Saturday, March 15, 2014

1970 - Telecatch

Correio do Estado (MT)
Data de Publicação: 27/2/1970
Autor: João Rodolfo do Prado
REALEGO
"Quem não se comunica se trumbica", eis a frase que resume a televisão. E seu autor, Chacrinha. conhece o assunto. Todo mundo cita, repete e assina, mas não há contestação. E isto é muito importante.

Comunicar é ser compreendido, quanto mais se comunica, mais se é entendido. Mas também: quanto mais se comunica, menos se dizem coisas novas. Quando a comunicação é absoluta, tudo indica que nada de novo foi dito, tudo que se transmitiu já era esperado e sabido.

"Quer não se comunica, se trumbica'', o lema da nossa televisão. Isto quer dizer que ela não está preocupada em oferecer conhecimentos novos, informações. O grande púbico sabe A-B-C e a televisão se encarrega de transmitir A-B-C. Quando, por razões diversas, o público incorpora o D, passa-se a oferecer o D. A mecânica é bastante elementar.

Elementar e pobre. Quando se passam horas e horas e recebemos o que já temos, pode-se ter certeza de que o estado de espirito predominante é o tédio, a imobilidade. E, o que é muito pior, sente-se que a realidade parou, repete-se indefinidamente. Afinal, o moto-perpetuo!

Mas, que diabo, a realidade não parou, muito pelo contrário. Cada vez movimenta-se em maior aceleração, e ontem já era amanhã. E explode a contradição: a televisão, que é o veiculo mais rápido para a comunicação do homem em nível de massa (igual ao rádio, só que mais amplo: oferece a imagem também), pois é eletrônico, vive a reboque da realidade. O universo de conhecimentos do homem urbano já esgotou todas as letras do alfabeto e a televisão insiste: A-B-C... e D. Cada vez comunicando mais. E informando menos.

II

Horário vago.Opção: criar um programa novo ou relançar alguma coisa já gasta; a segunda hipótese vai garantir uns quinze pontos no IBOPE, a segunda é indefinida. Opta-se pelos quinze pontos, ou melhor Tele-Catch.

O quadro é triste, mas há saídas. Por acaso (ou será que foi proposital?) faz-se uma novela baseada na realidade: sucesso, novas faixas de público a assistem, a nova pólvora. Sentindo a pressão, a emissora concorrente areja suas novelas, providencia temas atuais, melhor acabamento industrial, músicas especialmente compostas por artistas de sucesso. Afinal, o público não amava (e era irredutível) as novelas de capa & espada? O dramalhão não era o que o público queria? Como, então, houve a mudança?

III

"Quem comunica, não se trumbica'' é uma verdade. Mas, "quem informa com comunicação, também não trumbica", igualmente o é. E é mais criativo e útil. Não proponho um hermetismo incoerente com o veículo, mas sim uma ação ativa, enriquecidora. Podem estar certos, o público possui uma vivência muito mais rica do que imaginam. E, afinal de cantas, televisão não é realejo.

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