Tuesday, September 9, 2014

1991 - O Dono do Mundo examinado

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 22/5/1991
Autor: Luís Antônio Giron
NOVELA FAZ RETRATO EM ROXO DA ÉTICA DO PÁIS

''O Dono do Mundo'', novela da Globo que estreou anteontem é mais roxa do que ''soft''. Oferece diversão áspera a milhões de brasileiros pobres, ridicularizados e ofendidos. Áspero porque a imagem desses telespectadores não surge maquiada por frases piegas e falsos latidos de cachorro em subúrbios, mas amesquinhada feito a realidade.

O autor Gilberto Braga está mais sádico do que nunca e sua crueldade, no primeiro capítulo, brilhante. Com grandes atores em papéis bem marcados e falas naturalistas, a novela se arma sobre uma trama atraente que há muito não se via na TV.

Não foi necessário criar parafernália de efeitos para atrair o telespectador -o que disfarçou a fraqueza de uma história como a de ''Rainha da Sucata'', novela retrasada no horário. E em vez do nu artístico, comparece o nu cirúrgico: seios cortados.

Braga alimenta-se na leitura do romance "Ligações Perigosas", de Chordelos de Laclos, e de muitas histórias de Sade e Rubem Fonseca. A novela segue a rota dos relatos que mostram a iniciação e a perversão de uma virgem por um vilão poderoso.

Tudo é muito caricato, claro. Não se pode exigir que Braga rompa o ciclo que se repete desde que novela é novela: ricos se confrontam com pobres, os enredos se tecem em torno da mobilidade social e pretendem flagrar a situação brasileira.

Em ''O Dono do Mundo", a virgem é Márcia (Malu Mader), uma professorinha recém-casada; o perversor, Felipe (Antônio Fagundes), cirurgião plástico famoso, dado a libertinagens e casado com a rica Stella (Glória Pires).

Fagundes se supera nos olhares enviesados e na inflexão retórica do canalha pleno de nuances. Faz um vilão que promete odiar o "povo" durante os próximos meses. Diz no casamento da futura presa: "Quem é essa gente? Eu dei o bolo na minha mulher e nos meus amigos para me misturar com um bando de infelizes que nasceu para pegar ônibus sujos, bondes, trens, freqüentar ruas nojentas! O que estou fazendo aqui?'' Malu também convence

como uma perfeita maria-mijona. Sua "última das virgens" deverá ser objeto de nostalgia das donas-de-casa.

Em torno da dupla, roda um elenco "all star''. Fernanda Montenegro redime-se do papelzinho que lhe deram na minissérie ''Riacho Doce" e atua com eficácia na pele da alcoviteira de alto-luxo Olga. Outras boas composições são as de Jece Valadão, como o funcionário Tabajara, pai da mocinha, e de Ângelo Antônio, como Beíjaflor, surfista rodoviário que dá o toque ''verdade'' à novela.

Apesar da temática atual, em ''O Dono do Mundo", repete-se a circularidade de fórmulas de outras novelas; processo tão avassalador que seria possível intercambiar personagens dessa e de outras similares sem prejuízo, algum à trama.

Braga reescreve ''Vale Tudo" - que foi ao ar de maio de 1988 a janeiro de 89 e tratou da questão ética - com as cores ainda mais cinzentas do país.

Se há três anos o retrato ético do Brasil podia ser fixado pela imagem prototípica da oportunista Maria de Fátima (Glória Pires, em ''Vale Tudo'), agora ele recebe traços lúgubres: é o perfil de um gênio de perversidade, capaz de cortar um seio enquanto o deseja e conspurcar a pureza pelo prazer falocrático da destruição. O público quer se mirar em fogo e sangue. Tem agora seu roxo espelho ético em ''O Dono dó Mundo".

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