Tuesday, September 9, 2014

1991 - Gilberto Braga fala sobre O Dono do Mundo

O Globo
Data de Publicação: 27/2/1991
Autora: Lívia de Almeida
UM ESCRITOR DE BEM COM A TRADIÇÃO
Gilberto Braga fala sobre nova novela

Gilberto Braga quer criar suspense na televisão. Por isso, ele detesta adiantar informações sobre o seu próximo trabalho para o horário das 20h, "O dono do Mundo" (título provisório), a ser escrito em parceria com Euclydes Marinho e Leonor Bassères. O escritor confirma apenas que a história se desenvolve em torno da figura de um cirurgião plástico rico, arrogante e conquistador (Antônio Fagundes) e uma moça ingênua, que ao longo da história se tornará vingativa (Malu Mader). Pela primeira vez uma novela de Gilberto Braga não irá girar em torno de dois fortes personagens femininos, como em "Vale tudo", "Corpo a corpo" e "Dancin'Days".

Ele afirma que não tem compromissos com o novo, mas reserva algumas surpresas para o público. Enquanto Glória Pires faz o papel da moça boazinha, de pois de ter vivido a vilã Maria de Fátima em ''Val tudo'', Fagundes deixa de ser bonzinho, como sempre acontecia nas novelas de Gilberto Braga. Em "O dono do Mundo", seu personagem é "um nojo", como disse o escritor. Outra novidade: pela primeira vez os personagens pobres criados por Braga oram em um subúrbio do Rio, Madureira.

GLOBO - Em recente entrevista ao GLOBO, o autor de "Pantanal", Benedito Barbosa, afirmou que a telenovela deve ser reformulada para não perecer. Para ele, essa reformulação passaria necessariamente pela evasão dos estúdios e gravações em locação. Você concorda?

GILBERTO BRAGA - Eu não gosto de pensar que existe regra para coisa alguma. Claro que um ótimo autor como o Benedito sabe o que está dizendo; é um homem tarimbado, de grande intuição e sensibilidade, veja o sucesso do "Pantanal". Eu já pensei que havia uma forma "janetiana" (ao estilo de Janete Clair) para a novela das oito. E de repente veio o "Roque santeiro", contrariando todas as fórmulas do novelão que a gente conhecia e fazendo sucesso.

O GLOBO - Você acredita que as fórmulas consagradas da telenovela estão gastas? Você espera inovar com "O dono do Mundo"?

GILBERTO BRAGA - Não espero inovar coisa alguma. Espero que o público goste, e só isso. Não acredito em compromisso com o novo. Existem dois tipos de pessoas em criação: aqueles que perseguem o novo, como um objetivo bem claro e aqueles que não perseguem o novo de modo algum, mas sim a qualidade, a coerência. Neste time estão desde grandes artistas, como o diretor François Truffaut, até criadores mais voltados para o consumo, como certos bons escritores de best-sellers. Faço parte deste grupo. Isso não quer dizer que não aconteçam inovações. Elas fluem naturalmente.

O GLOBO - Entre os nomes que fazem parte do elenco de "O dono do Mundo" estão os de alguns atores que costumam aparecer Com freqüência em suas novelas, como Antônio Fagundes e Malu Mader. Quando cria um personagem, você costuma já ter em mente um determinado ator? Você costuma sugerir nomes para a direção da emissora?

GILBERTO BRAGA - Eu sempre escrevo para o ator. Às vezes não sei quem vai ser, mas fico ansioso para resolvermos logo. E como se o ator ditasse o texto. Adoro atores. Faço parte do grupo de trabalho que os escolhe. Antes de começar a bolar urna história peço para a direção da Globo, na medida do possível, separar alguns atores para mim. Desta vez pedi o Fagundes, a Glória Pires e a Malu Mader. Bolamos a história em cima deles e depois os outros personagens foram surgindo.

O GLOBO - Você chega a conversar com os atores durante as gravações?

GILBERTO BRAGA - Não. Não dá tempo e nem é bom. Minha relação direta é com o diretor. E ele quem manda nas gravações. A co-autoria com o ator se dá em um nível mais profundo, imponderável, sem a gente se ver. E um absurdo o que os grandes atores podem nos dar. Eles abrem janelas e portas, com pausas, com força. No início, participo de reuniões com os diretores e elenco. Mas não sei dizer como é um personagem. Trabalho com a intuição. Faço análise há 15 anos e não me conheço ainda. Você acha que vou conhecer 30 personagens de telenovela?

O GLOBO - Desta vez você se prepara para trabalhar com Fernanda Montenegro. Poderia adiantar alguma coisa sobre a sua participação na novela?

GILBERTO BRAGA - É um papel para a novela inteira. A personagem se chama Olga. Mais do que isso não quero dizer, porque a estréia só vai ser no dia 13 de maio. Fernanda é um monumento. Escrever para ela não é fácil. Vamos ter ainda duas outras grandes atrizes, com quem ainda não tive o prazer de trabalhar: a Cleyde Yáconis e a Odete Lara. A Cleyde foi sugestão do Daniel Filho, que me perguntou o que eu acharia de tê-la, no elenco de "O dono do Mundo". Eu disse que seria ótimo. Já a Odete foi sugestão minha. Ela estava afastada há 17 anos da vida artística, mas é minha amiga e eu sabia que ela tinha vontade de voltar. Poder contar com essas atrizes me deixa muito feliz e muito nervoso. Tomara que eu tenha papel para todo mundo.

O GLOBO - Você tem mágoas contra a imprensa?

GILBERTO BRAGA - Apenas uma enorme frustração, uma só, mas não poderia ser mais penosa. E que os jornais Publiquem todas as semanas tudo o que vai acontecer nas novelas. Eu me sinto roubado. Trabalho mais de 12 horas por dia para bolar histórias e quero que o espectador veja uma cena hoje com grande curiosidade de saber o que vai acontecer amanhã. E, de uns anos Para cá, não há suspense algum. As revistas e jornais publicam tudo. O espectador não, segue mais para saber o que vai acontecer, mas como vai acontecer. Às vezes, publicam diálogos inteiros. Acho extremamente antiético. No dia do último capítulo de "Vale tudo", por coincidência, ia ser exibido "Um corpo que cai", do Hitchcock. O GLOBO e o ''Jornal do Brasil" fizeram página inteira, capa do "Segundo Caderno" sobre o filme, com informações, matérias ótimas. Todos os dois redatores comentavam que não podiam contar a história do filme para não tirar o prazer do espectador. Isso é ética, isso é carinho pelo leitor, Queria que a televisão fosse tratada com o mesmo carinho. Contar o que vai acontecer é um jornalismo pobre. Se eu não precisasse do salário, parava de escrever por causa disso, tal o nível da minha mágoa. Legalmente, nada posso fazer. E só uma questão de ética. De respeito ao leitor e aos criadores.

O GLOBO - Para o jornal, telenovela é notícia e, como toda notícia, deve merecer cobertura através de reportagens e entrevistas, que podem, eventualmente, antecipar alguns dos acontecimentos mais importantes.

GILBERTO BRAGA - A única possibilidade de minha frustração diminuir seria se essas revistas e jornais pagassem direitos autorais a mim e aos meus colaboradores. Mas seria um dinheiro que eu preferiria não receber.

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