Saturday, March 15, 2014

1970 - Falando Mal da Hebe Camargo

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 27/2/1970
Autor/: Valério Andrade
SEMPRE AOS DOMINGOS
Hebe Camargo transformou o auditório da Rua Augusta em sala de visitas e lá recebe os convidados que os cariocas vêem em vídeo-tape, através do Canal 13, domingo à noite.

Salvo raras exceções, como quando Hebe resolve visitar alguém na própria casa, seu programa torna-se uma minimaratona para o telespectador, já que a maxi, como se sabe, é patrimônio exclusivo de Sílvio Santos, o Risadinha.

Há muito que o cameraman desistiu de tentar imprimir algum dinamismo visual ao Hebe Camargo Show. O desfile obedece ao mesmo esquema, mudando apenas, o rosto dos participantes. Dependendo dos convidados, o show será mais ou menos monótono, mais ou menos emocionante para o auditório.

A platéia esteve particularmente excitada no último domingo. Explica-se. Com grande euforia, debaixo de uma salva de 21 adjetivos, feliz, da vida, Hebe anunciou a presença daquele que é o orgulho do parque industrial (perdão, musical) paulista: Roberto Carlos.

Não é preciso dizer que o auditório entrou em transe. Finalmente a coisa se acalmou e então Hebe iniciou o diálogo com o jovem monarca. Mais tarde, o Rei resolveu satisfazer os anseios e as súplicas dos súditos, cantando cinco números, dos quais três de olhos fechados, compondo á sua nova imagem (musical) .

- Mais um, mais um, mais um - exigia o público, enquanto o Rei desaparecia, dando lugar a um dos príncipes, também convidado pela risonha Hebe.

De cabelos cortados, fato salientado pela anfitrioa, Antônio Marcos apareceu de mãos dadas com sua namoradinha, a cantora Vanusa. A platéia suspirou, emocionada com a beleza do jovem casal. Sempre juntinhos, fizeram confidências, contaram segredos, estimulados pela curiosidade de Hebe, que, naquele momento, mostrou que está apta a escrever fotonovelas quando o Ibope se voltar contra ela.

Felizmente, depois do comercial, surgiu alguém capaz de afastar o tédio e o clima meloso daquele quadro sentimentalóide. Para o telespectador, a presença de Mièle (sem Bôscoli) foi um alivio uma pausa humorística, a calmaria que antecede à tempestade. E o que se seguiu foi uma tempestade de ridículos.

Aconteceu no clímax do Show, quando o palco da TV Recorde transformou-se numa passarela carnavalesca. Até aí, nada de mais, apenas monótono. De repente, Mauro Rosas, um dos fantasiados, aproveitou a ocasião para abrir a boca, naquele tom de voz. Foi a hora da fofoca e das frases brilhantes:

- Minha mãe é uma santa que está aqui no céu (supõe-se, como a dita cuja está viva, que se referia à Terra).

E eis a que mais sucesso causou no auditório:

- Esse é o país (ele exaltava São Paulo e não o Brasil) que mais cresce no mundo.

Felizmente, Clóvis Bornay esteve ausente, pois um só já é demais. E também o horário das visitas estava encerrado, naquele domingo.

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