Monday, June 23, 2014

José Lewgoy em O Rebu

Amiga TV
Data de Publicação: 12/2/1975
Autor: Pedro Porfírio
O DESTINO DO ATOR É SER POBRE
Popular no cinema, mas sem muitas chances em novela em seus 25 anos de carreira, José Lewgoy acha que com O Rebu chegou sua melhor oportunidade em TV

''Já falei demais e já arranjei muitos problemas. Hoje, estou mais preocupado é com O Rebu. Se quiser que eu fale do Braga, aí eu falo sem freios. Porque estou gostando muito do meu trabalho nessa novela.'' Ator de muitos prêmios, meia centena de filmes e uma experiência internacional que lhe valeu vários contratos no exterior, José Lewgoy está preocupado neste momento com o barulho de vizinhos rio Tambá, o folclórico edifício carioca entre o Leblon e São Conrado, onde mora sozinho, sem fazer dramas por isso. Ex-diretor do sindicato da classe, ele parece um homem cansado, mas nem por isso amargurado. ''Quando me perguntam se fiquei rico ao cabo de 25 anos de trabalho, inclusive na fase em que se podia viver só de cinema, eu respondo que o destino do ator brasileiro é ser pobre, mesmo porque o ator brasileiro é um eterna desempregado." No papel de Braga, em O Rebu, Lewgoy procura curtir ao máximo O que considera a sua melhor oportunidade em televisão. sabe o que quer." Ele pronuncia suas definições com um ar de jovem que joga todo o seu futuro no trabalho que faz e escamoteia com bastante categoria as frustrações que a TV já lhe proporcionou, deixando de lembrar por exemplo, que, ao ser chamado para uma novela de Glória Magadá, a última da fase lacrimejante da Globo, ela lhe perguntou se ele era ator.

Popularizado no Brasil inteiro como o bandido típico do cinema nacional, procura, desde muito tempo, libertar-se dessa figura. "Sou um ator e acredito que sou versátil." Mas não foi procurando afirmar essa versatilidade que fez papel de travesti em um filme. "Em matéria de cinema, não escolho, porque sou profissional e considero válidas todas as experiências que fiz." Caracterizando-se basicamente como um ator cinematográfico, Lewgoy só foi descoberto pela televisão para integra a equipe do primeiro grande telejornal da Excelsior. Ele tinha voltado de uma boa temporada na Europa, onde fez 6 filmes e encontrou, em 1964, uma outra realidade no Brasil. Nem por isso deixou de acompanhar a evolução da TV brasileira. "O Rebu vem inovando não só na temática, mas também na própria linguagem, o que tem deixado uma parte do público perplexa. Considero a experiência dessa novela um marco na televisão brasileira e acho que não se melhora nada sem se correr risco. A perplexidade se deve apenas ao fato de que o público não estava habituado a esse tipo de narrativa." Independente disso, ele acha que o seu papel tem lhe permitido fazer um bom trabalho. "Não é fácil. A linha do papel é propositadamente discreta. Eu estou tentando fugir dos vícios da TV, vícios determinados pela própria técnica de gravação em três câmaras com ação simultânea. Em termos pessoais, tudo isso compensa: Braga 9 o meu grande sucesso na televisão." Lewgoy insiste em fixar-se neste tipo de preocupação - como fazer melhor seu trabalho. Ele não quer comentar, agora, o que disse em outras épocas sob outras circunstâncias. Aos 54 anos, com um curso superior de Economia e dois anos de estudos na Escola Dramática de Yale, nos Estados Unidos, não parece um homem feliz. Mas também não parece infeliz. Falando pausadamente, não esconde que hoje é calculista, seco e impaciente e não lamenta a solidão. "Ela está em mim por uma opção pessoal e não por acidente. Isso não quer dizer que seja um homem sem amigos." Talvez seja por isso, por seu pragmatismo, que escolhe palavra por palavra ao explicar, mais uma vez, sua posição de coadjuvante numa televisão que teria muito o que aprender com ele. "A TV tem urna grande disponibilidade de atores e a escolha do elenco está sujeita às injunções mais diversas. Talvez, por isso, tenha demorado a grande oportunidade de que precisava. Ou talvez também eu tenha entrado numa faixa de idade em que há menores oportunidades." Mas quando fala de sua própria personalidade, seus olhos brilham e sua calma desaparece: "Criou-se uma espécie de lenda em torno de mim, como se eu fosse um ator difícil e temperamental. Isso não tem nada a ver. Sou apenas um ator profissional sem paciência." Em compensação, ele não se queixa dos percalços numa carreira que, por brilhante, deveria lhe valer uma melhor posição financeira ou, pelo menos, a realização do seu sonho de comprar uma fazendinha no Rio Grande do Sul. "Sou de uma época em que os orçamentos eram baixos e se ganhava relativamente pouco, mesmo que tivesse um grande papel."

Embora tenha encontrado na TV uma boa oportunidade, Lewgoy ainda tem muito o que fazer no cinema. "Esta me parece um ano de boas perspectivas para o cinema brasileiro. A orientação da Embrafilmes leva a esperar que será mantido um bom nível de produção. O filme brasileiro ganhou definitivamente o seu público. Produções como A Estrela Sobe e O Marginal indicam, pelo sucesso que fizeram, um aprimoramento do gosto do espectador brasileiro." Na pauta de Lewgoy, o teatro não entra, pelo menos agora. Mas Isso não representa um preconceito contra o palco. É que a preocupação pela novela e sua paixão natural pelo cinema estão pesando mais. ''Braga - insiste - eu tenho sob controle. É aquele sujeito para quem os fins justificam os meios. Braga tem um propósito e está diante de um jogo: já não é o dinheiro que lhe interessa, mas ganhar o jogo." Assim também, Lewgoy, um dos mais respeitados valores do cinema brasileiro, parece também empenhar-se num outro tipo de jogo que não define, porque talvez não tenha consciência dele em toda a sua profundidade. Mas é um jogo que ele, em compensação, está procurando travar com dignidade - o jogo da sobrevivência de um ator.

No comments:

Post a Comment

Followers