Tuesday, March 18, 2014

1978 - A televisão soviética

 Jornal do Brasil
Data de Publicação: 15/7/1978
Autora: Ellen Propprt Mickiewiez
TV NA URSS

Lá, como cá, a mesma revolução nos hábitos e costumes

Quem conhece as conclusões de Nielsen e Roper sobre os hábitos americanos de ver televisão certamente reconhecerá. as seguintes constatações:

- As donas-de-casa estão entre os maiores consumidores de programas de televisão.

- Homens e mulheres de mais de 55 ou 60 anos vêem muito mais televisão do que as pessoas abaixo dessas idades.

- Os pobres passam muito mais horas diante do aparelho do que' as classes média e rica.

- As pessoas que têm pouca educação escolar se enquadram com muito mais frequência na categoria de viciado em. TV do que as mais educadas.

- As pessoas com grau universitário tendem a ser mais criticas em relação aos programas que vêem na televisão e por conseguinte se satisfazem menos com a programação diária.

- As pessoas buscam na televisão sobretudo diversão.

O que surpreende, no entanto, é que essas constatações se aplicam não só à sociedade americana, mas também, e às vezes com muito mais força, a sociedade soviética. Na verdade, estas são as conclusões de uma série de pesquisas cientificas que os próprios russos fizeram, e que só recentemente chegaram ao conhecimento dos estudiosos ocidentais. Só na década passada, no reinado de Leonid Brejniev, é que se encorajou e apoiou essa renovação da pesquisa de opinião.

As estreitas semelhanças nos hábitos de ver televisão são extraordinárias porque, à primeira vista, o meio - e a mensagem - diferem bastante nas duas sociedades. Uma diferença básica é o resultado do tardio reconhecimento pelos russos da importância da televisão; demoraram muito mais do que os americanos para chegar à era da saturação de aparelhos. Como eletrodoméstico, a TV capturou a América no inicio da década de 60, mas já na de 50 se aproximava da saturação. Na União Soviética, só recentemente a televisão se tornou um produto de massa. Em 1960, havia 5 milhões de aparelhos na URSS; em 1975, através de um intensivo programa de produção e distribuição, essa cifra subiu para mais de 55 milhões. E mais de 6 milhões 500 mil são fabricados - pela indústria nacionalizada, é claro anualmente. Enquanto hoje 95,5% das casas nos Estados Unidos têm pelo menos um aparelho de TV, a proporção para a União Soviética ainda é consideravelmente menor - cerca de dois terços das casas. Mas a política oficial, lá, hoje determina a saturação de massa, e essa meta está sendo rapidamente atingida. As Olimpíadas de 1980 certamente darão o impulso final.

Em termos de número de horas de transmissão, os quatro canais da União Soviética ainda não perfazem o volume das estações americanas. O primeiro canal deles - o único inteiramente a cores - transmite cerca de quatro horas pela manhã e, após uma pausa ao meio-dia, vai até meia-noite. O segundo e o quarto canais começam sua programação às 5 da tarde. O quarto apresenta diversões como filmes de cinema, espetáculos de variedades e peças; o segundo tem mais programas de interesse local e coisas menos ambiciosas. O terceiro canal transmite apenas programas instrutivos, voltado particularmente para lições destinadas a escolares e cursos de educação de adultos. Não goza de muita popularidade. Em 1978, há 410 estações de televisão na União Soviética.

Sem sombra de dúvida, o conteúdo dos programas de TV soviéticos é consideravelmente diferente do dos americanos. Uma vez que a programação é centralizada e deve enquadrar-se nas idéias oficiais soviéticas do que é permissível ou desejável, todos os espetáculos têm um sabor didático - são usados para socializar ou modelar o cidadão. Um dos programas, intitulado A Nu-Ka, Devuchki (Vamos Lá, Garotas), é transmitido uma vez por mês, durante 90 minutos. Os prêmios são modestos - flores ou livros - e as candidatas são escolhidas e se apresentam como membros de profissões ou ocupações. O objetivo é popularizar as várias profissões e encorajar a iniciativa e o bom desempenho no trabalho. Por exemplo, quando um grupo de policiais mulheres se apresentou no show, seu número consistia em um exercício de ordem unida, com acompanhamento musical, usando-se os bastões luminosos, e em seguida faziam-se sugestões sobre como melhorar a sinalização do tráfego. Outros programas de competição promovem as atividades familiares e os esportes.

Há uma série policial popular, mas dificilmente se assemelha a Starsky e Hutch ou Baretta. Chama-se Os Especialistas Investigam e baseia-se no trabalho da policia (as tramas provêm de material extraído dos arquivos policiais). Mas não se vê nenhuma violência sensacionalista, e as origens sociais de atividades anti-sociais são acentuadas, como o são a infalibilidade e a eficiência da polícia. Semelhantes em tônica foram duas séries populares sobre os espiões soviéticos durante a Segunda Guerra Mundial.

Outra série dramática, Em Nosso Circulo, aproxima-se da telenovela americana, mas com uma diferença - conta a vida diária da família Kuznutsov, evidentemente sem adultérios, abortos e outros acontecimentos negativos. Contudo, o programa talvez mais popular é a série Incrível, Porém Verdadeiro, cujo apresentador é o filho do famoso físico soviético, Peter Kapitsa. Esse programa, que diz ter uma audiência de mais de 150 milhões, é transmitido quinzenalmente e aborda temas científicos populares. Duas outras séries que tiveram tremenda popularidade eram importadas: a série americana Lassie e a dramatização pela BBC da Crônica dos Forsyth, romance em vários volumes de John Galsworthy.

Além das séries, o espectador russo prefere filmes - muitos dos quais vêm de países socialistas -e espetáculos de variedades. óperas, balés e sinfonias, integrais. também são transmitidos, mas as pesquisas indicam que são muito mais preferidos pelas classes de educação superior do que pelo espectador médio.

E, finalmente, há um maciço empenho em programas infantis e de notícias. A programação para as crianças inclui desenhos pela manhã (com ênfase nos bons modos e na moralidade) e, após a escola, urna variedade de coisas: filmes sobre a natureza e de viagens, instrução em jogos e esportes, leituras e encenações de livros. Também há competições e jogos para equipes de crianças, com ênfase na disputa coletiva e cooperativa para alcançar as metas. Vidas de heróis militares e outros russos famosos são apresentadas como modelos para serem imitados. O noticioso mais importante, Vremia (Vida), é transmitido durante meia hora várias vezes por dia. Começa com noticias do Governo soviético, depois vêm os assuntos internos (principalmente econômicos), o noticiário regional - ainda interno - e finalmente as notícias internacionais. Encerra-se com três ou quatro minutos de esportes e dois minutos de previsão do tempo. No todo os assuntos internos tomam quase dois terços de cada meia hora transmitida. Evidentemente noticia na União Soviética é o que o Governo deseja informar à população.

Surpreendentemente, apesar dessas profundas e óbvias diferenças, o impacto da televisão na sociedade soviética é o mesmo que na sociedade americana. Um dos motivos é que outros tipos de atividade de lazer foram desgastados após a introdução da televisão. Como na América, ouvir rádio, ler livros e ir ao cinema e ao teatro. são hábitos que decaíram. Por exemplo, nos Estados Unidos, entre 1950 e 1960, o número médio de idas ao cinema por habitante urbano caiu de 21 para 12. Na União Soviética, entre 1960 e 1976, o número médio caiu de 22 para 16. Uma recente pesquisa sobre hábitos de frequência ao cinema descobriu que, em conseqüência da concorrência dos filmes na televisão, todo mês os cinemas de Moscou perdem 1 milhão 200 mil ingressos ou, por cima, 18 milhões por ano. Isso corresponde a uns 15% da venda planejada de ingressos por ano. À medida que a televisão deixar de ser novidade, pode ser que a freqüência aos cinemas suba de novo, mas isso ainda não ocorreu.

Os defensores da televisão, lá como cá, levantam a possibilidade de que ela estimule outras atividades de lazer. Do mesmo modo comi nos Estados Unidos romances encenados pela televisão soviética vendem fenomenalmente bem após a exibição dos programas. Mas a sobriedade volta quando se nota que para cada aumento de livros lidos ou de idas a cinemas e teatros corresponde um decréscimo cinco vezes maior devido à televisão. Além disso, as atividades sociais estão em extinção. As visitas a amigos e parentes, mesmo a conversa, estão declinando. Os cidadãos soviéticos vão menos a conferências (um gigantesco departamento de conferencistas, a Sociedade do Conhecimento, cobre o país com palestras sobre todos os assuntos), participam menos de atividades recreativas em clubes, gastam menos tempo em hobbies. Em contradição direta às normas ou objetivos do socialismo tornaram-se, no todo menos sociais e menos criativos.

Essas cifras globais tendem a mascarar grandes diferenças entre classes sociais e outros grupos dentro do público soviético. Nem todos os grupos, lá, reagiram do mesmo modo à revolução da televisão. A educação parece desempenhar um papel crucial na disposição do cidadão soviético a mudar de hábitos. Nas áreas mais baixas do espectro, as pessoas com educação primária ou inferior (calculadas em 15 a 20% da população adulta de algumas cidades e numa porcentagem mais alta nas áreas rurais), a televisão eliminou praticamente quase todos os outros veículos e atividades de lazer. O aparelho fica ligado quase todo o tempo. Contudo, os programas sobre temas políticos e sociais (que têm alta prioridade na televisão soviética) simplesmente não são entendidos por 93% desses espectadores.

Na outra extremidade do espectro, o cidadão com grau universitário da União Soviética vê muito menos televisão - cerca de um terço menos - do que a média nacional de 12 horas por semana. Além disso, as pessoas saídas das universidades são muito mais críticas em relação aos programas oferecidos. E não permitiram] no todo, que a introdução da televisão desgastasse seus hábitos de leitura. Os americanos formados nos primeiros tempos da televisão tinham cuidado com o veículo e viam muito menos do que a média nacional. Mas o tempo que dedicam ao aparelho tem aumentado gradualmente com o passar dos anos e hoje vêem apenas 30 minutos menos (ou 16% ), por dia, do que a média nacional.

As diferenças dentro dos grupos no público de televisão, lá como aqui, também dependem de quais opções o cidadão tem, isto e, que outras coisas, e em que quantidade, há de interessante fora de casa, e até onde ele pode se permitir essas coisas. Por exemplo, em ambas as sociedades, o processo de envelhecimento traz consigo mudanças no estilo de vida. Há menor mobilidade, às vezes doença. Os velhos geralmente vivem de uma aposentadoria, e isso introduz apertos financeiros. Para esse grupo, aumenta o tempo dedicado à televisão. Também é grande o tempo dedicado pelas crianças, que parecem sentir um desordenado fascínio pela telinha. Garotos de menos de 15 passam hoje, na União Soviética, pelo menos tanto tempo diante do aparelho quanto na escola.

As pessoas pobres não podem se dar ao luxo de outro divertimento além da televisão. Nos Estados Unidos, elas passam mais tempo diante do aparelho do que qualquer outro grupo. O mesmo ocorre na União Soviética. Embora não sejam qualificadas como pobres, as pessoas que moram nas cidades soviéticas, mas não têm educação formal e vieram de zonas rurais são relativamente desprivilegiadas. Como grupo social, são praticamente impermeáveis aos meios e cultura soviéticos; tentam manter seus padrões rurais de vida e tendem a juntar-se em áreas urbanas onde podem fazer isso. Sua renda e mobilidade no emprego são limitadas. Não lêem muito jornal, não vão a teatros, cinemas ou museus, seus contatos de amizade são restritos. Mas vêem televisão.

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