Saturday, December 20, 2014

1980 - A Censura contra as Chacretes

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 2/11/1980

A DANÇA DAS CHACRETES, OS CASOS COM A CENSURA

Chacrinha foi preso pela Polia cia Federal em julho deste ano. A cause, uma censora. Poucos minutos antes de A Hora da Buzina ir ao ar, uma senhora baixa de óculos, disse que queria ver as roupas das chacretes. De acordo com Abelardo Barbosa, ela, e muitas outras pessoas estavam no corredor que dá para os bastidores. Ali só é permitida a permanência de pessoas da produção.

- Ela não se identificou. Eu não poderia imaginar que fosse censora.

O programa terminou e Chacrinha encontrou a sua espera, no camarim um delegado, dez agentes federais e o chefe de Censura. Com a mesma roupa com que se apresentara, e exausto, depois de duas horas e meia de programa, ele foi levado para a delegacia onde depôs até às cinco da manhã. A queixa, "desacato à autoridade no exercício de suas funções". Antes de ser preso e durante todo o depoimento, Chacrinha tomava oxigênio. Enquanto isso, a censora fugia dos repórteres, escondida no interior de um Brasília, agachada no banco de trás. A fiança de Cr$ 10 mil foi paga e Chacrinha enquadrado no artigo 331 do Código Penal.

Indignado,. ele depôs no Conselho Superior de Censura, relatando o episódio e outros mais. Certa vez, um censor, paulista telefonou para a emissora reclamando da roupa das chacretes e de algumas tomadas de detalhes anatômicos. Na semana seguinte, a mesma pessoa apareceu no estúdio, três minutos antes do começo do programa e exigiu que as chacretes mudassem de roupa. Uma roupa usada pela quinta vez. No final, Chacrinha foi atendido na emergência do Hospital Humaitá, permanecendo duas horas no balão de oxigênio. Em junho, a produção foi chamada à Censura por dar takes mais fechados das chacretes. E ao perguntar "Vocês querem mandioca?", Abelardo Barbosa foi repreendido" aos gritos" pelo telefone. O processo foi arquivado.

- A Censura é mais rígida comigo e o que mais a preocupa as chacretes. Respeito a Censura e faço o programa com medo, coagido. Pior que a falta de critérios e a desigualdade é que se eu reclamar que no programa X se faz uma coisa proibida, no meu, o chefe da Censura responde que o censor daquela emissora é Y. E é preciso acabar com este negócio de ser Censura de Rio, de São Paulo, quando existe a Federal, para acabar com estes critérios particulares. Mas agora, ela sossegou comigo.

O programa entra no ar e da cabine especial, em que a censora assiste ao programa e que tem ligação direta com o diretor da TV, (o responsável pela seleção de imagens), a advertência: "Olha as tomadas das chacretes!".

Alheio ao problema, vários rapazes se plantam desde cedo na entrada dos bastidores à espera das bailarinas. E ali permanecem, no final do programa. Dalva é a responsável pela coreografia há mais de um ano. O ensaio é feito nas tardes de terça e de quarta. Chacrinha fala como são escolhidas:

- Tem que saber dançar e ser fotogênica. A maioria delas estuda numa academia.

O salário delas é de Cr$ 15 mil, para dançar n'A Buzina e n'A Discoteca com exclusividade. A renda mensal é acrescida de comissões dos shows que fazem com o Velho Guerreiro, nos mais diversos pontos do país. O camarim é alegre. E o gosto pelo que fazem não as deixa sentir tédio ou exaustão. "Não dá para ver a hora passar", comenta- a Índia Amazonense. Rita Cadillac diz que o assédio dos fás - que mandam cartas e flores para a emissora - é mais intenso nos shows ao vivo. "Mas eu acho até gozado!", opinião compartilhada por Regina, formada em Educação Física. Gracinha Copacabana, a mais antiga, traduz o pensamento das colegas arriscando um palpite:

- Atualmente, todo mundo quer ser chacrete!

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