Saturday, December 20, 2014

1983 - Bagunça do Chacrinha

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 3/4/1983
Autora: Martha Baptista
A INCRÍVEL ORGANIZAÇÃO QUE FAZ FUNCIONAR A BAGUNÇA DO CHACRINHA

São 25 anos de carreira. Nesse meio tempo, muita coisa mudou no Brasil, o bacalhau - e as bananas - estão cada dia mais caros, mas o fascínio exercido por Abelardo Barbosa, o popular Chacrinha, junto ao público não mudou. A volta à Globo em 82, após um período conturbado na Bandeirantes, é uma prova disso, assim como a fila imensa que ,se forma na porta do Teatro Fênix aos sábados, quando o Velho Guerreiro comanda ao vivo seu programa do bairro do Jardim Botânico para todo o país. No último fim de semana, ele reassumiu seu posto, após mais de um mês de afastamento por motivos de saúde. E seu público fiel estava lá a prestigiá-lo.

A festa começa na rua. Amontoadas numa fila que sai da entrada do Teatro Fênix e dobra a esquina, mulheres e crianças aguardam impacientes o momento de entrar. Tudo é motivo para vaias ou brincadeiras, desde do cachorro que passa latindo num automóvel a alguém que grita de uma Brasília: "Terezinha!!!''.

As mulheres entram primeiro e só se sobrar espaço os homens são admitidos; por isso os que conhecem a regra nem entram na fila. Alguém da produção do Cassino do Chacrinha sugere tratar-se de cavalheirismo, mas o diretor José Aurélio Barbosa, o Leleco, filho do apresentador do programa, não esconde o jogo:

- Mulher vibra mais do que homem. Eles só vêm aqui para ficar de braços cruzados.

O estudante Helnirton Gomes Pereira, 18 anos, morador em Santo Cristo, Um dos que aguardam a hora de entrar do lado de fora do cordão de isolamento, acha a medida injusta, mas isso não o impede de se deslocar aos sábados para o Jardim Botânico, na tentativa, muitas vezes bem sucedida, de participar do programa.

Maria de Lurdes Batista do Reis, dona de casa, ficou na fila sábado retrasado desde 8h40min. Acompanhada da filha Adriana, 16 anos, e da sobrinha Conceição, 12, saiu de madrugada de sua casa em Jacarepaguá com alguns sanduíches e não tinha ido ao banheiro até 14h30min.

Ao lado delas, a empregada doméstica Sônia Mara, 17, conta com um sorriso brejeiro que chegou às 12h40min ("Sempre tem alguém que guarda lugar").

Enquanto do lado de fora o bochicho é geral, Chacrinha se prepara no camarim. Ele costuma chegar ao Fênix por volta das 14h30min e sente uma cólica seca antes de pisar no palco. A cada programa veste uma roupa nova, discutida na reunião semanal entre Leleco e Walter Lacet, diretor da linha de shows da Globo. A criação fica por conta do figurinista Vandick Loretto.

São 15h50min. Leleco dá as últimas dicas ao pai (''Tasca pau que o programa vai acabar às 18h, e não às 18h10min"). Com balinhas no bolso para o caso de sentir sede no meio do programa, o Velho Guerreiro se benze antes de entrar em cena. No teatro, já está tudo arrumado: as chacretes em lugares de destaque, os estudantes convidados e o público em espaços determinados. O apresentador é saudado por uma platéia em delírio, ávida por repetir um ritual em que não há muitas novidades.

"Oh Terezinha, oh Terezinha, é um barato o Cassino do Chacrinha" e "Roda, roda, roda e avisa..." são alguns dos refrães repetidos incansavelmente por todos os presentes. No comando desse público fiel e obediente, o português Eduardo Ferreira, 17 anos de TV Globo, rege as palmas e excita os espectadores com pacotes de biscoito, pirulitos e fatias de frutas, como melancia ou melão, atiradas a esmo.

Nesse jogo só não vale invadir o palco para beijar os artistas preferidos e o castigo para as fãs mais afoitas é ir para as filas de trás do teatro. Quem retira as invasoras do palco é o franzino Antônio Pedro Souza Silva, o Russo, 51 anos, 32 de carreira, encarregado ainda do áudio e microfones do programa.

- Elas me mordem, reagem - conta Russo, que gosta desse trabalho, apesar das dificuldades.

O número de guardas de segurança é grande (no sábado da volta do Chacrinha eram cerca de 30) e no final todos acabam se entendendo. Por trás da aparente bagunça há 30 pessoas, entre produtores, câmeras, contra-regras e maquinistas, mobilizados em sua realização. Tudo sou controle de Leleco, cuja agitação é constante: de sua cadeira na sala de edição, ele corre a todo momento para o palco a corrigir eventuais falhas e dar ordens ao resto da equipe. É também quem seleciona os artistas que se apresentarão, escolhe as chacretes ("Basta saber dançar e ter corpo legal", diz Fátima Boa Viagem, solteira, há oito anos acompanhando Chacrinha) e atende aos pedidos de vale dos empregados no final do programa.

Para os números musicais é usado o recurso do play-back (sobre a música gravada, o artista convidado coloca apenas a voz). Embora a fusão da antiga Discoteca do Chacrinha com a Buzina em um programa só tenha diminuído o espaço reservado para os calouros - atualmente apresentam-se de cinco a nove por semana - o número de candidatos continua grande: todas as quintas-feiras de 30 a 40 pessoas procuram a produção do Cassino, em busca de uma chance. Afinal, foi assim que vários nomes hoje famosos na música popular brasileira começaram suas carreiras.

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