Saturday, December 20, 2014

1978 - TV Chacrinha

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 30/1/1978
Autor: Paulo Maia
UM PALHAÇO IRREVERENTE

Há dez anos, os intelectuais torciam o nariz para o apresentador de televisão Abelardo Barbosa e consideravam a parafernália de seus dois programas semanais simplesmente a mais pura manifestação do mau gosto. Vivíamos então o pleno auge da bossa nova e o bom-gostismo era a palavra de ordem da época. Os mesmos intelectuais, contudo, logo passaram a venerar o popular Chacrinha, na medida em que ele passou a merecer elogios de comunicólogos internacionais como Edgar Morin e quando ele surgiu na crista do modismo tropicalista.

Depois de uma tenebrosa hibernação, em que passou por emissoras sem a audiência massiva que ele ajudara a dar à Rede Globo de Televisão, Chacrinha agora reaparece sem o vigor dos velhos tempos, mas com a mesma festa ruidosa e movimentada em que muitos viram as pitadas do típico tropicalismo nacional. O Velho Palhaço está no picadeiro da Tupi apenas uma vez por semana e aproveita os outros dias úteis para levar suas chacretes para os clubes do interior, onde apresenta seu show, ainda um sucesso, apesar da intempestiva forma como foi despedido da Globo pelo autoritário Boni, em plena implantação ditatorial daquilo que o próprio criador chamou "padrão de qualidade".

Chacrinha baseia seu sucesso na forma como se identifica, em linguagem (e quando falo em linguagem incluo os gestos largados, os gritos alegres, os sorrisos, a forma de dançar dando umbigadas e a irreverência), com o homem brasileiro em seu estado mais puro. O homem do interior, das pequenas cidades, da cultural rural. Ele próprio um homem interiorano, criado no interior do Nordeste, sabe ser aquele velho irreverente tão presente no folclore da região como o louco, por exemplo, e com ele identificando-se em vários pontos. O velho irreverente que Chacrinha representa, Chacrinha, de certa forma, é. Essa autenticidade é que lhe garante um sucesso continuo, uma presença sempre marcante junto a um público fiel e constante. É essa autenticidade, da mesma maneira, que garante ao seu programa semanal, A Buzina do Chacrinha, aos sábados, na TV Tupi, um lugar de destaque na programação de nossa televisão. Cercado em todos os horários e em todas as emissoras por uma programação maciçamente concentrada em filmes importados e em programas ascéticos, insipidos, inodoros e incolores, Abelardo Barbosa, apesar de velho e já nitidamente cansado do ponto-de-vista físico em muitos momentos de seu show, consegue dar uma injeção de movimento, de cor, de sabor e colocar pequenos ciscos no olho do telespectador habituado demais ao colírio gelado dos incompetentes "padrões de qualidade" de nossos endeusados programadores.

Na época da Globo, com a Discoteca do Chacrinha e A Hora da Buzina, o Velho Guerreiro conseguia uma identificação perfeita com esse espirito brasileiro, pois a direção de imagem, criativa e movimentada, dava-lhe um inestimável apoio de linguagem visual e integração som-imagem. No período que chamo de hibernação, até a volta do sucesso, o animador de auditórios teve sérios problemas com seus diretores de imagem. Todos eram frios e embrutecidos pelo burocratismo com que estavam habituados a editar a imagem de outros programas, pontuados sem qualquer criatividade. Com a volta do programa ao Rio, a imagem tem melhorado, apesar de não haver ainda sido atingido o nível dos velhos tempos da Globo. Pode-se inclusive dizer que o cansaço de Chacrinha hoje mais velho e calejado, é seguido pelo cansaço no corte das imagens e no enquadramento das câmeras.

De qualquer forma, ele ainda é responsável por alguns momentos de alegre e descomprometido divertimento, de volta do telespectador às suas origens culturais mais autênticas de nosso interior. Ao contrário dos muitos que apenas traduzem do inglês seus slogans, Chacrinha ainda se preocupa em criar os seus e, de uma certa maneira, ainda está perturbando aqueles que dependem a ordem e a paz estabelecidas na televisão, dando-lhes a hipócrita e enganosa etiqueta de qualidade.

Infelizmente, a Buzina do Chacrinha é hoje um programa mais de nostalgia dos velhos tempos criativos do animador de auditórios mais popular no Brasil na década de 60. O próprio Chacrinha está lutando para ser mais do que uma pálida imagem do passado e tem como aliado nessa luta o fato de a televisão brasileira nada haver criado de tão original e de tão próprio desde que seu auge terminou, por imposição de Boni, para substituí-lo. Entre o sorriso pasteurizado de Sílvio Santos e a gargalhada debochada de Chacrinha por menos fôlego que lhe reste ainda, não há nem como deixar de se optar pela brasilidade irreverente do último, ainda uma figura isolada e destacável no vídeo nosso de cada dia.

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