Saturday, March 15, 2014

1970 - Censura Mata Geraldo Del Rey

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 11/3/1970
Autor: José Carlos Oliveira
PROIBIÇÃO 70
Andei investigando quem matou Luciano. Ora, por que me interessaria descobrir quem matou Luciano? Já me explico.

Interessa-me a sorte de Renato. Estou convencido de que Renato é um santo, ou melhor - ou a mesma coisa - um idiota, no sentido dostoievskiano da palavra. Nele reaparece o Príncipe Mishkin. Bondade e sacrifício são as únicas obrigações que conhece. Moralmente mutilado, como um burro, uma criança ou um deus, obedece apenas ao que lhe sugere o Bem, não por escolha própria, e sim por ser congenitamente surdo à voz do Mal. Surdo e cego - incapacitado que nasceu igualmente, para contemplar o Mal quando projetado por outra pessoa. Ele simplesmente desconhece a contrapartida das virtudes teologais .

Pois bem: Renato está preso, e na iminência de ser julgado pelo assassinato de Luciano. Sei que ele não mataria uma simples mosca - embora, paradoxalmente, matar mosca seja uma ação praticada de preferência pelos homens bons... Pouco importa; o fato é que está preso, vai ser julgado e possivelmente confessará um homicídio que não cometeu, recebendo em troca um longo castigo, que não merece.

Que Renato seja condenado, admito, já que nasceu com a vocação do sofrimento; mas que isto resulte na prevalência do verdadeiro culpado... não! Mil vezes não! Como poderia eu dormir com a consciência tranqüila? Se Renato não matou Luciano, quem matou Luciano? Eis a razão da minha pesquisa: sou contra os soníferos, prefiro dormir em paz comigo mesmo.

Lamentavelmente, não vi os primeiros capítulos da novela Véu de Noiva, escrita por Janete Clair e apresentada de segunda a sábado na TV Globo. Sendo assim, nada tenho da vitima além deste nome: Luciano. E com o tempo venho colecionando as circunstâncias em que ocorreu o assassínio. Luciano era - seria? - amante de Andréia (Regina Duarte), mulher de Marcelo (Cláudio Marzo), e de Flor (Miriam Pérsia), que dele teve um filho póstumo. Enfim, Luciano era um craque - que Deus o tenha. Mas, em telenovela, sendo a vida um assunto local - o que deve fazer a felicidade da poeira em que se encontra hoje a aparência do velho Aristóteles; no que, aliás, estamos citando o Chaplin da fase derradeira. . . - bom, sendo então a vida um assunto local, outros conflitos interferem, para desgraça de Renato, e impunidade, ao menos até agora, do verdadeiro homicida. Tais conflitos, pela ordem - e nem todos serão mencionados:

1. Renato é irmão de Cláudio Marzo - mas os pais, principalmente a mãe (Glauce Rocha) - o repudiaram em tempo hábil.

2. Renato foi perfilhado pelos pais de Andréia - o que tem por consequência uma curiosa relação incestuosa: é irmão do filho de seu pai e da filha de seu pai adotivo, filho e filha que por sua vez sso marido e mulher. . . O incesto, se me entendem, está na cabeça dos mal-pensantes, o que não deixa de ser salutar.

3. Quando a telenovela iniciava sua luta pelos pontos do IBOPE, Luciano (Geraldo del Rey) foi contratado pela TV Tupi. Nos bastidores, então, começou outra luta. Quem dá mais? A Globo ou a Tupi? Ganhou a TV Tupi.

Recapitulemos. Geraldo del Rey era uma figura de capital importância em Véu de Noiva, de Janet Clair. Mas, antes que as situações se delineassem, para compreensão dos espectadores, Glória Magadan conseguiu aliciar Geraldo del Rey para outra novela, em outro canal. Cuja novela tem um nome bastante sugestivo: E nós... aonde Vamos? E eis que Geraldo del Rei é assassinado no Canal Quatro, para reparecer, não apenas vivo, mas vivíssimo, no Canal Seis!

Respondam-me agora: quem matou Luciano? Janete Clair, para não prejudicar a continuidade de seu trabalho, ou Glória Magadan, para atrair, juntamente com o IBOPE, o falecido Geraldo del Rey?

Quanto a isto, sou indiferente; só não quero que Renato seja condenado. E para que tal injustiça não se cometa, dou o nome do assassino. Senhores jurados, só pode ter sido o Censor!

(Escândalo. O Acusador protesta. A Defesa se inflama. O Réu está perplexo. Mas não desliguem agora a televisão, que esta é uma novela de um só capitulo).

Senhores jurados: diz a lógica dos fatos que o Censor matou Luciano. Muitos meses depois do assassinato de Luciano, e algumas semanas depois da estréia de E Nós... Aonde Vamos?, o Censor, o Indigitado Criminoso, reincidiu. Imaginem os senhores que foi lançada, aliás com grande e merecido estardalhaço, uma terceira novela, intitulada Pigmalião-70. E nessa novela há um personagem que, a fim de pagar dividas de jogo, torna-se ladrão da própria irmã! Até aqui, tudo me parece real... Mas o desfecho, ou anticlímax, dá vontade de chorar. Ouçam: o Censor impugnou a situação, a menos que, em quatro capítulos sucessivos, o irmão fosse punido pelo delito! Ouçam bem: quatro capítulos, e não três, nem 27, nem 432 mil!

Razão pela qual denuncio: quem matou Luciano foi o Censor. E se não foi, esperemos que seja castigado assim mesmo.

No comments:

Post a Comment

Followers