Saturday, December 20, 2014

1970 - Professor Abelardo Barbosa

Jornal Última Hora
Data de Publicação: 21/5/1970
Autor: Dácio Malta
CHACRINHA DÁ AULA NA FACULDADE

A Faculdade Cândido Mendes inaugura, em Junho, um novo curso - o de Comunicação. Entre os professores, estará Abelardo Barbosa. É como ele vai ser chamado pelos alunos. Seus ensinamentos - diz - não terão a norma de aula e sim de debate.

McLuhan é McLuhan, Pignatari é Pignatari. Chacrinha prefere ficar na dele.

- Minhas aulas serão dadas dentro das minhas possibilidades. Como eu sou e como sinto No meu português.

Nas suas aulas, o "Velho Guerreiro'' pretende ser o professor, no duro, não o animador da "Discoteca" ou da "Buzina".

- Trabalharei dentro da maior dignidade. Pode ser que me apresente até de fantasia. Mas com dignidade.

O convite não foi o primeiro. No ano passado, Chacrinha havia sido chamado para fazer uma das conferências do ciclo sobre Comunicação de Massa promovido pela Maison de France. Na próxima semana, o Museu da Imagem e do Som também começa um curso sobre comunicação. As fantasias do "Guerreiro" estarão expostas .

EM 43, OS GRITOS - Chacrínha surgiu no rádio em 1943. Já naquele tempo, ele gritava: "Teresinha". Não existia o termo comunicador. Dizia-se que fulano ''transmitia".

- Heber de Bôscoll era um homem que "transmitia" muito, quando eu entrei para o rádio. César de Alencar e Paulo Gracindo também "transmitiam" muito bem.

Mas Chacrinha quis logo romper com tudo. Criou a imagem de um novo comunicador. Em seu programa - Cassino do Chacrinha - ele já berrava, cantava, fazia barulho e tudo aquilo que fizesse o programa parecer ao vivo.

Começava assim:

- O Mandarim manda ou não manda? O mandarim manda, porque é o rei dos barateiros. Está aqui o Joaquim com a jaca na cabeça e Linda Batista cantando para vocês...

No ano em que ele começou no radio, houve, certa vez, um "show" na Quinta da Boa Vista.

- Eu me lembro como se fosse hoje. Era um espetáculo promovido pela P-R-E-Neno, uma espécie de "cast" de amadores mantido pela Casa Neno. E eu fui convidado. Quando cheguei, a Quinta estava superlotada. Subi no palco, olhei a multidão e lancei, pela primeira vez, em público, o meu grito de guerra: "Teresiiiiiinha". Aquilo ressoou por toda a Quinta e todos responderam: "ôô, ôôôô". Portanto, se a gente for acreditar na autenticidade das coisas, eu já devia ser comunicador desde 1943. Só que naquele tempo a palavra era "transmitir", em vez de "comunicar"'.

DEPOIS, A TELÉVISÃO

Veio a televisão. Chacrinha tinha tamanha certeza de que faria sucesso no novo veiculo, que não desanimou. Insistiu sempre.

Logo que a televisão chegou, somente a Classe A tinha poder aquisitivo para comprar um aparelho. Chacrinha começou a fazer, na televisão, as mesmas coisas que fazia no rádio. O publico não aceitou: "Este sujeito e doido varrido, é débil mental, e louco perigoso".

- Durante vinte anos, os caras pensaram que eu era maluco, bobalhão. Eu sou meio bobalhão mesmo, mas não tanto assim.

Em 1961, Chacrinha saiu da TV-Tupi e foi para a Rio. Foi aí que a Discoteca principiou a tomar corpo. O público passou a aceitá-lo. Mas os críticos não.

Chacrinha, mais uma vez, começou a ser malhado.

Mas ai chegou ao Brasil, "um francês chamado Edgar Morin".

- Antes de voltar para a França, Morin declarou que eu era o maior comunicador de massas do Pais. Como o francês era um sujeito considerado, a critica passou a abrir os olhos para mim e as coisas começaram a tomar um novo aspecto para o meu lado. Começaram a falar bem e falando, falando, falando, eu acabei virando ''comunicador''. E fazendo as mesmas coisas que fazia antes: dançando, cantando, berrando, vestindo fantasias e todas essas coisas.

CAETANO AJUDOU

Chacrinha admite que Caetano Veloso muito o ajudou na conquista da Classe A.

- Ontem mesmo eu estava falando sobre isso. Caetano, através de seu empresário Guilherme Araújo, mandou-me um recado, dizendo que queria conquistar o meu público. Mas eu também queria conquistar o público dele. Fizemos um acordo e "reaaaalmente" Caetano, Gil e Gal muito contribuíram para que eu conquistasse a classe média intelectualizada e a Classe A.

Quanto às fantasias, Chacrinha diz que as usa desde 1956.

- E olha que naquele tempo ninguém ainda falava em "hippie", em "happening", nem em porcaria nenhuma.

Para o "Velho Guerreiro", todos nós somos comunicador:

- Uns mais, outros menos.. Juscelino Lacerda, Getúlio e Pelé: grandes comunicadores Até um balconista é comunicador. Você entre numa loja para comprar uma gravata e se tiver dinheiro, compra até uma dúzia, isso porque aquele balconista é bom balconista, porque é um bom comunicador.

AS NOVAS IDÉIAS

"Teresinha, roda, roda vamos raciocinar em bloco". Chacrinha não parou aí. O mais novo trono da "Buzina" é o das novelas.

- Isso foi idéia do Boni, diretor da TV-Globo. Ele agora nos Estados Unidos e viu um programa que era feito por amadores que satirizavam os filmes. Isso eu já fazia no meu programa "Rancho Alegre", em que o primeiro "cowboy" foi o Paulo Bob. Depois, foi ó Carlos Imperial e, por fim, o Jorge Fridman. Eu era o xerife. Tudo que fazem por ai afora, eu já fiz há muito tempo. Outro exemplo é o disc-jóquei Eu sou considerado o primeiro discjóquei do Brasil Em 1943, eu já fazia isso no rádio. Depois foi que eu soube, em 1947, que esse tipo de programa era o maior sucesso nos Estados Unidos.

Chacrinha encerra a entrevista:

- E... eu acho que sou o cara do ano 2000.

A AUTORIDADE DO MESTRE

Esse homem, José Abelardo Barbosa de Medeiros, lutou desde 1943 para que o público o aceitasse com a sua loucura. De tanto insistir, conseguiu a aprovação do público e da crítica, que o considera hoje o maior comunicador de massas do Brasil.

Não existe curso de comunicação que não tenha pelo menos uma palestra do "Velho Guerreiro".

No ano passado, em São Paulo, durante a solenidade de formatura dos alunos da Escola Superior de Propaganda, o paraninfo Fernando Almada fez até um apelo aos ex-alunos:

- Eu gostaria de pedir a vocês que lessem sempre o "Advertising Age", (a mais importante revista de publicidade do mundo), mas sem deixar de assistir, de vez em quando, aos programas do Chacrinha.

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