Saturday, December 20, 2014

1970 - Flávio Cavalcanti versus Chacrinha

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 22/9/1970
Autor: Valério Andrade
DEPOIS DA QUEDA

Na guerra pela conquista da cidadela do IBOPE, Flávio Cavalcanti acaba de obter brilhante vitoria sobre o seu (até então) imbatível adversário: Chacrinha.

Na última pesquisa divulgada, Flávio Cavalcanti aparecia canalizando mais de 50% da audiência, enquanto, simultaneamente, o velho guerreiro deixava a arena reservada aos 10 campeões semanais.

Não resta mais dúvida de que Flávio Cavalcanti ganhou para a Tupi a batalha dominical dos pontinhos da aceitação popular. Por outro lado, convenhamos, a Globo facilitou a tarefa e vacilou em tomar uma decisão quando o programa de Flávio ainda esquentava e disputava a preferência de horário.

A BALANÇA

Deixando de lado, o programa de Flávio, já analisado aqui, vejamos alguns aspectos referentes à ascensão de um e à queda do outro.

A primeira vantagem com que Flávio contou foi em relação ao horário. Quando seu programa entrava no ar, já havíamos aturado seis horas consecutivas de Sílvio Santos, o que não há cristão que agüente, fora do Estado de São Paulo. A Globo porém insistia em manter Sílvio rindo por mais duas horas, isto é, até a hora em que a maratona cedia lugar ao fonfom das buzinadas. Por instinto de conservação, ou mera curiosidade, o telespectador encontrou no 6 (às seis) a única opção capaz de livrá-lo da tirania santista imposta pelo 4.

Esse foi o primeiro grande erro da Globo. Acomodada no sucesso, subestimando o adversário e superestimando a qualidade técnica de sua imagem (sem dúvida, a melhor do Rio), limitou-se a confiar à lábia de Sílvio Santos a sorte dos telespectadores. Confiando na pessoa errada, abusando do comodismo do público, terminou entregando de presente o horário que, no caso, correspondia ao controle tático do campo de batalha.

Duas horas depois, quando telespectador já estava preso na engrenagem emocional de Flávio Cavalcanti, é que o velho palhaço entrava em cena para dar o seu costumeiro show a uma platéia já desfalcada e fatigada com a repetição dos seus números. Ora, nessa altura, já é tarde para convencer alguém a deixar de ver um programa diversificado e repleto de personalidades em troca do surrado desfile de calouros.

Enquanto Chacrinha continua chovendo no molhado, colhendo frutos do subdesenvolvimento, Flávio Cavalcanti investe nesta faixa (através de lances sensacionalistas), sem contudo, ,deixar de fazer um espetáculo capaz de atrair a platéia que se recusa a receber bacalhau na cara e berrar como bode. Enquanto Flávio apela, Chacrinha abusa, abusando do público, que, em matéria de televisão, aceita tudo e, principalmente, o inaceitável.

Seja lá como for, pelo menos desta vez, o prêmio não foi para o pior - o que é um consolo e talvez seja uma esperança.

No comments:

Post a Comment

Followers