Tuesday, September 30, 2014

1991 - Dóris Giesse no Fantástico

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 13/1/1991
Autor: Luís Antônio Giron
DORIS É O NOVO VIDEOBICHO DO ''FANTÁSTICO''
A estréia da apresentadora e modelo Doris Giesse, 30, no ''Fantástico'', no último domingo, no lugar de William Bonner (agora no "Jornal Nacional'' e ''Jornal da Globo''), desencadeou dois fatos. Abalou o equilíbrio '''''nerd'' dos outros apresentadores, Celso Freitas e Valéria Monteiro, e assinalou primeiras alterações do programa rumo à reportagem de denúncia e à ficção científica prometidas para março.

Ao longo das costumeiras duas horas, Doris leu 12 cabeças de matéria, três chamadas e quatro reportagens em "off'. Mostrou espantosa segurança que não tinha há dois anos, quando começou a apresentar o "Jornal de Vanguarda" na Bandeirantes. Sorriu para dramatizar curiosidades, colocou a voz grave com capricho, não errou.

Não precisou de muito para ofuscar os companheiros. Descontentes porque Doris foi contratada com direito a fazer comerciais, algo vedado aos jornalistas, os dois não esconderam amargura e péssimo humor no último programa.

Valéria ruiu ao se mostrar mal-humorada e insossa. Celso serviu o feijão-com-arroz à moda Cid Moreyra. Diante da nova apresentadora, eles não passaram de pobres normais, desinteressantes em um programa que tem solapado a realidade em nome da fantasia noticiosa desde o início.

Doris tem um símbolo padrão que provoca palmas e a vontade de jogar-lhe amendoins: o da andróide que fala dos e para os humanos. A computação gráfica de Hans Donner encontra seu reflexo falante. O programa chega mais perto da meta de primeiro-mundismo; Doris é loira, tem olhos azuis. Prolonga o espanto com que persuade o público já persuadido.

Mas essas alterações não são fundamentais. A base do "Fantástico'' é só uma desde que estreou há 901 domingos, em 5 de setembro de 1973. Bom, vice-presidente de Operações da Globo, concebeu-o como uma revista dominical cheia de notícias, piadas e variedades; mistura de circo e hospital em que os palhaços e médicos dão lugar a jornalistas e charlatões, o picadeiro ao mundo das imagens eletrônicas editadas.

A notícia nunca deixou de ser uma ficção (geralmente médica) no programa. Quando ganhou peso, há sete anos, os espectadores reclamaram. A notícia tem que ser dita por meio de interjeições, imprecisões e hipérboles e exposta de maneira "artística": o entrevistado geralmente olha para a câmera, os fundos não podem conter tomadas, fios ou objetos muito reais, a linguagem do clip é chamada a informar os fatos.

Os ''es'' literários se reproduzem com as interpelações e reticências. ''E vejam só que show de imagens feitas com equipamentos especiais da série Discovery!'', diz Valéria. ''E agora a voz de Clero Falcão quase atropelado por um jet ski'', diz Alexandre Garcia, mostrando Collor quase passando por cima do deputado, que grita: ''Esse cara é doido!". Doris: ''O mosquito da dengue está sendo caçado de todas as maneiras!". Celso: ''Hoje os nordestinos se reuniram para rezar por frei Damião, o principal guia do povo nordestino... ".

Um clip de Chitãozinho e Xororó pode inquietar mais do que a guerra no Golfo Pérsico. Até o mosquito aedes aegypti ganha um close de modete. A denúncia recebe cores de carochinha, a patologia vira culto e os políticos - à exceção de Collor e equipe - lembram polichinelos a tropeçar entre os replays da "crônica muito indiscreta'' de Garcia.

O esquema se repete hoje à noite: reportagens sobre assaltos a bancos e o Golfo, clips de Sá & Guarabyra e Rosana, a Organização Mundial de Saúde afirma que dobrou a vida dos pacientes aidéticos, Collor faz novas piruetas.

Doris não subverte o ''Fantástico'' na essência. Consegue torná-lo apenas um pouco mais di vertido porque sintetiza duas das sessões mais típicas do programa: ''Videobicho" e ''Discovery". À primeira mostra os animais em situações inusitadas: cães andando de patinete, patos que fumam e chimpanzés extremamente sábios. "Discovery'' exibe imagens inabituais feitas por uma equipe de cientistas: vermes que passeiam pelo corpo sob a ducha, discos-voadores terráqueos, um esôfago que se alimenta etc.

Doris é um objeto de notícia popularesca (a ''replicante" enjaulada na tela) lendo a notícia que se quer falsa. Como deseja a Globo, a apresentadora tem a nova cara do ''Fantástico'' - um videobicho hi-tec, que diverte sem morder e promete eternizar os tédios dominicais

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