Saturday, March 15, 2014

1970 - Quem Tem Medo da Verdade e Cidinha Campos

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 17/2/1970
Autor: Valério Andrade
A REPULSA QUE CONSAGRA
Na última pesquisa divulgada pelo IBOPE, o programa Quem Tem Medo da Verdade? figurava como líder de audiência em São Paulo.

Fosse lançado no Rio pelo Canal 4 ou o 6, ele certamente estaria figurando entre os campeões de audiência. Aliás, o mesmo se verifica em relação ao Dia D, também produzido pela Recorde e igualmente popular junto ao telespectador paulista, que aqui tem passado despercebido, pelo mesmo motivo: a indiferença do grande público pelo Canal 13.

Os dois programas justificam a audiência paulista. O Dia D, com a repórter Cidinha Campos, é ritmicamente dinâmico, geograficamente livre, sem aquela atmosfera de sala de visitas característica de Hebe Camargo. Enquanto Quem Tem Medo da Verdade?, além de seu tom polêmico, foge à rotina e à monotonia emocional da maioria dos nossos habituais programas diários .

De fato, Quem Tem Medo da Verdade? consegue mexer com os nervos do público, despertando reações, tirando o telespectador da sua sonolenta passividade. Por isso mesmo, tem sido alvo de criticas e, por imposição da censura, teve o seu horário modificado: é lançado no Rio às 22 horas do domingo.

A fórmula de Quem Tem Medo da Verdade? é simples e funcional. Uma personalidade é submetida a uma espécie de jogo da verdade - semelhante àquele revelado por Marcel Carné em Os Trapaceiros e que por muito tempo foi cultivado em reuniões sociais - esquematizado na forma de um julgamento. A pessoa, no caso réu, se compromete a responder a verdade, somente a verdade, nada além da verdade. Uma série de perguntas é formulada tendo como base os itens estabelecidos pela acusação, que, por sua vez, baseia-se em acontecimentos de domínio público.

Vejamos, como exemplo, o caso de Dalva de Oliveira. Ela fora acusada de:

1. Continuar cantando quando deveria se aposentar. Segundo a acusação, sua voz já não é a mesma, ela desafina e insiste em permanecer cantando;

2. Ter explorado, para proveito profissional, através de uma série de cancões, o seu desquite com Herivelto Martins. O episódio do desquite, como se sabe, foi relatado em capítulos (no Diário da Noite), pelo jornalista Davi Nasser;

3. Ter provocado a morte de três pessoas. Fato ocorrido em agosto de 65, no desastre automobilístico, causado pelo carro da cantora.

Terminado o interrogatório, feito nos moldes do cinema americano, a acusação (que, no caso, é formada pelo próprio grupo de jurados) cede lagar ao advogado de defesa. No caso em foco, a missão coube a César de Alencar, que, para surpresa geral, saiu-se extremamente bem desenvolvendo com fluência verbal e imaginação, cada um dos itens, Após a brilhante defesa, extremamente simpática à vitima, para contrabalançar a conduta antipática da acusação, Dalva de Oliveira foi absolvida por unanimidade.

Depois de alguns momentos de tensão, coadjuvados por lágrimas registradas pela câmara insistente e atenta, o happy end veio debaixo de palmas e risos, com Dalva cantando, conforme começara o programa, isto é, o julgamento simulado.

Segundo consta, algumas pessoas têm ficado chocadas com a veemência da acusação, identificando-se com a vítima, tal qual acontece nos filmes. Essas mesmas pessoas, - e algumas acham que o programa deveria ser proibido - estão semanalmente diante do aparelho de TV, de olho grudado no programa, saboreando, horrorizadas o jogo da verdade. De fato, se não chega a ser original, também não deixa de ser atraente esse tipo de (falsa) repulsa.

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