Saturday, March 15, 2014

1968 - Novela Antônio Maria, da Tupi

Revista: VEJA
Data de Publicação: 11/9/1968

ANTÔNIO MARIA
Um motorista que veio de Lisboa divide os portuguêses do Brasil

Os portuguêses que moram no Rio, em São Paulo, Minas e no Rio Grande do Sul estão divididos por causa de um motorista particular, de nome Antônio Maria e bigodes grandes, que toda noite aparece nos vídeos. A telenovela "Antônio Maria", das Associadas, está tendo muito sucesso nos quatro Estados em que é programada, mas há portuguêses que se queixam - e até brasileiros de origem portuguêsa. Por exemplo Alves Pinheiro, brasileiro, lusófilo, diretor do jornal "Mundo Português" do Rio: "Antônio Maria não é a alma do povo no coração de um homem, como sustenta a publicidade da telenovela, mas um tipo depreciativo, um português de anedota". Preocupado com críticas e protestos de patrícios, o Comendador Francisco Pereira Botelho, presidente da Federação das Associações Portuguêsas do Brasil, com sede no Rio, assistiu a alguns capítulos da telenovela. Achou criticáveis apenas o sotaque de Antônio Maria "e certos têrmos que um homem de sua categoria social raramente empregaria, como pois, pois". Há quem não se conforma com a profissão humilde de Antônio Maria. "Mas verifiquei", diz o Comendador Botelho, "que o môço, mesmo sendo empregado, é o mais digno, o mais culto e o mais querido da casa".

Tôda novela tem mistério - Nascido em Lisboa, Antônio Maria vem tentar a sorte no Brasil, onde se emprega como motorista particular na casa do Dr. Adalberto, dono de uma cadeia de supermercados de São Paulo. Logo ganha a confiança do patrão, que passa a tratá-lo como um amigo e lhe permite usar os automóveis da família nas horas de folga. E ganha mais: a amizade das filhas do Dr. Adalberto, que, naturalmente, se apaixonam por êle. Outro imigrante português, dono de uma panificadora, oferece-lhe sociedade, mas Antônio Maria, inexplicàvelmente, prefere continuar como empregado. Por que motivo Antônio Maria quer ficar na casa do Dr. Adalberto? Que vida êle levava em Portugal? Por que aceitou um emprêgo humilde sendo um moço de trato fino? Terá êle deixado alguma namorada em Lisboa? Enquanto os próximos capítulos não respondem a essas perguntas, o vice-cônsul de Portugal em São Paulo, também solicitado por queixas de patrícios, tenta uma previsão: "Tenho certeza de que no fim ficará eslcarecido que Antônio Maria é uma personalidade diferente, bem importante".

Um ator à procura do personagem - Para ser Antônio Maria, o ator Sérgio Cardoso (que ficou famoso no teatro interpretando "Hamlet") põe bigodes na hora de entrar em cena. Juntamente com Geraldo Vietri, autor e diretor da telenovela, Sérgio Cardoso conversou com dezenas de portuguêses de tôdas as categorias: desde o cônsul e o vice-cônsul de Portugal em São Paulo até donos de bares e armazéns, todos contribuíram para que seu personagem tivesse o vocabulário e o sotaque lisboetas. Antônio Maria chama automóvel de "máquina", terno de "fato", as môças de "meninas" e o patrão de "vossa excelência". Mas por causa do seu sotaque, não conseguiu melhor emprêgo que o de motorista. Várias vêzes na telenovela Antônio Maria repete uma denúncia: "Os portuguêses que chegam ao Brasil nunca encontram empregos compatíveis com seu grau de instrução". O Comendador Juliano Cancela, da Rocio Imobiliária S.A. (Rio), diz que isso pode ser verdade."Eu próprio cheguei ao Brasil com o curso ginasial completo e fui carregar sacos de arroz na rua Acre." Muitas personalidades de destaque na colônia lusa do País já passaram por esta provação. A telenovela não leva em conta que os critérios de seleção de imigrantes não prevêem a profissão de motorista. Mas, em Portugal, "dá-se um jeito", segundo o Itamarati: qualquer português pode alegar "reunião de família no Brasil". "Antônio Maria" terá duzentos capítulos; pode chegar a trezentos, se agradar muito.

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