Saturday, December 20, 2014

1972 - Entrevista com o Chacrinha

Revista Cartaz
Data de Publicação: 20/7/1972

CHACRINHA BEM AO VIVO

De calça tipo Lee, listrada, camisa-esporte desabotoada, barriga queimada de fora (ele diz que não vai à praia), sentado numa poltrona e rodeado por quatro repórteres de nossa equipe, que se espalhavam pelo sofá e pelo tapete, Chacrinha se apresentou, ao vivo, para os leitores de Cartaz. Local: seu apartamento, no 4º andar de um edifício, de frente para o em, em Copacabana, decorado com motivos baianos e pernambucanos, muitos quadros, móveis vermelho e imagens de São Jorge.

- Por que não goza férias? Não se casa dos programas?

- Eu não tiro férias desde 1956. Apenas descanso nos dias de carnaval. Na

quatro quarta-feira de cinzas já estou na TV. Às vezes, eu me sinto esgotado. Isso porque trabalho com uma equipe, mas 70 por cento das idéias do programa são minhas.

- Você acredita no IBOPE e tem um particular para controlar. a audiência?

- Não, não tenho IBOPE particular. Acredito piamente e sou a favor do IBOPE, porque ele fornece os índices de audiência e, comparando com o que faço, tenho certeza absoluta do que estou alcançando. Minhas pesquisas são baseadas no IBOPE. Um pequeno erro do IBOPE pode levar à loucura. Daí pedir a Deus que o IBOPE não erre. Bem, meu- programa se propõe a atingir todos os públicos e, se alguém não assiste, o azar é meu. Faço os programas para as pessoas de todas as idades, da vovó até a criança de cinco anos. O meu maior público e que muita gente finge não saber ou não quer saber, mas que ninguém me tomará nunca, é a criança. Em todos as cidades que chego as crianças querem falar com o Caquinha, Chacrinha.- e os pais me abraçam. Dentro do esquema de classes, tenho em cada uma determinado público. Se o meu público é mais povo, isso acontece porque faço um programa mais dirigido ao povo. Povo não é pobreza. Povo é povo.

- Os intelectuais preferem você a Flávio Cavalcanti e Sílvio Santos? Por quê?

- Eu não sei. Não tenho idéia fixa sobre isso. Eu achei ótimo. Dou um valor tremendo ser preferido pelos intelectuais, pelos cozinheiros do Antônio's (restaurante do Leblon) ou de Madureira. Para mim, todos são iguais. Agradeço ao intelectual, mas também adoro a empregada e o motorista.

- Você já disse que o público não é de ninguém. Como explica isso?

- Infeliz do artista que afirma que tem um público. Você tem um público até a hora em que leva a ele o que ele quer ouvir. No dia em que você passar a não dar o que o público deseja, ele vai embora. Ninguém me assiste porque eu sou o Chacrinha e sim pelas coisas que faço.

- Existe diferença entre o que você faz agora na TV e nos antigos programas?

- Não. Quanto ao modo de falar, de dizer as coisas, são iguais. Só que antes se falava em "transmitir" e hoje em ''comunicar". Levei 15 anos no rádio e dez na TV para o povo me aceitar. Esse é, quer queiram ou não, o esquema mais imitado da televisão, brasileira.

- Por que você usa fantasias?

- Comecei a usar fantasias de Xerife, no programa "Rancho Alegre". Depois fiz a Discoteca de terno e gravata. Voltei às fantasias, - porque um dia a Leda Maria, a Leda empírica da Rádio Tupi, me disse que o negócio na TV era botar um chapéu, umas penas, para chamar a atenção. Deu certo.

- Você criou a frase "quem não se comunica se trumbica". Como explica isso?

- Eu não faço nada para me comunicar. Para mim, comunicar é a maneira de você preferir. Por exemplo, o barbeiro que você gosta, a costureira que você escolhe. Não é um bicho-de-sete-cabeças se comunicar. São as pessoas que atraem as outras, que transmitem qualquer coisa.

- Você se acha, realmente, o Papa da comunicação do Brasil?

- Eu não acho nada. Sou apenas um cara que faz um programa de TV, mas fico imensamente satisfeito por dizerem que eu sou o papa da comunicação.

- Você não está sendo demagogo?

- Não, essa é a pura realidade. O que eu digo é o que eu sinto, o que eu sou. Não costumo usar de demagogia com nada.

- Seus programas contribuem, de alguma forme, para educar o povo?

- Meu programa contribui num aspecto. A Discoteca informa musicalmente falando. Nós também premiamos os que se destacam na semana. Agora, têm camaradas que fazem pesquisa e, no fundo, impõem o gosto dele ao povo. Ninguém pode fazer isso. O povo sabe o que quer.

- Waldick Soriano, para você, é realmente o Frank Sinatra brasileiro?

- Não. Eu falo isso de brincadeira. Existe o público do Waldick. Existe público para tudo, desde que seja um bom cantor, que fale o que o povo gosta.

- Você sempre tem problemas com a Censura?

- Raramente eu tenho problemas com a Censura.

- Você parou de jogar bacalhau no público?

- Não, eu continuo jogando. Eles não querem que eu jogue, para não ficar acintoso. Mas posso dar bacalhau para o povo, dar tudo. Não há problema.

- Você já disse algum palavrão no ar ou atentou contra a moral do público?

- Nunca atentei contra a moral, nem nunca disse palavrão, para o público.

- Até que ponto o auditório participa do seu programa?

- O auditório é a moldura do programa. Eu não planejo o programa baseado no auditório. No meu programa não tenho claque. Os outros têm, mas eu, não. Os colégios variam e na Buzina a entrada é paga.

- Seu programa seria prejudicado se não tivesse auditório?

- Não, eu me amoldaria perfeitamente. A Discoteca começou sem auditório.

Você agride o público, os calouros? A gravação dos programas em vídeo-tape vira por sua causa?.

- Eu não agrido o calouro. Eu apenas buzino o calouro. Não é por minha causa que isso irá acontecer.

- Seus jurados são capazes de julgar o valor profissional dos calouros?

- Não, nem os meus, nem os de ninguém.

- Já descobriu muitos talentos nos seus programas?

- Todo mundo já lançou muita gente. Eu não lancei ninguém. Do programa só saíram três calouros, a Cláudia, da Odeon, Paulo Sérgio e Evaldo Braga.

- Sua casa é guardada por São Jorge? Você freqüenta o terreira do Seu 7 (em Santíssimo, no Rio)?

- Eu não freqüento o terreiro do Seu 7, mas gosto muito dele. Se pudesse iria lá todos os sábados, na "hora grande" (meia-noite). Mas todas as segundas-feiras eu vou às Igrejas de São Jorge, São Paulo Apóstolo e de São Judas Tadeu, porque sou católico, apostólico, romano. Eu não acredito piamente no espiritismo, mas sou um cara que respeito muito. Eu fui no Seu 7, quando meu filho Renato adoeceu, mas faz dois anos que isso aconteceu.

- Quais os seus programas preferidos na televisão?

- Nenhum, porque não vejo TV, por falta de tempo. Mas, sempre que posso, assisto ao "Moacir Franco Show" e à novela "Bandeira 2".

- Qual o seu maior rival na televisão?

- Nós não temos rival. Eu sou mais eu. Não existe maior concorrente. Todos são concorrentes, sem exceção.

- Gostaria de fazer novela, cinema, teatro?

- Não, porque meu negócio é puramente TV. Lá tem o improviso e o imprevisível.

- Qual a fonte de inspiração das fantasias e musiquinhas do programa?

- Do povo. Alguém me diz uma coisa, eu aprendo e lanço; se pegar, continuo.

- Até quando pretende fazer televisão? Está cansado?

- Enquanto der audiência. Não estou cansado nem de balançar a pança.

- Como surgiram as chacretes?

- Eu não inventei ninguém. As chacretes foram inventadas por Carlos Manga (produtor de TV) e aperfeiçoadas por Boni (diretor da TV Globo).

- É verdade que você paga cachês irrisórios às chacretes e aos artistas?

- Quem paga às chacretes não sou eu e sim a TV Globo, Elas recebem 100 cruzeiros por programa. Isso perfaz um salário de 800 cruzeiros mensais. Quanto aos artistas, pago de acordo com minhas posses. Tem artista que quer três mil cruzeiros, mas às vezes o mesmo cantor pede para cantar de graça. Ele sabe a hora de pedir e a hora de esnobar.

- O acidente com seu filho José Renato deixou você mais humano?

- O que aconteceu com meu filho não modificou em nada a minha vida. Só pago ao cara o preço que meu orçamento dá. É o caso da Kátia Regina, ex-chacrete. Se tivesse de dar alguma coisa a ela agora, jamais iria publicar nos jornais. Não é do meu feitio. Se alguém quer dar, deve fazer sem promoção pessoal.

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