Monday, June 23, 2014

O Rebu - 1974


O Globo
Data de Publicação: 7/12/1974
Autor/Repórter: Artur da Távola
''O REVBU'': UM CONVITE PARA DEBATE
Não, eu não agüento mais!

Confesso que não agüento mais receber cartas, telefonemas, conversas, papos, palpites, ibopes, ibofes, pareceres, aplausos, xingamentos, tertúlias, saraus, cochichos, despachos, opiniões, análises, sugestões, manifestações, abaixo-assinados, comentários, desvarios, despautérios, ponderações, papo careca, sutis observações, teorias, reações etc. sobre "O Rebu".

Em toda a minha vida de cronista, nunca recebi tanta opinião contraditória e diferente sobre um obra. Ao mesmo tempo em que não tenho como enfrentar essa aluvião de impressões, raras vezes recebi tanto retorno inteligente sobre urna novela. Particularmente as cartas e alguns papos pessoais, a mostrar que Bráulio conseguiu atingir o ideal de tirar o telespectador de sua passividade fruidora e digestiva e jogá-lo a participar criticamente de uma obra.

Isso é um mérito, É uma sacudida no gênero. É claro que comecei o artigo brincando, só para motivar o leitor. Vibro com esse ''feed-back".

Bráulio Pedroso, o autor, deve estar satisfeito e temeroso. Temeroso porque a audiência média caiu um pouco nas últimas semanas (terá ele temor por isso?). E satisfeito porque o verdadeiro Rebu está se dando entre os telespectadores, ouriçadíssimos com sua obra.

Os argumentos são mil: é uma obra desonesta porque feita para diversão pessoal do autor, contra a lógica do prazer do telespectador que liga a Tevê para se distrair e está sendo ignorado em seus gostos e preferências; é chata; o povo, não entende o flash-back; tem pouca ação: não acontece nada; os diálogos são pretensiosos e/ou intelectuais demais: há close ups demais; ninguém presta na novela; dá sono.

As defesas, mil também, são: grande ritmo interior; atmosfera densa e diluente desfazendo ilusões pequeno-burguesas; grande estudo ambição humana; excelente análise psicológica do homem e da mulher em transes extremas de sua patologia; ótima trama policial. irritando mas agarrando as pessoas; bom tratamento televisivo; diálogos muito acima da média: alguns desempenhos de alto nível; televisão digna de qualquer país do mundo por mais culto que seja; e por aí vai.

O fato e que a estimulação de observações inteligentes como ás que recebido (sobre televisão sempre ouço mais do que falo, para aprender as pessoas com elas mesmas), falam em favor da novela,

O que está, no fundo, em questão é se o andamento tradicional das novelas em capítulos de três partes diárias, bem como sua estrutura de duração, geram um "tempo dramático" que se coaduna com o "tempo" do gênero policial suspense.

Se são compatíveis esses dois tempos, Bráulio vai conseguir muito. Se não for, vai enriquecer mais ainda sua experiência de artesão, mas sem ter sido compreendido (ou sem, compreender o público).

A outra questão se refere à ação externa, É ou não passível telenovela apenas com ritmo interior, sem acontecimentos expressos através da ação física dos personagens? É? Não é?

Em vista disso tudo quero propor uma coisa, daqui desta colunata sem jaça nem bico de papagaio: um debate sobre "O Bofe''. Sm, um debate público. Se os meninos da Globo toparem eu me ofereço para funcionar como mediador. Sairei de meus cuidados e achaques para fazê-lo com o maior prazer. Acho que seria legal para a Rede Globo.

Proponho que dele particípem. o Bráulio Pedroso, o Daniel Filho e o Homero Sanchez, além do Diretor da obra, o Jardel Mello. Se esse pessoal da emissora topar, a gente pediria emprestado o auditório aqui de "O GLOBO", convidaria o público e a imprensa.

Creio que um debate assim mostraria definitivamente a enorme importância cultural da telenovela (apesar de lhe negarem status) e contribuiria para esclarecer muita coisa. Fico no aguardo do Daniel Filho aceitar (avise-me) para pedir emprestado o auditório. Mas o Bráulio tem que vir. Sua presença é importantíssima. Não estaríamos inaugurando assim uma prática saudável e cultural?

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