Saturday, December 20, 2014

1984 - Viva Chacrinha!

 O Globo
Data de Publicação: 26/2/1984
Autor: Arthur da Távola
CHACRINHA 'HORS-CONCOURS'

Se os programas de auditório marcaram um êxito tão expressivo no rádio, eles não conseguiram obter nem de longe o mesmo sucesso na televisão e, à medida que o padrão dos programas de TV ia subindo de nível, eles iam perdendo em consistência - até chegarmos à situação presente, em que a maior parte deles desceu a níveis de qualidade realmente muito baixos. Mais uma vez, devemos fazer uma ressalva e diferençar entre programas de auditório e transmissão de programas com público, sejam eles ao vivo ou mesmo gravados para posterior transmissão. O público, sobretudo quando é numeroso e caloroso, dá uma contribuição valiosa a qualquer espetáculo e dele sempre participa, mesmo que seja apenas pelos seus aplausos.

O fenômeno é fácil de explicar. O rádio transmitia apenas o som, as vozes dos artistas. Vê-los era sempre um deslumbramento, proporcionado principalmente pelos programas de auditório. Daí para a participação direta do público em cenas e brincadeiras foi um passo curto para a maior aproximação do ouvinte e já então espectador com os seus !dolos e com aquele instrumento mágico que era o microfone. A televisão, ao contrário, coloca os nossos ídolos dentro das nossas casas, dá-nos familiaridade com eles, que já não são as figuras distantes e quase irreais de outrora. Por outro lado, as apresentações públicas desses !dolos .- no teatro e nos shows - são freqüentes, permitindo a qualquer um ver de perto com relativa facilidade seus artistas preferidos. No caso dos cantores, há que acrescentar a alta sofisticação a que atingiram os especiais - fazendo parecer pobre e simplória a apresentação na TV que não tenha um cenário adequado, bons efeitos de luz, imaginoso jogo de tomadas (no que, aliás, às vezes ocorrem até certos exageros).

Dentro dessa temática, Chacrinha é, a nosso ver, absolutamente hors-concours. Há perto de 40 anos, ele vem aproveitando o que de melhor lhe podia dar o rádio e o que de melhor lhe pode dar a televisão. O "Cassino do Chacrinha", que hoje revive no programa dos sábados da Rede Globo, foi uma exploração de tal forma inteligente, não das qualidades, mas da deficiência do rádio - de transmitir a imagem real - que chegou a enganar muita gente e durante muito tempo. Com tal habilidade Abelardo Barbosa - que, então, ainda tinha o "Chacrinha" no meio do nome, e entre aspas - criava com os precários recursos de sonoplastia e de gravação da época um clima de festa em seu programa da Rádio Clube Fluminense, simulava entrevistas com os maiores nomes do rádio de então e realizava, mesmo, algumas delas que poucos podiam aceitar que aquilo fosse trabalho de um homem sozinho, num modesto estúdio de rádio (por sinal, um homem sério, trabalhador, mora. dor de uma casa razoável. mente confortável do subúrbio do Riachuelo e que, no dia seguinte, estaria de pasta na mão visitando os anunciantes do seu programa que eram os que lhe garantiam o sustento). E, a cada noite, o ouvinte participava de uma grande festa, muitíssimo animada, em que convivia com seus astros e estrelas mais queridos, conduzidos por um anfitrião bem-humorado, que desfrutava da intimidade de toda aquela gente famosa e que nos levava a participar, também, desse desfrute.

Vindo para a televisão, Chacrinha perdeu a arma de usar a imaginação do ouvinte e defrontou-se com a necessidade de lhe dar a verdade. E foi então que superou todas as suas conquistas do passado e mostrou que não era apenas um herói do faz-de-conta. Seu "Cassino", na televisão, foi, desde os primeiros tempos, uma transposição para a realidade de toda aquela atmosfera de festa, de movimento, de intimidade com os ídolos, de entrevistas, de brincadeiras que ele simulava no rádio. Chacrinha nunca fez um programa para o auditório ou com a participação de algumas pessoas do auditório: ele sempre fez uma verdadeira festa com o auditório, criando uma verdadeira televisão de arena, em que público, artistas, músicos, técnicos e ele próprio se misturavam, num programa de movimento incessante. Para extremar- ainda mais a delirante alegria daqueles momentos, ele adotou não apenas um traje original, mas mil fantasias loucas, ambientando-se e facilitando a ambientação de todos naquela loucura organizada. Sim, porque o grande triunfo de Chacrinha é a bagunça estudada, a confusão programada, a mistura selecionada, à maneira de uma festa em que todos estão eufóricos, animadíssimos, deslumbrados e até um pouco altos, mas em que o anfitrião incita todos a uma animação cada vez maior - sem nunca perder o controle da situação.

O mínimo que se pode dizer de Chacrinha é que ele é uma figura absolutamente hors-concours da nossa televisão.

No comments:

Post a Comment

Followers