Tuesday, March 18, 2014

1978 - Dancin' Days No Ar

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 14/8/1978
Autora: Maria Helena Dutra
NOVA IORQUE PARA CENÁRIO
Basta de intermediários

Os moradores de Duque de Caxias ou Itumbiara podem respirar aliviados. Jamais serão amolados por filmagens em seus domínios e podem, no conforto dos próprios ou alugados lares, realizar mil e uma viagens no mundo agora sem fronteiras das telenovelas. Elas tiveram, e alguns poucos teimosos ainda insistem neste atraso, fase muito nacionalista, mas já superaram esta cafona limitação e agora se lançam, de vez, no doce gosto do cosmopolitismo desvairado. Não tendo o entrave do depósito compulsório, voltam a explorar o mundo deixando para trás os aborrecidos problemas de um pais cujo futuro não chega nunca. É óbvio que cada um segue a moda como pode. A pobre peregrina Tupi, sem muitos incentivos fiscais, tem mesmo de se contentar em pintar de México o fundo de seu quintal paulista para berço daqueles que, dizem, têm o direito de nascer.

Em outro e bem mais régio estilo, a Globo parte de vez para seguir o lema governamental — será que ainda está em vigor? — de que exportar é a solução. No seu caso, atores em vilegiaturas várias. Ela que já andara, em tempos mais humildes, passeando muito por Portugal, dá agora passaportes mais constantes para os seus núcleos voarem. Gina já andou pelos Estados Unidos para arranjar um marido brasileiro. Isto parece que não está dando muito por aqui. A próxima novela das sete será iniciada — não é podre de chique? — em Paris. Abertura em Roraima fica só para as aventuras das autarquias. Até o Buby Mariano, quem diria, deu seu saltinho de felino na falecida novela das 10, numa viagem. De mentirinha, mas bastante eficaz para dar sofisticação a uma chantagem que em Nova Iorque, perderia todo o charme.

O mais engraçado, porém, desta internacionalização tão fina, está acontecendo em uma novela que se passa em Copacabana mas faz um esforço tremendo para ignorar que este bairro ainda está na América do Sul. O título é em inglês e até engraçadinho: Dancin'Days, e pena que os atores ainda falam português. Um dia conseguirão contornar este problema. Como a novela de Gilberto Braga está na primeira etapa, sua trilha sonora forçosamente é nacional. Mas manda o devastador marketing da estação que na segunda fase entrem apenas lançamentos internacionais para vender o outro disco especifico. Neste momento, então, a ilusão e o padrão poderão enfim quase chegar à imitação completa.

E como se esforçam todos para parecer que estão fazendo filme da Fox da década de 50. A moça ex-prisioneira — Sônia Braga deslocada e feia num papel que, se plausibilidade existisse no mercado novelístico, teria que ser feito por atriz bem mais velha — parece saída de uma cadeia digna de Eleanor Parker e tem todos os seus problemas minorados pela rápida conquista de uma família quase sem pecado original e de um namorado diplomata. Igualzinho ao que acontece costumeiramente às egressas do Talavera Bruce ao retornarem a nossa sadia sociedade. Esta, porém, lhe deve muito mais ainda, e pagará sem dúvida, por a ter condenado a 22 anos de prisão por assalto e atropelamento. Um castigo único, por sua severidade, no direito brasileiro para semelhantes delitos.

Pelo tema central, já dá para notar como a telenovela procura ser realista e nacional. Sob o ponto-de-vista evidente, do cinema americano que lhe serve de mapa-guia. Influência que, muito honestamente, fazem questão de mostrar a partir da abertura na qual só falta Travolta. Figura que, ninguém estranharia também, se fizesse parte da fauna que acolhe a ex-presidiária na Copacabana colorida, farta, onde nunca chove e tem, como única preocupação coletiva não sobreviver, mas seguir todas as modas que os deuses do consumo mandarem. E um ambiente que fica ainda mais engraçado pela tipicidade especifica que o brasileiro acaba mostrando toda a vez que se pretende internacional. Aliás, como já disse um tal de Levi-Strauss sobre os paulistas.

E tome, então, de humor. O casal Clifton Webb e Gene Tierney (José Lewgoy e Joana Fomm) está querendo montar uma discoteca. Pela ignorância, porém, que revelam sobre o assunto visivelmente denotam terem antes sido donos de um empório na Rua Uranos. A casa dos ricos classudos (Cláudio Corrêa e Castro e Beatriz Segall) ameaça revelar a todo instante, uma magnífica cristaleira. E teme-se também que, após o jantar, a grã-fina vá empilhar os pratos e lavá-los. O diplomata, Antônio Fagundes, e uma figura muito simpática, so que seu tédio intelectual e o tema de Mahler que lhe pespegaram (será que a novela terá também uma trilha erudita?) ficam um pouco estragados pelo seu forte sotaque de caipira paulista. Se ele ainda não joga tênis, o defeito é sanado pelo irmão mais novo do personagem, Lauro Corona, que é amarrado, literalmente, na asa Delta. Gente fina não play mais futebol.

Reginaldo Farias é um misto de Gig Young com Tony Randall, o bonzinho que não casa com a mocinha. Mário Lago é a única exceção nacional. Ator perfeito, além de autor maravilhoso de impecáveis livros de memórias, parece mesmo saído da Colombo e não de um El Morocco qualquer. Pena que sua neta, Sura Berditchevsky, esteja tão ligada ao women's lib que esquece de procurar emprego ou mesmo um estágio, meio raro por aqui, para ficar um pouquinho independente. Seu namorado, Eduardo Tornaghi, é outra prenda. Nem lhe passa pela cabeça que lugar de psiquiatra de classe média no Rio é no INPS. Gracinda Freire parece pensar mais nestes problemas e por isso sua personagem lembra mais uma comediante brasileira do que Lucile Ball. Agora a empregada, Chica Xavier, está inteiramente dentro do contexto, nem Ethel Waters fez melhor em seu tempo. Até dinheiro empresta para os patrões, exatamente como acontece diariamente nos lares cariocas.

Só que nestes, como se fosse uma imensa câmera de eco, estão todos ligados nesta produção e nem percebem seus sotaques e calculada distorção dos vestígios de realidade. Um sucesso, porém, que não se deve apenas a esta compartilhada e propositada fuga a qualquer tipo ou ameaça de verdade por parte do público que só quer distração, mas também, e muito, aos méritos da novela como espetáculo. É' impossível negar seu eficiente padrão coletivo de trabalho e apresentação. Todos os conflitos da história são expostos muito claramente, com imagens simples, mas bonitas, em cenas, quase sempre curtas, que se juntam num ritmo veloz de muita movimentação. Apenas inexplicáveis erros de continuidade, penteados e roupas subitamente trocados numa mesma ação, arranham o brilho de uma produção quase perfeita.

E que apóia um texto, de Gilberto Braga, revelador de pleno domínio formal do veículo. Um autor que, se deixarem, tem senso de humor bastante para fazer mais e menos alienadamente. Acrescente-se à boa forma geral uma direção segura de Daniel Filho e Gonzaga Blota, em trabalho primoroso pela objetividade seca e direta, e a atuação envolvente do elenco, e temos telenovela irresistível como só a Rede Globo, hoje, sabe fazer e de irrecusável aceitação.

Esta fica a cargo de um público que, cada vez mais, reconhece melhor as ruas de Nova Iorque e São Francisco do que suas similares de São Luís do Maranhão ou de Porto Alegre do Rio Grande do Sul. E que, se é para consumir apenas e não pensar, porque tem de agüentar a Discoteca 17? A poderosa estação tem que lhe dar logo a 54. Já e agora. Basta de intermediários, Nova Iorque para cenário.

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