Saturday, December 20, 2014

1988 - Adeus, Chacrinha!

O Globo
Data de Publicação: 2/7/1988

ONTEM, FESTAS DA TEREZINHA

Não apenas o comunicador genial, um louco apaixonado pelo que fazia, infatigável perfeccionista, o homem que cunhou uma frase inesquecível: "Quem não comunica se trumbica". Para além de tudo isso, ultrapassando o personagem que criou, Chacrinha se tornou símbolo de um Brasil assumidamente kitsch e carnavalizado, a desafiar dificuldades e crises com a espontaneidade de uma alegria irreverente. Esse Brasil que ele encarnou com suas buzinadas e alôs, chamando Teresinha ou distribuindo bacalhau, bananas, biscoitinhos, figura sem sexo nem idade, que se vestia de noiva ou de cowboy, de Batman ou de palhaço.

José Abelardo Barbosa de Medeiros, o "Velho guerreiro", nasceu no Nordeste: "Eu sou nordestino e, sem querer desfazer de ninguém, todo o Nordeste é muito tropicalista". Foi em 20 de janeiro de 1916, no agreste pernambucano, em Surubim, de onde logo se mudaria para Campina Grande, com a família e, mais tarde, para Recife. Estudou interno no Colégio Marista São José e nas férias, trabalhava como decorador e vitrinista na loja de tecidos de seu pai.

A carreira artística, que se estendeu por longos 42 anos, começou em Recife, quando conheceu o Bando Acadêmico, conjunto de jazz que animava as festas da cidade e passou a integrá-lo como percussionista e eventual baterista. O rádio veio em seguida, num período em que já cursava a Faculdade de Medicina. Certa vez, ainda enfaixado em consequência de uma operação de apendicite supurado que o fez perder as provas, Chacrinha foi à Rádio Clube de Pernambuco e lá soube que estavam procurando músicos para tocar durante a viagem do navio Bagé para a Alemanha. Não teve dúvidas: chamou um amigo e os dois foram juntos, em 1939, sem se importar com a guerra.

Na volta - "Cheguei ileso, liso e louco", contou - aborrecido por ter de repetir o ano, decidiu vir para o Rio e aqui se matriculou na Faculdade de Medicina, mas acabou trancando a matrícula, por falta de dinheiro. Em 1940, conseguiu o primeiro emprego na Rádio Vera Cruz e, a convite de Fernando Lobo, tornou-se locutor da Tupi. De saída, rejeitou esquemas bem comportados: "Queria um programa que mexesse com o público."

A primeira grande oportunidade foi na Rádio Clube de Niterói, com "Rei Momo na Chacrinha" - a rádio ficava numa pequena chácara, na Praia de Icaraí. Patos, gansos e galinhas circulavam pela casa. fazendo um barulho doido. Muitos foram até o estúdio para ver de perto o que era aquilo. Encontravam Chacrinha de cuecas, lenço amarrado na cabeça, fazendo a festa sozinho. A audiência cresceu tanto que o próprio Chacrinha ficou espantado:"Nunca pensei que fossem achar tão original. Daí em diante passei a ser chamado de doido, maluco, palhaço."

Em 1941, o programa virou Cassino da Chacrinha, mas dois meses depois ele foi demitido - não se enquadrava no espírito da época. Era o início das muitas reviravoltas profissionais que marcaram a carreira do animador, mas o Cassino, mesmo mudando de emissora, transformou-se num marco.

Na década de 50, quem era sucesso no rádio ia para a televisão, para as Associadas, as únicas existentes. Vestido de xerife, apresentava o "Rancho Alegre", ou de terno e gravata fazendo a "Discoteca". Em 1959, a Tupi acabou com seus programas, mas a TV Rio começava a crescer e foi convidado a ir para lá, embora aborrecido porque o programa era de madrugada. Acabou ganhando o horário das oito, ao vivo, num programa que teve a maior audiência daquela primeira fase da Rio. Naquele tempo, Chacrinha já estava na Rádio Globo, a primeira vez em que aceitaram integralmente suas propostas: "Avisei o que fazia e o Luís Brunini disse que era assim mesmo. Fiquei até surpreso". Dois anos depois a Globo lançava seu "A Buzina", programa de calouros inspirado no "A Hora do Pato".

Na TV Excelsior, para onde foi levado por Carlos Manga, entraram em cena as primeiras chacretes: eram moças do balé do Municipal que faziam a abertura e depois ficavam sentadas no chão, acompanhando as músicas com os pés e as mãos. Eram chamadas de tevezinhas e, mais tarde, foram substituídas por outras que usavam saiotes brancos e camisas de futebol. Na "Discoteca", as moças passaram a ser chamadas de "vitaminas do Chacrinha". O batismo definitivo de chacretes foi na Globo. Na Bandeirantes, fez a Hora da buzina" e a Discoteca, com Ibope altíssimo.

O sucesso não acabou com o nervosismo de Chacrinha ao entrar em cena. Naquele instante crucial de entrar no ar, ele se benzia - extremamente devoto, levava sempre na maleta estampas dos santos de sua devoção, São Jorge, São Judas Tadeu e São Paulo Apóstolo - sentia sempre o que chamava de "cólicas emocionais", fortes dores intestinais que só se acalmavam quando o espetáculo, afinal, começava. "Eu penso sempre que vou ter um troço no palco. Besteira, não é?", comentou.

Para Chacrinha, o Cassino sofisticado, que apresentava aos sábados desde março de 1982 e que marcou sua volta à Globo - uma mistura do Cassino inicial com a Buzina - não passava de uma continuação da fórmula original: "O mesmo esquema, nada mudou. No meu programa, tudo segue uma direção precisa. Só que fico solto para fazer o que eu quiser, dizer qualquer coisa".

Em meio à agitação de sua vida, viajando pelo menos duas vezes por semana para fazer shows em várias cidades do Brasil, gravando programas de rádio no Rio e em São Paulo, jamais pensou em se aposentar: " Na minha idade, temos de trabalhar bastante para que as células se renovem".

Morava numa ampla casa na Barra da Tijuca, com a mulher, D. Florinda, sua mulher por 41 anos, e o filho José Renato. Aos domingos, o espaço inteiro era ocupado pelos filhos Jorge, o mais velho, e José Aurélio, Leleco, seu produtor, ambos casados e com filhos.

Por trás dessa figura comunicativa, explosiva e irreverente, havia um outro Chacrinha: "Sou meu circo sozinho. Sou um palhaço com alma de leão, sou malabarista e me equilibro nos arames das audiências. Sou minha própria arquibancada. Mas acontece que nesta arquibancada vive um homem tímido, triste e sozinho".

HOJE, O ÚLTIMO PROGRAMA - O frio e a chuva fina que caia na tarde de domingo retrasado, 19 de junho, não impediram que Chacrinha saísse bem disposto de sua casa na Barra da Tijuca para gravar, no Teatro Fênix, o programa que vai ao ar hoje a partir das 16h. Será a homenagem final da Rede Globo ao Velho Guerreiro. Naquele domingo ele chegou pouco antes da quatro horas da tarde no estúdio; e às 16h05m já estava pronto, no palco. Cinco minutos depois o claquetista Piloto, que trabalhava com o Chacrinha desde que ele voltou para a Globo em 82, bateu a claquete e bradou o "gravando!". Durante duas horas Chacrinha, revezando-se com João Kleber, apresentou o programa como se fosse ao vivo.

Com a voz bem mais firme e mais animado que nos três programas anteriores, o Velho Guerreiro ficou muito mais tempo no palco. E, nas poucas vezes em que se afastou para descansar um pouco, deu palpites o tempo todo, dirigindo inclusive o própio Leleco, seu filho que nos últimos anos foi diretor do "Cassino". Ele dava orientação usando equipamento com fones que não dispensava ao seu lado, mesmo nestes momentos de repouso. Numa dessas ocasiões, ele chamou o cameraman Tony e pediu que ele providenciasse para que os intervalos entre um quadro e outro não fossem muito grandes, pois a demora poderia entristecer a platéia e a ele próprio. E disse que não queria ninguém triste em nenhum momento.

Ele se disse bem disposto o tempo todo da gravação do programa e estava muito atento. Quando notava qualquer vacilação na apresentação que João Kleber fazia, prontamente se levantava e intervinha. E fez isso tanto na hora dos calouros quanto na apresentação das atrações do programa.

Roberto Leal, Via Negromonte, R.P.M., Virgine e o Fruto Proibido, Jairzinho e Simony, Juba e Lula, Agepê, Capital Inicial, Evandro Mesquita, Os Abelhudos, Paralamas do Sucesso, Manolo Otero, Vanusa, Placa Luminosa, Jair Rodrigues, Jane e Herondi, Nico Resende, Benito de Paula e Jane Duboc foram os últimos cantores a se apresentarem no "Cassino" que, neste sábado, tem o juri formado por Elke Maravilha, Dora Klabin, Suzana Vieira, Consuelo Badra, Manuela Machado, Vanessa de Oliveira, Marcella Praddo, Monique Evans e Ana Maria Nascimento e Silva. O entrevistado do programa é Rômulo Arantes. E neste programa ainda há a eleição da melhor quadrilha e a final do concurso "O negro mais bonito do País".

Exatamente às 18h55m o cameraman Armando focalizou a última imagem viva de Chacrinha para a televisão - a despedida que ele fazia no ar todos os sábados mas que, daquela vez, teve um sentido de .eternidade. Nos bastidores, ele bateu nos ombros de seu companheiro de cena e disse entusiasmado: Kleber, olha: nós arrebentamos!

BEIJO DE DESPEDIDA

Aurtor/Repórter: Léo Jaime

Amanheceu um lindo dia de sol na cidade do Rio de Janeiro. Quase não se percebe nada: os carros passam com a pressa da juventude, as crianças brincam alheias às dores do mundo, o tempo passa e o sol se impõe em todas as cores. Um dia quase alegre. Um dia quase bonito. Um dia de sol em meio ao inverno.

Mas se, em quase todo o corpo da cidade a vida e a luz se expandem, em seu coração impera a dor. Vela-se o corpo do seu Velho Guerreiro, na Câmara dos Vereadores.

Toda a vida perde um pouco de sua alegria. Sim, porque há homens cuja função é ser, da vida, a alegria. Esses não se tornam sérios nunca. Escapa-lhes a vida mas não a juventude. Essa o Velho leva junto com sua alegria para onde for. Para onde for, será sempre o homem que não se rendeu nunca. O velho e vitorioso, Guerreiro que nunca, por um momento sequer, deixou de levar a sério a árdua tarefa de não ser sério nunca. Até mesmo quando começou a lhe faltar a saúde.

Foi assim que me despedi dele em vida: por ocasião de sua volta à tela, depois de um curto - para nós - mas longuíssimo - para ele - período de ausência, escrevi uma crônica que foi publicada no GLOBO dando-lhe as boas-vindas. No sábado seguinte, gravei seu programa - o último a que ele pôde assistir - e, depois de terminar minha apresentação, fui chamado por ele, que estava sentado observando tudo. Minha última imagem é essa. Com sua voz já um pouco fraca, ele me dizia ter ficado muito feliz com o que tinha lido. E aí me deu um beijo.

E assim, por ironia da vida, alguém que me deu tanta força - assim como a todos os que fizeram sucesso na música popular brasileira dos últimos 40 anos, pois estar em seu programa é que era a marca do sucesso - despediu-se de mim se dizendo feliz, agradecendo e me abençoando com um beijo de despedida.

Aqui, nesta árdua tarefa de me despedir e agradecer, me embaraço. Como é difícil ter que se despedir.

Mas a luz que entra pela janela, quase brutalizando a minha dor, me dá um sinal.

Alguém que passou a vida esbanjando alegria e irreverência só poderia mesmo ir-se embora num dia assim. Mas se era sua intenção, meu velho, que não chorássemos sua ausência, nos desculpe. Ainda que a dor, com o tempo, esmoreça, a saudade sempre aumenta.

Perdemos um amigo. Um amigo que tirou da vida o que ela tinha para dar. Um guerreiro vitorioso, exuberante e hilário. Um homem querido e respeitado por quase todos - pois todo guerreiro tem que ter os seus rivais -, mas uma marca indelével, em nossa história, de força, brio, talento, coragem e amor. Todos os ingredientes que formam a dura fibra de um palhaço. O nosso maior palhaço.

Que a certeza inexorável, a única certeza da vida, não lhe tenha roubado nenhum sonho. Que é dos que têm a alma jovem permanecer sonhando.

Que a vida tenha te dado, tanto quanto mereceste, Chacrinha.

E assim, meu velho, me despeço de você. Obrigado é uma palavra pequena.

Que ecoe, então, o meu grito que é o de um poeta, mas também meu e de milhões.

"Seu" Chacrinha, aquele, mas aquele abraço.

PS - Nos últimos anos, Chacrinha acrescentou à sua lista de excentricidades um "aaaah!" que era a sua forma de nos acompanhar enquanto cantávamos. Aaaah! Aaaah! Alguns achavam que era velhice, outros que era maluquice. Acho que tava todo mundo certo, mas o óbvio ninguém percebeu.

Aquele era seu êxtase.

Tenho quase certeza que ele era muito feliz. Ainda posso ouvi-lo.

Aaaah! Aaaah! Aaaah!

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