Tuesday, September 30, 2014

2007 - Dóris Giesse Cai do 8º Andar

Jornal Zero Hora
Data de Publicação: 17/4/2007

APÓS QUEDA, DORIS GIESSE PASSA BEM
A ex-apresentadora Doris Giesse, que no domingo caiu do seu apartamento no oitavo andar, no bairro Perdizes, zona oeste de São Paulo, foi submetida ontem a uma cirurgia no braço e transferida do quarto para a UTI semi-intensiva do Hospital das Clínicas.

Após queda de aproximadamente 20 metros, a jornalista teve fratura exposta no cotovelo esquerdo, um corte na perna direita e trauma na coluna cervical.

Doris teria caído ao tentar resgatar a gata de estimação do parapeito. A gata também caiu e sobreviveu. A queda delas foi amortecida pelo telhado de zinco que cobre a garagem do prédio.

- Está completamente descartada a possibilidade de suicídio. Foi um acidente - garantiu o marido de Doris, o jornalista Alex Solnik, que mora no apartamento com ela e o casal de filhos gêmeos, de 10 anos. - Ela fará uma operação no cotovelo no setor de ortopedia do hospital nesta quarta - acrescentou ele, explicando que a mulher toma remédios controlados há três anos, para tratamento de transtorno bipolar.

Pedro Ismael da Silva, o bombeiro que socorreu a ex-apresentadora diz que, por pouco, ela não caiu sobre barras de ferro.

- Quando é queda assim, de andares altos, já vamos preparados para o pior. Com certeza ela deu sorte. Caiu em uma parte mole do telhado, entre uma barra de ferro e outra - afirma.

Há cinco anos afastada da TV, a ex-atriz e modelo de 46 anos, que fez sucesso nos anos 90 apresentando os programas Fantástico e Doris Para Maiores, dedica-se atualmente a cuidar da casa e dos filhos e ainda publica poemas na Internet (http://dorisgiesse.zip.net/index.html).

1991 - Dóris Giesse Para Maiores

O Globo
Data de Publicação: 10/4/1991
Autora: Lívia de Almeida
UMA ANDRÓIDE EM CARNE E OSSO
Dóris Giesse comanda 'Só para maiores'

Uma andróide digitalizada de última geração vai invadir a tela de seu vídeo na próxima terça-feira, disposta a usar todos os seus artifícios de sedução. E a apresentadora Dóris Giesse, que servirá ao telespectador o coquetel de verdades e mentiras preparado durante o programa "Só para maiores", com direção geral de Guel Arraes. Reportagens autênticas sobre os assuntos mais inusitados vão conviver com o lado cômico dos fatos, tratado pelos humoristas da "Casseta Popular" e do "Planeta Diário", responsáveis por boa parte dos textos do extinto "TV Pirata".

A apresentação das notícias é feita por Dóris Giesse de maneira não menos original. Ela gravou algumas cenas usando um bustiê. Como o enquadramento escolhido pelos diretores do programa corta a sua imagem na altura dos ombros, a impressão, para o telespectador, é de que ela está totalmente despida.

- A Dóris é fundamental para esse programa. E ela quem faz a ligação entre o show e o jornalismo, dá a unidade. Ela tem credibilidade como apresentadora, mas é muito diferente da maioria. E uma apresentadora que faz fotos nua para a revista "Playboy" e que pode trabalhar também em comerciais -analisa o diretor.

Dóris vai acumular as funções de apresentadora e, pela primeira vez, de atriz. Ela faz a andróide Dorfe, assanhada, moleca, andrógina ou sedutora, conforme a ocasião. Em cada programa devem entrar de duas a quatro inserções com as historinhas da personagem, criadas para o vídeo por Alexandre Machado. Cada vinheta deverá ter uma duração máxima de um minuto e meio. A personagem, segundo a própria apresentadora, seria uma versão de Dóris Giesse feita pela computação gráfica.

- Alguns jornalistas chegaram a me comparar a um andróide. Resolvi assumir e exagerar esses aspectos, já que eu tenho mesmo feições herméticas, um rosto quadrado e um corpo musculoso. Na verdade, acho que a alcunha de "andróide" pode ser empregada a qualquer tipo de âncora de televisão - afirma.

Para criar a personagem, ela está puxando pelo que chama de "a raspa do tacho": sua experiência em filmes publicitários e o seu passado como bailarina. Dóris acredita que, mais do que um trabalho tradicional de atriz, a andróide vem lhe exigindo grandes investimentos pelo lado físico. Não houve tempo para preparar um programa piloto com as histórias de Dorfe.

- Está sendo direto na veia - brinca.

As aventuras da andróide que atazana a vida de Bruno (Diogo Villela) e de sua noiva (Zezé Polessa) começaram a ser gravadas esta semana, nos estúdios da Cinédia, em Jacarepaguá. Em um cenário futurista, que custou cerca de Cr$ 5 milhões, a personagem invade as telas de microcomputadores, caixas eletrônicas e até secretárias eletrônicas. Tudo isso vestida apenas com um maiô transparente de resina e sandálias transparentes com salto 15 - uma indumentária desconfortável, que impedia boa parte dos movimentos de Dóris Giesse e lhe exigiu um grande espírito de resignação.

Dorfe foi criada, originalmente como uma personagem de histórias em quadrinhos, pelo publicitário Roberto Dualibi, para a revista "Playboy". Seu nome teve origem de uma leitura apressada dos garranchos que compõem a assinatura de Dóris Giesse. Ela compara suas inserções no vídeo com a seção de quadrinhos de uma revista.

- O interessante neste programa é que não existem espaços pré-determinados para os seus quadros, o noticiário autêntico, o humor, a ficção e o absurdo. E uma estrutura ondulante, em que uma coisa se integra naturalmente na outra - conta.

O PROGRAMA MISTURA JORNALISMO E FICÇÃO - Verdades e mentiras. "Só para maiores" é um programa que parte do jornalismo com a intenção declarada de confundir o telespectador, segundo seu Diretor Geral, Guel Arraes. O "jornalismo-verdade" e o "humorismo-mentira" vão aparecer lado a lado, separados por uma linha tênue. No primeiro programa, por exemplo, depois de uma matéria dos humoristas da "Casseta Popular" e do "Planeta Diário" sobre a condição do homem traído, vai entrar uma reportagem especial sobre strip-tease masculino em São Paulo, só assistido por mulheres. Também é feita pelo jornalismo a matéria sobre a última moda em preservativos masculinos, apresentando inclusive uma retrospectiva histórica sobre o assunto.

- O programa gira em torno do jornalismo mas, como é feito pela linha de shows, tem uma grande vantagem: é possível mentir - avisa Arraes.

"Só para maiores", como toda boa revista de variedades, além de reportagens falsas e verdadeiras, terá espaço para seus colunistas. Paulo Francis vai falar sobre mulheres: no primeiro programa, desanca a cantora Madonna. Ana Maria Bahiana faz matérias sobre o american way of life. Marcelo Tas trata da "TV no Mundo", enquanto o cineasta Jorge Furtado, autor do premiado "Ilha das Flores", se encarregará de preparar falsos documentários com três minutos de duração. No primeiro programa, o tema é o tempo. O jornalista Geneton de Morais, de Londres, conduzirá a "Sessão aventura", com depoimentos de personalidades originais. O primeiro será do mentor intelectual do assalto ao trem pagador. O segundo, provavelmente, será Pete Best, o Beatle que foi substituído por Ringo Starr.

A ficção assumida fica por conta das vinhetas protagonizadas pela andróide Dorfe, interpretada por Dóris Giesse, que contracena no primeiro programa com o "ex-pirata" Diogo Villela e a atriz Zezé Polessa.

1991 - A andróide Dóris Giesse

 Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 27/1/1991
Autor: Wagner Carelli
EU, ROBÔ
Doris Giesse assume seu lado andróide e submete-se ao laboratório de imagem da Globo, o "Fantástico"

Há menos coisas entre o céu e Doris Giesse do que faz sonhar a televisão. Ela é uns dois palmos menor que o imaginado, primeiro. Depois, não há sinais de vida alienígena ou de tecnologia inacessível no flat que alugou há um mês no Leblon, zona sul do Rio. O bronze que vem adquirindo na piscina do prédio parece impróprio como revestimento - está longe do platinado das ficções de futuro - e, para um ser supostamente automatizado, ela cumpre tarefas domésticas comezinhas com notável satisfação. É o que há de mais caseiro entre os móveis impessoais do pequeno espaço pré-decorado. Recebe visitas com cafezinho que acompanha de biscoitos folhados alemães, sobre guardanapos de linho. Estaria mais para o celestial que para o extraterrestre, mais para rainha da Oktoberfest que para Barbarella, não confirmasse ela mesma todas as suspeitas anteriores:

- Prendada, não? É um programa novo. Dois disquetes que estão chegando aí, em fase de experimentação -o "Moçoila" e o "Casadoira".

E definitivo: Doris Giesse assumiu o autômato que se impôs à sua imagem. "Estou agregando isso aí a um novo projeto profissional", diz.

Por "isso aí" entenda-se "o andróide", como a definiu há dois anos, em artigo para a Ilustrada, o jornalista Otávio Frias Filho, diretor de Redação da Folha. Foi o primeiro a evidenciar a robótica na programação dos rígidos movimentos de sua cabeça de apresentadora, e a captar os sinais sonoros, curtos e metálicos, que emitia no extinto "Jornal de Vanguarda" da TV Bandeirantes de São Paulo. A produção do programa ofendeu-se; ela mesma achou "o máximo": "O Otávio detonou todo um processo".

Doris capitalizou a idéia e investiu na automação. Cumpriu burocraticamente seu contrato de dois anos com a Bandeirantes enquanto maturava um projeto de sustentação para seu lado andróide: um programa de variedades com abordagem hi-tech e apresentadora idem. "A concepção da coisa toda desceu literalmente via satélite", diz.' Foi captada, aparentemente, pela antena parabólica no alto do prédio que abriga seu flat paulistano, onde Doris esticou-se todos os dias, durante um mês, em exposição integral ao sol. Preparava-se para a série de fotografias em pêlo que a revista "Playboy" publicou em novembro, e precisava eliminar as marcas do biquíni. A parabólica foi a testemunha isolada de sua nudez cotidiana; retribuiu com a iluminação: "Olhei a antena e veio subitamente aos meus olhos a expressão `andróide platinada' - aí baixou o programa inteiro, psicografado".

Antes que se vestisse, o projeto estava pronto. "Veio tudo na hora: público-alvo, plano de ação, exemplo de piloto, parará, pereré, piriri, pororó, pururu, pá, buf, fechei a pasta. Dois dias depois, datilografada, a coisa toda estava com o diretor de uma emissora" - que não a Globo, diga-se.

Foi o tempo de vestir um roupão, porém, e alguém da Globo lhe dizia: "Doris, esse projeto é inconcebível sem um dedo do Hans Donner" . Com o dedo para efeitos especiais de Hans Donner, o programador de replicastes, viria a mão, o braço e toda a emissora, tentacular. Doris imaginou uma cilada: "Vão me chamar com a promessa do programa e acabo fazendo novela". Era uma idéia abominável. Ela não registra a função de atriz: seu sistema parece inexportável para a linguagem. O contato global, não revelado, jurou as melhores intenções. Reafirmou as juras o diretor de Operações José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, com quem se reuniu em seguida. Firmou -se o contrato como um casamento.

A Globo queria Doris Giesse desde que os circuitos dela foram acionados pela primeira vez, em 1988. Estava lá, com o adversário, o único resultado positivo de uma idéia ruim. Ela chegara ao "Jornal de Vanguarda" de forma prosaica - fora a vencedora em um teste que reunira algumas centenas de candidatas. Estava desde sempre programada para agradar. Depois de 50 dias no ar a Globo lhe oferecia alguns milhões com a inquietude de quem se mortificava por chegar atrasado. Ela disse não. A Bandeirantes cobriu a oferta. "Achei melhor quebrar a casca do ovo por lá mesmo", diz.

Não faria uma única omelete. O "Jornal de Vanguarda" viraria "Vanguarda" e acabaria no quintal da glória, sem a memória de uma passagem sequer senão a do rosto da apresentadora. Doris foi despachada para o "Jornal da Noite" e desapareceu de forma buñuelesca - todos podiam vê-la e ninguém sabia onde estava. Antes de deixar a emissora ainda submeteu seu projetinho a um diretor. O homem era uma espécie de hardware a válvula. "Não tem registro", disse.

Era inútil. Na visão que teve sob a parabólica, Doris era uma andróide platinada, lembre-se. Teria de render-se à evidência de destinos feitos um para o outro. A Globo achou seu projeto lindo, ótimo, comprou a idéia, convocou uma equipe para mexer em tudo e jura que em abril Doris Giesse comandará o programa-piloto do Terceiro Milênio, uma visão "donneriana" do futuro conduzida, como convém, por atraente andróide de última geração. Até lá vem submetendo a máquina a testes dominicais em seu laboratório de imagem. O equipamento provou resistir a fortes pressões e seu desempenho tem sido mais que satisfatório.

No "Fantástico", Doris cumpre de certa forma a função de reencarnar o antigo e esquecido padrão de qualidade da Globo. Ela sugere um símbolo para o contra-ataque imperial na guerra estelar das emissoras, é um sucedâneo real, táctil, para o mito decaído da "vênus platinada". A idéia está no corte e na cor de seus cabelos tingidos -a original é "cinza-rato", segundo autoavaliação crítica, no olhar azul-míssil que lê o teleprompter, no movimento de regulagem artifical dos lábios carnudos. Sua programação ainda é capaz de simular efeitos magníficos. Ela parece mais alta que seus parceiros de cena com a metade do tamanho necessário; parece ter a voz do solista mesmo na execução do segundo violino e parece infalível ainda que nela se registrem todos os erros: tem a recobri-la a aura dos equipamentos de ponta, da precisão cirúrgica, do desenho limpo e da economia de linhas.

Antes de ser, ela parece ser: é a linguagem mais apropriada para expressar o idioma da imagem na TV. Quando trata de ser, Doris Giesse desliga todos os circuitos. Ela é, por exemplo, o traço que o Ibope registra na audiência de "Reino Animal" e "Paulista 900". É capaz de lamentar um certo e extinto programa "Panorama", e considerar "extraordinárias" as performances de perfeitos desconhecidos tragados pelos buracos negros de público. Sua síntese de técnica impecável está na voz de uma obscura apresentadora da TV Cultura de São Paulo. A mulher em quem mais aposta o jornalismo da Globo define-se por urna expressão "alternativa" de trabalho.

Ela é alternativa, pequena, tímida, prendada, bonitinha, sentimental. Distraída, até. É incapaz de reconhecer na rua as celebridades que são seu tema e objeto cotidianos. Respondeu com o clássico "o sr. é quem mesmo?" a um cumprimento do deputado José Serra, em quem votou. Hoje se diz capaz de reconhecê-lo "até de cabelos pintados".

Serra já não tem cabelos, e Doris pode até não ser a máquina de atenta concentração que seu meio exige dos melhores - é o que parece, porém. Foi programada para estar onde está, e um relê inibidor desestimula os desvios possíveis. Ela suspendeu uma carreira reconhecida e bem-remunerada na profissão de modelo e há exatos 15 dias abandonou definitivamente a idéia de fazer do balé o seu ofício. Uma pena, considera. "Meus amigos acham que eu danço melhor do que falo", diz. Amigos de opinião considerável-: ela dançou com o balé Stagium e o de Lina Penteado, em São Paulo, estagiou no Alvin Ailev, em Nova York, e estudou mímica até com Denise Stocklos -claro, nem tudo precisa ser levado em consideração. Tem reconhecida leveza, graça e técnica. Tinha futuro. Viver dançando era o sonho de uma vida e um destino a cumprir. Andróides, sabe-se, não fazem seu destino.

1991 - Dóris Giesse no Fantástico

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 13/1/1991
Autor: Luís Antônio Giron
DORIS É O NOVO VIDEOBICHO DO ''FANTÁSTICO''
A estréia da apresentadora e modelo Doris Giesse, 30, no ''Fantástico'', no último domingo, no lugar de William Bonner (agora no "Jornal Nacional'' e ''Jornal da Globo''), desencadeou dois fatos. Abalou o equilíbrio '''''nerd'' dos outros apresentadores, Celso Freitas e Valéria Monteiro, e assinalou primeiras alterações do programa rumo à reportagem de denúncia e à ficção científica prometidas para março.

Ao longo das costumeiras duas horas, Doris leu 12 cabeças de matéria, três chamadas e quatro reportagens em "off'. Mostrou espantosa segurança que não tinha há dois anos, quando começou a apresentar o "Jornal de Vanguarda" na Bandeirantes. Sorriu para dramatizar curiosidades, colocou a voz grave com capricho, não errou.

Não precisou de muito para ofuscar os companheiros. Descontentes porque Doris foi contratada com direito a fazer comerciais, algo vedado aos jornalistas, os dois não esconderam amargura e péssimo humor no último programa.

Valéria ruiu ao se mostrar mal-humorada e insossa. Celso serviu o feijão-com-arroz à moda Cid Moreyra. Diante da nova apresentadora, eles não passaram de pobres normais, desinteressantes em um programa que tem solapado a realidade em nome da fantasia noticiosa desde o início.

Doris tem um símbolo padrão que provoca palmas e a vontade de jogar-lhe amendoins: o da andróide que fala dos e para os humanos. A computação gráfica de Hans Donner encontra seu reflexo falante. O programa chega mais perto da meta de primeiro-mundismo; Doris é loira, tem olhos azuis. Prolonga o espanto com que persuade o público já persuadido.

Mas essas alterações não são fundamentais. A base do "Fantástico'' é só uma desde que estreou há 901 domingos, em 5 de setembro de 1973. Bom, vice-presidente de Operações da Globo, concebeu-o como uma revista dominical cheia de notícias, piadas e variedades; mistura de circo e hospital em que os palhaços e médicos dão lugar a jornalistas e charlatões, o picadeiro ao mundo das imagens eletrônicas editadas.

A notícia nunca deixou de ser uma ficção (geralmente médica) no programa. Quando ganhou peso, há sete anos, os espectadores reclamaram. A notícia tem que ser dita por meio de interjeições, imprecisões e hipérboles e exposta de maneira "artística": o entrevistado geralmente olha para a câmera, os fundos não podem conter tomadas, fios ou objetos muito reais, a linguagem do clip é chamada a informar os fatos.

Os ''es'' literários se reproduzem com as interpelações e reticências. ''E vejam só que show de imagens feitas com equipamentos especiais da série Discovery!'', diz Valéria. ''E agora a voz de Clero Falcão quase atropelado por um jet ski'', diz Alexandre Garcia, mostrando Collor quase passando por cima do deputado, que grita: ''Esse cara é doido!". Doris: ''O mosquito da dengue está sendo caçado de todas as maneiras!". Celso: ''Hoje os nordestinos se reuniram para rezar por frei Damião, o principal guia do povo nordestino... ".

Um clip de Chitãozinho e Xororó pode inquietar mais do que a guerra no Golfo Pérsico. Até o mosquito aedes aegypti ganha um close de modete. A denúncia recebe cores de carochinha, a patologia vira culto e os políticos - à exceção de Collor e equipe - lembram polichinelos a tropeçar entre os replays da "crônica muito indiscreta'' de Garcia.

O esquema se repete hoje à noite: reportagens sobre assaltos a bancos e o Golfo, clips de Sá & Guarabyra e Rosana, a Organização Mundial de Saúde afirma que dobrou a vida dos pacientes aidéticos, Collor faz novas piruetas.

Doris não subverte o ''Fantástico'' na essência. Consegue torná-lo apenas um pouco mais di vertido porque sintetiza duas das sessões mais típicas do programa: ''Videobicho" e ''Discovery". À primeira mostra os animais em situações inusitadas: cães andando de patinete, patos que fumam e chimpanzés extremamente sábios. "Discovery'' exibe imagens inabituais feitas por uma equipe de cientistas: vermes que passeiam pelo corpo sob a ducha, discos-voadores terráqueos, um esôfago que se alimenta etc.

Doris é um objeto de notícia popularesca (a ''replicante" enjaulada na tela) lendo a notícia que se quer falsa. Como deseja a Globo, a apresentadora tem a nova cara do ''Fantástico'' - um videobicho hi-tec, que diverte sem morder e promete eternizar os tédios dominicais

1989 - O trabalho de Dóris Giesse


O Globo
Data de Publicação: 26/11/1989
Autor: Marcos Salles
O NOVOS PASSOS DE DORIS GIESSE
Ano que vem, Doris Giesse completará dez anos de carreira profissional como bailarina, um fato que poderia até não ter muita importância se não tivesse sido a partir do balé que a apresentadora do "Jornal de Vanguarda", da Bandeirantes, entrou na televisão.

Enquanto ensaia para duas apresentações no início do mês, ao rever a abertura da novela "Brega e chique" - "Vale a pena ver de novo", Rede Globo, de segunda a sexta feira recorda um visual que volta a ter agora, com o cabelo mais curtinho, o que agrada muito seu namorado Chiquinho Scarpa.

- Essa história do cabelo é curiosa, pois deixei-o crescer para arrumar um namorado, pois tímida do jeito que sou e sem sair de casa, a não ser para fazer compras, trabalhar, ir ao balé ou visitar minha mãe, só se atropelasse alguém num sinal de trânsito. Além do que, acho que homem gosta mesmo é de mulher com cabelos compridos. Só que eu e Chiquinho começamos a namorar e ele disse que havia se apaixonado pelo cabelo curtinho que usava na época em que nos conhecemos.

Neste seu novo momento amoroso, após ter ficado um ano sozinha, Doris faz questão de dizer que, ao combinarem os temperamentos, está mais do que satisfeita.

- Sempre evitei uma comunicação mais próxima com ele, pois achava que nossa linguagem não daria certo. Pela imagem que fazem dele, achava que não tínhamos nada a ver. Mas, com nosso relacionamento, vi que estava errada e que combinamos em muitos pontos. Ele tem um lado muito caseiro, doméstico, intimista, familiar, que é exatamente igual ao meu.

Aos 29 anos, carioca nascida na Maternidade Alemã, no Rio Comprido, taurina com ascendente em câncer e lua em peixes, Doris é filha de alemães e, no seu dia-a-dia, põe em prática características que herdou de sua família.

- Dos alemães tenho a rigidez, organização, disciplina, regras de vida, garra por tudo. Quero ter sempre um trabalho legal, que me dê prazer, retorno e ao mesmo tempo me proteja no futuro. Já pelo meu signo, sou ao mesmo tempo séria, romântica, meio manteiga derretida, chorona.

Apresentadora também de "Carlton cine" e "Sala Philips de cinema", Doris Giesse aguarda com ansiedade a estreia de um novo trabalho para o ano que vem.

- Esse programa terá shows, musicais, entretenimento e muito humor, exatamente do jeito que eu sou. Aprendi muito no "Jornal de Vanguarda", o que endossou o fato de saber que meu negócio não é só apresentar. Quero me aprofundar mais na área cultural. Agora vou viver a Doris como ela é mesmo.

1988 - Dóris Giesse apresenta o Jornal de Vanguarda

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 11/5/1988
Autora: Cora Rónai
NOVIDADES NO AR, APESAR DO NOME
Modelo, atriz, bailarina, Dóris Giesse é a grande revelação do Jornal de Vanguarda, onde se revela uma apresentadora segura e competente

Atenção, assistentes inertes - é com vocês! Vamos fazer uma experiência e mudar de canal? Todos juntos, girando o botão - isso! - uma, duas, três casas para a direita, ótimo!, assim mesmo, consertem a antena - estão vendo agora? Bom. Esse canal é a Bandeirantes, e é aí que vocês devem aportar todas as noites, às 23h30rnin, se estiverem a fim de se divertir e de fazer a cabeça.

Esqueçam as notícias enlatadas do Jornal da Globo e arrisquem as opiniões do Jornal de Vanguarda: vale a pena. Apesar do nome no mínimo paradoxal (como é que um jornal pode ser de vanguarda se é o clone de outro, lançado com o mesmo nome há vinte e tantos anos?), a idéia é boa, está bem executada e, de um modo geral, não só a turma tem o que dizer como diz bem. De cara, vocês vão encontrar a presença surpreendente de Dóris Giesse - lindíssima, absolutamente segura e muito simpática, com tudo para se tornar em pouco tempo a melhor das apresentadoras da telinha. Um espanto, e uma bela dor de cabeça para o pessoal do 7: já já a Globo está aliciando a moça.

Outro espanto é descobrir, de repente, que coisa mais antiga é ser "moderno". Explico: o Jornal de Vanguarda é dividido em quadros, onde cada um faz mais ou menos o que quer (e o que sabe). Chico Caruso desenha, Marcos Terena dá o recado indígena, Fernando Moraes conta histórias de gente, Glória Alvares vem com novidades estranhissimas. Dóris Giesse faz a ligação entre esses quadros todos, ou complementando a informação, ou apresentando o personagem. E aqui é que se chega à tal da "modernidade", assim mesmo, entre aspas: cada vez que Dóris apresenta um gênio, a gente pode se preparar para o pior. Wally Salomão, tão contemporâneo, tão avançado, está um desastre; Fernando Gabeira, "um jornalista que já nasceu genial" (sic), resumiu sua apresentação a um playback dos Titãs e ao feito extraordinário de descascar e comer uma banana frente às câmaras, coisa que o Tião, chimpanzé ali do zoológico, faz todo dia sem qualquer badalação - e por um cachê muito menor.

Bom mesmo é jornalista competente, categoria que o Jornal de Vanguarda, felizmente, tem de sobra: Washington Novaes, José Augusto Ribeiro, Joyce Pascowitch, Newton Carlos. Augusto Nunes, que entrou logo depois de Gabeira, acentuou o contraste entre as espécies falando direto da redação do Estadão, de gravata e tudo. Não comeu nem uma uva pour épater les bourgeois, mas deu um recado simples e direto. Fausto Wolff, sem qualquer oba-oba (aliás, sem qualquer crédito gravado na imagem -a gente só sabe que era ele porque era ele) fez um comentário claro, objetivo e inteligente sobre a vitória de Mitterrand. É. Profissional é outra coisa!

Tuesday, September 9, 2014

1991 - Virgindade à Venda em O Dono do Mundo e na Vida Real

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 24/5/1991

MINEIRA COLOCA VIRGINDADE À VENDA
Sucesso da oferta acaba em leilão e revolta feministas

BELO HORIZONTE - Um anúncio de acompanhante feminino publicado ontem no jornal Estado de Minas chamou a atenção pelo inusitado do produto oferecido: a virgindade de uma mulher. "Virgem - moça idônea, 18 anos, necessitada: 2122633. Eros. Cr$ 250 mil", dizia o texto do classificado da agência Eros & Cia. Anúncios de acompanhantes para executivos, sob títulos Massagens, são comuns, mas o oferecimento de uma virgem, num estado como Minas, fez tanto sucesso que acabou virando leilão.

Na véspera, o mesmo anúncio oferecia a virgem por Cr$ 200 mil, mas a procura foi tanta que a agência abriu concorrência: leva quem oferecer mais. Segundo a Eros & Cia, até ontem à tarde as ofertas alcançaram Cr$ 220 mil. A donzela, apresentada com o nome de Naiara, fica à disposição dos interessados na agência, na Avenida Olegário Maciel, 304 - sala 2, no Centro de Belo Horizonte.

"Morena bronze, 1m70, 70 quilos, seios médios e firmes, cabelos curtos, castanhos escuros", descreveu a mulher que atendeu o telefonema dado à agência. "Sou eu mesma", completou Naiara, acrescentando que achava estranho "passar a própria ficha para os outros". Ela disse que atendera ao telefone por acaso, porque a telefonista tinha saído.

Naiara se disse constrangida por oferecer a virgindade em troca de dinheiro, mas justificou: " Estou passando por necessidades financeiras." Ela disse que procurou uma agência especializada por considerar que aquele era "o lugar apropriado". "O pessoal aqui está me leiloando", informou Naiara ao telefone. "Já passei para Cr$ 250 mil?", perguntou a alguém em seguida. Ela revelou que o local do encontro ficaria a critério do interessado, mas avisou que se reserva o direito de escolher o pretendente. Um homem que se identificou apenas como JB disse que o interessado teria que fazer o pagamento adiantado, mas que poderia levar Naiara a qualquer médico e fazer exames que comprovassem a virgindade.

A titular da Delegacia Especializada em Crimes contra a Mulher, delegada Elaine Matozinhos Gonçalves, afirmou que desconhece a agência Eros e que a atividade é crime. "O proprietário dessa agência, ao facilitar a prostituição, está cometendo ilícito penal". Segundo Elaine Matozinhos, compete à polícia indiciar os proprietários e gerentes das agências e remeter o inquérito à justiça.

A presidente da União Brasileira de Mulheres, Jô Morais, também se - queixou das dificuldades para punir casos como esse, até pela concordância das mulheres envolvidas. "Mesmo que não consigamos a punição judicial, queremos retomar o debate, pois mulher não é mercadoria", protestou. A feminista afirmou que pode ser feita uma "intimidação política" contra as agências de massagens, propondo uma visita aos locais por integrantes da Comissão de Direitos Humanos e da Procuradoria da Justiça. "Isto é uma forma indireta para estimular a violência sexual. Se uma virgem pode ser leiloada como vaca ou cavalo de raça, por que respeitam companheira ou a mulher bonita que passa na rua?", indaga.

1991 - Casa Cenográfica de O Dono do Mundo

O Globo
Data de Publicação: 24/5/1991
Autor/Repórter: Lívia de Almeida
A OUSADIA DE IR ALÉM DA FACHADA
Projeto pioneiro cria casa cenográfica

Construída em Jacarepaguá para abrigar os personagens Lucas (Hugo Carvana) e Esther (Odete Lara) em "O dono do mundo", uma simpática casa em uma chácara serve como cenário, por dentro e por fora. Segundo o arquiteto Keller Veiga, autor do projeto, é a primeira vez que se constrói, para a TV brasileira, uma casa inteiramente cenográfica Em circunstâncias normais, apenas a fachada seria erguida ou, no máximo, uma fachada real utilizada, com as cenas de interior gravadas em estúdios. Desta vez, porém, as particularidades dos personagens de Gilberto Braga dificultaram a escolha de uma locação que reunisse as condições ideais.

- O Lucas é marceneiro e tem, nos fundos da casa, uma oficina completa, Sua irmã Esther, uma paisagista, vende as plantas que cultiva em um horto, no quintal. Seria difícil encontrar uma casa com essas características - conta Veiga.

A casa foi projetada em dois pavimentos, com uma área total de 300 metros quadrados e um custo aproximado de US$ 75 mil (cerca de Cr$ 25 milhões). A tecnologia usada para a montagem das cidades cenográficas foi usada na obra. Ao invés de tijolo e argamassa, as paredes - mais finas do que as habituais - foram feitas com painéis de compensado. No telhado, foram adaptados dois grids de luz, que iluminam o primeiro piso através de duas aberturas no teto.

- A casa satisfaz a filosofia do diretor Dênis Carvalho de usar o mínimo possível de iluminação artificial - explica o arquiteto.

Nos fundos, foi montada uma marcenaria, com serras e outros equipamentos. A esquerda da oficina, pode ser visto o acesso para o horto de Esther (Odete Lara).

Além de usar muita madeira na construção, Keller valorizou esse material nas mobílias, criando uma relação com o seu proprietário, um simpático apreciador de música clássica, que escolheu a marcenaria por puro hobby. A decoração, que seguiu a linha country, se adaptou ao perfil dos personagens: pessoas que vivem com conforto, mesmo optando por uma vida despojada de luxo, sem grandes preocupações de consumo.

No primeiro piso, a sala de estar está integrada a uma rústica sala de jantar e à cozinha. Sobre uma mesa baixa no centro da sala de estar podem ser vistos livros de arte e decoração. Obedecendo às indicações de Gilberto Braga, um grande televisor ocupa lugar de destaque. Será ali que Lucas (Hugo Carvana) passará horas assistindo aos vídeos com suas óperas favoritas. Como Esther é uma paisagista, Keller Veiga enfeitou toda a casa com muitas plantas ornamentais.

No andar de cima estão os dois quartos, o banheiro e a varanda. No quarto de Lucas, o toque masculino fica por conta das miniaturas de embarcações colecionadas pelo personagem. A pedido do autor, o quarto de Esther tem duas camas de solteiro, pois a personagem deverá, no futuro, receber uma hóspede. O banheiro é dominado por uma grande banheira circular que, segundo o arquiteto, está em condições de uso.

Keller Veiga, que há oito anos se dedica à TV, já tem uma nova missão pela frente: criar uma cidade no estilo mediterrâneo, para servir de cenário para "Vamp", próxima novela das sete da Globo.

1991 - O Dono do Mundo examinado

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 22/5/1991
Autor: Luís Antônio Giron
NOVELA FAZ RETRATO EM ROXO DA ÉTICA DO PÁIS

''O Dono do Mundo'', novela da Globo que estreou anteontem é mais roxa do que ''soft''. Oferece diversão áspera a milhões de brasileiros pobres, ridicularizados e ofendidos. Áspero porque a imagem desses telespectadores não surge maquiada por frases piegas e falsos latidos de cachorro em subúrbios, mas amesquinhada feito a realidade.

O autor Gilberto Braga está mais sádico do que nunca e sua crueldade, no primeiro capítulo, brilhante. Com grandes atores em papéis bem marcados e falas naturalistas, a novela se arma sobre uma trama atraente que há muito não se via na TV.

Não foi necessário criar parafernália de efeitos para atrair o telespectador -o que disfarçou a fraqueza de uma história como a de ''Rainha da Sucata'', novela retrasada no horário. E em vez do nu artístico, comparece o nu cirúrgico: seios cortados.

Braga alimenta-se na leitura do romance "Ligações Perigosas", de Chordelos de Laclos, e de muitas histórias de Sade e Rubem Fonseca. A novela segue a rota dos relatos que mostram a iniciação e a perversão de uma virgem por um vilão poderoso.

Tudo é muito caricato, claro. Não se pode exigir que Braga rompa o ciclo que se repete desde que novela é novela: ricos se confrontam com pobres, os enredos se tecem em torno da mobilidade social e pretendem flagrar a situação brasileira.

Em ''O Dono do Mundo", a virgem é Márcia (Malu Mader), uma professorinha recém-casada; o perversor, Felipe (Antônio Fagundes), cirurgião plástico famoso, dado a libertinagens e casado com a rica Stella (Glória Pires).

Fagundes se supera nos olhares enviesados e na inflexão retórica do canalha pleno de nuances. Faz um vilão que promete odiar o "povo" durante os próximos meses. Diz no casamento da futura presa: "Quem é essa gente? Eu dei o bolo na minha mulher e nos meus amigos para me misturar com um bando de infelizes que nasceu para pegar ônibus sujos, bondes, trens, freqüentar ruas nojentas! O que estou fazendo aqui?'' Malu também convence

como uma perfeita maria-mijona. Sua "última das virgens" deverá ser objeto de nostalgia das donas-de-casa.

Em torno da dupla, roda um elenco "all star''. Fernanda Montenegro redime-se do papelzinho que lhe deram na minissérie ''Riacho Doce" e atua com eficácia na pele da alcoviteira de alto-luxo Olga. Outras boas composições são as de Jece Valadão, como o funcionário Tabajara, pai da mocinha, e de Ângelo Antônio, como Beíjaflor, surfista rodoviário que dá o toque ''verdade'' à novela.

Apesar da temática atual, em ''O Dono do Mundo", repete-se a circularidade de fórmulas de outras novelas; processo tão avassalador que seria possível intercambiar personagens dessa e de outras similares sem prejuízo, algum à trama.

Braga reescreve ''Vale Tudo" - que foi ao ar de maio de 1988 a janeiro de 89 e tratou da questão ética - com as cores ainda mais cinzentas do país.

Se há três anos o retrato ético do Brasil podia ser fixado pela imagem prototípica da oportunista Maria de Fátima (Glória Pires, em ''Vale Tudo'), agora ele recebe traços lúgubres: é o perfil de um gênio de perversidade, capaz de cortar um seio enquanto o deseja e conspurcar a pureza pelo prazer falocrático da destruição. O público quer se mirar em fogo e sangue. Tem agora seu roxo espelho ético em ''O Dono dó Mundo".

1991 - José Simão sobre O Dono do Mundo

Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 22/5/1991
Autor: José Simão
GLAMOUR BRAGA APRESENTA ÓPERA PODRE E CHIQUE

Pelo amor de Deus macacada, não confunda marrom glacê com doce de batata. Que o Gilberto Braga tá no ar! Quem comer fondue com colher de pau a televisão é confiscada e só devolvida em setembro. Em doze vezes! Em novela de Gilberto Braga, fino come farinha e cospe farofa. Ao mesmo tempo! Tá no ar a calúnia do Macaco Simão!

Milagre! Milagre! Três vezes milagre! Solta o rojão que o dr. Marinho soltou a bufunfa, liberou a grana! A Globo aboliu a iluminação chapadão-padaria! Para obter uma iluminação cinematográfica, o Denis Carvalho usa técnica de fumaça atrás do cenário. O Gerald Thomas usa fumaça na frente e o Denis usa fumaça atrás! É a inversão do teatro pra TV!

E a Janette Fechou o Eclair e passou a receita de glacê pro GG de Jacarepaguá! Os podres e chiques estão de volta. Olha a Fernanda Montenegro brilhando mais que peixe elétrico! Olha a Glória Pires de Prata usando modelão de Conrado Segretto! Gente, quantas vezes a gente vai ter que gritar "chiquérrimo"? É novela ou é gincana de chiquérrimos? Quem gritar mais "chiquérrimo'' ganha aquele vestidinho maria mijona que a Malu Mader tava usando na creche!

Resumo da ópera: o Poderoso com Ph Antônio Fagundes quer transar com a noiva Malu Mader. Antes do próprio noivo! Só que o noivo tá com cara de quem tá dando graças a Deus! Virgem e pobre é aquela que vê TV em preto e branco e dorme. Não tem uma alegria na vida!

E passa lua-de-mel em Poços de Caldas, vulgo cemitério de virgens! Menos em novela do GG. Que virgem e pobre passa lua-de-melo Canadá! E virgem e média? Vai pra Bariloche no pacote da Breda com direito a muamba na Ponte da Amizade. E é barrada na porta da novela do GG! E virgem e rica? Rica não é
virgem, é canonizada! De tanto que dá pros pobres! Rarará! Do mundo nada se leva!

Recado na minha secretina eletrônica: ''Simão, personagem do Gilberto Braga é como o primeiro sutiã, a gente nunca esquece". E não esquece mesmo. Quem não se lembra de Júlia Mattos em ''Dancing Days''? E dona Chica Newman? E a malvada do topete amarelo dona Odete Roitman?!

Gilberto Glamour Braga é o criador de tipos e tipas ínesquecíveis. Gilberto, manda brasa no molho e na sacanagem. Que o Brasil aplaude. Quem fica parado é poste!

1991 - Chaplin em O Dono do Mundo

O Globo
Data de Publicação: 22/5/1991
Autor: Pedro Só
COREOGRAFIAS DO DONO DO MUNDO
Chaplin aparece em abertura de novela

Charles Chaplin, quem diria, acabou numa novela. Mais precisamente na abertura de "O dono do mundo", nova obra de Gilberto Braga pa' ra a TV Globo. Mas para que isto acontecesse foi preciso muito esforço. A edição final consumiu três dias de trabalho de Hans Donner e sua equipe (Nilton Nunes, Capi e Michele Andrade) e só ficou pronta às 20h10m de segunda; feira, pouco antes do horário previsto para entrar no ar.

Mas o mais difícil foi conseguir a "escalação" do gênio do cinema na produção. Numa conversa entre Hans Donner e o Vice-Presidente de Operações da Rede Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Boni, foi discutido quem poderia sintetizar bem a figura de um dono do mundo. Depois de algum tempo escolhendo entre Stalin, Hitler, Cassius Clay e outros, a decisão recaiu sobre o líder nazista. A partir daí, veio a idéia de utilizar a famosa seqüência de "O grande ditador" em que Chaplin utiliza uma bola de gás imitando a Terra.

- Boni, entusiasmando, me pôs em contato com Mo Rothman, que cuida dos direitos dos filmes do Chaplin em todo o Mundo. Conversamos, mas ele fez várias exigências, uma delas no sentido de que não interrompêssemos a seqüência - conta Hans.

Isto fez com que o seu trabalho se limitasse a inserts (enxertos de imagens) sobre a cena original. Hans sugeriu a Boni que as alterações fossem feitas com a substituição do globo terrestre por imagens do "mundo das mulheres".

Mas o que importava realmente eram as imagens originais. Com medo de não poder utilizá-las, Hans Donner começou até a preparar uma paródia, fazendo gravações com o ator Breno Moroni no Palácio do Catete. Ao mesmo tempo, foi mexendo na seqüência com Chaplin em seu computador Mirage. Um exercício de paciência, devido à complexidade da trucagem.

- Só podíamos inserir as imagens no espaço ocupado pela bola colocando-as nas 50 posições de sua trajetória em um segundo e meio. Mais do que isto seria um número muito alto de informações para a máquina - conta Hans.

Ele e Boni chegaram até a se animar com a perspectiva de o filme já haver caído em domínio público, pois completou 50 anos em outubro passado. Negada esta possibilidade pela existência de parentes vivos de Chaplin (o que, segundo Hans, prorroga a entrada dos direitos em domínio público por mais 26 anos), o pessimismo voltou a vigorar. Mas os resultados obtidos por Hans e sua equipe reverteram a situação.

- Mostrei o que já tinha feito e o Boni adorou. Daí, se convenceu de que precisávamos usar mesmo as imagens do Chaplin - conta Hans.

As negociações, complicadas, envolveram também os direitos de exibição de outros filmes de Chaplin. Hans Donner não quis revelar a quantia gasta para autorizar o uso da seqüência, mas tudo indica que foi uma soma altíssima.

- Muita gente poderá nos criticar por causa do dinheiro gasto. Mas esta abertura, somadas todas as exibições, vai ficar dez horas no ar. E ela é o cartão de visitas da novela, uma amostra indiscutível do padrão Globo de qualidade - justifica Hans.

BALÉ DE HYNKEL CONDENSA A IDÉIA DE 'O GRANDE DITADOR'

Autor/Repórter: Ely Azeredo

O balé de Adenoid Hynkel com o globo terrestre, cena-chave de "O grande ditador", figura obrigatoriamente em todas as antologias da obra de Charles Chaplin e está entre as maiores criações do humor cinematográfico. E um momento que condensa a idéia do filme, comédia satírica ao vírus ditatorial-imperialista que então (1940) ameaçava o Mundo através do nazismo e de Adolf Hitler.

Chaplin escreveu o roteiro (de janeiro a março de 1939) quando ainda não se conhecia toda a monstruosidade do hitlerismo. Ele mesmo afirmou, depois, que nada sabia dos campos de extermínio. Em conseqüência, "O grande ditador" trata Hitler em termos burlescos. Não chega ao tom grave da tragicomédia chapliniana posterior: "Monsieur Verdoux". A importância política do filme ultrapassa todas as outras significações, como fica nítido no final: o segmento de seis minutos no qual, confundido com seu sósia Hynkel, o barbeiro judeu faz seu "apelo aos homens". "Lamento muito, mas eu não quero ser ditador". E defende a liberdade e a paz em um Mundo "onde o progresso conduza à felicidade universal".

Na cena-chave do filme, Hynkel manifesta seu desejo de ficar só. Em seguida, excita-se com seu prazer solitário: sonhar com a posse do Mundo namorando os contornos dos mapas. O globo terrestre, então, leve como um balão de borracha, torna-se um brinquedo que ele agita com as mãos, com os pés, com todo o corpo. A comicidade se manifesta coreograficamente -uma herança do music hall que., Chaplin desenvolveu e personalizou em forma cinematográfica desde seus primeiros anos na tela. E um balé de conotações eróticas, a antevisão do poder total substituindo o êxtase sexual. Finalmente, o globo-joguete arrebenta como balão em mão de criança, e Hynkel cai no choro.

A par da inventiva técnica, a vinheta da novela "O dono do Mundo" evidencia sensibilidade face às características daquele segmento de "O grande ditador", colhendo naturalmente sua- graça visual, sua substância onírica e erótica. As imagens telenovelescas foram "inseridas" no globo (em cores) de forma a manter - na "citação" do clássico - os limites entre a invenção "videográfica" e a arte cinematográfica. Com a felicidade desta fusão de meios e inspirações, a televisão aponta para a perenidade do cinema. E homenageia a grandeza de seu artista mais universal, Charles Chaplin, Charlie, Carlitos.

1991 - Odete Lara volta em O Dono do Mundo

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 20/5/1991

A VOLTA DA ATRIZ EXILADA

Qualquer que tenha sido o motivo de Odete Lara (atriz dos filmes Noite vazia, Rainha diaba, Copacabana me engana, Os herdeiros e O dragão da maldade, entre outros) para abandonar o cinema e se exilar por 16 anos em seu sítio em Nova Friburgo, onde escreveu três livros, o fato é que a atriz está de volta. É quase uma reestréia, com direito a insegurança. "Estou tão sensível a tudo que parece que estou sem pele", confessa. Há três anos foi convidada pelo amigo Gilberto Braga para fazer o papel de Odete Roitman na novela Vale tudo, mas recusou. Na ocasião, não se sentiu estruturada: "Agora só aceitei porque o papel é pequeno e não vai exigir muito de mim".

Odete, de certa forma, interpreta ela mesma na novela O dono do mundo: a vistosa Ester, uma paisagista que adora a natureza e decide se afastar da sociedade de consumo indo morar num sítio em Vargem Grande, junto com o irmão (Hugo Carvana). "Na verdade, eu não renunciei à minha vida de atriz, apenas substituí uma coisa pela outra", conta. Odete Lara acredita que o seu afastamento dos palcos foi devido a uma visão dualista da vida. "Ou escrever, realizar seminários e fazer tradução, ou ser atriz. Acho que agora dá para juntar as duas coisas." Mas acrescenta: "Eu não me arriscaria a trabalhar com qualquer um. Com Gilberto me sinto mais protegida", diz com tímido sorriso e jeito acanhado de quem está começando tudo outra vez.

1991 - O Dono do Mundo Começa

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 20/5/1991
Autora: Eva Spitz
NOVA CANDIDATA A MANIA NACIONAL
Estréia hoje a novela 'O dono do mundo', de Gilberto Braga

Quando O dono do mundo, a esperada novela de Gilberto Braga, entrar no ar hoje, às 20h30, mais uma vez a TV Globo estará apostando numa grande mania nacional, com trama, diálogos, música, imagens e elenco de primeira linha. A exemplo do seriado Twin Peaks, a novela estréia com um capítulo de uma hora de duração. E promete requintes cinematográficos inesperados. Tanto na edição de imagem sincronizada com o diálogo quanto na embalagem visual.

Cortes e fusões de imagem e de diálogos terão um tratamento inspirado na sétima arte. Em todas as cenas gravadas em estúdio, durante os prováveis sete meses em que a novela estiver no ar, a imagem será suavizada por uma espécie de fog, combinada com a densidade das lâmpadas Foto flood colocadas em todos os pontos de luz. Um sufoco para os atores, mas que todos aturam com abnegação, diz entusiasmado o incansável Denis Carvalho, diretor responsável da novela. Faz, porém, a ressalva: "Tenho medo em falar dessas coisas como inovação, prefiro dizer que estou aprimorando a minha busca de linguagem cinematográfica em todas as novelas que faço". Essa está lhe sendo especialmente atraente porque "o texto é calcado no ator, na arte de representar. Não tem grandes ações".

"É também o grande momento de escritor de Gilberto Braga", acrescenta o tarimbado ator Stênio Garcia, 59 anos, que fará o bilionário self made man Herculano, "aquele que dá sustentação econômica aos personagens da novela", diz em tom de brincadeira. Ele será o sogro do controvertido cirurgião plástico, Felipe, o personagem principal da novela interpretado por Antônio Fagundes. Para compô-lo, Garcia leu biografias (de Lee Iacocca, Donald Trump, John Sculley) e procurou se inspirar em modelos brasileiros, que começaram colonos ou empregados e se tornaram banqueiros e empresários.

Mas tudo gira em torno das vontades e manias do pervertido ricaço Felipe, mauzinho e bonzinho de acordo com as circunstâncias, mas sujeito aos ditames do sogro, este sim o verdadeiro dono da bola na história. Felipe cisma de querer desvirginar a suburbana Márcia (Malu Ma-der) antes do seu casamento. Ao longo da novela, surgirão vários outros personagens que buscam um lugarzinho ao sol na malandragem brasileira. Um dos mais curiosos é Olga, papel que Fernanda Montenegro já tira completamente de letra. Ela interpreta, como define a própria atriz, "uma franca-atiradora da sociedade em que vive, com uma visão bem pragmática".

Fernanda Montenegro, Jacqueline Laurence e Maria Padilha formam o time das peruas que gravitam em torno dos socialities. Serão sete meses de rolinhos na cabeça pelos corredores da Globo entre um estúdio e outro.

Os principais condutores da "mensagem" da novela serão Beija Flor (Ângelo Antônio, o peão Alcides de Pantanal) e Tais (Letícia Sabatella). Ela é dublê de bilheteira de cinema e prostituta. Beija-Flor é um surfista ferroviário, o bom caráter da história. Eles vão formar um casal que deverá levar para o público as melhores intenções de Gilberto Braga. Tentarão passar a idéia de "como não ser marginal num país onde o salário mínimo é de US$ 50", informa Denis Carvalho.

Até os últimos momentos antes de entrar no ar o capítulo de estréia, Denis Carvalho estará terminando de editar a abertura "chiquérrima" que o departamento de videographics preparou: a cena em que Carlitos (Charlie Chaplin) joga o mundo para o alto, do filme O grande ditador. A música da abertura é de Tom Jobim, cantando o foxtrote Querida.

Por falar em som, o repertório musical da novela deve igualmente arrasar. A começar pela gravação que Luís Melodia fez da música de Cazuza, Codinome Beija-Flor, tema que vai pontuar a trajetória do melhor caráter da trama, o Beija-Flor. Caetano Veloso gravou especialmente para a novela Cidade maravilhosa, Gal Costa canta Solidão de Sandra de Sá, tema da personagem de Malu Mader, e até o inatingível João Gilberto, que nunca permitiu música sua em novela, concordou em participar do tema do personagem de Antônio Fagundes, com a gravação de Una mujer, música de último LP.

1991 - Resumo da Primeira Semana de O Dono do Mundo

O Globo
Data de Publicação: 19/5/1991

PRIMEIROS CAPÍTULOS

2ª - Felipe faz charme para uma cliente. Júlio mostra a ele o programa de computador que Walter preparou. Na festa no MAM, Beatriz pergunta a Felipe por que ele não nunca mais a procurou. Felipe se prepara para dar uma palestra no Canadá. Márcia visita Walter na clínica e esbarra em Felipe. Este resolve ir ao casamento de Walter e Márcia e aposta com Júlio que a terá antes do noivo. Depois, ele oferece ao casal uma lua-de-mel onde escolherem. Ingênua, Márcia aceita a sugestão de ir ao Canadá. Stella chega à festa.

3ª - Quando Felipe explica que se entusiasmou com o casal, Stella se oferece para ajudar os dois na compra de roupas de inverno. Beatriz comenta com Olga que não consegue esquecer Felipe. Taís mente a Beija-Flor que dormirá na casa de Silene e vai trabalhar numa boate. Walter e Márcia se preparam para ir para o hotel, mas o motorista de Felipe finge que o carro quebrou. Felipe esconde o passaporte de Stella. No Canadá, ele se despede de Walter e Márcia, que vão para um chalé, Ao chegar, eles se espantam ao vê-lo lá.

4ª - Felipe diz que foi rever um cirurgião amigo seu que também é hóspede do local. Ele está no chalé de Walter e Márcia quando Júlio liga e avisa que tem problemas com um programa de computador. Felipe faz com que Walter ouça e este se oferece para ir a Quebec. Felipe aceita e, depois, comenta com Júlio que Walter nunca vai desconfiar que eles deram a senha errada. Felipe pede a Constância para retardar a viagem de Stella. Xará insinua a Beija-Flor que Taís é prostituta. Márcia estranha quando Felipe chega ao chalé.

5ª - Depois que Felipe diz que foi só pegar sua maleta, ele e Márcia acabam discutindo. Ela chora e Felipe se oferece para lhe fazer companhia, afirmando que também se sente sozinho. Júlio informa a Felipe que Walter deve passar mais uma noite em Quebec e ele lhe conta que acha que Márcia não ama o marido. Karen acusa Beija-Flor de ter roubado o terno de Júlio durante a festa. Taís comenta com Gilda que Beija-Flor deve ter feito isto para poder se apresentar bem numa entrevista de um emprego. Felipe e Márcia jantam juntos.

6ª - Darci se desespera ao ver que Beija-Flor teve seu terno rasgado numa briga. Furiosa, Karen avisa que, se Taís e Beija-Flor não lhe pagarem o prejuízo, vai dar queixa à polícia. Taís garante a Beija-Flor que arrumará o dinheiro. Felipe diz a Márcia que se apaixonou por ela. Márcia pede que ele a deixe sozinha, pois está confusa. Beija-Flor descobre onde é a boate que Xará mencionara e vê Taís saindo com um homem. Márcia liga para Walter e nota que ele está absorto com o trabalho. Ela procura Felipe e os dois se amam.

7º - Taís jura a Beija-Flor que seria a primeira vez que sairia com outro, mas ele não acredita. Felipe diz a Márcia que não imaginava que ela fosse virgem. Tabajara dá um cheque a Darci e Nanci para cobrir o prejuízo com o terno. Taís é demitida do emprego de bilheteira, Júlio avisa Felipe de que não poderá reter Walter por muito tempo e ele confessa que não quer ser mau caráter com Márcia. Júlio afirma que ele está apaixonado. Felipe admite e pede mais uma noite com Márcia. Esta sugere que eles contem tudo para Walter.

1991 - Tudo sobre O Dono do Mundo

O Globo
Data de Publicação: 19/5/1991

UMA HISTÓRIA DE SEDUÇÃO, AMOR E ÓDIO



Do confronto entre um homem egoísta e narcisista e uma jovem pura e ingênua nasce a trama da novela de Gilberto Braga que estréia amanhã, na Rede Globo, as 20h30m

Ao sair da creche em que trabalha, em Madureira, para encontrar o noivo Walter (Tadeu Aguiar) na clínica do famoso cirurgião Felipe (Antônio Fagundes), Márcia (Malu Mader) não imagina as profundas transformações que acontecerão em sua vida. Felipe a conhece por acaso e, fascinado com a beleza da jovem, que é virgem, vai ao seu casamento e, na porta da igreja, aposta com um amigo que conseguirá seduzi-la antes do marido. Do tipo que se considera acima do bem e do mal e acha que tudo lhe é permitido e devido, ele fará de tudo para alcançar seu objetivo. Afinal, ele é "o dono do mundo".

Assim começa a trama de Gilberto Braga, escrita com a colaboração de Leonor Bassères e Ângela Carneiro e dirigida por Denis; Carvalho, Ricardo Waddington e Mauro Mendonça Filho. O que está em discussão na novela? Gilberto diz:

- Se a classe dominante, no Brasil de hoje, tem ou não algum tipo de preocupação com o povo. Há quem acredite que o homem, em sua essência, é bom. No entanto, existem os que acreditam exatamente no oposto, ou seja, que própria história é feita pelos devoram, de um lado, e pelos que só podem se deixar devorar, do outro. Felipe pertence a esse grupo e, motivado por essas convicções, vai interferir de forma desastrosa na vida Márcia, um desses seres que poderiam ter inspirado essa crença na bondade essencial do homem. Mas não vai faltar amor também. O de Márcia e Felipe - estou convicto de que, apesar de ser um grande canalha, ele tem por ela uma paixão raciniana, que bloqueia - o de Stella (Glória Pires) pelo cirurgião, seu marido, o de Rodolfo (Kadu Moliterno) por Stella... E uma novela muito romântica.

Apesar de ter vasta experiência como autor de novelas, em "O dono do mundo" Gilberto Braga enfrenta dois desafios: ter um personagem masculino como protagonista e escrever sobre um universo que pouco conhece, o subúrbio de Madureira, onde se passa grani parte da ação:

- Márcia e Felipe são protagonistas da história. O desafio para mim é que estou acostumado a ter duas mulheres conduzindo a história, como Yolanda (Joana Fomm) e Júlia (Sônia Braga) em "Dancin'Days", Teresa (Glória Menezes) e Eloá (Débora Duarte) em "Corpo a corpo", Raquel (Regina Duarte) e Maria de Fátima (Glória Pires) em "Vale tudo". Dessa vez tenho uma história de amor e ódio entre Márcia e Felipe, a grande discussão entre o bem e o mal. Vamos ver se eu consigo. Mas claro que eu procuro fazer histórias paralelas muito interessantes também. E as personagens da Glória Pires e do Kadu Moliterno formam de certa maneira um quarteto de protagonistas.

Sobre o subúrbio, ele comenta:

- É outra audácia minha tentar escrever a turma de Madureira. O subúrbio está um pouco distante da minha vivência, mas até agora acho que estou conseguindo. Só fico um pouco triste em relação ao personagem do marginal, que é o Ladislau. Isso eu realmente não vou saber fazer com a força que o Aguinaldo Silva saberia. No que ele saiu da novela, porque vai escrever a próxima do horário, esse papel ficou com menos possibilidades. O que é uma grande pena, porque o Tuca Andrade é um ator fabuloso. Mas, realmente, protagonista homem, Madureira e marginal era eu querer muito. A gente escreve depressa demais, tem que se segurar um pouco no mundo que conhece melhor, donde certas repetições. Se perguntarem "mas tem cirurgião plástico, paisagista e jornalista de novo?", só posso responder: "Infelizmente, o escritor é o mesmo."

Antônio Fagundes, que, desde a estréia, em 73, já participou de 11 novelas, quatro delas escritas por Gilberto Braga - ''Dancin'Days", "Louco amor" "Corpo a corpo" e "Vale tudo" -, também enfrenta um desafio em "O dono do mundo": viver seu primeiro papel de vilão no gênero, o que valeu o seguinte comentário de Beatriz Segall: "Tenho certeza de que ele será a nova versão da Odete Roittman, já que o Gilberto sabe criar e conduzir muito bem uma história."

Mas Felipe lembra em parte o Alexandre Torres que o ator viveu na minissérie "Avenida Paulista", um bancário que, para chegar a alto executivo do grupo para o qual trabalhava, abandonava a mulher de sua vida para se casar com a herdeira da fortuna da família Scorza. Afinal, foi apenas por interesse na fortuna de Herculano (Stênio Garcia), pai da personagem de Glória Pires - com quem Fagundes contracena pela terceira vez - que o cirurgião plástico se casou com ela.

Já Malu Mader, que pela terceira vez integra o elenco de uma obra de Gilberto Braga, após "Corpo a corpo" e a minissérie "Anos dourados", já fez seis novelas, desde a estréia na TV, em 83. A atriz aparecerá vestida de noiva no primeiro capítulo de "O dono do mundo" e lembra que já viveu essa situação duas vezes anteriormente:

- Em "O Outro'', foi apenas um sonho. Mas em "Fera radical" a cerimonia aconteceu mesmo na trama. Por coincidência, esse casamento e o de "O dono do mundo" estão vinculados a tragédias: em ''Fera...'' minha personagem, vestida de noiva, matava a de Yara Amaral e agora, o noivo da Márcia morre na lua-de-mel.

Glória Pires, por sua vez, após ter vivido a vilã Maria de Fátima de "Vale tudo", enteada do personagem de Antônio Fagundes, agora se vê numa situação inversa. Gilberto Braga comenta:

- Eu adoro a Stella, é o tipo de mulher que eu admiro na vida real, a não ser pelo fato de ela ser iludida pelo Felipe. E de certa forma é engraçado, porque o Felipe tem a ver com a Maria de Fátima e a Stella tem a ver com o Afonso Roittman (Cássio Gabus Mendes), que a Maria de Fátima enganava. Várias vezes eu já escrevi uma cena em que pensei: "A Glorinha, dessa vez, está do outro lado da cama..." Vamos ver até que capítulo dura essa ingenuidade. Não gosto de deixar as coisas muito para depois com medo de a novela ficar morna.

Desde quê estreou em televisão, na novela "A pequena órfã", Glória já esteve em 13 novelas, sendo quatro de Gilberto Braga - "Dancin'Days", "Água viva", "Louco amor" e "Vale tudo". A atriz conta que em quase todas se vestiu de noiva e que "O dono do mundo" é a primeira em que ela vai começar a história já estando casada.

Completando o "quarteto de protagonistas", como define o autor, Kadu Moliterno está feliz por voltar às novelas, gênero do qual estava afastado desde 1985, quando integrou o elenco de "Partido alto", a 13 de sua carreira. Junto com Glória Pires - a Stella, por quem o seu Rodolfo será apaixonado - ele trabalhou em "Cabocla", "Água viva", "As três Marias" e "Partido alto".

"Mas nossos personagens nunca tiveram um envolvimento amoroso", lembra o ator.

Ao lado dos atores já citados, há ainda grandes nomes, como os dos veteranos Fernanda Montenegro, Nathália Timberg e Cláudio Corrêa e Castro, e quase estreantes, como Ângelo Antônio, que estreou em "Pantanal", e Letícia Sabatella, que apareceu pela primeira na TV recentemente, no especial 'Os homens querem paz". E Gilberto Braga está confiante:

- Quando o ator é bom, como são todos os do elenco de "O dono do mundo", tudo é bom. Claro que dá mais segurança escrever para o Glorinha, o Fagundes, a Malu, a Fernanda, a Natália, o Cláudio etc. Mas é fascinante também escrever para o Ângelo, para a Letícia... Afinal, um dos meus maiores baratos sempre foi escrever para iniciantes. Posso citar muitos, como a própria Malu, Lucélia Santos, Glória Pires, Lauro Corona, Yara Amaral e Beatriz Segall - ambas estrearam em novela comigo - Fernanda Torres, Felipe Camargo... Não tenho medo algum do ator ovo. Tenho medo, muito, do mau ator. Ainda mais em novela, porque é vendo o artista em cena que a gente vai dando jeito de criar história.

Apesar dessa segurança em relação ao elenco e da experiência como bem sucedido autor do gênero, o autor confessa que se apavora às vésperas da estréia e se sente péssimo ao ouvir a tradicional chamada: "Vem aí mais uma no vela de Gilberto Braga."

- Odeio, suo frio, tenho dor nos músculos do pescoço, fico morrendo de vontade de voltar a ser professor na Aliança Francesa, profissão que não me deixava tão inseguro. É a pior fase do trabalho. A melhor? Sem dúvida quando acaba e agradou. Deixa eu bater na madeira....

QUEM É QUEM

OS RICOS:

- Felipe (Antônio Fagundes) Atraente e conquistador. é um dos grandes cirurgiões plásticos do Brasil. Através de seu casamento com Stella, filha de um poderoso industrial, conseguiu abrir uma clínica com seu nome. Nascido em uma família rica, viu seus pais perderem seu patrimônio. Influenciado pelo temperamento da mãe, acostumou-se a cultuar os valores materiais da vida. Aluno brilhante e trabalhador esforçado, acostumou-se desde cedo a dividir o mundo entre vencedores e perdedores, lutando com unhas e dentes para conquistar seu espaço entre os primeiros.

- Stella (Glória Pires) - Esposa de Felipe, refinada, sua mãe morreu quando era ainda muito jovem e a irmã, que ajudou a criar, uma criança. Estudou na Suíça e aproveitou ao máximo sua educação, o que a transformou na mulher ideal para a ascensão profissional do marido. Não tem a menor desconfiança das infidelidades dele. Sua única frustração é a de não ter sido mãe, já que o cirurgião não quer ter filhos.

- Herculano (Stênio Garcia) - Muito rude, nasceu pobre numa fazenda nos arredores de Ribeirão Preto e se tornou dono de um grupo, cuja principal empresa é uma indústria alimentícia comprada dos pais de Felipe. Tem duas filhas: Stella, a mais velha, e Yara, sua preferida.

- Yara (Daniela Perez) - Tem 19 anos e, inicialmente, mora com o pai no interior de São Paulo. Meiga e sensual, tem ótimas relações com a irmã e uma leve atração pelo cunhado, mas bloqueia este impulso.

- Altair (Paulo Goulart) - Pai de Felipe, casado com Constância, por quem sempre foi totalmente dominado. Nasceu rico, mas perdeu quase tudo. A perda de seu cargo público em São Paulo faz com que venha morar no Rio, onde tem a esperança de conseguir um emprego semelhante. Apaixonando por golfe, notável gourmet e cozinheiro, também é discretamente mulherengo.

- Constância (Nathália Timberg) - Mãe de Felipe. Nasceu muito rica, mas sua família, da chamada aristocracia rural de São Paulo, perdeu todo o dinheiro a partir do final da década de 20, com a crise do café. Extremamente dominadora, arrogante e arraigada a convenções.

- Júlio (Daniel Dantas) - administrador da clínica de cirurgia plástica e uma espécie de assessor para todos os assuntos de seu melhor amigo, Felipe, que lhe inspira, ao mesmo tempo, grande admiração e um certo medo. Casado com Karen, tem um filho de 11 anos, Marcelo.

- Karen (Maria Padilha) - Muito ambiciosa, está sempre reclamando que o marido não tem o nível de vida que merece. Bajuladora e subserviente com os ricos, é uma falsa amiga de Stella e dona de uma galeria de arte, ponto de encontro dos endinheirados.

- Marcelo (Leandro Figueiredo) - Filho de Júlio e Karen, inferniza a vida do primo Paulinho.

- Rodolfo (Kadu Moliterno) - Jornalista rico e sedutor, era louco pela esposa, que morreu precocemente na queda de um pequeno avião pilotado por ele. Jurou nunca mais se envolver com mulher alguma. Seu filho Paulo é criado pelo tio, Júlio. Na verdade, este e Karen criam o menino para tirar partido da situação, já que Rodolfo contribui para o sustento da família do cunhado com uma polpuda pensão. Inicialmente ele mora nos Estados Unidos e tem uma relação difícil com o filho, que se sente rejeitado.

- Paulinho (Jonathan Nogueira) - Muito simpático, terá uma bela relação de companheirismo com o pai.

- Zoraide (Jacqueline Laurence) - Sócia de Karen na galeria de arte. Espirituosa e um pouco cínica, ao contrário de Karen, Zoraide deverá conquistar a simpatia do espectador. Nascida na França, é a melhor amiga de Olga, sua confidente. Com freqüência toma pileques memoráveis, mas não é uma alcoólatra.

- Olga (Fernanda Montenegro) - Uma mulher de charme magnético, extremamente elegante, capaz de seduzir com sua verve praticamente qualquer pessoa que dela se aproxime. Sua grande rival na história é Constância. Esta implicância tem alguma razão de ser, porque Olga, apesar de simpática e envolvente, é uma pessoa completamente amoral. Generosa com os menos favorecidos pela fortuna, ela vive há muitos anos uma vida de grande luxo, sem ser rica. Mora numa cobertura alugada, viaja muito, é badalada, mundana. Aparentemente Olga vive da profissão de marchand, mas, por ser amiga íntima de pelos menos um ministro por Governo, consegue há muitos anos trazer contrabando do Exterior sem ser revistada em aeroportos. Casamenteira, quando promove namoros está sempre tentando arrumar companhia para um homem eventualmente sem charme e proporcionar as boas coisas da vida a mocinhas pobres.

- William (Antônio Calloni) - Tímido, introspectivo, herdeiro de uma imensa fortuna. Seu grande sonho é se casar com uma mulher desinteressada de seus bens. Acha a maior parte das brasileiras muito ligadas em dinheiro e com temperamento forte demais. William confessa a Olga que só pão deixaria o Brasil caso acontecesse o milagre de uma moça atraente se apaixonar por ele sem interesse por sua fortuna. Naturalmente, Olga sai em campo para concretizar este milagre.

- Arlindo (Otávio Muller) - Jovem médico, muito tímido, bom profissional, ambicioso. Trabalha na clínica de Felipe. Vai ser traído pelo cirurgião e passar um tempo no estrangeiro. Quando voltar, encontrará um novo Felipe.

OS POBRES:

- Márcia (Malu Mader) - Inicialmente não tem muita consciência de que exerce um grande fascínio sobre os homens. Como seus pais morreram num desastre de carro quando ela era muito nova, foi criada pela tia e madrinha, Nanci. Ao contrário da maior arte das moças de sua idade, ainda é virgem e nunca pensou muito em sexo. Está de casamento marcado com um rapaz exemplar, Walter, que namora há uns três anos. A única pessoa em seu círculo de amizades que não vê neste casamento um caminho para a felicidade é Taís. No trabalho em uma creche em Jacarepaguá, Márcia é a alegria das crianças, a quem dá muito carinho, divertindo-se com como se fosse uma delas. Uma atração irresistível de Felipe pela jovem e o total desrespeito dele pelo "comum dos mortais" vão provocar o nascimento de uma outra Márcia.

- Nanci (Ana Rosa) - Típica carioca de subúrbio, viúva simpática que se dedicou totalmente a criar a sobrinha e os dois filhos Umberto e Beija-Flor. Vai se envolver muito os dramas de Márcia e de Beija-Flor.

- Umberto (Marcelo Serrado) - Filho de Nanci. Bom rapaz, apaixonado por música, dá aulas de piano em casa. Por não conseguir se sustentar, vai ser garçom.

- Darei (Antônio Grassi) - Irmão de Nanci. Garçom profissional sem grandes ambições.

- Beija-Flor (Ângelo Antônio) - O outro filho de Nanci. Ambicioso, sonha com uma vida melhor, mas é preguiçoso. Pratica o perigosíssimo surfe ferroviário e é freqüentemente tentado pelo mundo da marginalidade, especialmente quando um amigo, Ladislau, faz carreira vertiginosa no mundo do crime.

- Taís (Letícia Sabatella) - Melhor amiga de Márcia, não consegue se fixar em emprego algum. O pai sempre fez vista grossa para os seus defeitos e eventuais falhas de caráter e a mãe é uma mulher passiva. O resultado é que Tais começa uma carreira de garota de programa. Mas terá uma grande paixão por Beija-Flor e, juntos' eles vão tentar rejeitar suas inclinações negativas.

- Vicente (Cláudio Corrêa e Castro) - Pai de Taís e Gilda. Chofer de táxi cheio de problemas financeiros, dirige carro de frota e ganha bem pouco. Tem tendência a fantasiar a realidade, dizendo sempre que está tudo bem ou vai melhorar amanhã.

- Almerinda (Beatriz Lyra) - Mulher de Vicente, adora o marido e as filhas.

- Gilda (Betty Gofman) - Irmã de Taís, boa moça, simpática, sem as pretensões de ascensão social da irmã. Secretária de Júlio na clínica de cirurgia plástica.

- Walter (Tadeu Aguiar) - Noivo de Márcia. Extremamente antiquado, convenceu a noiva a permanecer virgem até a noite de núpcias. Na verdade, é muito inseguro e acha que só se casando com uma virgem pode ter a garantia de que jamais será traído. Formado em informática, trabalha na clínica de Felipe.

- Tabajara (Jece Valadão) - Pai de Walter e Xará, recepcionista graduado numa importante revendedora autorizada de automóveis.

- Alfredo/Xará (Jorge Pontual) - Não pára em emprego e, como Beija-Flor, vive tentado pelo mundo da marginalidade.

- Ladislau/Russo (Tuca Andrade) - Inicialmente ladrão de carros, tenta atrair Beija-Flor e Xará para o seu grupo.

- Celeste (Cristina Galvão) - Irmã de Ladislau.

- Os outros personagens:

- Ester (Odete Lara) - Viúva, dona de uma chácara de plantas em Vargem Grande, mora com o irmão Lucas. Precisa fazer uma leve cirurgia plástica e, por estar preocupado com problemas pessoais, Felipe é descuidado nos exames pré-operatórios e quase a leva à morte.

- Lucas (Hugo Carvana) - Marceneiro, se dá muito bem com a irmã e não precisa de muito para ser feliz.

E mais: Liliane (Alexia Dechamps), Germano (Rodrigo Mendonça), Suzana (Cristina Montenegro), Waldir (Aloísio Abreu), Lauro (Paulo Rezende), Ismael (Jairo Lourenço), Maria Elisa (Ana Rosa Aboim), Jacirã (Cristina Ribeiro), Joel (Bileco), Jurema (Fernanda Young), Judite (Yaçanã Marfim), Beatriz (Mara Carvalho), Irene (Maria Helena Pader), Araci (Betty Erthal) e Mariana (Betina Vianny).

1991 - Jece Valadão em O Dono do Mundo

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 18/5/1991
Autor: Paulo Gramado
O MACHÃO AGORA TEM BOM CARÁTER
Jece Valadão em 'O dono do mundo'

Jece Valadão virou bonzinho em sua volta à TV, após um afastamento de sete anos. Agora, integrando o elenco da próxima novela das 20h30m, "O dono do mundo", ele faz o papel do "bom homem" Tabajara - o que contraria a regra de sempre interpretar personagens sem nenhum caráter. O fato de fazer constantemente papéis de vilão acabou lhe rendendo títulos como cafajeste e machão.

- Desta vez faço um personagem bonzinho. Estava com muitas saudades da televisão. Este esquema de gravação, ensaios e externas me atrai bastante - conta Jece.

Em "O dono do mundo", Jece Valadão é o pai de Valter (Tadeu Aguiar), um respeitável profissional da área de informática que está de casamento marcado com Márcia (Malu Mader). O ator conta que Tabajara tem o maior orgulho do filho, louvando o fato de este ter conseguido encontrar uma mulher virgem para se casar. Mal sabe ele que o rapaz será traído pela mulher em plena lua de mel. Apesar de contente com o retorno à televisão, Jece se diz muito chateado com a morte prematura do personagem, que vai ser assassinado no 30. capítulo da história:

- Tabajara foi prejudicado com as mudanças promovidas pela direção da novela. O personagem perdeu toda a razão de existir, porque seu elemento de conflito, uma namorada negra, foi tirado da novela antes mesmo seu início. Acredito que o Gilberto Braga tem talento suficiente e vai saber contornar esta situação, que tirou a força do personagem.

A última participação do ator em novelas foi em "Transas e caretas", de Cassiano Gabus Mendes, em 1984, na qual fez o papel de Marcos. Durante o período em que ficou afastado da TV, além de algumas peças teatrais, Jece Valadão dedicou-se fervorosamente ao projeto "Ticket cultural", lançado há quatro anos em São Paulo. Criado em cima da Lei Sarney, o projeto era operado da seguinte forma: empresários compravam os tíquetes a preços baixos, ganhavam com incentivos fiscais e os repassavam, a preços acessíveis, para os funcionários:

- Era igual ao tíquete alimentação. Só que, ao invés de alimentar o estômago, alimentava o espírito. Com o Plano Collor e o fim da Lei Sarney, o projeto foi inviabilizado e está muito devagar.

1991 - Os irmãos Mendonça em O Dono do Mundo

O Globo
Data de Publicação: 15/5/1991
Autor/Repórter: Paulo Gramado
ESTÚDIO DOCE ESTÚDIO
Novela reúne irmãos Mendonça no 'set'

O set de gravações da novela "O dono do mundo", próxima atração da TV Globo para o horário das 20h30m, reúne o talento de dois irmãos. Por trás das câmaras, Mauro Mendonça Filho trabalha como terceiro diretor. Do outro lado, Rodrigo Mendonça faz sua estréia oficial como ator de televisão. Filhos de Mauro Mendonça e Rosamaria Murtinho, eles afirmam que estão achando ótimo trabalhar juntos. Rodrigo diz que o entrosamento é perfeito e compara o dia-a-dia dos dois no estúdio a uma partida de futebol:

- É como uma tabelinha perfeita entre dois jogadores. Ele me passa a bola e eu completo o lance. O melhor é que parece estarmos em casa.

Apesar das constantes brincadeiras entre eles, ambos ressaltam que a questão profissional está acima de tudo. Na hora da gravação, a seriedade é que entra em cena, e

Mauro e Rodrigo cumprem suas funções com o máximo de dedicação.

- A direção é o trabalho de um amigo com os atores. Com um irmão ator então, é ótimo. A afinidade facilita a comunicação. Sou muito amigo do Rodrigo. Por isso, fica mais fácil lidar com ele como ator e, conseqüentemente, o trabalho funciona melhor - observa Mauro, que começou como assistente de direção na novela -"Vale tudo".

Em "O dono do mundo", Rodrigo interpreta Germano, um amigo de Guilherme, o Beija-Flor - vivido pelo ator Ângelo Antônio. Segundo Rodrigo, seu personagem ganhará mais desenvoltura a partir do quinto capítulo. Ele ainda não sabe se Germano vai ter uma trajetória marcante na trama, mas torce para que isto aconteça.

- Se depender de mim, estou preparado para tudo. Sinto-me em condições de desempenhar qualquer situação na novela - garante.

Rodrigo iniciou sua carreira de ator aos 10 anos, em comerciais para a televisão. Em 1983, aos 20 anos, cursou teatro no Tablado e participou da montagem da peça "O embarque de Noé". Depois, integrou os elencos de "Ubu Rei", dirigido por Luiz Antônio Martinez, e "Idéias e repetições", de Bia Lessa.

Sempre buscando se aperfeiçoar, fez o curso de teatro da Casa de Artes Laranjeiras (CAL) em 1986. Avisado pelo irmão Mauro dos testes para "O dono do mundo", em fevereiro, Rodrigo foi logo se inscrever. O diretor Dênis Carvalho e o autor Gilberto Braga gostaram de seu trabalho e ele foi aprovado.

- Foi o Maurinho quem me deu a notícia de que eu tinha passado. Ele tem muita experiência em TV e me dá ótimas dicas - finaliza Rodrigo.

1991 - Malu Mader em O Dono do Mundo

O Globo
Data de Publicação: 14/5/1991
Autor: Paulo Gramado
A INGÊNUA NAS MÃOS DE UM VILÃO
Malu Mader em 'O dono do mundo'

Ela foi especialmente escolhida pelo autor Gilberto Braga para "O dono do mundo", próxima novela das 20h30m, junto com Antônio Fagundes e Glória Pires. Vivendo um relacionamento conflitante — coisa comum em seus últimos trabalhos — Malu Mader interpreta Márcia, uma menina que está de casamento marcado com Valter (Tadeu Aguiar). Porém, o vilão da novela, Felipe (Fagundes), fica seduzido por ela e, durante a cerimônia, aposta com um amigo que vai conquistá-la a qualquer custo. E Márcia se deixa levar pela conversa de Felipe.

— A Márcia é uma personagem atípica, ingênua demais, que acredita piamente nas pessoas. Uma menina comum, que mora no subúrbio e que se deixa envolver amorosamente por Felipe. Não quero dar maiores detalhes sobre o personagem para não prejudicar o desenrolar da trama — diz Malu.

A atriz costuma causar furor entre os fãs durante as gravações externas. Na última sexta-feira, por exemplo, nas gravações realizadas em São Cristóvão, uma multidão se aglomerava para ver Malu de perto. Irritado, o diretor Dênis Carvalho avisou que não ia continuar as filmagens se as pessoas continuassem muito próximas da atriz. Assim, os fãs resolveram colaborar e o trabalho prosseguiu sem maiores problemas.

A cena, que vai ao ar no capítulo 12, mostra Márcia tomando um ônibus para ir se encontrar com Felipe em um barzinho. Durante as filmagens, um fato chamou especial atenção de Malu: os figurantes escalados para contracenar com ela, um padre ladeado por duas crianças.

— Esta figuração está muito engraçada — divertia-se a atriz.

Esta é a oitava novela de Malu Mader, que estreou na TV em "Eu prometo", de Janete Clair, em 1983. Ela chegou à TV Globo pelas mãos de Dênis Carvalho, que havia assistido e gostado de sua atuação no espetáculo "Os doze trabalhos de Hércules", no Teatro Tablado. Depois se seguiram outras novelas, como "O outro", "Corpo a corpo", "Ti-ti-ti", "Fera radical" e "Top model", além de "A intrusa".

— No período inicial, tive consciência de que, para ser famosa, precisava fazer novelas. Pensei nisso e me preparei. Não ambicionei, mas acho que qualquer pessoa que trabalha em novelas tem que ter essa consciência. É o caminho natural — comenta.

Mas ela não se limitou só às novelas. Até hoje não esqueceu a Lurdinha da minissérie "Anos dourados", na qual contracenou com Felipe Camargo:

— Este foi um dos trabalhos que mais gostei de fazer em televisão.

A atriz destaca ainda suas participacões no cinema, em 'Rock estrela", "Feliz ano velho" e "Dedé Mamata", que chegou a ser indicado para o Festival de Veneza.

Sua estréia profissional em teatro foi em "Dores de amores", de Léo Lama, encenada no ano passado, em São Paulo, ao lado de Taumaturgo Ferreira. As crises representadas no palco refletiam sua realidade matrimonial com Taumaturgo, seu marido na época.

1991 - A Trilha Sonora de O Dono do Mundo

O Globo
Data de Publicação: 6/5/1991
Autora: Lívia de Almeida
NA TRILHA DOS 'COBRAS' DA MPB
Músicos de primeira na novela das oito

Sofisticação sem concessões: a trilha sonora de "O dono do mundo", próxima atração da TV Globo para as 20h30m, é quase uma antologia da MPB produzida nos timos tempos. Pela primeira vez estarão reunidos em um disco de músicas de novela nomes como Tom Jobim, João Gilberto, Roberto Carlos (que pela primeira vez cede faixa de seu LP), João Bosco e Marisa Monte.

- E uma trilha mais sofisticada, bem de acordo com a história e os personagens desta novela de Gilberto Braga. O autor, aliás, se interessa muito pela escolha dos temas e tem acompanhado cada detalhe - diz o Diretor Musical da Globo Mariozinho Rocha.

O escritor escolheu pessoalmente algumas faixas. Foi ele, por exemplo, quem procurou Tom Jobim, interessado na inclusão de uma música inédita na trilha sonora. O foxtrote "Querida", que fez parte do repertório do último show do compositor, no Imperator, acabou conquistando muitos fãs na emissora, como o Vice-Presidente de Operações José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. Foi ele quem sugeriu sua utilização na abertura da novela.

Gilberto Braga participou também das negociações para incluir "Una mujer", cantada por João Gilberto.

- Ele se apaixonou pela música. Sei que está até escrevendo algumas cenas pensando nela. A canção deverá estar associada ao principal personagem masculino, o cirurgião plástico Felipe, interpretado por Antônio Fagundes - revela Mariozinho. O autor conseguiu até permissão de Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, para utilizar uma letra inédita na trilha sonora de "O dono do mundo". Caetano Veloso foi convidado para gravar a versão que entrará na novela.

Entre outras composições inéditas, foram selecionados um bolero de João Bosco, "Os sábios costumam mentir", e uma versão de Gal Costa para "Solidão", de Tom Jobim. Essa música deverá ser o tema de uma das principais personagens femininas. Sua inclusão depende apenas da recuperação da cantora, que sofreu uma faringite e está, no momento, impossibilitada de gravar.

- Mas posso garantir que vamos esperar pela Gal até o último momento - afirma. O núcleo pobre de personagens da novela, moradores do bairro de Madureira, ganhou como tema "O rap da rapa", gravado por Ademir Lopes, que mistura as guitarras de Eric Clapton e do conjunto Dire Straits. O "surfista ferroviário" Beija-Flor (Angelo Antônio) ganhou como tema uma versão blues, com guitarras, de "Codinome Beija-flor", sucesso de Cazuza agora interpretado por Luís Melodia. A balada "Super-heróis", do último LP de Roberto Carlos, também entra no disco. E a primeira vez que o "Rei" autoriza a inclusão de uma faixa de seu LP como tema musical de uma novela. Alguns sucessos seus, como "Outra vez" e "E imoral, ilegal ou engorda", entraram em trilhas com outras vozes. Fecham o disco "Eu sei", com Marisa Monte, um funk de Edmond, e uma canção inédita de Orlando Moraes, autor de "Divinamente nua a lua".

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