Monday, June 23, 2014

Tereza raquel em O Rebu

 Amiga TV
Data de Publicação: 8/1/1975
Autor: Pedro Porfírio
TERESA: UMA PAIXÃO COM O REBU
Com 17 anos de carreira, ela já é até nome de teatro, mas em novelas está estreando, empolgada com seu novo trabalho

Apesar dos seus 17 anos de teatro, com todos os prêmios do Rio e São Paulo, ela é uma iniciante em novela. ''A TV é uma estréia diária e a estréia é o dia mais tenso e mais difícil na vida de um artista teatral". Teresa Raquel, redescoberta pelo cinema em Amante Muito Louca, não tinha qualquer preconceito com novela. "Apenas, nas vezes em que se cogitou da minha contratação, não se chegou a um acordo''.

No papel de Lupe, uma extravagante burguesa, Teresa Raquel não esconde seu deslumbramento pessoal com O Rebu. "O texto de Bráulio Pedroso é de alto nível e chega a ser perfeito, não apenas pelo mistério, que envolve também os atores, mas pelo diálogo, pela seqüência e pelo tempo de cada cena. Eu, que nunca tinha representado Bráulio em teatro, estou apaixonada por esta novela."

Esta paixão para Teresa é nova. Ela mesma nunca viu uma novela até o fim. "O problema é que sempre trabalhei à noite e nunca tive tempo para ligar a televisão. Além disso, há novelas e há novelas. O que se escreve hoje, pelo que sei, não tem nada a ver com o que se escrevia há uns quatro anos. A novela de hoje é uma peça projetada ao nível do grande público, sem as concessões pequenas e as apelações de antes. Isso explica não só a crescente participação de artistas que até então evitavam a TV, mas, sobretudo, de um público de excelente formação cultural, que se interessa pelo desenvolvimento de uma novela inteligente."

O deslumbramento de Teresa, principalmente pelo personagem que interpreta, pode ter mudado sua posição em relação à TV, que ela só procurava quando estava sem trabalho, mas não chega ao ponto de envolvê-la no processo de gravação da novela, em comparação com o ensaio da peça. "Eu não tinha muitas ilusões quanto ao caráter do trabalho, que não permite que aprofundemos, que possamos dar tudo de nós a um personagem. Mas não esperava que o seu ritmo fosse tão intenso, tão escravizante. Isso é uma loucura. Novela, como é feita no Brasil, é um exercício puramente brasileiro. Só um ator brasileiro, com seus recursos inesgotáveis, seu histrionismo incomparável, tem condições de realizar com êxito e com um bom saldo critico um trabalho de interpretação como o que se faz na TV.

Na televisão, o que eu sinto é que todo o peso da novela está em cima do ator. Não há condição para o diretor imprimir ao trabalho interpretativo sua própria visão. Ele fica preso a uma mesa de cortes, mais preocupado com as câmaras do que com o desempenho individual do ator. E o que se poderia chamar de um diretor eletrônico de um espetáculo. O que se poderia chamar de ensaio é apenas o período curto em que o diretor marca a novela, diz onde devemos ficar, por onde devemos entrar. Não há a menor condição de aprofundar esse relacionamento. E isso faz com que o ator procure, ele próprio, posicionar-se diante do personagem e da novela. Nesse ponto, a experiência teatral é decisiva: ninguém pode se lanças na televisão sem passar pela escola do teatro. Quem conseguiu sucesso sem fazer este estágio é porque é gênio mesmo.

Para Teresa Raquel, ''a interpretação em TV é mais à flor da pele. A novela colhe mais o flagrante, o momento. Há que se abrir mais rapidamente, entregar-se mais emocionalmente ao trabalho. Temos informações gerais sobre o personagem e a novela, mas isso é o suficiente apenas para que passemos a trabalhar intuitivamente, participando de um jogo de surpresas que transforma cada capítulo numa nova estréia. Mesmo quando uma cena é repetida, nós não nos repetimos. E essa e, a meu ver a característica básica da interpretação de uma novela - a câmara grava um trabalho de um momento e não o momento de um trabalho''.

Em sua opinião, o cinema é mais fácil na medida em que "para ca da cena há um espaço de elaboração maior, mbora condicionado ao tempo em que se prepara a luz. Além disso, sabemos de todo o filme, o que acontecerá na última cena. Nos posicionamos em relação a todo o contexto e não em relação à parte do contexto, como acontece em novela.

O que estou fazendo não é uma queixa, mesmo porque estou assimilando todo esse trabalho na televisão. O que não pretendo é dar um colorido falso a uma experiência que me ocorre agora, 17 anos depois de optar pela carreira artística. Quanto ao juízo crítico do meu próprio desempenho, acho que não tenho reparos a fazer. Desde o primeiro momento, identifiquei o meu personagem e ele passou a habitar meu interior sem qualquer resistência. Quando o interior da gente está devidamente habitado, a ação corporal, a expressão e os movimentos correm livremente, sem problemas. O que exige que estejamos permanentemente ligados à próxima cena é o caráter de estréia a que já me referi".

Teresa tem procurado assistir à novela para avaliar seu trabalho. "Este é o ponto mais positivo de uma novela. Fora o filme, que já vejo depois que não há mais a fazer, não havia como ver o meu desempenho. Agora, posso sentar numa poltrona e julgar o que fiz, embora consciente de que pouco posso fazer para mudar, considerando os meios e o tempo de que dispomos."

Ela reconhece também que a televisão populariza o artista de teatro, levando-o ao grande público. "E a relação entre o artista de TV e o público é bastante diferente da que o de teatro tem. Já estou recebendo cartas de várias partes do país, o que não ocorria quando fazia só teatro. Em geral, as pessoas se referem a filmes de que eu participei, mas não comentam peças. A carta é uma instituição típica do público de televisão.''

Teresa admite que não escondeu sua condição de principiante em novela, comportando-se como tal. Procurei saber das coisas com o Lima Duarte e o Ziembinski, que me deram muita luz no começo. Eles definiram com muita clareza como fazemos uma novela e me abriram os olhos sobre a sua natureza. O ambiente aqui é maravilhoso. As pessoas procuram espontaneamente apoiar umas às outras, conseguindo, como no teatro, passar muita coisa para a outra, apesar das condições em que gravamos. Para mim, pessoalmente, o fato de não ser a produtora, mas uma colega de trabalho, ao contrário do que acontece no teatro, tem sido um alívio.''

Teresa acha ainda cedo para pensar o que fazer depois do Rebu. "A única coisa que sei é que, enquanto estiver fazendo esta novela, não posso nem pensar em ensaiar uma peça. Primeiro porque não é aconselhável; depois porque estou gostando muito dessa loucura."

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