Tuesday, March 18, 2014

1978 - Roberto Marinho Bota a Boca

O Globo
Data de Publicação: 3/9/1978
Roberto Marinho
O ÚNICO MONOPÓLIO ADMISSÍVEL NAS COMUNICAÇÕES: O DA CONFIANÇA E DO RESPEITO DA OPINIÃO PÚBLICA

Roberto Marinho, chefe do complexo jornalístico Globo, responde ao General Otávio Costa em algumas de suas declarações feitas recentemente na ESG

O nosso companheiro Roberto Marinho, que há mais de meio século assumiu as responsabilidades do GLOBO e posteriormente as do Sistema Globo de Rádio e da Rede Globo de Televisão, em carta endereçada ao seu amigo, General Otávio Costa, que foi Assessor-Chefe de Relações Públicas do Presidente Médici e que atualmente é o Comandante da 6ª Região Militar, procurou esclarecer alguns pontos da conferência feita pelo ilustre chefe militar na Escola Superior de Guerra. Simultaneamente ao envio da carta, uma cópia foi lida pelo telefone para o General Otávio Costa, com o pedido de que autorizasse sua publicação, ao que ele acedeu pronta e cordialmente. A carta é a seguinte:

"Prezado e Ilustre Amigo General Otávio Costa,

Com a atenção e o apreço que me merecem, li a íntegra de sua conferência na Escola Superior de Guerra, por ocasião do painel ali realizado em torno do tema "Televisão e Educação". E escusado acentuar o que terá sido a sua contribuição para o debate e o esclarecimento de assunto que tão de perto interessa à opinião pública e, em particular, a todos nós que temos o privilégio e a responsabilidade de lidar com os meios de Comunicação.

No dia seguinte à sua palestra, quarta-feira - 30 de agosto, O GLOBO teve oportunidade, por isso mesmo, de divulgar com todo e merecido destaque a íntegra do seu documento. Infelizmente, de acordo com o regulamento da ESG, a segunda parte do referido painel só veio a público, o que me permite supor que alguns de seus conceitos terão tido, no debate a viva voz com os estagiários, o indispensável desdobramento que estão a reclamar, para que deles não se possa fazer idéia distorcida, com um conseqüente julgamento severo e até mesmo injusto para com a televisão brasileira.

Tendo dirigido por quatro anos a Assessoria de Relações Públicas da Presidência da República, no Governo Médici, seu nome e sua vida estão familiarizados com o mundo da Comunicação, de que o prezado Amigo é atento estudioso há vários anos, tendo mesmo passado pelo magistério, nesse setor, da Universidade Federal de Brasília. Estes títulos, por todos reconhecidos ampliam a responsabilidade de um oficial superior que naturalmente acompanha a nossa evolução social, em particular no que diz respeito à Educação.

Li com especial satisfação a sua afirmativa final de que somente os caminhos da liberdade são capazes de fazer da televisão um instrumento da dignificação do homem. E sempre confortador encontrarmo-nos identificados em assunto de tal magnitude, quando se trata de formular uma política nacional para a televisão e, no caso, para o incalculável auxílio que ela pode dar á causa da Educação.

Após a erudita introdução teórica, em que ficou claro que no Brasil as autoridades optaram por um sistema de televisão com base na organização pluralista total, de índole francamente democrática, na convivência respeitosa de estações privadas e públicas (ou estatais), entendo que a conclusão só podia ser a que está na sua com conferência, ou seja, que a opção brasileira para a tv "é coerente com as opções econômicas adotadas pela nação brasileira".

Em seguida, não é sem algum perplexidade que encontro afirmativas difíceis de separar do que vem sendo uma espécia de monótono libelo contra a atuação da televisão entre nós. No que diz respeito à Rede Globo, que há treze anos, desde 1965, vem lutando incessantemente pela sua consolidação, não tenho duvida de que, em certos meios de prévia má vontade, têm sido deixados de lado aspectos francamente positivos para o aprimoramento de um veiculo complexo e novo como é a televisão,

O meu prezado Amigo conhece perfeitamente como se constituiu o grupo de empresas que, há mais de meio século, venho pessoalmente dirigindo, com o apoio de mais de uma geração de profissionais e de várias equipes de dedicados e competentes especialistas. Há 53 anos, como sabe, a morte prematura de meu Pai, Irineu Marinho, entregou-me de chofre a grave responsabilidade de continuar uma trajetória profissional que hoje compete à História julgar. Muito jovem, ainda na casa dos vinte anos, entreguei-me de corpo e alma ao jornal que tem sido a fundamental razão da minha vida, sem que dele me apartasse em nenhum momento, a qualquer pretexto. Profissionalmente, posso dizer, sem jactância, mas tão só em nome da verdade dos fatos, que a minha vida se confunde com a vida do jornal de que sou, com inexcedível honra, o Diretor-Redator-Chefe.

As grandes e velozes transformações por que passa o mundo moderno alcançaram, com peculiar impacto, também o mundo da Comunicação. Não será preciso deter-me na análise do que tem sido a evolução da imprensa aqui e no exterior graças a uma série de fenômenos que se por um lado concentrou o número de jornais, por outro lado deu-lhes recursos técnicos e materiais para se organizarem solidamente em empresas capazes de assegurar a livre circulação da notícia e da informação. Nenhum observador isento deixará de reconhecer o que tem significado esse progresso para a Formação de uma opinião pública independente, tão essencial ao regime de livre debate em que se devem sustentar as desejadas instituições democráticas estáveis e ordeiras.

Atento às inovações de todo gênero, chegadas as vezes de maneira abrupta e até perturbadora, O GLOBO tratou sempre de incorporar a mais moderna tecnologia da impressão, mas jamais se esqueceu de organizar, formar e estimular os quadros humanos profissionais em que repousa o acerto da missão jornalística. A força das circunstâncias, que não nos cumpre modificar, levou-nos, cada dia, a procurar aprimorar O GLOBO, transformando-o no jornal que é hoje, reconhecidamente um líder da imprensa brasileira e que, sem jactância, tem o seu lugar entre os grandes jornais do mundo.

Foi esse mesmo desejo de modernização que nos levou a complementar o trabalho do jornal com a verdadeira revolução que significou o advento do rádio, assim que conquistou condições para ser o importante veículo de massa em que se transformou. A Rádio Globo foi e é, neste sentido, uma estação pioneira, a que se juntaram outras emissoras, até formar-se, com sacrifício e obstinação, o que é hoje o Sistema Globo de Rádio, legalmente constituído dentro dos padrões profissionais, técnicos e morais estabelecidos pelas autoridades competentes. Graças a um grupo numeroso de profissionais sempre abertos à inovação, sem jamais perder de vista o caráter e o espírito públicos inerentes à radiodifusão, contamos hoje com mais de trinta anos de experiência no setor e granjeia a simpatia e o apreço de um imenso público perfeitamente livre de escolher entre as várias opções que lhe são oferecidas, não apenas na parte da informação como também no setor do entretenimento e da instrução.

Atuando no campo da Comunicação como assim há tantos anos vem atuando, seria, como foi, perfeitamente natural e lógico que o mesmo grupo Globo se interessasse por um setor de vanguarda como era e é ainda hoje a televisão. Recorde-se o ilustre Amigo que, há treze anos, quando pusemos no ar o sinal do Canal 4 TV Globo do Rio de Janeiro, a televisão já existia entre nós, nas principais praças do país, há três lustros, desde 1950.

A legislação que regulamenta o sistema de concessão independe de nossa vontade, nem é susceptível de ser modificada segundo eventuais interesses desse ou daquele concessionário. Para iniciar o que, naquela altura, a muitos amigos parecia uma aventura arriscada, sem futuro garantido, tratamos de habilitar-nos junto ao Poder Executivo e, preenchendo os requisitos regulares, investimos com o máximo de confiança num veículo que até aquele momento não tinha oferecido exemplo de solidez empresarial e confortável lucratividade.

A televisão era, porém, um desafio fascinante, a que não podia estar estranho quem há quarenta anos se esforçava por acompanhar a rápida evolução dos meios de Comunicação. Firmada a duras penas a estação geradora no Rio partimos com prudência e espírito pioneiro para o que viria ser o sistema nacional de cadeia com que hoje existe e funciona, em termos nacionalmente inéditos, a Rede Globo de Televisão. Os progressos técnicos avançam a cada dia, com equipamentos de alto custo e sofisticada complexidade.

Tanto no setor do telejornalismo, como na parte do entretenimento, a Rede Globo impôs-se ao respeito do público e granjeou a espontânea simpatia de emissoras que com ela vieram a trabalhar em regime de associação, guardadas as respectivas autonomias de cada estação afiliada.

Seria longe cansativo enumerar o que tem sido e o que tem representado o trabalho da Rede Globo, não apenas pela sua atuação direta, como principal fonte de informação e de lazer do Brasil de hoje, como também pela contraprestação de serviço que lhe incumbe desenvolver e desempenhar, segundo a consciência de seu dever para com o inseparável caráter social de sua atividade. Neste sentido, o programa de educação que vimos desenvolvendo, a par de campanhas de sentido comunitário, desafia paralelo com o que quer que tenha sido feito antes ou se esteja agora fazendo entre nós no Brasil. Só o Telecurso de 2° Grau, a cargo da Fundação Roberto Marinho, em convênio com a Fundação Padre Anchieta, tem hoje uma larga audiência popular até aqui sem escolaridade e transmitido que é, simultaneamente, por quarenta emissoras de todo o Brasil. Dez estações educativas, de propriedade estatal, pela primeira vez se unem e se associam espontaneamente à Rede Globo, nesse esforço em prol da Educação aberta a contingentes tão numerosos como até há pouco seria impensável servir.

O êxito da Rede Globo não exclui nem limita o sucesso de estações ou redes que operam no mesmo campo, em igualdade de condições. A competição neste; como em outros terrenos, só pode ser um estimulo saudável, na disputa positiva de melhor servir ao público, sem perda dos altos objetivos que norteiam qualquer veículo responsável, consciente de seu poder limitado e de sua nobre missão. A Rede Globo jamais pretendeu, por isto mesmo, qualquer situação de privilégio que resguardasse para si prerrogativas que não estejam democraticamente abertas a todas as empresas do ramo, segundo a legislação vigente, oriunda de critérios superiores que seriam inconciliáveis com vantagens pessoais ou de grupo.

Respeitada no Brasil e no exterior, com programas de sua produção hoje presentes em mais de cinqüenta países, a Rede Globo obedece à mesma orientação e às mesmas diretrizes que estão na origem e na já longa vida de O GLOBO tanto quanto no Sistema Globo de Rádio. São mais de cinco decênios, é mais de meio século de uma existência empenhada em conquistar e consolidar o que nenhum capital compra, ou seja, a confiança da comunidade. Não temos qualquer vinculo direto ou indireto, ostensivo ou encoberto, com grupos estrangeiros ou de caráter internacional. No caso da Rede Globo, temos insistido no caminho de ampliar e aprimorar a nossa própria produção de programas, de forma que possamos, como temos podido, liberar em boa e crescente parte o fornecimento de filmes e seriados de procedência estrangeira, especialmente americana.

O investimento em produção e programação rivaliza assim com o que de melhor se faz nos países adiantados e alcança cifras consideráveis, dentro de um orçamento cada vez mais oneroso. Os recursos indispensáveis a esse investimento, como todos os demais que se aplicam, por exemplo, na formação profissional de equipes sempre mais numerosas, provém de fontes conhecidas e normais, exatamente como acontece com todas as empresas de comunicação que no Brasil pautam a sua atividade pelo caminho legal.

Como o nobre Amigo não ignora jornais, rádios e televisões encontram na Publicidade o principal item de sua receita. E nem poderia ser de outra forma, dentro do regime da opção brasileira, que é, como acentua a sua conferência, a da livre iniciativa, sem a monstruosa ingerência do Estado totalitário que liquida a sociedade aberta e plural. A suposta influência dos que detêm as verbas de publicidade, que alguns espíritos pouco informados vão ao ponto de admitir que seja capaz de controlar a opinião dos veículos de Comunicação, não passa de uma vã hipótese que não tem base na realidade e que os fatos não confirmam. É antes uma fantasia, um exercício inconseqüente, muito caro aos que se recusam a crer na sociedade democrática sustentada na liberdade de iniciativa, tal como existe nos países da Europa Ocidental e nos Estados Unidos. Quem ousaria dizer que não é livre a imprensa norte-americana, simplesmente porque os jornais ali retiram os meios de subsistência da mesma publicidade comercial que se quer condenar entre nós?

Creia meu caro General, que é para nós muito honrosa a posição de liderança com que a sua conferência nos brindou, quando se referiu ao "império de comunicação", constituído pelo jornal, pelas estações de rádio e pelas emissoras de televisão que constituem o Sistema Globo, sob a minha direção pessoal. Não veja nisso, porém, senão o reflexo de um longo e pertinaz esforço profissional, que tem contado com o devotamento e a competência de milhares de companheiros, numa sucessão de sacrifícios que já se contam para além de meio século de vida. O sucesso não se improvisa, sobretudo nesse terreno delicado e extremamente sensível que é o da Comunicação.

De nossa parte, temos a certeza de que conhecemos as armas leais com que lutamos e continuamos a lutar. E estas armas estão ao alcance de todos os que estejam dispostos a empenhar-se com seriedade e constância no progresso da Imprensa, do Rádio e da Televisão no Brasil. A lei é feita para todos, como deve ser. Seria inconcebível, para recorrer à expressão de conhecido homem público, que o Estado se visse na contingência de punir a eficiência, preferindo retardar o passo dos que caminham com segurança a, por meios legítimos e até louváveis, estimular indiscriminadamente todos os que espontânea e livremente se decidiram a trabalhar no difícil e áspero caminho da informação independente.

Permita-me ainda acrescentar uma palavra sobre a alegação de monopólio, com que freqüentemente o preconceito e a incompreensão têm procurado atingir a presença da Rede Globo no quadro da televisão brasileira. Que é monopólio? Nesta época de tantas confusões, quando um eminente critico já diagnosticou uma "crise de dicionário" com tantas palavras enlouquecidas, nada como recorrer à ajuda de um especialista, o professor Aurélio Buarque de Holanda, que no seu acreditado Dicionário Aurélio, página 947, 2ª coluna, assim define:

MONOPÓLIO (Do gr. monopólion, pelo lat. monopolium.) S.m.

1. Tráfico, exploração, posse, direito ou privilégio exclusivos. 2. Açambarcamento de mercadorias para serem vendidas por alto preço.

Vejamos outro grande dicionário, o de Caldas Aulete:

MONOPÓLIO, s.m. privilégio que o governo dá a alguém para poder sem competidor explorar uma indústria ou vender algum gênero especial: O governo acabou com o monopólio do tabaco. Comércio abusivo, que consiste em um individuo ou corpo coletivo se tornar único possuidor de um determinado gênero de mercadorias para, à falta de competidores, poder depois vendê-lo por preço exorbitante; abarcamento, açambarcamento. Os marchantes fizeram monopólio da carne para a venderem pelo preço que lhes apraz. // Posse exclusiva, propriedade de um só: Seria o governo e a direção das sociedades o monopólio da ignorância, o privilégio da mediania? (Lat. Coelho.) // F.gr. Monopolion (venda única, privilégio de comerciar).

Seria o caso de perguntar e pesquisar onde se esconde qualquer dessas figuras ilícitas na intensa e extensa atividade de um jornal que não é o único do pais, de um grupo de estações de rádio que não pretendem falar sozinhas para um público cativo e de uma rede de televisão que disputa, dia a dia, palmo a palmo, em cada região do nosso vasto pais, a preferência de um público só conquistável pela qualidade da programação. Na verdade, só uma forma de monopólio é admissível na moderna democracia — a da confiança e do respeito da opinião pública.

Conheço as intenções de muitos críticos preconceituosos que, diariamente, pretendem desencorajar o justo crescimento de uma organização que espelha o crescimento do nosso próprio país.

Mas, lamentaria muito que homens isentos e da sua qualificação se deixassem influenciar por tais distorções sobre uma obra que devia, pelo contrário, só receber estímulos da parte dos homens públicos, o mesmo estímulo que recebemos diariamente da grande maioria do povo brasileiro e, já agora, do público de meia centena de países estrangeiros.

Certo de ter contribuído para ilustrar, com a minha experiência profissional, um debate que sô se pode travar com isenção e objetividade, quero pedir ao eminente Amigo a devida licença para divulgar esta carta, com o único intuito de ainda uma vez procurar esclarecer aos que, como nós, estão permanentemente preocupados com o destino de nossa sociedade, intimamente ligada à opção que faça de seus livres e independentes meios de Comunicação.

Não tenho dúvida de que, controvérsia à parte, estamos de acordo nos pontos essenciais, assim como também estamos voltados para o aprimoramento da cultura e da educação de um povo ainda tão carente como é o nosso generoso povo brasileiro. Nenhuma competência, em qualquer terreno que opere, deixa de ser útil a esse mesmo povo, sobretudo quando a qualidade profissional se distingue, pelos seus méritos, em atividade como é a da Comunicação e segundo o regime da livre concorrência respeitada a igualdade de oportunidades.

Sinto-me à vontade para afirmar, que tenho orgulho da obra realizada pelas empresas de Comunicação sob a minha direção, porque sei que delas se orgulham os brasileiros que lhes dão preferência, ou que simplesmente as prestigiam, tanto quanto sei que elas são o resultado de uma imensa cadeia de esforços,de uma soma de capacidades profissionais que dão ao própio êxito uma dimensão social, de perfeita e feliz impessoalidade.

Aproveito a oportunidade para reafirmar-lhe, de maneira muito cordial, a expressão do meu apreço e do respeito pela sua contribuição à vida pública de nossa Pátria.

Afetuosamente,

Roberto Marinho"

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