Tuesday, September 30, 2014

1991 - A andróide Dóris Giesse

 Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 27/1/1991
Autor: Wagner Carelli
EU, ROBÔ
Doris Giesse assume seu lado andróide e submete-se ao laboratório de imagem da Globo, o "Fantástico"

Há menos coisas entre o céu e Doris Giesse do que faz sonhar a televisão. Ela é uns dois palmos menor que o imaginado, primeiro. Depois, não há sinais de vida alienígena ou de tecnologia inacessível no flat que alugou há um mês no Leblon, zona sul do Rio. O bronze que vem adquirindo na piscina do prédio parece impróprio como revestimento - está longe do platinado das ficções de futuro - e, para um ser supostamente automatizado, ela cumpre tarefas domésticas comezinhas com notável satisfação. É o que há de mais caseiro entre os móveis impessoais do pequeno espaço pré-decorado. Recebe visitas com cafezinho que acompanha de biscoitos folhados alemães, sobre guardanapos de linho. Estaria mais para o celestial que para o extraterrestre, mais para rainha da Oktoberfest que para Barbarella, não confirmasse ela mesma todas as suspeitas anteriores:

- Prendada, não? É um programa novo. Dois disquetes que estão chegando aí, em fase de experimentação -o "Moçoila" e o "Casadoira".

E definitivo: Doris Giesse assumiu o autômato que se impôs à sua imagem. "Estou agregando isso aí a um novo projeto profissional", diz.

Por "isso aí" entenda-se "o andróide", como a definiu há dois anos, em artigo para a Ilustrada, o jornalista Otávio Frias Filho, diretor de Redação da Folha. Foi o primeiro a evidenciar a robótica na programação dos rígidos movimentos de sua cabeça de apresentadora, e a captar os sinais sonoros, curtos e metálicos, que emitia no extinto "Jornal de Vanguarda" da TV Bandeirantes de São Paulo. A produção do programa ofendeu-se; ela mesma achou "o máximo": "O Otávio detonou todo um processo".

Doris capitalizou a idéia e investiu na automação. Cumpriu burocraticamente seu contrato de dois anos com a Bandeirantes enquanto maturava um projeto de sustentação para seu lado andróide: um programa de variedades com abordagem hi-tech e apresentadora idem. "A concepção da coisa toda desceu literalmente via satélite", diz.' Foi captada, aparentemente, pela antena parabólica no alto do prédio que abriga seu flat paulistano, onde Doris esticou-se todos os dias, durante um mês, em exposição integral ao sol. Preparava-se para a série de fotografias em pêlo que a revista "Playboy" publicou em novembro, e precisava eliminar as marcas do biquíni. A parabólica foi a testemunha isolada de sua nudez cotidiana; retribuiu com a iluminação: "Olhei a antena e veio subitamente aos meus olhos a expressão `andróide platinada' - aí baixou o programa inteiro, psicografado".

Antes que se vestisse, o projeto estava pronto. "Veio tudo na hora: público-alvo, plano de ação, exemplo de piloto, parará, pereré, piriri, pororó, pururu, pá, buf, fechei a pasta. Dois dias depois, datilografada, a coisa toda estava com o diretor de uma emissora" - que não a Globo, diga-se.

Foi o tempo de vestir um roupão, porém, e alguém da Globo lhe dizia: "Doris, esse projeto é inconcebível sem um dedo do Hans Donner" . Com o dedo para efeitos especiais de Hans Donner, o programador de replicastes, viria a mão, o braço e toda a emissora, tentacular. Doris imaginou uma cilada: "Vão me chamar com a promessa do programa e acabo fazendo novela". Era uma idéia abominável. Ela não registra a função de atriz: seu sistema parece inexportável para a linguagem. O contato global, não revelado, jurou as melhores intenções. Reafirmou as juras o diretor de Operações José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, com quem se reuniu em seguida. Firmou -se o contrato como um casamento.

A Globo queria Doris Giesse desde que os circuitos dela foram acionados pela primeira vez, em 1988. Estava lá, com o adversário, o único resultado positivo de uma idéia ruim. Ela chegara ao "Jornal de Vanguarda" de forma prosaica - fora a vencedora em um teste que reunira algumas centenas de candidatas. Estava desde sempre programada para agradar. Depois de 50 dias no ar a Globo lhe oferecia alguns milhões com a inquietude de quem se mortificava por chegar atrasado. Ela disse não. A Bandeirantes cobriu a oferta. "Achei melhor quebrar a casca do ovo por lá mesmo", diz.

Não faria uma única omelete. O "Jornal de Vanguarda" viraria "Vanguarda" e acabaria no quintal da glória, sem a memória de uma passagem sequer senão a do rosto da apresentadora. Doris foi despachada para o "Jornal da Noite" e desapareceu de forma buñuelesca - todos podiam vê-la e ninguém sabia onde estava. Antes de deixar a emissora ainda submeteu seu projetinho a um diretor. O homem era uma espécie de hardware a válvula. "Não tem registro", disse.

Era inútil. Na visão que teve sob a parabólica, Doris era uma andróide platinada, lembre-se. Teria de render-se à evidência de destinos feitos um para o outro. A Globo achou seu projeto lindo, ótimo, comprou a idéia, convocou uma equipe para mexer em tudo e jura que em abril Doris Giesse comandará o programa-piloto do Terceiro Milênio, uma visão "donneriana" do futuro conduzida, como convém, por atraente andróide de última geração. Até lá vem submetendo a máquina a testes dominicais em seu laboratório de imagem. O equipamento provou resistir a fortes pressões e seu desempenho tem sido mais que satisfatório.

No "Fantástico", Doris cumpre de certa forma a função de reencarnar o antigo e esquecido padrão de qualidade da Globo. Ela sugere um símbolo para o contra-ataque imperial na guerra estelar das emissoras, é um sucedâneo real, táctil, para o mito decaído da "vênus platinada". A idéia está no corte e na cor de seus cabelos tingidos -a original é "cinza-rato", segundo autoavaliação crítica, no olhar azul-míssil que lê o teleprompter, no movimento de regulagem artifical dos lábios carnudos. Sua programação ainda é capaz de simular efeitos magníficos. Ela parece mais alta que seus parceiros de cena com a metade do tamanho necessário; parece ter a voz do solista mesmo na execução do segundo violino e parece infalível ainda que nela se registrem todos os erros: tem a recobri-la a aura dos equipamentos de ponta, da precisão cirúrgica, do desenho limpo e da economia de linhas.

Antes de ser, ela parece ser: é a linguagem mais apropriada para expressar o idioma da imagem na TV. Quando trata de ser, Doris Giesse desliga todos os circuitos. Ela é, por exemplo, o traço que o Ibope registra na audiência de "Reino Animal" e "Paulista 900". É capaz de lamentar um certo e extinto programa "Panorama", e considerar "extraordinárias" as performances de perfeitos desconhecidos tragados pelos buracos negros de público. Sua síntese de técnica impecável está na voz de uma obscura apresentadora da TV Cultura de São Paulo. A mulher em quem mais aposta o jornalismo da Globo define-se por urna expressão "alternativa" de trabalho.

Ela é alternativa, pequena, tímida, prendada, bonitinha, sentimental. Distraída, até. É incapaz de reconhecer na rua as celebridades que são seu tema e objeto cotidianos. Respondeu com o clássico "o sr. é quem mesmo?" a um cumprimento do deputado José Serra, em quem votou. Hoje se diz capaz de reconhecê-lo "até de cabelos pintados".

Serra já não tem cabelos, e Doris pode até não ser a máquina de atenta concentração que seu meio exige dos melhores - é o que parece, porém. Foi programada para estar onde está, e um relê inibidor desestimula os desvios possíveis. Ela suspendeu uma carreira reconhecida e bem-remunerada na profissão de modelo e há exatos 15 dias abandonou definitivamente a idéia de fazer do balé o seu ofício. Uma pena, considera. "Meus amigos acham que eu danço melhor do que falo", diz. Amigos de opinião considerável-: ela dançou com o balé Stagium e o de Lina Penteado, em São Paulo, estagiou no Alvin Ailev, em Nova York, e estudou mímica até com Denise Stocklos -claro, nem tudo precisa ser levado em consideração. Tem reconhecida leveza, graça e técnica. Tinha futuro. Viver dançando era o sonho de uma vida e um destino a cumprir. Andróides, sabe-se, não fazem seu destino.

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