Tuesday, September 9, 2014

1991 - Chaplin em O Dono do Mundo

O Globo
Data de Publicação: 22/5/1991
Autor: Pedro Só
COREOGRAFIAS DO DONO DO MUNDO
Chaplin aparece em abertura de novela

Charles Chaplin, quem diria, acabou numa novela. Mais precisamente na abertura de "O dono do mundo", nova obra de Gilberto Braga pa' ra a TV Globo. Mas para que isto acontecesse foi preciso muito esforço. A edição final consumiu três dias de trabalho de Hans Donner e sua equipe (Nilton Nunes, Capi e Michele Andrade) e só ficou pronta às 20h10m de segunda; feira, pouco antes do horário previsto para entrar no ar.

Mas o mais difícil foi conseguir a "escalação" do gênio do cinema na produção. Numa conversa entre Hans Donner e o Vice-Presidente de Operações da Rede Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Boni, foi discutido quem poderia sintetizar bem a figura de um dono do mundo. Depois de algum tempo escolhendo entre Stalin, Hitler, Cassius Clay e outros, a decisão recaiu sobre o líder nazista. A partir daí, veio a idéia de utilizar a famosa seqüência de "O grande ditador" em que Chaplin utiliza uma bola de gás imitando a Terra.

- Boni, entusiasmando, me pôs em contato com Mo Rothman, que cuida dos direitos dos filmes do Chaplin em todo o Mundo. Conversamos, mas ele fez várias exigências, uma delas no sentido de que não interrompêssemos a seqüência - conta Hans.

Isto fez com que o seu trabalho se limitasse a inserts (enxertos de imagens) sobre a cena original. Hans sugeriu a Boni que as alterações fossem feitas com a substituição do globo terrestre por imagens do "mundo das mulheres".

Mas o que importava realmente eram as imagens originais. Com medo de não poder utilizá-las, Hans Donner começou até a preparar uma paródia, fazendo gravações com o ator Breno Moroni no Palácio do Catete. Ao mesmo tempo, foi mexendo na seqüência com Chaplin em seu computador Mirage. Um exercício de paciência, devido à complexidade da trucagem.

- Só podíamos inserir as imagens no espaço ocupado pela bola colocando-as nas 50 posições de sua trajetória em um segundo e meio. Mais do que isto seria um número muito alto de informações para a máquina - conta Hans.

Ele e Boni chegaram até a se animar com a perspectiva de o filme já haver caído em domínio público, pois completou 50 anos em outubro passado. Negada esta possibilidade pela existência de parentes vivos de Chaplin (o que, segundo Hans, prorroga a entrada dos direitos em domínio público por mais 26 anos), o pessimismo voltou a vigorar. Mas os resultados obtidos por Hans e sua equipe reverteram a situação.

- Mostrei o que já tinha feito e o Boni adorou. Daí, se convenceu de que precisávamos usar mesmo as imagens do Chaplin - conta Hans.

As negociações, complicadas, envolveram também os direitos de exibição de outros filmes de Chaplin. Hans Donner não quis revelar a quantia gasta para autorizar o uso da seqüência, mas tudo indica que foi uma soma altíssima.

- Muita gente poderá nos criticar por causa do dinheiro gasto. Mas esta abertura, somadas todas as exibições, vai ficar dez horas no ar. E ela é o cartão de visitas da novela, uma amostra indiscutível do padrão Globo de qualidade - justifica Hans.

BALÉ DE HYNKEL CONDENSA A IDÉIA DE 'O GRANDE DITADOR'

Autor/Repórter: Ely Azeredo

O balé de Adenoid Hynkel com o globo terrestre, cena-chave de "O grande ditador", figura obrigatoriamente em todas as antologias da obra de Charles Chaplin e está entre as maiores criações do humor cinematográfico. E um momento que condensa a idéia do filme, comédia satírica ao vírus ditatorial-imperialista que então (1940) ameaçava o Mundo através do nazismo e de Adolf Hitler.

Chaplin escreveu o roteiro (de janeiro a março de 1939) quando ainda não se conhecia toda a monstruosidade do hitlerismo. Ele mesmo afirmou, depois, que nada sabia dos campos de extermínio. Em conseqüência, "O grande ditador" trata Hitler em termos burlescos. Não chega ao tom grave da tragicomédia chapliniana posterior: "Monsieur Verdoux". A importância política do filme ultrapassa todas as outras significações, como fica nítido no final: o segmento de seis minutos no qual, confundido com seu sósia Hynkel, o barbeiro judeu faz seu "apelo aos homens". "Lamento muito, mas eu não quero ser ditador". E defende a liberdade e a paz em um Mundo "onde o progresso conduza à felicidade universal".

Na cena-chave do filme, Hynkel manifesta seu desejo de ficar só. Em seguida, excita-se com seu prazer solitário: sonhar com a posse do Mundo namorando os contornos dos mapas. O globo terrestre, então, leve como um balão de borracha, torna-se um brinquedo que ele agita com as mãos, com os pés, com todo o corpo. A comicidade se manifesta coreograficamente -uma herança do music hall que., Chaplin desenvolveu e personalizou em forma cinematográfica desde seus primeiros anos na tela. E um balé de conotações eróticas, a antevisão do poder total substituindo o êxtase sexual. Finalmente, o globo-joguete arrebenta como balão em mão de criança, e Hynkel cai no choro.

A par da inventiva técnica, a vinheta da novela "O dono do Mundo" evidencia sensibilidade face às características daquele segmento de "O grande ditador", colhendo naturalmente sua- graça visual, sua substância onírica e erótica. As imagens telenovelescas foram "inseridas" no globo (em cores) de forma a manter - na "citação" do clássico - os limites entre a invenção "videográfica" e a arte cinematográfica. Com a felicidade desta fusão de meios e inspirações, a televisão aponta para a perenidade do cinema. E homenageia a grandeza de seu artista mais universal, Charles Chaplin, Charlie, Carlitos.

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