Saturday, December 20, 2014

1980 - Tarso de Castro Entrevista Chacrinha

 Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 28/9/1980
Autor: Tarso de Castro
"O MELHOR DA TEVÊ VEIO DO RÁDIO"

Tarso de Castro entrevista Abelardo Barbosa, sem esculhambar

Vamos começar com uma frase do próprio Abelardo Barbosa:

— O caso é que, na verdade, nunca se criou na televisão brasileira. Veja: todos os chamados mitos da televisão vieram do rádio.

Ele cita alguns exemplos que não registro pelo simples fato de que o melhor exemplo de ídolo de tevê que temos é ele próprio, o Velho Guerreiro, o Chacrinha, o homem que tem uma maravilhosa jogada de controle visual, bissemanal, sobre milhões de telespectadores. Quem é ele?

Basicamente, um homem de rádio. Para quem não sabe, em 1939 o velho Abelardo estreava em Recife, como locutor comercial. E só chegaria ao Rio anos depois, para ser mais exato, em 1942, para lançar, por decisão solitária e própria, o "Cassino da Chacrinha".

— O programa ia das 11 a uma da manhã — conta ele, lembrando os tempos da Rádio Clube de Niterói. — E, nesse tempo, as outras rádios só tinham coisas de poesia nesse horário.

E verdade: qualquer um pode lembrar que, naquele tempo, a "Hora da Ave Maria" tinha uma audiência comparável às novelas de hoje. Era uma coisa fantástica: todo mundo tinha a mania de escolher a sua "Ave Maria" de acordo com a voz do locutor. Tenho a impressão de que até Mário Lago haverá de ter lido suas orações. Nunca se sabe.

— Se você observar — diz o Velho Guerreiro — os verdadeiros mitos da tevê são facilmente localizáveis por alguém que entenda de rádio. De onde vem Lima Duarte (o Zeca Diabo), Chico Anísio, Max Nunes (Planeta dos Homens) etc.?

EM 1955, ABELARDO FOI XERIFE NA TEVÊ

Chacrinha tem razão. Todos do rádio. E não apenas os caras que hoje fazem a tevê brasileira vieram do rádio como, também, as idéias. Ele, o Velho Guerreiro acrescenta:

— Ficam todos os caras de tevê achando que foram eles que fizeram uma verdadeira revolução. São todos uns (... ). O fato é que o rádio é que produziu o que hoje está sendo reeditado pela tevê.

Pois bem: em 1955, na conhecida (conhecidíssima, aliás) TV Tupi, Chacrinha se transformava em Caubói na televisão brasileira. Explico: no programa "Rancho Alegre" (já então Abelardo era argumentista, ator, diretor, programador etc.—características que conserva ate hoje) ele fazia sátiras aos westerns da época, então os filmes de maior sucesso do mundo. No Brasil, por exemplo, Oscarito e Grande Otelo faziam "Matar ou Correr" para brincar em cima de "Matar ou Morrer", filme que marcou a consagração oestiana de Gary Cooper. Pois o Velho Guerreiro se encarregou de jogar esse esquema na tevê. E ele se delegou, no programa, o papel de xerife. Vejam vocês que aí nesse programa surgiu o Carlos Imperial que, por conseqüência, é um velho senhor que esconde a idade. Vai daí que já então existiam os gênios da tevê. E um deles teve a bondade de chegar para Chacrinha e decretar:

— E hora de fazer um programa sério.

O programa "sério" que eles sugeriam acabara por se transformar na futurosa "Discoteca do Chacrinha". Só que naquele tempo ele entrava no ar naquela base de — digamos — "Caretão", isto é, terno normal, tipo azul marinho. O programa começou a aparecer e, vejam vocês, os mesmos caras que sugeriram o chamado "sério" foram ao velho propondo outra coisa: que ele rasgasse a fantasia.

1960. TV-Rio:

— Foi nesse ano que o programa tomou a forma de show. E, de lá para cá, foi evoluindo.

É da cabeça de Chacrinha que surge o programa?

Falo com ele sobre este assunto em seu apartamento num hotel do centro de São Paulo, com colchões estendidos no chão, garrafas de chá atiradas sobre a geladeira, ele de sunga, expondo sua barriga imensa e delicada:

— Olha, vê se não me esculhamba.

Eis uma perfeita preocupação de Chacrinha: o pessoal, que cai de pau em cima do próprio. E normal: a nossa pseudo-intelectualidade tem mania de esnobar Chacra. Por quê? Porque, talvez, haja sempre um ódio latente com aqueles que se comunicam com o chamado povão. Há anos atrás, por sinal, num vôo da Ponte Aérea houve um encontro entre Samuel Wainer é Chacrinha. Este falava:

— Olha, Samuel, o negócio é o seguinte: as pessoas se dividem entre PTB e UDN. Eu sou PTB, meu programa é PTB.

O PTB, como se sabe, era o grande partido dos trabalhadores. Bem ou mal, era. E Samuel, com aquela sua velha e imortal sabedoria, não deixaria por menos: 24 horas depois Chacrinha era o redator da coluna "Buzina do Chacrinha", na "Última Hora" do Rio.

— Veja você — me conta Abelardo neste encontro desta semana — que ainda tenho que escrever em jornais. Senão não publicam nada. Depois dessa coisa de relações públicas...

Voltando ao programa, como ele surge ele conta, sob o olhar maravilhado de João Ubaldo Ribeiro:

— Olha, a parte de improviso é só a minha. O resto é ensaiado mesmo. Eles vão lá e ensaiam horas. Depois eu faço a minha parte. Fico duas horas no ar, sem parar. E, sem modéstia, desafio qualquer apresentador do mundo a fazer o que faço.

E verdade: só quem vai até lá, ver a roda-viva que esse homem de 63 anos ( que se completam no próximo dia 14, em meio a grande festa) pode imaginar o que acontece por trás de todo esse show que se estabelece aos olhos do espectador comodamente posto em sossego na poltrona da sala de visitas. Por exemplo: a cada vez que se inicia a "Discoteca do Chacrinha" estão mobilizadas vinte e duas chacretes, cinco garotos especialistas em skate, três pessoasepatinadoras, um cara fantasiado de "Carlito", seis outros fazendo papel (e fantasiados) de bichos, quatro malabaristas, dezoito artistas mutáveis a cada programa, um conjunto de 12 músicos um coral de seis pessoas — e, naturalmente três câmeras, diretores de TV, equipe de produção etc e tal. Para dar de barato, eis alguns dados sobre o outro programa, a "Buzina": oito jurados, cinco cantores e, no mínimo, vinte calouros que vêm de todos os pontos do Pais. É pouco?

— Olha — diz Chacrinha — a grande emoção, a coisa realmente inesperada desses últimos tempos é a presença dessa gente. "Essa gente" quer dizer o seguinte: depois da esnobação dos chamados intelectuais houve um belo fenômeno: os universitários, os colegiais invadiram o programa. Vi isso pessoalmente. Não que se forme essa ou aquela caravana. Não. Os caras vão porque decidiram ir. E mais:

— Ontem recebi uma condecoração — conta ele — de chefe da delegação da Arábia Saudita. Mas é normal: toda a Europa já veio filmar meu trabalho.

O Velho, na verdade, não precisa ser modesto, nem deve. Se você percorrer o interior do Brasil vai encontrar, em centenas de cidades, nas rádios, nas tevês locais, dezenas de imitadores dessa fórmula criada por Chacrinha para a TV brasileira.

— O negócio — explica o próprio — é que os meus programas seguem a moda. Por exemplo: se é hora de patins, eu uso patins; se é hora da minissaia eu faço um concurso de minissaia. E também distribuo frutas essencialmente brasileiras. O cara pega, leva pra casa, não é legal?

Há, também, nele, uma fórmula particular de democracia:

OS UNIVERSITÁRIOS INVADEM A "DISCOTECA"

— No caso dos calouros, por exemplo, quero dar oportunidade a todos. Como existe o "Melhor Calouro" achei que deveria também ter o "Pior Calouro". Dai criei o "Troféu Abacaxi". Não é justo?

Claro que é. E o vídeo-tape, a Embratel?

— Bem, o videotape é uma arma de dois gumes. Tem que saber se usar.

— Seu programa é editado'.

— Não, é gravado. Mas vai ao ar como sai.

Na verdade, é o único VT inútil: vai como sai, é ao vivo, coisa que deveria ser seguida por outros programas.

— E a Embratel?

— A Embratel é forte em termos de popularidade, é claro. porque atinge todo o País. Mas, ao mesmo tempo, é reproduzido por vinte estações. E você só recebe por uma.

Enfim, vale registrar uma coisa que Caetano Veloso ,disse a mim e a Luís Carlos Maciel quando, ao voltar do exílio, foi-lhe perguntado o que queria fazer naquele domingo:

— A gente vê o Chacrinha, e, depois, vai jantar.

Este, sim, é parte da história destes trinta anos de TV. Quanto ao futuro Chacrinha fala, do alto de sua sunga, colocada sob a grande barriga:

— Creio que a mulher de hoje é o homem de amanhã.

Como sempre, o Velho Guerreiro sacou antes.

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