Saturday, December 20, 2014

1980 - Chacrinha e a Globo

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 27/4/1980

CHACRINHA, A MISTURA DE ESTAÇÕES

Abelardo Barbosa, 62 anos, trabalhou na TV Globo de 1968 a 1972. Começou ganhando Cr$ 80 mil (o salário mínimo da época era Cr$ 129,60; assim, ele hoje ganharia Cr$ 1 milhão 810 mil) para fazer os programas Discoteca do Chacrinha e, a Buzina do Chacrinha. Ao terminar o contrato com a TV Bandeirantes, em 1981, "pretende voltar para a Globo.

"O meu grande caso com a TV Globo foi ter misturado as estações. A medida que ela foi crescendo, eu deveria ter percebido que as outras pessoas deveriam ter mais atenção também. Hoje está tudo bem novamente. Fui até convidado para gravar a cabeça do programa Os Melhores Momentos do Globo de Ouro, e quem escreveu o texto foi o próprio Boni.

Além disso, a TV Mulher veio até a Bandeirantes para gravar parte do meu programa, com os melhores momentos da TV. Agora, vamos esperar o término do contrato com a Bandeirantes e em 1981 deveremos estar na Globo aos domingos das 16 ás 19h.

Em 1968, a TV Excelsior e a TV Rio estavam caindo. A Globo começava a despontar como uma nova esperança, e o salário de Cr$ 80 mil pareceu bastante justo para os quatro programas a serem realizados. Mesmo assim, na época, fizeram um escândalo. Todo mundo falava do salário que eu ia receber, mas ninguém se lembrava do trabalho que eu iria ter. E muito menos lembravam de que nunca tive a sorte de ir para uma emissora que estivesse em primeiro lugar em audiência. Sempre trabalhei em emissoras que queriam subir. Não sei se os meus programas ajudaram as emissoras em que trabalhei, mas a verdade é que dei sorte e elas ganharam muitos pontos em audiência.

De uma tacada, a Globo venceu a competição com a TV Rio, ganhou dois programas de grande audiência e um patrocinador rico, o Venâncio Flores, das Casas da Banha, que fez pesar a balança. Ou eu ia para a Globo, ou as Casas da Banha ficariam patrocinando o programa onde eu estivesse. Honestamente, o que me fez decidir pela Globo foi o salário. Eu já era o Chacrinha e a TV Globo ainda não era o apelo que é hoje. Tanto isso é verdade, que com meus programas, bons ou ruins, eles me escolheram para inaugurar a TV Globo em Belo Horizonte, São Paulo, Bahia e Recife, além do Teatro Fênix, no Rio. E nem foi com a Discoteca do Chacrinha, foi com a Buzina do Chacrinha mesmo.Eu e os calouros de cada cidade. Não tinha artista famoso nenhum.

Eu assisti ao crescimento de todas as televisões. Vi também as que cresceram e caíram. E nunca houve qualquer espécie de ressentimento entre nós. As mudanças do meu programa de uma emissora para outra foram sempre questões de momento, de oportunidade.

Dentro da Globo, flui. sempre um dos maiores salários. Nenhum artista ganha agora o equivalente ao que eu ganhava na época em que saí. Não posso dizer quanto era, mas era muito dinheiro. Se eu tivesse contado até 10, tudo teria sido esclarecido e eu nunca teria saído. Essa história da minha saída é muito engraçada. Por volta de 1970, a Globo entrou num processo de elitização e auto-afirmação que não exigia nada de mim, mas dava a entender que eu deveria fazer um programa que agradasse também a classe que não gostava do programa. A Buzina do Chacrinha e a Discoteca do Chacrinha foram criados por mim sempre dentro das mesmas características. As pessoas gostam ou não gostam, mas procuro sempre fazer de modo que todos gostem, sem alterar o esquema básico, mudando apenas as atrações.

Eu tinha medo dos padrões globais, de não me adaptar, de não gostar. A gente conversava e não chegava a uma conclusão. Eles não se explicavam bem. Só sei que queriam mexer no visual e em mim, colocar números de, categoria, e eu pensando na minha audiência. Nessa época, a Globo não tinha medo de mais nada, estava cristalizada, mas eu ficava preocupado de perder a minha audiência que sempre foi a maior da emissora. Um dia, quando faltavam seis meses para terminar o contrato, já com a renovação na mesa do Renato Pacote, levei o Juca Chaves para ser entrevistado. Minha cuca andava cheia de coisas. No meio do programa, ele começou a falar mal de tudo e de todos e a dizer que os cachês eram uma porcaria. Todo mundo sabia que ele vivia brigado com todos, mas a Globo consentia em sua apresentação.

Quando começou a falar nessas coisas, um dos diretores da emissora ligou para o Jorge Barbosa e mandou tirar o programa do ar, 15 minutos antes da hora prevista. Tirei, e no dia seguinte cometi a grande insensatez da minha vida. Não que esteja mal satisfeito aqui na Bandeirantes, mas é que ,ao invés de dialogar com os caras, mandei dois advogados rescindirem o contrato, sem maiores explicações. Logo quando, na manhã seguinte, iria entregar o troféu Velho Guerreiro ao Dr Marinho.

Renato Pacote fez tudo para eu desistir, mas não dava. Fiquei chateado, encabulado mesmo. Soube muito tempo depois que o Dr Marinho ligou três vezes para mim, mas no meio daquela confusão, com o pessoal da Tupi na minha casa atendendo o telefone, ninguém me falou nada. O Dr Marinho durante muito tempo pensou que eu não queria atender, e eu sem saber que era ele. Resumidamente, eu jamais sairia da Globo, mas teria que entrar nos padrões. Eles certamente estavam arranjando um jeito para isso.

Quando cheguei na Globo, com o meu nome já feito, e reconheço que foi ainda mais longe com a divulgação e a promoção da emissora, nada me era negado. Tudo era permitido. Vinham calouros de outros Estados, atrações variadas com, passagens e estadas pagas. Eu tinha dinheiro e prestígio. Tive problemas, como tenho em qualquer estação onde trabalho. Algumas pessoas acham que sou brigão. Eu reclamava e brigava por melhores condições de trabalho, como som, ar condicionado e horários. Dentro do visual de desorganização, sou muito organizado. O que eu conseguia, os outros depois passavam a usar. Esse fenômeno acontece até hoje.

Quando reclamo alguma coisa, as pessoas acham ruim, depois que consigo, deixo de ser exigente porque todo mundo pode usar dos benefícios.

Não peço nada por pedir. Mas aí começavam a surgir as primeiras restrições. Os cenários que sempre foram feitos por mim passaram a ser feitos pela Globo, mas não condiziam com o meu tipo de trabalho, eram muito sofisticados. Depois da minha saída em 1972, começou realmente o período de grandiosidade e maior cuidado com a produção de todos os programas, além do desenvolvimento da Globo no interior. De 1972 para cá, ela cresceu muito. Naquela época, eu não tinha certeza de nada, mas hoje acredito que poderia trabalhar em composição com o novo esquema, sem perder as características populares do meu programa, porque a Bandeirantes contribuiu muito para isso, principalmente em cenários, que são muito bonitos, sem serem, sofisticados demais.

Meu programa é feito para o povo. Se são as empregadas domésticas que assistem, tudo bem. Elas não são povo? Escola e educação competem ao Governo, não à TV ou à gente. O comportamento das meninas que freqüentam o meu programa é igualzinho ao das que freqüentam as discotecas da moda, só que não colocam os peitos de fora. Público é igual em qualquer lugar. Tem gente que me vem pedir autógrafo para a empregada, depois volta para pedir para a filha e mais uma vez volta, Para pedir para ela mesma. Já fui a um restaurante chic em São Paulo, onde um bêbado ao piano me reconheceu e pediu para ser buzinado.

Se a gente oferece os programas a clubes, mesmo do interior, ninguém quer. Agora, quando a gente vai para as feiras da cidade, o pessoal dos clubes vai também e se mistura com cego, aleijado e povão, tudo de pé e gostam. Há três anos, fiz um documentário para a TV alemã. Não sei se o que os motivou foi o fato de o programa ser muito bom ou muito ruim, só sei que nenhum artista, a não ser o Pele, recebeu um convite parecido. Meu programa foi um dos primeiros a ser gravado em cores e se manteve durante todo o tempo em que estive na Globo, entre os primeiros, se não o primeiro, em audiência".

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