doce e de opinião firme, com senso critico apuradíssimo. Um gênio". Eduardo Dusek, 33 anos, cantor.

"Desde que eu nasci eu curto o Chacrinha. Para mim, elo é um tipo unique. Vários grupos do mundo inteiro o imitam, ele era uma pessoa doce, louca, e particularmente sempre me apoiou nas horas mais duras. Sou muito grato a ele e me sinto totalmente baqueado com a notícia de sua morte". Lobão, 30 anos, cantor.

"Ele foi muito mais do que um humorista: é o retrato 3 X 4 do Brasil. Para mim, com sua morte nós enfrentamos a perda de dois grandes ídolos: Oscarito e Chacrinha. Eu sempre tive paixão por ele e por isso sempre o imitei tanto: só imito quem eu conheço e gosto. Sou um grande aluno do Chacrinha." Agildo Ribeiro, 56 anos, humorista.

PARA INTELECTUAIS, GÊNIO DA BREGUICE

Jamais a televisão conseguiu realizar aliança tão perfeita entre contrários, personificada nas roupas ou na mis-en-scène do guerreiro, como no programa do Chacrinha. Do rádio para a TV, o Cassino trouxe elementos essenciais - o auditório, o corpo de jurados, o calouro tripudiado mas feliz - mas sobretudo encontrou a solução de compromisso entre classes e culturas diferentes: a urbana e a interiorana não industrializada. Como analisa o diretor da Escola de Comunicação da UFRJ, Muniz Sodré, Chacrinha foi o melhor representante da chamada estética do grotesco.

Quem gostava do Chacrinha? De início todos - exceto os intelectuais. O povão lotava os auditórios e os imigrantes, que em 1970 formavam a massa dos 70 por cento possuidores de aparelhos de TV, em seu programa encontravam a cultura que, na cidade grande, só existia como memória e expectativa. As brincadeiras podiam ser grosseiras, lembra Muniz; Sodré, mas as pessoas riam muito. Assistindo ao programa ou participando dele no auditório, elas se sentiam como, nas feiras do interior do país - em que se premiava com um bacalhau quem trouxesse o menor canivete ou maior galhinha.

Foi aí que a cultura de elite começou a fazer do programa do Chacrinha uma de sua grandes curtições. Intelectuais escreveram a seu respeito, como o psicanalista Chaim, Katz e o próprio Muniz Sodré, que em seu livro "A comunicação do grotesco", lançado em 1871, elogia o guerreiro em capítulo. Os Novos Baianos passaram a ser assíduos em seu programa e Gilberto Gil fez uma música em sua homenagem.

Chacrinha atraiu intelectuais sobretudo por seu espirito tropicalista. Com as próprias roupas, misturando calça de executivo a gravatas de palhaço, e circulando em cenário tão avançado, em frente às câmeras de TV, ele cumpria o que o tropicalismo inventou como teoria: a estética da colagem, o País como mosaico. Para Eduardo Neiva, diretor do departamento de Comunicação da PUC do Rio, Chacrinha encarnou o projeto de recuperação da identidade brasileira que nos anos 60 encantou Brasil. Na opinião do escritor Afonso Romano Santana, ele interpretou a figura do bobo da corte na televisão.

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