Saturday, December 20, 2014

1971 - Os Bastidores do Chacrinha

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 21/5/1971
Autor: Valério Andrade
O CAOS DE SEMPRE

O auditório superlotado. Moças, de pernas longas, espalhadas pela arena, em permanente movimentação corporal. Na platéia, dezenas de colegiais, gritando, cantando, aplaudindo os ídolos.

"Atenção, atenção! Hoje vamos eleger o burro mais bonito do Brasil."

Sentadas na banca examinadora, cinco jornalistas, jovens, atraentes.

Começa o desfile dos burricos. Existem 600 candidatos. Ao dono do vencedor: um cheque de Cr$ 1 mil.

"Vocês querem ovos de codorna?"

Caubi Peixoto entra em cena, apertando a mão das garotas, estabelecendo plena comunicação com a platéia. Entusiasmado, começa a esticar o número:

"Chega, Caubi, chega, roda, roda, roda."

Após o intervalo dos comerciais, continua o caos.

Luís Gonzaga, com sua velha sanfona, apresenta sua nova (e comunicativa) criação inspirada no ovo de codorno.Vanusa, louríssima, canta um número. Um sambista, tipo malandro da Lapa, faz jus ao cachet. Antônio Marcos, barbado, é chamado: a garotada entra em delírio.

Close no rosto de Ivair. Em voz off, Valdir Amaral relata o jogo do Fluminense contra o Flamengo. O jogador está tenso, visivelmente inibido, deslocado no meio da confusão. A câmara continua fixa em Ivair que, ao ouvir a palavra mágica (gol!), revive aquele instante de emoção que sacudiu o Maracanã com um riso. Não diz uma palavra: apenas ri.

"Atenção! Viva a mãe do Roberto Carlos! Salve o Dr. Nova Monteiro! Viva a mãe do Chacrinha! Roda, roda, roda."

Apesar de tudo, Chacrinha permanece entre os campeões de audiência. Sua comunicabilidade com a platéia permanece insuperável. Nenhum outro animador consegue obter tal grau de participação. É incrível, só vendo. "Agora, atenção, atenção, todo mundo de pé. Vamos aplaudir o burro mais bonito do Brasil."

É evidente que Chacrinha é uma conseqüência direta do nosso subdesenvolvimento cultural. De certo modo, o que ele faz na TV corresponde ao que se fazia no cinema, na época da chanchada. Aqueles filmes, esnobados pela elite, rendiam milhões na bilheteria.

Em relação ao Chacrinha, existe um angulo oculto, geralmente esquecido pelos que o analisaram: a eficiência técnica do canal 4. O caos que o animador estabelece em cenas, com suas roupas extravagantes, o nonsense verbal, não afeta a infra-estrutura do programa. Várias câmaras em ação dão uma vivacidade cênica impressionante, através de uma permanente variação de ângulos, estabelecendo um ritmo inexistente nos programas ao vivo. Outro detalhe importante: a noção de tempo. Existe de tudo no Chacrinha, menos monotonia - o grande inimigo de qualquer tipo de espetáculo.

No fundo, o caos é aparente, pertence ao estilo do animador, acha-se devidamente controlado pela tecnologia. É o subdesenvolvimento montado no Progresso.

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