Saturday, December 20, 2014

1973 - O Toque de Midas de Chacrinha, Silvio Santos e Flávio Cavalcanti

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 16/8/1973

OS EMPREITEIROS DO SUCESSO NA TV

Eles são os grandes donos do sucesso na TV: personalidades discutidas, com faturamentos mensais fabulosos e altos índices de audiência, em torno de suas figuras giram enormes verbas de publicidade. A imagem de cada um deles cresceu tanto na televisão brasileira que os três - Chacrinha, Flávio Cavalcanti e Sílvio Santos - organizaram firmas que produzem seus próprios programas, exploram e vendem o mito de seus nomes.

A força do animador que tem sua equipe e é independente economicamente da emissora ficou evidente quando, ano passado, estourou a crise entre Chacrinha e a TV Globo. Pressionado a enquadrar a Discoteca e a Buzina dentro dos moldes estabelecidos pela emissora, Abelardo Barbosa transferiu-se com quase toda sua equipe - de 30 pessoas - para a TV Tupi, onde tem inteira liberdade de ação. A Globo intensificou, a partir daí, os planos de eliminar de seus quadros as grandes vedetas e já anuncia extra-oficialmente que não renovará em 1976 seu contrato com a empresa Publicidade Sílvio Santos Ltda., responsável pelo programa do animador na emissora.

Esquema - O diretor artístico da empresa, Luciano Callegari, encarregado da produção dos programas de Sílvio Santos, diz que as despesas semanais com o espetáculo nas redes Globo e Tupi atingem Cr$ 350 mil.

No Programa Sílvio Santos - domingo, na Globo, das 11 às 20 horas - são gastos cerca de Cr$ 250 mil. A Globo fornece as câmeras, a iluminação, a projeção, os vídeo-tapes e o controle-mestre. A empresa do animador explora toda a parte comercial do programa. Na TV Tupi o esquema da compra de horário é diferente: cada programa - Sua Majestade o IBOPE, às quintas-feiras, das 20 às 24 horas - custa Cr$ 100 mil à Publicidade Sílvio Santos Ltda., que explora 50% da comercialização do espetáculo. A Tupi fica com a outra metade.

Dona por oito horas do horário da Globo, a Publicidade Sílvio Santos vende a patrocinadores diversos o tempo do Programa Sílvio Santos. Contratos publicitários são feitos freqüentemente com algumas das 11 empresas do próprio Grupo Sílvio Santos, corno o Baú da Felicidade, a Vimave - Concessionária de Veículos - e a Produções Artísticas Sílvio Santos.

A Publicidade Sílvio Santos cede à Globo, durante o programa, seis chamadas de um minuto para São Paulo. No quadro Só Compra quem Tem, a Globo pode colocar publicidade conseguida pela própria emissora, desde que não seja de empresa concorrente do Baú da Felicidade, que patrocina este pedaço do Programa Sílvio Santos.

Segundo o produtor Luciano Calegari, o plano a longo prazo é conseguir a concessão de um canal de televisão para o Grupo.

É um dos grandes sonhos de Sílvio Santos. E temos condição de realizar isto. Já podemos produzir programas para uma emissora durante a semana inteira, com tudo feito por nós: maquilagem, cenografia, contra-regra, decoração, guarda-roupas - o maior de São Paulo - e redação. A próxima meta é gravar integralmente os programas em nossos próprios estúdios, em Vila Guilherme. Para isto, estamos apenas esperando aparelhagem especializada adquirida nos Estados Unidos e que deverá chegar a São Paulo nas próximas semanas. Os novos equipamentos possibilitarão o aprimoramento da parte técnica dos programas. Vamos contar com sistemas de vídeo-tape e iluminação dos mais eficientes.

Em Vila Guilherme, onde estão centralizados todos os departamentos do Grupo Sílvio Santos ligados à TV, o supervisor técnico Alberto Cortez Filho supervisiona a instalação de equipamentos comprados recentemente e diz:

- Em apenas 10 anos conseguimos muita coisa. Quando a nova aparelhagem chegar estaremos com a grande vantagem de possuir equipamento próprio completo. Gravaremos, como primeira experiência, um programa com Ronald Golias e levaremos somente a fita para a TV. Breve, receberemos o público em nosso próprio auditório. Com a gravação de todos os quadros dos programas aqui, conseguiremos uma imagem de excelente qualidade.

Entre os aparelhos que deverão chegar nos próximos dias estão um gerador de sincronismo, duas mesas de corte, editoras de filme e sons. Uma mesa de som para oito canais, quatro formas de ondas, dois vídeo-tapes, 13 lentes especiais que alcançam de 100 a milímetros tela retroativa, equipamentos completos de iluminação - com especificações para TV a cores - cabos e conectores e duas máquinas de filmar sonoras de 16 milímetros, marca Aurikon.

A instalação da produção geral em Vila Guilherme, acompanhada de todos os departamentos artísticos da empresa, "apesar de atingir objetivos propostos; será provisória.'' - informa um dos dirigentes.

- Podemos permanecer em Vila Guilherme por cinco ou 10 anos. Mas, como nossas instalações são alugadas, a direção do grupo já pensa na transferência para outro terreno - Via Anhanguera. - onde teremos instalações próprias. Lá serão construídos dois grandes auditórios, estúdios e acomodações para todos os departamentos, além dos escritórios das empresas do grupo.

Nossos comerciais, por favor - Para botar e tirar os óculos durante o seu programa e dizer o nome de uma óptica especializada, o apresentador Flávio Cavalcanti e a sua TV Estúdio Produção Ltda. ganham Cr$ 30 mil.

Este é o preço que a TV Estúdio cobra por um comercial de 1 segundo com seu contratado Flávio Cavalcanti. A TV Tupi recebe mais Cr$ 30 mil do anunciante pela concessão do mesmo tempo do Programa Flávio Cavalcanti.

A TV Estúdio Produção Ltda. não é minha - diz o apresentador. - Mas de Gilda Muller, de meu filho Flávio Jr., de minha mulher Belinha e de meu genro Jarbas Braga. A firma está sofrendo uma reforma contratual que colocará Flávio Jr. como diretor-presidente, ao lado dos diretores João Marcos Avila, Jarbas Braga e de uma outra pessoa da qual ainda não podemos revelar o nome.

Segundo o apresentador, a TV Estúdio produz o Programa Flávio Cavalcanti que, por Cr$ 700 mil mensais, é vendido à TV Tupi.

É um bom negócio, Flávio?

Bem, ganha-se alguma coisa. Mas não esta fortuna que a maioria das pessoas imagina. A TV Estúdio gasta cerca de Cr$ 400 mil mensais com a folha artística do programa. Nos meses de cinco domingos, a produção deste domingo extra corre por conta da TV Estúdio. Eu, pessoalmente, como apresentador, ganho Cr$ 150 mil. Do que sobra ainda é preciso tirar as despesas operacionais, como impostos, retorno via Embratel, quando é o caso, aluguel da casa onde funciona nosso escritório.

O diretor-superintendente da Rede Tupi, José Arrabal, diz que a emissora fornece parte da infra-estrutura para o Programa Flávio Cavalcanti: cenografia, orquestra, coro, três produtores - Eduardo Sídnei. Osvaldo Miranda e Mandarino - e um redator. Toda a comercialização do programa fica a cargo da TV Tupi.

- A diferença básica entre o programa de Sílvio Santos e do Flávio é que o Programa Flávio Cavalcanti é nosso. Podemos interferir em uma estrutura, alterá-lo. Toda semana o roteiro do próximo espetáculo é submetido à aprovação da Rede Tupi. Mas Flávio pode promover livremente dentro do programa, sem qualquer ônus, publicações e discos editados por sua firma.

A TV Tupi cobra Cr$ 1 mil por segundo nacional pela veiculação de filmes no programa de Flávio. Os anúncios locais - chamados janelas - têm preços variados que vão de Cr$ 5 mil, em Goiânia. a Cr$ 150 mil, no Rio. Anúncios para São Paulo são discutidos fora da tabela.

Uma cláusula do contrato entre a TV Estúdio e a Tupi estabelece que o animador pode conseguir um patrocinador especial para um artista de grande prestigio - como Elis Regina ou Roberto Carlos -que cobre mais de Cr$ 30 mil por apresentação.

Está com tudo e não está prosa - Na verdade, desde a última crise de Flávio com a TV Tupi, alguns dos itens contratuais tiveram que ser afrouxados. Embora nem Flávio nem a Tupi informem oficialmente, o patrocinador nacional do Programa Flávio Cavalcanti pagará, agora, diretamente ao apresentador, os Cr$ 700 mil, cabendo à Tupi receber a diferença do contrato firmado entre a emissora e o patrocinador. As possibilidades da TV Estúdio arranjar patrocinador para quadros e convidados especiais foram também ampliadas.

Nos escritórios da J. A. B. M. -José Abelardo Barbosa Medeiros, Propaganda e Publicidade Ltda. -o contador Maurício Figueiredo, amigo pessoal de Chacrinha há 17 anos, explica:

- O Chacrinha não existe em termos jurídicos. E' componente de uma empresa que contrata com a TV Tupi a produção de dois programas semanais e cede seu contratado, Chacrinha, como apresentador dos programas.

Para produzir dois programas semanais, Maurício Figueiredo diz que a firma - que tem 18 empregados registrados, com salários que vão de Cr$ 400,00 a Cr$ 5 mil - gastou Cr$ 2 milhões no ano passado.

- Setenta por cento deste dinheiro foram empregados na própria produção dos programas. Em função do gasto mensal, a TV Tupi nos dá uma ajuda semanal não estipulada previamente. Toda a parte da comercialização dos programas do Chacrinha fica a cargo da TV Tupi.

Sobre o fato de muitos artistas se apresentarem na Discoteca sem receber cachê, ele diz que algumas pessoas, desejando promoção pessoal, ou de um determinado produto, aceitam participar dos programas recebendo apenas uma gratificação simbólica.

- Mas isto está ligado ao poder de comunicação do Chacrinha e à força do programa. E é normal, em qualquer lugar do mundo.

O contador da J. A. B. M. não revela o montante do contrato estabelecido entre a TV Tupi e a empresa, mas a direção da emissora da Urca diz que "a coisa gira em torno dos Cr$ 500 mil".

Quanto à possibilidade futura de transações semelhantes com outras empresas produtoras, o diretor-superintendente da Tupi afirma que a Rede encara isso com simpatia:

- Foi o caminho seguido pela TV americana. E mesmo outras emissoras que se recusem a fazer contratos semelhantes tenderão a criar empresas de produção própria, independentes da concessionária do canal. Isto é, inclusive, inevitável como uma forma de defesa no caso de uma possível estatização da TV brasileira.

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