Saturday, December 20, 2014

1980 - Chacrinha contra a Censura

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 11/7/1980

CHACRINHA BUZINA CONSELHEIRO E FAZ DENÚNCIA NO CONSELHO DE CENSURA

Brasília - Abelardo Barbosa, o Chacrinha, sensibilizou ontem o Conselho Superior de Censura, onde ouviu discurso de exaltação ao seu talento e buzinou um conselheiro do qual discordou, durante reunião em que denunciou sua prisão em São Paulo, sob acusação de desacato a urna censora. Cópia de sua denúncia foi entregue ao Ministro Ibrahim Abi-Ackel.

O Conselho Superior de Censura, na mesma reunião liberou seis filmes e uma música -Bobagem - da cantora Rita Lee, que havia sido censurada. Foram liberados Emiliene, Triângulo Proibido e Andréa, para os quais foi pedida proibição pelo relator do processo, conselheiro Pedro Paulo Wandeck. Foram liberados também Terra e Êxtase, Invasão das Rãs, A Noite das Taras e Palácio de Vênus.

DISCRIMINAÇÃO - De paletó branco, camisa gola role preta e boné amarelo, Chacrinha chegou de surpresa à sala de reuniões do Conselho Superior de Censura. Teve de assistir, sentado, às discussões e liberações dos filmes e de letras musicais que constaram da pauta, para, em seguida, manifestar-se.

Leu seu carta de quatro laudas datilografadas e completou sua denúncia com detalhes sobre sem incidente com a Censura em São Paulo, dirigida pelo Sr José Augusto. Disse que foi preso por 10 agentes federais e mais um delegado, depois de apresentar seu programa na TV Bandeirantes. Depôs durante cinco horas e se achou vítima de discriminação pela Policia Federal, desde quando era diretor do DPF o General Antônio Bandeira.

Criticou outros animadores de TV em São Paulo, que, segundo afirmou, apresentam programas muito mais violentos que os seus, citando entre estes o programa O Homem do Sapato Branco. Antes de comparecer à reunião do CSC, ele foi recebido pelo secretário-geral do Ministério da Justiça, seu conterrâneo, o pernambucano Sileno Ribeiro.

Chacrinha sentiu-se à vontade para dar suas explicações e chegou a buzinar o conselheiro Geraldo Sobral Rocha, representantes dos cineastas, que, em seguida, o considerou uma espécie de herói do rádio e da TV, por haver conseguido expulsar "o lixo internacional" do vídeo e dos programas radiofônicos.

O conselheiro Ricardo Cravo Albin, representante dos autores de rádio e televisão, além de exaltar o talento de Abelardo Barbosa, pleiteou um tratamento especial para ele pela Censura. O animador de TV ocupou, na reunião, o lugar onde fica geralmente o diretor-geral da Divisão de Censura de Diversões Públicas, José Vieira Madeira, que não compareceu por se encontrar em São Paulo submetendo-se a exames médicos por problemas de coração.

O representante da ABI, jornalista Pompeu de Souza, criticou a ação da censura, afirmando que "a censura do Estado Novíssimo está mais dura do que a do Estado Novo do DIP getuliano".

VIOLÊNCIA - A carta de Chacrinha, protestando contra sua detenção pela Censura, foi encaminhada ao Ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel, ao diretor-geral do DPF, Coronel Moacyr Coelho, ao diretor da Divisão de Censura de Diversões Públicas e à Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado que apura o problema da violência urbana.

Além dos filmes liberados (Invasão das rãs, só para 16 anos, porque é para TV) e da música de Rita Lee, os conselheiros ocuparam grande parte do tempo na discussão de uma letra de música de Caio Júnior - Cabeça Boa - que foi censurada por causa da palavra "porrada". O presidente do CSC, Octaciano Nogueira, propôs a substituição do termo pela palavra pancada, proposta não aceita pelo Conselho, que decidiu aprovar independente da mudança ou não do termo pelo autor.

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