Saturday, March 15, 2014

1969 - Ibope

Revista: Realidade
Data de Publicação: 1/9/1969

IBOPE VERSUS TEVÊMETRO

Foi em 1935 que quatro americanos, entre eles George Horace Gallup, fundaram o Instituto Americano de Opinião Pública, com base em conhecimentos de estatística, psicologia e sociologia. Gallup dizia que era perfeitamente possível saber a opinião de toda uma comunidade sem entrevistar todos os seus membros. Afirmava que a teoria da probabilidade era aplicável aos cálculos estatísticos, refletindo a opinião media da população através de uma amostragem ponderada das preferências manifestadas.

Criado nos moldes do Instituto Gallup (como é popularmente chamado nos Estados Unidos o instituto Americano de Opinião Pública), o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatistica (IBOPE) adota os mesmos métodos de pesquisa.

O primeiro cuidado é a escolha dos representantes de cada grupo social, porque a opinião deles deve refletir a opinião média da população inteira. Esta escolha é feita ao acaso, exatamente para que não haja interferência na lei matemática das probabilidades. Em seguida, é preciso que o número de entrevistas seja significativo.

No Grande São Paulo, por exemplo, há cerca de 1,2 milhão de televisores. Doze mil entrevistas significariam 1% do total, o suficiente, dentro da técnica de amostragem, para uma boa previsão. Mas o IBOPE informa que entrevista cerca de 36 mil telespectadores semanalmente (3%) antes de declarar os tão temidos e respeitados índices de audiência.

Fundado em 1942, o IBOPE é uma organização particular que presta serviços de pesquisas comerciais, especialmente nos setores de opinião pública, mercado e veículos de propaganda (audiência de tevê, rádio, revistas e jornais). Como as pesquisas são sempre realizadas pela técnica da amostragem, utilizando relativamente poucas consultas, ninguém conhece muitas pessoas que já tenham sido entrevistadas.

Apontado como o grande ditador da televisão comercial, capaz de fazer e desfazer sucessos, riqueza, fracassos e pobreza, o IBOPE não patrocina, produz ou dirige qualquer programa, limitando-se a verificar os índices de audiência. Se os índices são usados para atrair patrocinadores, é por conta da estrutura comercial, não do IBOPE. Se funcionam como argumento junto às emissoras, é por conta das emissoras, não do IBOPE. Se são um incentivo à mediocridade, ao pauperismo mental, ao subdesenvolvimento, a responsabilidade é dos medíocres, dos pobres de espirito, dos subdesenvolvidos, tanto dos que exploram a passividade como dos que vêem televisão passivamente.

O problema é que, de vez em quando, certas pesquisas (mesmo feitas com toda correção), não revelam a verdade, por culpa dos pesquisados que respondem erradamente. Uma emissora de rádio que conseguiu o primeiro lugar de audiência em determinado horário estava fora do ar...

Em março do ano que vem, começa a funcionar o tevêmetro, um espião eletrônico, 40 centímetros de comprimento, 17 de largura e 20 de altura, exato e silencioso, ligado diretamente aos televisores escolhidos como base para a pesquisa (ainda segundo a técnica da amostragem). É um aparelho aperfeiçoado pelo publicitário brasileiro Hélio Silveira da Mota, que quer ter o registro eletrônico, em fita, de tudo o que foi sintonizado por centenas de aparelhos naquela semana. Essas fitas, analisadas por computadores, determinarão os índices (tal como o IBOPE), com a vantagem de estarem livres da falha humana..

A principal vantagem, segundo Silveira da Mota: ninguém pode dizer que viu o que não viu. E vice-versa.

De qualquer forma, dentro da atual estrutura comercial da tevê, os índices continuarão ditando ordens. Por exemplo: foram eles que fizeram de Ilia Kuriaki o mocinho principal, passando para trás o herói Napoleon Solo. É que, segundo os índices, as mulheres americanas preferiam, entre os agentes da UNCLE, o loiro alto e bonitão.

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