Saturday, December 20, 2014

1970 - A Buzina do Chacrinha

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 10/10/1970
Autora: Symona Gropper
A BUZINA DE ABELARDO BARBOSA

Uma sala grande e fria, uma mesinha, algumas cadeiras, um estrado pequeno. É o Estúdio F da TV Globo, onde se faz a seleção dos calouros para A Buzina do Chacrinha. Sempre às quintas-feiras, a partir das 17 horas.

Sentados ao redor da mesa, o diretor musical do programa, Aloir Mendes o diretor, José Renato (um dos filhos do Chacrinha); o assistente de direção, Uajdi Moreira; e a chefe do coro, Dinorá. O chefe da segurança da emissora, um crioulo grande, apelidado de Marrom, vai trazendo os calouros para dentro da sala e arrumando-os em pé, en costa dos às paredes.

Vai começar a seleção. Todos estão quietos, tímidos, esperançosos e apavorados ao mesmo tempo. A maioria está vestida pobremente, com a roupa de trabalho. Muitos tiveram de faltar para ir ao Estúdio F tentar a sorte.

Uajdi chama a primeira candidata. Ela se aproxima da mesa. Fala hesitante:

- Eu sambo com duas garrafas.

- Onde? Na mão? - pergunta Uajdi.

- Não, na cabeça.

- É, é interessante.

- Só que eu não trouxe as garrafas.

Sobre a mesa, há duas de água mineral. A banca examinadora pergunta se servem. Servem. Ela põe as duas na cabeça, faz piruetas, se deita no chão, levanta. As garrafas não caem. É aprovada.

SEGUNDA-FEIRA

Chacrinha começa a pensar na Discoteca, o programa da quarta-feira seguinte. Na sua sala de trabalho, ele é inteiramente diferente da imagem que projeta no vídeo. É sério, preocupado com seus programas, a que se dedica não só na hora do espetáculo, mas durante todos os dias que os antecedem. Por isso, Chacrinha é hoje um homem cansado, sobre quem pesam os 52 anos que tem, os 10 últimos sem férias.

- Meu contrato com a Globo acaba em junho. Vou ver se a partir daí faço um só programa por semana. Quero ter tempo para viajar pelo Brasil. Me convidam muitas vezes para fazer a Buzina em outros Estados, nunca há tempo, mas tenho vontade de fazer - conta ele.

A Discoteca é programada com, pelo menos, 10 dias de antecedência. Seu custo médio de produção é de Cr$ 13 mil. Para a quarta-feira desta semana já está quase tudo resolvido. Mas é preciso pensar no programa seguinte. E segunda-feira é o dia em que se decidem quais as atracões que serão apresentadas. Quem decide é o Chacrinha, juntamente com a encarregada da parte artística do programa, Ana Lígia Silva Santos.

É uma longa discussão, em que nomes de artistas são propostos, examinados, verificados, se estão na parada de sucessos ou não. Finalmente, lista pronta e aprovada, Ana Lígia começa a fazer os contatos com os cantores, para fixar os cachets e verificar as músicas que pretendem apresentar.

Depois, é a vez do coordenador-geral, Anthony Ferreira, conversar com Chacrinha. Ferreira cuida da parte jornalística da Discoteca, dá as sugestões sobre os assuntos atuais que poderiam ser explora,dos sob um novo ângulo no programa. Chacrinha decide se aprova ou não.

A SELEÇAO

No Estúdio F. os candidatos já estão travando conhecimento, começam a conversar Uajdi berra: "Silêncio, por favor!" o diretor musical acrescenta: "Vamos ver todo mundo cantando música nova, de parada de sucesso." Um calouro reclama que não há microfone.

- A gente vai sentir o que vocês podem render é aqui mesmo, sem microfone e sem orquestra - afirma Aloir Mendes. De repente, ele percebe uma caloura já conhecida - Você de novo? O que houve domingo passado? Por que não apareceu?

- Meu tio morreu, tive de ir a Brasília.

- Todo dia morre uma pessoa da sua família! - repara Uajdi.

- Mentira! Da outra vez eu vim! - defende-se a caloura.

Outra moça é chamada. Sobe no estrado.

- Olha, vou dizer uma coisa. A música eu não sei bem a letra. Todo mundo ri, ela começa a cantar, é uma música que está na parada de sucesso.

- Você vem domingo, só por causa da música - diz Aloir Mendes.

- Por quê? Minha voz é feia? - revida ela, impertinente, agressiva.

Aloir Mendes muda de assunto:

- Dezoito. E tenho uma filha de cinco meses que é um doce de coco. Só não posso dizer quem é o pai - fala ela, ainda agressiva.

Gargalhadas.

- Bem, então você vem domingo, duas horas, bem vestida.

- Aí é que está o problema. Vou vir com o que tenho. Só se você me der o bem vestida - desafia ela.

TERÇA-FEIRA

Ferreira se preocupa com o andamento dos concursos discute com Chacrinha os que devem ser prolongados por mais uma ou duas semanas, por causa do grande número de candidatos que se apresentaram. Chacrinha se admira:

- Poxa, quando decidi fazer o concurso de O Penteado Mais Bonito, não pensei que fossem aparecer tantos cabelereiros interessados! É, acho melhor fazer mais uns dois ou três programas com o concurso.

Chacrinha está preocupado com o novo concurso que lançou para quarta-feira: A Noite das Coisas. Quem trouxer a coisa mais exótica, ganha.

- Será que vai aparecer candidato?

Hoje é o dia da verificação final do programa de amanhã: tempo de duração de cada música, tempo dos comerciais, tempo do concurso.

ORDEM

Cearense, baixinha, barrigudinha, mais uma caloura sobe no estrado. Dá,uma risada aflita.

- Não sei se vou acertar. Estou muito nervosa.

Ri de novo, seu riso é contagiante, no Estúdio F todo mundo adere. Ela começa a cantar, sua voz treme. Aloir Mendes interrompe.

- Fica lá no fim da fila. Você está nervosa. Depois, você volta.

Vão aprová-la, ela canta mal mesmo e sua risada é muito engraçada, vai funcionar no programa.

Meu Caderninho começa a ser cantada.

- Essa música é muito velha. Não sabe outra?

A caloura não sabe.

- Então treina outra mais nova e volta na próxima quinta-feira.



Um calouro sobe no estrado e pergunta:

- Há uma política contra música antiga?

- Aqui não tem política nenhuma - se impacienta Aloir Mendes. O dono do programa é que deu essa ordem para nós.

Um homem começa a cantar em castelhano.

- Você está com uma voz meio parecida com a do Bienvenido Granda - começa Aloir Mendes.

O calouro interrompe, apressadamente: - Não, é minha mesmo!

QUARTA-FEIRA

O palco e o auditório no Estúdio A estão vazios. A decoração para A Noite das Coisas já está pronta. Pendurados do teto, um jacaré empalhado, uma bicicleta velha com um boneco em cima, um fogão velho pintado de prateado, luvas de boxe, entre outras coisas. Tinham sido solicitadas segunda-feira na contra-regra.

São 15 horas. Vai começar o ensaio para A Discoteca do Chacrinha. Os cantores profissionais estão chegando. As go-go girls também. Elas vão treinando seus passos, mesmo sem música. Mas o ensaio atrasa, só começa às 17 horas. Dez minutos mais tarde, chega Chacrinha. Senta-se numa poltrona na platéia, cruza os braços, fica assistindo ao ensaio, dá uma sugestão ou outra.

Um dos cantores acaba de ensaiar, acha que a orquestra está tocando muito depressa.

- Está bom pra Cacilda! Fica assim mesmo. Daqui, está ótimo - interrompe Chacrinha.

- Bom, se o patrão gostou - brinca o cantor.

AS COISAS DA DISCOTECA

Enquanto o ensaio prossegue no palco, na entrada do auditório, Ivã Monteiro, assistente de produção e encarregado das inscrições dos concursos, está às voltas com cerca de 100 pessoas interessadas em participar da Noite das Coisas.

Uma mulher chega com uma coisa da cor de uma batata, do formato de uma batata, mas não é batata.

- E' pedra-de-raio.

- E' o quê?! - se admira Ivã.

- Pedra-de-ralo. Se forma no estômago da vaca. E' o seguinte: a vaca lambe o bezerro, o pêlo dele vai entrando no estômago dela, e acaba formando essa pedra. Serve contra raio para quem a tiver. Agora lhe pergunto, é ou não é uma coisa sui generis? - diz ela triunfante.

As coisas mais estranhas vão surgindo: gaiola para mosca, filhote de urubu branco, roupa hippie feita em feltro e plástico, um homem vem fantasiado de decepado, a cabeça de plástico, sangrando, ele segura dramaticamente na mão.

- Isso passa na censura, Ferreira? - pergunta Ivã.

Todo mundo quer ganhar o prêmio de Cr$ 1 mil.

SOFRIMENTO DO CHACRINHA

No Estúdio A, Chacrinha inspeciona a decoração. O ensaio acabou, ele manda lavar o chão que está sujo, se admira com a quantidade de gente que é encaminhada por Ivã para os bastidores. São os donos das coisas.

- Nossa! Nã pensei que fosse vir tanta gente! Vamos ter de continuar o concurso na semana que vem.

Chacrinha vai para seu camarim. Faltam mais de duas horas para começar o programa. Ele se senta quieto um instante, pensativo, a testa franzida De repente, começa a falar: - Eu brinco, mas não ofendo ninguém. Quem aceita, aceita mesmo. Há 10 anos eu não descanso. Hoje é quarta-feira, amanhã já começa sofrer pela Buzina. O que eu fico triste é que há mais de 20 anos a imprensa me marreta. Desde 1958 eu faço esse tipo de programa, com concursos toda semana. E agora, todo estão me imitando. Por que não marretam os outros também? Por que so mim?

Ele está preocupado também com o IBOPE:

- Tinha graça quando era só eu fazendo. Todo mundo fazendo a mesa coisa, está perdendo o interesse,

Chacrinha se veste. Chega um repórter de rádio, pede para Chacrinha dizer algumas palavras no microfone. E, de repente, Chacrinha é outra pessoa. Sua voz se transforma, adire aquela animação a que seu público está acostumado. O repórter informa:

- E' para o programa do Joel.

- Alo, Joel! Como vai o seu papel? - começa Chacrinha.

O programa vai começar. Uma hora e 10 minutos de animação, de improvisação constante durante a Discoteca.

Acaba o programa, mas Chacrinha não vai para casa. Vai para sua sala de trabalho, se reúne com a equipe, começa a discussão sobre o que funcionou bem, o que saiu errado, para na próxima semana tudo ficar melhor.

ALVARÃ

Magrinha, muito séria, uma menina de nove anos é a próxima candidata no Estúdio F. Começa a dar cambalhotas, se contorce toda, muito concentrada, sem um sorriso. A mãe orienta:

- Agora aquele de virar que a mamãe ensinou, Sheila. É melhor tirar os sapatos e as meias para não escorregar.

Uajdi interrompe:

- Não tira não, minha filha. O chão está frio. Você acaba pegando uma gripe.

De qualquer maneira, a menina, não vai poder se apresentar no próximo domingo. É preciso pedir alvará do Juizado de Menores. Isso demora.

Um candidato para o trono vale-tudo. Tipo de nordestino, vai encenar um soldado perdido na guerra. Rola pelo chão, imita metralhadora, avião, bombas caindo. E' aprovado.

- Me arranjem roupa de soldado com capacete e mochila - pede.

Prometem arranjar. No domingo ele passou a tarde toda pelos corredores da emissora, vestido com sua roupa do soldado. Mas não deu tempo para ele se apresentar.

O CALOURO DE PALETÓ E GRAVATA

Quinta-feira. A equipe está atarefada. Três membros do júri para domingo não poderão comparecer. Chacrinha sugere novos nomes - o critério é gente famosa de qualquer campo de atividade - Uajdi vai telefonar, saber se podem vir.

Ferreira está às voltas com a redação de memorandos. Memo explicando o motivo do atraso do ensaio - um dos pistonistas se atrasou; memo ao coreógrafo, reclamando das roupas das bailarinas, pois ele as vestiu uma diferente da outra para A Discoteca; memo à direção-geral da TV Globo, pedindo autorização para confecção de novas roupas para as go-go girls: "As usadas não apresentam bom aspecto devido ao desgaste, além de terem encolhido."

EXAME

No estúdio F, o calouro so chega a cantar três ou quatro estrofes da música. E' o suficiente para se verificar sua qualidade de voz, seu potencial de comunicabilidade.

- O senhor vai ter de treinar mais um pouquinho. Volta semana que vem.

Vem um homem, cerca de 50 anos, careca, dois dentes apenas, na frente, embaixo:

- Moço, eu precisava ganhar pelo menos um pouquinho. Minha senhora está com câncer.

- Isso vai depender do senhor e do auditório. O senhor vai apenas cantar. Nada de contar seus problemas pessoais no microfone.

Aos que cantam muito mal - e esses são excelentes candidatos à buzina e para animar o auditório - Aloir Mendes diz:

- Você não está bom, mas vamos acreditar em você.

Um calouro vem com uma gaita. Começa a soprar baixinho.

- Vê se sopra essa desgraça com mais força - diz Aloir Mendes.

Todo mundo ri.

- Tá certo, ainda não jantou. Mas vê lá na hora do programa - brinca o diretor musical.

SEXTA-FEIRA E SÁBADO

A tarde, compareceram cerca de 250 candidatos ao título O Negro Mais Bonito do Brasil. São selecionados 40 para o domingo da próxima semana.

Uajdi está preocupado em descobrir nomes de calouros especializados em seresta, no arquivo - há cerca de 300 nomes registrados ali - porque na seleção de quinta-feira houve poucos aproveitáveis.

Sábado é o dia de descanso dá equipe. Mas, desta vez, Uajdi, por exemplo, teve de vir trabalhar: a buzina do Chacrinha quebrou. Uajdi não consegue descobrir nenhuma casa que conserte buzinas. Vai a um antiquário, último recurso para conseguir a paleta vital.

COMO PODE

Mais um sobe no estrado do estúdio F. canta Vou Deitar e Rolar.

- Você está rebolando mais que a Elis Regina! Vai entrar no programa porque balanço faz efeito na televisão - diz Aloir Mendes. O pessoal todo ri. - Olha ai, gente, mais respeito! Só falei para alegrar o ambiente - avisa ele.

Chapéu de vaqueiro, casaco vermelho, camisa quadriculada multicor, calça de veludo grená, barba grande, um rapaz de faces encovadas ataca de Churrasco de Mãe. É aprovado. Vem um compositor esperançoso, sua música conta o nascimento do filho do Pelé. As gargalhadas explodem mais uma vez. É reprovado.

São 21 horas de quinta feira. A seleção dos calouros durou quatro horas. Normalmente, comparecem de 300 a 500 candidatos. Os 50 aprovados dão seus nomes e músicas à banca examinadora.

- Domingo, todo mundo de paletó e gravata, sapato engraxado, documento no bolso para apresentar na portaria. Quem não tiver paletó, avisa que a gente arruma.

O PROGRAMA SEGUINTE

Domingo. O trabalho começa cedo para Buzina do Chacrinha, cujo custo médio de produção é de CrS 6 mil. As seis da manhã, começa a ser desmontado o cenário do programa do dia anterior pela cenografia, para montar o da Buzina. José Renato e outros da equipe ajudam, também, na pintura do cenário. Porque, toda semana, ele é pintado mais uma vez. Chacrinha se preocupa com seu público presente. Quer tudo limpo e bonito.

Uajdi faz a verificação final dos itens necessários para o programa ir ao ar: slides de apresentação, slides dos concursos, estão prontos no Departamento de Arte?

Às 15 horas, começa o ensaio dos calouros aprovados. Sessenta são ensaiados, três ou quatro vieram de São Paulo, mais uns cinco vieram do arquivo. O ensaio dura três horas. Chacrinha não assiste. Seu primeiro contato com o calouro é na hora do programa.

No ensaio, Uajdi e Aloir Mendes verificam quais os calouros que vão render mais no programa. Depois, se sentam em frente à máquina de escrever e vão fazendo a programação, "por ordem de empolgação.''

"A BUZINA DO CHACRINHA"



Duas horas de programa. São 10 horas da noite. Acabaram os gritos e os aplausos do auditório, as frases engraçadas do Chacrinha. Cansado, encalorado, ele pega o elevador, vai para a sua sala, pede um café com leite.

- É tudo gente pobre, pobre mesmo, no auditório. Eles têm de se divertir. Não podem ir a teatro, a boate. Só têm a televisão. É o único lugar para eles se realizarem, verem as luzes acesas, os artistas de perto - explica.

Depois, recomeça o trabalho, ainda não é hora de descansar. Tem de discutir se faz mais um ou dois concursos para O Penteado Mais Bonito, pois vieram mais candidatos do que Chacrinha esperava. Ele já começa a pensar nos programas seguintes.

É meia-noite. Chacrinha vai embora.

No comments:

Post a Comment

Followers