Tuesday, September 30, 2014

1991 - Dóris Giesse Para Maiores

O Globo
Data de Publicação: 10/4/1991
Autora: Lívia de Almeida
UMA ANDRÓIDE EM CARNE E OSSO
Dóris Giesse comanda 'Só para maiores'

Uma andróide digitalizada de última geração vai invadir a tela de seu vídeo na próxima terça-feira, disposta a usar todos os seus artifícios de sedução. E a apresentadora Dóris Giesse, que servirá ao telespectador o coquetel de verdades e mentiras preparado durante o programa "Só para maiores", com direção geral de Guel Arraes. Reportagens autênticas sobre os assuntos mais inusitados vão conviver com o lado cômico dos fatos, tratado pelos humoristas da "Casseta Popular" e do "Planeta Diário", responsáveis por boa parte dos textos do extinto "TV Pirata".

A apresentação das notícias é feita por Dóris Giesse de maneira não menos original. Ela gravou algumas cenas usando um bustiê. Como o enquadramento escolhido pelos diretores do programa corta a sua imagem na altura dos ombros, a impressão, para o telespectador, é de que ela está totalmente despida.

- A Dóris é fundamental para esse programa. E ela quem faz a ligação entre o show e o jornalismo, dá a unidade. Ela tem credibilidade como apresentadora, mas é muito diferente da maioria. E uma apresentadora que faz fotos nua para a revista "Playboy" e que pode trabalhar também em comerciais -analisa o diretor.

Dóris vai acumular as funções de apresentadora e, pela primeira vez, de atriz. Ela faz a andróide Dorfe, assanhada, moleca, andrógina ou sedutora, conforme a ocasião. Em cada programa devem entrar de duas a quatro inserções com as historinhas da personagem, criadas para o vídeo por Alexandre Machado. Cada vinheta deverá ter uma duração máxima de um minuto e meio. A personagem, segundo a própria apresentadora, seria uma versão de Dóris Giesse feita pela computação gráfica.

- Alguns jornalistas chegaram a me comparar a um andróide. Resolvi assumir e exagerar esses aspectos, já que eu tenho mesmo feições herméticas, um rosto quadrado e um corpo musculoso. Na verdade, acho que a alcunha de "andróide" pode ser empregada a qualquer tipo de âncora de televisão - afirma.

Para criar a personagem, ela está puxando pelo que chama de "a raspa do tacho": sua experiência em filmes publicitários e o seu passado como bailarina. Dóris acredita que, mais do que um trabalho tradicional de atriz, a andróide vem lhe exigindo grandes investimentos pelo lado físico. Não houve tempo para preparar um programa piloto com as histórias de Dorfe.

- Está sendo direto na veia - brinca.

As aventuras da andróide que atazana a vida de Bruno (Diogo Villela) e de sua noiva (Zezé Polessa) começaram a ser gravadas esta semana, nos estúdios da Cinédia, em Jacarepaguá. Em um cenário futurista, que custou cerca de Cr$ 5 milhões, a personagem invade as telas de microcomputadores, caixas eletrônicas e até secretárias eletrônicas. Tudo isso vestida apenas com um maiô transparente de resina e sandálias transparentes com salto 15 - uma indumentária desconfortável, que impedia boa parte dos movimentos de Dóris Giesse e lhe exigiu um grande espírito de resignação.

Dorfe foi criada, originalmente como uma personagem de histórias em quadrinhos, pelo publicitário Roberto Dualibi, para a revista "Playboy". Seu nome teve origem de uma leitura apressada dos garranchos que compõem a assinatura de Dóris Giesse. Ela compara suas inserções no vídeo com a seção de quadrinhos de uma revista.

- O interessante neste programa é que não existem espaços pré-determinados para os seus quadros, o noticiário autêntico, o humor, a ficção e o absurdo. E uma estrutura ondulante, em que uma coisa se integra naturalmente na outra - conta.

O PROGRAMA MISTURA JORNALISMO E FICÇÃO - Verdades e mentiras. "Só para maiores" é um programa que parte do jornalismo com a intenção declarada de confundir o telespectador, segundo seu Diretor Geral, Guel Arraes. O "jornalismo-verdade" e o "humorismo-mentira" vão aparecer lado a lado, separados por uma linha tênue. No primeiro programa, por exemplo, depois de uma matéria dos humoristas da "Casseta Popular" e do "Planeta Diário" sobre a condição do homem traído, vai entrar uma reportagem especial sobre strip-tease masculino em São Paulo, só assistido por mulheres. Também é feita pelo jornalismo a matéria sobre a última moda em preservativos masculinos, apresentando inclusive uma retrospectiva histórica sobre o assunto.

- O programa gira em torno do jornalismo mas, como é feito pela linha de shows, tem uma grande vantagem: é possível mentir - avisa Arraes.

"Só para maiores", como toda boa revista de variedades, além de reportagens falsas e verdadeiras, terá espaço para seus colunistas. Paulo Francis vai falar sobre mulheres: no primeiro programa, desanca a cantora Madonna. Ana Maria Bahiana faz matérias sobre o american way of life. Marcelo Tas trata da "TV no Mundo", enquanto o cineasta Jorge Furtado, autor do premiado "Ilha das Flores", se encarregará de preparar falsos documentários com três minutos de duração. No primeiro programa, o tema é o tempo. O jornalista Geneton de Morais, de Londres, conduzirá a "Sessão aventura", com depoimentos de personalidades originais. O primeiro será do mentor intelectual do assalto ao trem pagador. O segundo, provavelmente, será Pete Best, o Beatle que foi substituído por Ringo Starr.

A ficção assumida fica por conta das vinhetas protagonizadas pela andróide Dorfe, interpretada por Dóris Giesse, que contracena no primeiro programa com o "ex-pirata" Diogo Villela e a atriz Zezé Polessa.

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