Saturday, December 20, 2014

1982 - Chacrinha na Globo de Novo

O Globo
Data de Publicação: 14/3/1982
Autor/Repórter:
O Globo

Data de Publicação: 14/03/1982

O BRILHO NOS OLHOS DE CHACRINHA



Há muitos anos, uns onze, quando era moda atacar a televisão, eu fui o primeiro cronista a destacar o fenômeno Chacrinha em termos de comunicação. Depois a moda pegou e caímos no exagero oposto: ele passou a ser "o papa'' da comunicação. Silenciei. De lá para cá a Globo mudou de orientação no tocante a programas de auditório, ele foi para a Tupi, a TV Rio (brevemente) e depois para a Bandeirantes de onde voltou, agora, para a Globo estreando há uma semana (ontem realizou o seu segundo programa).

Nada mudou, nada. O programa é como sempre foi uma festa, um "happening'', um momento de alegria e descontração, o que significa muito (alegria verdadeira é conquista difícil). Mudou talvez, nesses anos todos, a forma pela qual a direção de TV seleciona as Imagens. Antigamente era mais bem dirigido. Havia um diretor de TV, o Luizinho, que só trabalhava para o Chacrinha e refletia em imagens o mesmo clima tropical e surrealista do programa. Hoje temos uma imagem mais clássica, bem comportada e bem menos participante e criativa.

Essa capacidade de não mudar é a grande força e arma do Velho Guerreiro. Por Isso senti, no sábado anterior a ontem, ocasião da re-estréia do Chacrinha na Globo, logo na abertura do programa, um brilho de alegria e felicidade nos seus olhos. Só pessoas muito atentas ao subjetivo devem tê-lo notado, até porque foi muito rápido,

Aquele era um momento de vitória dele! Os anos em que esteve fora da Globo porque a emissora resolvera "melhorar seu padrão de qualidade" de certa forma doíam no Chacrinha porque significavam conotá-lo com uma fase de "baixa qualidade". Ora, seu programa jamais foi de baixa qualidade. Fazia parte da atitude elitista contra a televisão - conotar o popular com a qualidade inferior, partindo do princípio (reacionário) de que qualidade é o que corresponde aos padrões estéticos das classes sociais dominantes ou detentoras da cultura típica dos estratos superiores da sociedade.

O segredo de ter permanecido batalhando e crendo em sua fórmula (presente no programa de estréia na forma abslutamente igual e desinteressada com a qual recebia as estrelas e astros que a Globo mobilizou para a ocasião, o que o levou a chamar a Glória Pires de Myrian Rios e várias outras reações que só não são gafes porque esse é o seu estilo), o segredo de ter permanecido batalhando na mesma trincheira e com o mesmo estilo - eu dizia - foi o que permitiu ao Chacrinha aquela alegria interior percebida no brilho de seus olhos pequenos, crianças e argutos: naquele instante ocorria uma forra interior - ele voltava em glória e majestade para o cerne de uma programação que ajudou a construir vitoriosa e que, anos depois, reconhecia existir na arte dele uma fidelidade e uma categoria artística que nem os anos nem os novos rumos da televisão conseguiram destruir.

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