Tuesday, March 18, 2014

1978 - BBC Á Beira da Falência

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 2/11/1978
Autor: Robert Dervel Evans
BBC À BEIRA DA FALÊNCIA
Concorrência comercial está matando a televisão oficial inglesa


Londres - A British Broadcasting Corporation está com sérios problemas. Funcionando com um déficit de 12 milhões de libras, estará na bancarrota dentro dos próximos três meses se o Governo não autorizar um aumento nos impostos de serviço, dos quais a empresa depende quase inteiramente. Foi o que anunciou esta semana Alisdair Milne, gerente administrativo da BBC, que disse à imprensa que sua corporação está perdendo pessoal técnico e especializado em números crescentes para as companhias de rádio e televisão comerciais.

Com um ou mais aparelhos de televisão em todos os lares britânicos, o nível anual da taxa de serviço, que é hoje de 21 libras - a BBC pede um aumento para 30 - tem implicações políticas. O Primeiro-Ministro Callaghan teme que seu Partido Trabalhista perca votos, num ano de eleições, autorizando um aumento de 50% numa época em que ele afirma que a taxa de inflação foi posta sob severo controle, ficando a menos de 9%.

Em contrapartida, as companhias comerciais de televisão, cujas rendas provêm exclusivamente da publicidade, desfrutam de excepcional prosperidade. Lorde Grade e sua Associated Television Company (ATV) - hoje rebatizada de Associated Communications Corporation, após a fusão com o grupo EMI, chefiado por seu irmão Lorde Delfont - anunciou um investimento britânico de 100 milhões de libras na produção de 22 novos filmes para a televisão e o cinema.

Entre os astros que ele contratou para suas produções estão Orson Welles, Farrah Fawcett-Majors, Sophia Loren, Roger Moore, Bob Hope, Kirk Douglas, David Niven, Marcello Mastroanni, Mel Brooks e Elliott Gould. Entre os diretores e produtores, Franco Zeffirelli, Ingmar Bergman, John Schlesinger, Lina Wertmuller, Stanley Donen e Allan Carr, que fez fama com o filme Nos Tempos da Brilhantina.

Os dois Lordes do mundo do entretenimento britânico Chegaram à Inglaterra como imigrantes judeus, ainda crianças. Chamavam-se então Grabowsky, nome que foi posteriormente anglicizado para Grade. O êxito deles levou-os aos títulos 'nobiliárquicos, e passaram a ser Lorde Grade e Lorde Delfont. Após consolidarem seu domínio nos campos do cinema e da televisão na Grã-Bretanha, eles invadem agora o mercado americano, o mais rico do mundo.

Para isso, formaram sua própria organização distribuidora, chamada Associated Film Distribution Corporation, já uma força nos mercados americano e canadense. Entre seus diretores, estão Martin Starger, presidente das Transatlantic Enterprises, de Lorde Grade, que se destacou antes em produções da TV americana (Roots, por exemplo), e Jacob Rothschild, diretor do fundo de investimento Rothschild. O ambicioso programa de Lorde Grade, com seu elenco de astros e estrelas para consolidar sua posição no mercado americano, incluirá um filme sobre a cantora de ópera Maria Callas, dirigido por Zeffirelli, e adaptações cinematográficas dos romances Raise the Titanic, Chinese Bandit, Green Ice e The Scarlatti Intheritance.

A carreira de Lorde Grade não é muito diferente da de Lorde Thomson, mas em sentido inverso. O falecido Roy Thompson chegou à Inglaterra, vindo do Canadá, já sexagenário, para investir os milhões de dólares que ganhara com jornais e televisões americanos e canadenses em atividades idênticas na Grã-Bretanha. Terminou como proprietário do Times, do Sunday Times, de uma lucrativa companhia de televisão na Escócia, e de uma importante participação nos campos de petróleo do Mar do Norte. Lorde Grade é ainda mais aventureiro. Tem 72 anos ao embarcar na conquista do mercado cinematográfico na América do Norte.

1978 - RBS no Paraná

Coojornal
Data de Publicação: 1/10/1978
TV: BRIGA PELO MERCADO DO EXTREMO-SUL

O título de Amigo do Rio Grande, conferido ao governador nomeado do Paraná, Ney Braga, ex-ministro da Educação, pelo grupo gaúcho, Rede Brasil Sul de Comunicações, aparentemente não passaria de um simples registro de página inteira no início de outubro, no jornal Zero Hora. Por trás dele, entretanto, há uma jogada empresarial do senhor Maurício Sirotski, diretor-presidente da RBS, que dá andamento a seus sonhos de expansão nos três Estados da região sul do Brasil.

Proprietário de nove canais de televisão no interior gaúcho (Caxias, Bagé, Pelotas, Uruguaiana, Rio Grande, Santa Maria, Erexim, Cruz Alta e Passo Fundo), mais o Canal 12 em Porto Alegre, (ligado à Rede Globo), além de quatro emissoras de rádio (Gaúcha, Metrópole, Porto Alegre e Gaúcha-FM), Sirotski agora quer concessões no Paraná. E para isso, certamente, boas relações com Ney Braga serão muito úteis.

Em Santa Catarina, onde deve colocar no ar a TV Catarinense, em meados do próximo ano, Sirotski já fez a indispensável ponte para entrar também no Paraná. Ele já comprou a concessão de Joinville, que era de um grupo de empresários locais, e briga com o grupo paranaense do industrial Mário Petrelli - muito ligado a Ney Braga - (dono da TV Coligadas, de Blumenau e Jornal de Santa Catarina) para conquistar o terceiro canal de Florianópolis, a TV Barriga Verde. Enquanto isso, Petrelli já trata de garantir o canal da cidade de Lages.

Mas com a entrada no ar da TV Catarinense, Sirotski deverá atingir diretamente a TV Coligadas, do grupo de Mário Petrelli, uma vez que esta tem contrato com a Rede Globo somente até junho de 1979. E como ninguém acredita na possibilidade de a TV Catarinense ficar sem a programação da Globo, como ficaria a situação da Coligadas, futuro canal de Lages e talvez o outro, de Florianópolis?

Espera-se, então, por novos lances. Da parte de Sirotski, evidentemente - que deverá jogar novas cartas na mesa, nos próximos meses, obstaculizando, ou pelo menos tentando fazer isso, com relação ao grupo Petrelli. Mário Petrelli, homem forte no Paraná, amigo de Ney Braga - é dono de três emissoras de rádio e um canal de televisão - associou-se ao Diário do Paraná. Por isso os estupefatos catarinenses ligados ao rádio e à televisão acreditam que não foi um mero acaso a concessão do título de Amigo do Rio Grande ao governador nomeado do Paraná, Ney Braga. Sirotski já teria feito sua jogada mais forte, comentam.

Mas a briga não pára por aí. Também no setor de rádio e imprensa ela já tem seus reflexos. Em fins de setembro, dava-se como certo em Porto Alegre que a RBS comprara a Rádio Diário da Manhã, de Florianópolis. Na capital catarinense, o diretor da rádio, coronel Alcides Simões, afirmava, entretanto, que o grupo de Mário Petrelli, que já era sócio na emissora, havia adquirido o controle acionário. Além disso, com a transferência do maquinário antigo do jornal Zero Hora para Florianópolis,a guerra do gigantismo das comunicações passa também para o setor impresso. Petrelli tem o Jornal de Santa Catarina, que já foi o melhor do Estado - mas que hoje não passa do jornal oficioso do governo.

No meio de tudo, os empresários catarinenses estão perplexos com a situação, assistindo em posição um tanto incômoda a luta entre gaúchos e paranaenses. Tanto é assim que Darcy Lopes, diretor da TV Cultura, de Florianópolis, teria tentado passar o controle da emissora à Companhia Jornalística Caldas Júnior, de Porto Alegre, que não aceitou.

1978 - Roberto Marinho Bota a Boca

O Globo
Data de Publicação: 3/9/1978
Roberto Marinho
O ÚNICO MONOPÓLIO ADMISSÍVEL NAS COMUNICAÇÕES: O DA CONFIANÇA E DO RESPEITO DA OPINIÃO PÚBLICA

Roberto Marinho, chefe do complexo jornalístico Globo, responde ao General Otávio Costa em algumas de suas declarações feitas recentemente na ESG

O nosso companheiro Roberto Marinho, que há mais de meio século assumiu as responsabilidades do GLOBO e posteriormente as do Sistema Globo de Rádio e da Rede Globo de Televisão, em carta endereçada ao seu amigo, General Otávio Costa, que foi Assessor-Chefe de Relações Públicas do Presidente Médici e que atualmente é o Comandante da 6ª Região Militar, procurou esclarecer alguns pontos da conferência feita pelo ilustre chefe militar na Escola Superior de Guerra. Simultaneamente ao envio da carta, uma cópia foi lida pelo telefone para o General Otávio Costa, com o pedido de que autorizasse sua publicação, ao que ele acedeu pronta e cordialmente. A carta é a seguinte:

"Prezado e Ilustre Amigo General Otávio Costa,

Com a atenção e o apreço que me merecem, li a íntegra de sua conferência na Escola Superior de Guerra, por ocasião do painel ali realizado em torno do tema "Televisão e Educação". E escusado acentuar o que terá sido a sua contribuição para o debate e o esclarecimento de assunto que tão de perto interessa à opinião pública e, em particular, a todos nós que temos o privilégio e a responsabilidade de lidar com os meios de Comunicação.

No dia seguinte à sua palestra, quarta-feira - 30 de agosto, O GLOBO teve oportunidade, por isso mesmo, de divulgar com todo e merecido destaque a íntegra do seu documento. Infelizmente, de acordo com o regulamento da ESG, a segunda parte do referido painel só veio a público, o que me permite supor que alguns de seus conceitos terão tido, no debate a viva voz com os estagiários, o indispensável desdobramento que estão a reclamar, para que deles não se possa fazer idéia distorcida, com um conseqüente julgamento severo e até mesmo injusto para com a televisão brasileira.

Tendo dirigido por quatro anos a Assessoria de Relações Públicas da Presidência da República, no Governo Médici, seu nome e sua vida estão familiarizados com o mundo da Comunicação, de que o prezado Amigo é atento estudioso há vários anos, tendo mesmo passado pelo magistério, nesse setor, da Universidade Federal de Brasília. Estes títulos, por todos reconhecidos ampliam a responsabilidade de um oficial superior que naturalmente acompanha a nossa evolução social, em particular no que diz respeito à Educação.

Li com especial satisfação a sua afirmativa final de que somente os caminhos da liberdade são capazes de fazer da televisão um instrumento da dignificação do homem. E sempre confortador encontrarmo-nos identificados em assunto de tal magnitude, quando se trata de formular uma política nacional para a televisão e, no caso, para o incalculável auxílio que ela pode dar á causa da Educação.

Após a erudita introdução teórica, em que ficou claro que no Brasil as autoridades optaram por um sistema de televisão com base na organização pluralista total, de índole francamente democrática, na convivência respeitosa de estações privadas e públicas (ou estatais), entendo que a conclusão só podia ser a que está na sua com conferência, ou seja, que a opção brasileira para a tv "é coerente com as opções econômicas adotadas pela nação brasileira".

Em seguida, não é sem algum perplexidade que encontro afirmativas difíceis de separar do que vem sendo uma espécia de monótono libelo contra a atuação da televisão entre nós. No que diz respeito à Rede Globo, que há treze anos, desde 1965, vem lutando incessantemente pela sua consolidação, não tenho duvida de que, em certos meios de prévia má vontade, têm sido deixados de lado aspectos francamente positivos para o aprimoramento de um veiculo complexo e novo como é a televisão,

O meu prezado Amigo conhece perfeitamente como se constituiu o grupo de empresas que, há mais de meio século, venho pessoalmente dirigindo, com o apoio de mais de uma geração de profissionais e de várias equipes de dedicados e competentes especialistas. Há 53 anos, como sabe, a morte prematura de meu Pai, Irineu Marinho, entregou-me de chofre a grave responsabilidade de continuar uma trajetória profissional que hoje compete à História julgar. Muito jovem, ainda na casa dos vinte anos, entreguei-me de corpo e alma ao jornal que tem sido a fundamental razão da minha vida, sem que dele me apartasse em nenhum momento, a qualquer pretexto. Profissionalmente, posso dizer, sem jactância, mas tão só em nome da verdade dos fatos, que a minha vida se confunde com a vida do jornal de que sou, com inexcedível honra, o Diretor-Redator-Chefe.

As grandes e velozes transformações por que passa o mundo moderno alcançaram, com peculiar impacto, também o mundo da Comunicação. Não será preciso deter-me na análise do que tem sido a evolução da imprensa aqui e no exterior graças a uma série de fenômenos que se por um lado concentrou o número de jornais, por outro lado deu-lhes recursos técnicos e materiais para se organizarem solidamente em empresas capazes de assegurar a livre circulação da notícia e da informação. Nenhum observador isento deixará de reconhecer o que tem significado esse progresso para a Formação de uma opinião pública independente, tão essencial ao regime de livre debate em que se devem sustentar as desejadas instituições democráticas estáveis e ordeiras.

Atento às inovações de todo gênero, chegadas as vezes de maneira abrupta e até perturbadora, O GLOBO tratou sempre de incorporar a mais moderna tecnologia da impressão, mas jamais se esqueceu de organizar, formar e estimular os quadros humanos profissionais em que repousa o acerto da missão jornalística. A força das circunstâncias, que não nos cumpre modificar, levou-nos, cada dia, a procurar aprimorar O GLOBO, transformando-o no jornal que é hoje, reconhecidamente um líder da imprensa brasileira e que, sem jactância, tem o seu lugar entre os grandes jornais do mundo.

Foi esse mesmo desejo de modernização que nos levou a complementar o trabalho do jornal com a verdadeira revolução que significou o advento do rádio, assim que conquistou condições para ser o importante veículo de massa em que se transformou. A Rádio Globo foi e é, neste sentido, uma estação pioneira, a que se juntaram outras emissoras, até formar-se, com sacrifício e obstinação, o que é hoje o Sistema Globo de Rádio, legalmente constituído dentro dos padrões profissionais, técnicos e morais estabelecidos pelas autoridades competentes. Graças a um grupo numeroso de profissionais sempre abertos à inovação, sem jamais perder de vista o caráter e o espírito públicos inerentes à radiodifusão, contamos hoje com mais de trinta anos de experiência no setor e granjeia a simpatia e o apreço de um imenso público perfeitamente livre de escolher entre as várias opções que lhe são oferecidas, não apenas na parte da informação como também no setor do entretenimento e da instrução.

Atuando no campo da Comunicação como assim há tantos anos vem atuando, seria, como foi, perfeitamente natural e lógico que o mesmo grupo Globo se interessasse por um setor de vanguarda como era e é ainda hoje a televisão. Recorde-se o ilustre Amigo que, há treze anos, quando pusemos no ar o sinal do Canal 4 TV Globo do Rio de Janeiro, a televisão já existia entre nós, nas principais praças do país, há três lustros, desde 1950.

A legislação que regulamenta o sistema de concessão independe de nossa vontade, nem é susceptível de ser modificada segundo eventuais interesses desse ou daquele concessionário. Para iniciar o que, naquela altura, a muitos amigos parecia uma aventura arriscada, sem futuro garantido, tratamos de habilitar-nos junto ao Poder Executivo e, preenchendo os requisitos regulares, investimos com o máximo de confiança num veículo que até aquele momento não tinha oferecido exemplo de solidez empresarial e confortável lucratividade.

A televisão era, porém, um desafio fascinante, a que não podia estar estranho quem há quarenta anos se esforçava por acompanhar a rápida evolução dos meios de Comunicação. Firmada a duras penas a estação geradora no Rio partimos com prudência e espírito pioneiro para o que viria ser o sistema nacional de cadeia com que hoje existe e funciona, em termos nacionalmente inéditos, a Rede Globo de Televisão. Os progressos técnicos avançam a cada dia, com equipamentos de alto custo e sofisticada complexidade.

Tanto no setor do telejornalismo, como na parte do entretenimento, a Rede Globo impôs-se ao respeito do público e granjeou a espontânea simpatia de emissoras que com ela vieram a trabalhar em regime de associação, guardadas as respectivas autonomias de cada estação afiliada.

Seria longe cansativo enumerar o que tem sido e o que tem representado o trabalho da Rede Globo, não apenas pela sua atuação direta, como principal fonte de informação e de lazer do Brasil de hoje, como também pela contraprestação de serviço que lhe incumbe desenvolver e desempenhar, segundo a consciência de seu dever para com o inseparável caráter social de sua atividade. Neste sentido, o programa de educação que vimos desenvolvendo, a par de campanhas de sentido comunitário, desafia paralelo com o que quer que tenha sido feito antes ou se esteja agora fazendo entre nós no Brasil. Só o Telecurso de 2° Grau, a cargo da Fundação Roberto Marinho, em convênio com a Fundação Padre Anchieta, tem hoje uma larga audiência popular até aqui sem escolaridade e transmitido que é, simultaneamente, por quarenta emissoras de todo o Brasil. Dez estações educativas, de propriedade estatal, pela primeira vez se unem e se associam espontaneamente à Rede Globo, nesse esforço em prol da Educação aberta a contingentes tão numerosos como até há pouco seria impensável servir.

O êxito da Rede Globo não exclui nem limita o sucesso de estações ou redes que operam no mesmo campo, em igualdade de condições. A competição neste; como em outros terrenos, só pode ser um estimulo saudável, na disputa positiva de melhor servir ao público, sem perda dos altos objetivos que norteiam qualquer veículo responsável, consciente de seu poder limitado e de sua nobre missão. A Rede Globo jamais pretendeu, por isto mesmo, qualquer situação de privilégio que resguardasse para si prerrogativas que não estejam democraticamente abertas a todas as empresas do ramo, segundo a legislação vigente, oriunda de critérios superiores que seriam inconciliáveis com vantagens pessoais ou de grupo.

Respeitada no Brasil e no exterior, com programas de sua produção hoje presentes em mais de cinqüenta países, a Rede Globo obedece à mesma orientação e às mesmas diretrizes que estão na origem e na já longa vida de O GLOBO tanto quanto no Sistema Globo de Rádio. São mais de cinco decênios, é mais de meio século de uma existência empenhada em conquistar e consolidar o que nenhum capital compra, ou seja, a confiança da comunidade. Não temos qualquer vinculo direto ou indireto, ostensivo ou encoberto, com grupos estrangeiros ou de caráter internacional. No caso da Rede Globo, temos insistido no caminho de ampliar e aprimorar a nossa própria produção de programas, de forma que possamos, como temos podido, liberar em boa e crescente parte o fornecimento de filmes e seriados de procedência estrangeira, especialmente americana.

O investimento em produção e programação rivaliza assim com o que de melhor se faz nos países adiantados e alcança cifras consideráveis, dentro de um orçamento cada vez mais oneroso. Os recursos indispensáveis a esse investimento, como todos os demais que se aplicam, por exemplo, na formação profissional de equipes sempre mais numerosas, provém de fontes conhecidas e normais, exatamente como acontece com todas as empresas de comunicação que no Brasil pautam a sua atividade pelo caminho legal.

Como o nobre Amigo não ignora jornais, rádios e televisões encontram na Publicidade o principal item de sua receita. E nem poderia ser de outra forma, dentro do regime da opção brasileira, que é, como acentua a sua conferência, a da livre iniciativa, sem a monstruosa ingerência do Estado totalitário que liquida a sociedade aberta e plural. A suposta influência dos que detêm as verbas de publicidade, que alguns espíritos pouco informados vão ao ponto de admitir que seja capaz de controlar a opinião dos veículos de Comunicação, não passa de uma vã hipótese que não tem base na realidade e que os fatos não confirmam. É antes uma fantasia, um exercício inconseqüente, muito caro aos que se recusam a crer na sociedade democrática sustentada na liberdade de iniciativa, tal como existe nos países da Europa Ocidental e nos Estados Unidos. Quem ousaria dizer que não é livre a imprensa norte-americana, simplesmente porque os jornais ali retiram os meios de subsistência da mesma publicidade comercial que se quer condenar entre nós?

Creia meu caro General, que é para nós muito honrosa a posição de liderança com que a sua conferência nos brindou, quando se referiu ao "império de comunicação", constituído pelo jornal, pelas estações de rádio e pelas emissoras de televisão que constituem o Sistema Globo, sob a minha direção pessoal. Não veja nisso, porém, senão o reflexo de um longo e pertinaz esforço profissional, que tem contado com o devotamento e a competência de milhares de companheiros, numa sucessão de sacrifícios que já se contam para além de meio século de vida. O sucesso não se improvisa, sobretudo nesse terreno delicado e extremamente sensível que é o da Comunicação.

De nossa parte, temos a certeza de que conhecemos as armas leais com que lutamos e continuamos a lutar. E estas armas estão ao alcance de todos os que estejam dispostos a empenhar-se com seriedade e constância no progresso da Imprensa, do Rádio e da Televisão no Brasil. A lei é feita para todos, como deve ser. Seria inconcebível, para recorrer à expressão de conhecido homem público, que o Estado se visse na contingência de punir a eficiência, preferindo retardar o passo dos que caminham com segurança a, por meios legítimos e até louváveis, estimular indiscriminadamente todos os que espontânea e livremente se decidiram a trabalhar no difícil e áspero caminho da informação independente.

Permita-me ainda acrescentar uma palavra sobre a alegação de monopólio, com que freqüentemente o preconceito e a incompreensão têm procurado atingir a presença da Rede Globo no quadro da televisão brasileira. Que é monopólio? Nesta época de tantas confusões, quando um eminente critico já diagnosticou uma "crise de dicionário" com tantas palavras enlouquecidas, nada como recorrer à ajuda de um especialista, o professor Aurélio Buarque de Holanda, que no seu acreditado Dicionário Aurélio, página 947, 2ª coluna, assim define:

MONOPÓLIO (Do gr. monopólion, pelo lat. monopolium.) S.m.

1. Tráfico, exploração, posse, direito ou privilégio exclusivos. 2. Açambarcamento de mercadorias para serem vendidas por alto preço.

Vejamos outro grande dicionário, o de Caldas Aulete:

MONOPÓLIO, s.m. privilégio que o governo dá a alguém para poder sem competidor explorar uma indústria ou vender algum gênero especial: O governo acabou com o monopólio do tabaco. Comércio abusivo, que consiste em um individuo ou corpo coletivo se tornar único possuidor de um determinado gênero de mercadorias para, à falta de competidores, poder depois vendê-lo por preço exorbitante; abarcamento, açambarcamento. Os marchantes fizeram monopólio da carne para a venderem pelo preço que lhes apraz. // Posse exclusiva, propriedade de um só: Seria o governo e a direção das sociedades o monopólio da ignorância, o privilégio da mediania? (Lat. Coelho.) // F.gr. Monopolion (venda única, privilégio de comerciar).

Seria o caso de perguntar e pesquisar onde se esconde qualquer dessas figuras ilícitas na intensa e extensa atividade de um jornal que não é o único do pais, de um grupo de estações de rádio que não pretendem falar sozinhas para um público cativo e de uma rede de televisão que disputa, dia a dia, palmo a palmo, em cada região do nosso vasto pais, a preferência de um público só conquistável pela qualidade da programação. Na verdade, só uma forma de monopólio é admissível na moderna democracia — a da confiança e do respeito da opinião pública.

Conheço as intenções de muitos críticos preconceituosos que, diariamente, pretendem desencorajar o justo crescimento de uma organização que espelha o crescimento do nosso próprio país.

Mas, lamentaria muito que homens isentos e da sua qualificação se deixassem influenciar por tais distorções sobre uma obra que devia, pelo contrário, só receber estímulos da parte dos homens públicos, o mesmo estímulo que recebemos diariamente da grande maioria do povo brasileiro e, já agora, do público de meia centena de países estrangeiros.

Certo de ter contribuído para ilustrar, com a minha experiência profissional, um debate que sô se pode travar com isenção e objetividade, quero pedir ao eminente Amigo a devida licença para divulgar esta carta, com o único intuito de ainda uma vez procurar esclarecer aos que, como nós, estão permanentemente preocupados com o destino de nossa sociedade, intimamente ligada à opção que faça de seus livres e independentes meios de Comunicação.

Não tenho dúvida de que, controvérsia à parte, estamos de acordo nos pontos essenciais, assim como também estamos voltados para o aprimoramento da cultura e da educação de um povo ainda tão carente como é o nosso generoso povo brasileiro. Nenhuma competência, em qualquer terreno que opere, deixa de ser útil a esse mesmo povo, sobretudo quando a qualidade profissional se distingue, pelos seus méritos, em atividade como é a da Comunicação e segundo o regime da livre concorrência respeitada a igualdade de oportunidades.

Sinto-me à vontade para afirmar, que tenho orgulho da obra realizada pelas empresas de Comunicação sob a minha direção, porque sei que delas se orgulham os brasileiros que lhes dão preferência, ou que simplesmente as prestigiam, tanto quanto sei que elas são o resultado de uma imensa cadeia de esforços,de uma soma de capacidades profissionais que dão ao própio êxito uma dimensão social, de perfeita e feliz impessoalidade.

Aproveito a oportunidade para reafirmar-lhe, de maneira muito cordial, a expressão do meu apreço e do respeito pela sua contribuição à vida pública de nossa Pátria.

Afetuosamente,

Roberto Marinho"

1978 - Mais Profissionais Contra Dancin' Days

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 29/8/1978
 [carta]
DESINIBIÇÃO

Em nome dos profissionais de relações públicas, vimos repudiar o conceito errôneo emitido no capitulo da novela Dancin'Days apresentado dia 25 de julho às 20 horas pela TV Globo, quando o personagem Jofre, que não tem maior nível de escolaridade nem, muito menos, formação profissional especializada, e "ganha" a vida na prosaica atividade de alugador de cadeirinhas de praia em Copacabana, recebe entusiasmado o convite de um amigo para assumir a função de relações públicas de uma discoteca, unicamente pelas virtudes de ser uma pessoa "desinibida", bem falante e de bom relacionamento.

E' inconcebível que um jornalista, novelista, escritor ou qualquer pessoa de instrução superior desconheça que os profissionais de relações públicas são formados em universidades, na área de Comunicação Social, em curso regular, com a duração de quatro anos. Pressupondo que se ignore quais sejam as atribuições especificas da profissão, anexamos uma cópia das principais atividades exercidas pelos relações públicas, quer nas empresas de iniciativa particular, estatais ou nos órgãos dos Governos federal, estadual e municipal, e a definição de relações públicas: "Relações públicas é a atividade e o esforço deliberado, planificado e continuo para estabelecer e manter compreensão mútua entre uma instituição pública ou privada e os grupos e pessoas que estejam, direta ou indiretamente, ligadas".

Para que não se repita o lamentável lapso de ignorar uma atividade profissional de nível superior, recomendamos que se tome conhecimento da legislação vigente, ou seja, dos termos da lei nº 5 377, de 11 de dezembro de 1967, regulamentada pelo decreto nº 63 283, de 26 de setembro de 1968. - [ass.] - Rio de Janeiro.

1978 - Profissionais contra Dancin' Days

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 21/8/1978
[carta]
PROFISSIONAIS DEPRECIADOS

A propósito da telenovela Dancin'Days queremos tecer alguns comentários, no sentido de esclarecer fatos que para nós têm grande importância. A Fisioterapia aborda a saúde com as mesmas apreensões e preocupações que a Medicina, Psicologia, a Odontologia etc. Deve ser tratada, por isso, com dignidade, a fim de que as questões da saúde sejam discutidas de forma real, sem mistificar, sem iludir nem confundir. Dancin'Days vem abordando a Fisioterapia e mergulhando numa grande confusão a população, que em última análise é a beneficiária do trabalho dos fisioterapeutas. A confusão com Educação Física, com Fisioterapia de cursinhos e com outras coisas é prejudicial a todos: à população, à Educação Física e à Fisioterapia. Os fisioterapeutas entendem que a sua profissão deve ser tratada como ela é e, logicamente, como eles pretendem que ela venha a ser. Isso inclui obrigatoriamente a abordagem da luta dos fisioterapeutas contra o exercício ilegal da sua profissão e pelo fortalecimento das entidades que defendem o exercício e a dignidade profissionais. Na vida, a profissão ainda é exercida ilegalmente como retrata Dancin'Days, em meio a grande confusão. Pessoas não habilitadas e sem a formação necessária e obrigatória agem em nome da Fisioterapia, em prejuízo da saúde da população. Na verdade não fazem Fisioterapia, uma vez que a correta prescrição e a execução da mesma envolvem um grau de complexidade somente acessível quando se detêm eficazmente os conceitos de anatomia, de fisiologia e da patologia. Nesse processo muitas vezes o nome da profissão é atingido e o profissional depreciado em sua verdadeira formação. E o pior é que a saúde dos que procuram tratamento é ludibriada. É justo que se informe que a profissão é reconhecida por lei através do Decreto-Lei 938 de outubro de 1969, dispõe de Conselho Federal e Conselhos Regionais, sendo por isso mesmo classificada como de nível superior e atualmente com um currículo de quatro anos nas universidades e nas escolas isoladas. - [ass.] - 22 assinaturas - Rio de Janeiro.

1978 - Censura em Dancin' Days

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 15/8/1978

DISSIDENTE ESTRÉIA EM NOVELA E É CENSURADO

Diante da televisão, o Senador Magalhães Pinto frustrou-se ontem à noite, ao ver que não seria exibida, naquele dia, a cena que gravou para a novela Dancin'Days. Ele lamenta que na passagem em que aparece - a inauguração de uma discotheque - foi censurado um trecho: "Foi numa hora em que uma moça chega para mim e diz: "se pudesse votar para Presidente, votaria no senhor.

Ao lado do marido, Dona Berenice também aguardava a cena e criticava o fato de "um homem como o Magalhães, um Senador da República, ter concordado em aparecer na televisão numa boate".

Fica firme - respondeu o Senador "que até eu chegar à Presidência, tenho que fazer essas coisas".

O Sr Magalhães Pinto contou que vinha chegando de Curitiba, de uma concentração da Frente Nacional pela Redemocratização, quando lhe telefonou uma amiga de suas filhas fazendo o convite para que gravasse a cena em que é inaugurada a discothèque Club 19 da novela Dancin'Days. "Eu fui. Por que não? Sou um homem que vivo em boates", brincou o Senador com Dona Berenice.

1978 - Dancin' Days No Ar

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 14/8/1978
Autora: Maria Helena Dutra
NOVA IORQUE PARA CENÁRIO
Basta de intermediários

Os moradores de Duque de Caxias ou Itumbiara podem respirar aliviados. Jamais serão amolados por filmagens em seus domínios e podem, no conforto dos próprios ou alugados lares, realizar mil e uma viagens no mundo agora sem fronteiras das telenovelas. Elas tiveram, e alguns poucos teimosos ainda insistem neste atraso, fase muito nacionalista, mas já superaram esta cafona limitação e agora se lançam, de vez, no doce gosto do cosmopolitismo desvairado. Não tendo o entrave do depósito compulsório, voltam a explorar o mundo deixando para trás os aborrecidos problemas de um pais cujo futuro não chega nunca. É óbvio que cada um segue a moda como pode. A pobre peregrina Tupi, sem muitos incentivos fiscais, tem mesmo de se contentar em pintar de México o fundo de seu quintal paulista para berço daqueles que, dizem, têm o direito de nascer.

Em outro e bem mais régio estilo, a Globo parte de vez para seguir o lema governamental — será que ainda está em vigor? — de que exportar é a solução. No seu caso, atores em vilegiaturas várias. Ela que já andara, em tempos mais humildes, passeando muito por Portugal, dá agora passaportes mais constantes para os seus núcleos voarem. Gina já andou pelos Estados Unidos para arranjar um marido brasileiro. Isto parece que não está dando muito por aqui. A próxima novela das sete será iniciada — não é podre de chique? — em Paris. Abertura em Roraima fica só para as aventuras das autarquias. Até o Buby Mariano, quem diria, deu seu saltinho de felino na falecida novela das 10, numa viagem. De mentirinha, mas bastante eficaz para dar sofisticação a uma chantagem que em Nova Iorque, perderia todo o charme.

O mais engraçado, porém, desta internacionalização tão fina, está acontecendo em uma novela que se passa em Copacabana mas faz um esforço tremendo para ignorar que este bairro ainda está na América do Sul. O título é em inglês e até engraçadinho: Dancin'Days, e pena que os atores ainda falam português. Um dia conseguirão contornar este problema. Como a novela de Gilberto Braga está na primeira etapa, sua trilha sonora forçosamente é nacional. Mas manda o devastador marketing da estação que na segunda fase entrem apenas lançamentos internacionais para vender o outro disco especifico. Neste momento, então, a ilusão e o padrão poderão enfim quase chegar à imitação completa.

E como se esforçam todos para parecer que estão fazendo filme da Fox da década de 50. A moça ex-prisioneira — Sônia Braga deslocada e feia num papel que, se plausibilidade existisse no mercado novelístico, teria que ser feito por atriz bem mais velha — parece saída de uma cadeia digna de Eleanor Parker e tem todos os seus problemas minorados pela rápida conquista de uma família quase sem pecado original e de um namorado diplomata. Igualzinho ao que acontece costumeiramente às egressas do Talavera Bruce ao retornarem a nossa sadia sociedade. Esta, porém, lhe deve muito mais ainda, e pagará sem dúvida, por a ter condenado a 22 anos de prisão por assalto e atropelamento. Um castigo único, por sua severidade, no direito brasileiro para semelhantes delitos.

Pelo tema central, já dá para notar como a telenovela procura ser realista e nacional. Sob o ponto-de-vista evidente, do cinema americano que lhe serve de mapa-guia. Influência que, muito honestamente, fazem questão de mostrar a partir da abertura na qual só falta Travolta. Figura que, ninguém estranharia também, se fizesse parte da fauna que acolhe a ex-presidiária na Copacabana colorida, farta, onde nunca chove e tem, como única preocupação coletiva não sobreviver, mas seguir todas as modas que os deuses do consumo mandarem. E um ambiente que fica ainda mais engraçado pela tipicidade especifica que o brasileiro acaba mostrando toda a vez que se pretende internacional. Aliás, como já disse um tal de Levi-Strauss sobre os paulistas.

E tome, então, de humor. O casal Clifton Webb e Gene Tierney (José Lewgoy e Joana Fomm) está querendo montar uma discoteca. Pela ignorância, porém, que revelam sobre o assunto visivelmente denotam terem antes sido donos de um empório na Rua Uranos. A casa dos ricos classudos (Cláudio Corrêa e Castro e Beatriz Segall) ameaça revelar a todo instante, uma magnífica cristaleira. E teme-se também que, após o jantar, a grã-fina vá empilhar os pratos e lavá-los. O diplomata, Antônio Fagundes, e uma figura muito simpática, so que seu tédio intelectual e o tema de Mahler que lhe pespegaram (será que a novela terá também uma trilha erudita?) ficam um pouco estragados pelo seu forte sotaque de caipira paulista. Se ele ainda não joga tênis, o defeito é sanado pelo irmão mais novo do personagem, Lauro Corona, que é amarrado, literalmente, na asa Delta. Gente fina não play mais futebol.

Reginaldo Farias é um misto de Gig Young com Tony Randall, o bonzinho que não casa com a mocinha. Mário Lago é a única exceção nacional. Ator perfeito, além de autor maravilhoso de impecáveis livros de memórias, parece mesmo saído da Colombo e não de um El Morocco qualquer. Pena que sua neta, Sura Berditchevsky, esteja tão ligada ao women's lib que esquece de procurar emprego ou mesmo um estágio, meio raro por aqui, para ficar um pouquinho independente. Seu namorado, Eduardo Tornaghi, é outra prenda. Nem lhe passa pela cabeça que lugar de psiquiatra de classe média no Rio é no INPS. Gracinda Freire parece pensar mais nestes problemas e por isso sua personagem lembra mais uma comediante brasileira do que Lucile Ball. Agora a empregada, Chica Xavier, está inteiramente dentro do contexto, nem Ethel Waters fez melhor em seu tempo. Até dinheiro empresta para os patrões, exatamente como acontece diariamente nos lares cariocas.

Só que nestes, como se fosse uma imensa câmera de eco, estão todos ligados nesta produção e nem percebem seus sotaques e calculada distorção dos vestígios de realidade. Um sucesso, porém, que não se deve apenas a esta compartilhada e propositada fuga a qualquer tipo ou ameaça de verdade por parte do público que só quer distração, mas também, e muito, aos méritos da novela como espetáculo. É' impossível negar seu eficiente padrão coletivo de trabalho e apresentação. Todos os conflitos da história são expostos muito claramente, com imagens simples, mas bonitas, em cenas, quase sempre curtas, que se juntam num ritmo veloz de muita movimentação. Apenas inexplicáveis erros de continuidade, penteados e roupas subitamente trocados numa mesma ação, arranham o brilho de uma produção quase perfeita.

E que apóia um texto, de Gilberto Braga, revelador de pleno domínio formal do veículo. Um autor que, se deixarem, tem senso de humor bastante para fazer mais e menos alienadamente. Acrescente-se à boa forma geral uma direção segura de Daniel Filho e Gonzaga Blota, em trabalho primoroso pela objetividade seca e direta, e a atuação envolvente do elenco, e temos telenovela irresistível como só a Rede Globo, hoje, sabe fazer e de irrecusável aceitação.

Esta fica a cargo de um público que, cada vez mais, reconhece melhor as ruas de Nova Iorque e São Francisco do que suas similares de São Luís do Maranhão ou de Porto Alegre do Rio Grande do Sul. E que, se é para consumir apenas e não pensar, porque tem de agüentar a Discoteca 17? A poderosa estação tem que lhe dar logo a 54. Já e agora. Basta de intermediários, Nova Iorque para cenário.

1978 - Norma Benguell Abandona Dancin' Days

Amiga TV
Data de Publicação: 19/7/1978

NORMA DEIXA ELENCO DA GLOBO

Não será ainda desta vez que Norma Bengell estreará na televisão. Inconformada por ter o seu nome relegado a segundo plano nas chamadas de Dancin'Days, Norma interpelou o diretor Daniel Filho, lembrando-o de que, quando acertou a sua contratação, exigiu, e Daniel concordou, que o seu nome apareceria com destaque nas chamadas e créditos da novela. Daniel não gostou da atitude de Norma e depois de violento bate-boca que culminou com o diretor dizendo que a atriz "estava tendo ataque de estrelismo" e ouvindo em resposta que ele "não passava de um nazista", a solução acabou sendo a dispensa de Norma da novela. Com esta decisão, Norma será substituída por Joana Fomm e esta por Regina Viana. Em conseqüência serão re-editados 12 capítulos que já estavam prontos e gravadas 32 cenas nestes próximos dias, o que obrigará o elenco a trabalhar diariamente das 7 da manhã à 1 da madrugada.

1978 - A televisão soviética

 Jornal do Brasil
Data de Publicação: 15/7/1978
Autora: Ellen Propprt Mickiewiez
TV NA URSS

Lá, como cá, a mesma revolução nos hábitos e costumes

Quem conhece as conclusões de Nielsen e Roper sobre os hábitos americanos de ver televisão certamente reconhecerá. as seguintes constatações:

- As donas-de-casa estão entre os maiores consumidores de programas de televisão.

- Homens e mulheres de mais de 55 ou 60 anos vêem muito mais televisão do que as pessoas abaixo dessas idades.

- Os pobres passam muito mais horas diante do aparelho do que' as classes média e rica.

- As pessoas que têm pouca educação escolar se enquadram com muito mais frequência na categoria de viciado em. TV do que as mais educadas.

- As pessoas com grau universitário tendem a ser mais criticas em relação aos programas que vêem na televisão e por conseguinte se satisfazem menos com a programação diária.

- As pessoas buscam na televisão sobretudo diversão.

O que surpreende, no entanto, é que essas constatações se aplicam não só à sociedade americana, mas também, e às vezes com muito mais força, a sociedade soviética. Na verdade, estas são as conclusões de uma série de pesquisas cientificas que os próprios russos fizeram, e que só recentemente chegaram ao conhecimento dos estudiosos ocidentais. Só na década passada, no reinado de Leonid Brejniev, é que se encorajou e apoiou essa renovação da pesquisa de opinião.

As estreitas semelhanças nos hábitos de ver televisão são extraordinárias porque, à primeira vista, o meio - e a mensagem - diferem bastante nas duas sociedades. Uma diferença básica é o resultado do tardio reconhecimento pelos russos da importância da televisão; demoraram muito mais do que os americanos para chegar à era da saturação de aparelhos. Como eletrodoméstico, a TV capturou a América no inicio da década de 60, mas já na de 50 se aproximava da saturação. Na União Soviética, só recentemente a televisão se tornou um produto de massa. Em 1960, havia 5 milhões de aparelhos na URSS; em 1975, através de um intensivo programa de produção e distribuição, essa cifra subiu para mais de 55 milhões. E mais de 6 milhões 500 mil são fabricados - pela indústria nacionalizada, é claro anualmente. Enquanto hoje 95,5% das casas nos Estados Unidos têm pelo menos um aparelho de TV, a proporção para a União Soviética ainda é consideravelmente menor - cerca de dois terços das casas. Mas a política oficial, lá, hoje determina a saturação de massa, e essa meta está sendo rapidamente atingida. As Olimpíadas de 1980 certamente darão o impulso final.

Em termos de número de horas de transmissão, os quatro canais da União Soviética ainda não perfazem o volume das estações americanas. O primeiro canal deles - o único inteiramente a cores - transmite cerca de quatro horas pela manhã e, após uma pausa ao meio-dia, vai até meia-noite. O segundo e o quarto canais começam sua programação às 5 da tarde. O quarto apresenta diversões como filmes de cinema, espetáculos de variedades e peças; o segundo tem mais programas de interesse local e coisas menos ambiciosas. O terceiro canal transmite apenas programas instrutivos, voltado particularmente para lições destinadas a escolares e cursos de educação de adultos. Não goza de muita popularidade. Em 1978, há 410 estações de televisão na União Soviética.

Sem sombra de dúvida, o conteúdo dos programas de TV soviéticos é consideravelmente diferente do dos americanos. Uma vez que a programação é centralizada e deve enquadrar-se nas idéias oficiais soviéticas do que é permissível ou desejável, todos os espetáculos têm um sabor didático - são usados para socializar ou modelar o cidadão. Um dos programas, intitulado A Nu-Ka, Devuchki (Vamos Lá, Garotas), é transmitido uma vez por mês, durante 90 minutos. Os prêmios são modestos - flores ou livros - e as candidatas são escolhidas e se apresentam como membros de profissões ou ocupações. O objetivo é popularizar as várias profissões e encorajar a iniciativa e o bom desempenho no trabalho. Por exemplo, quando um grupo de policiais mulheres se apresentou no show, seu número consistia em um exercício de ordem unida, com acompanhamento musical, usando-se os bastões luminosos, e em seguida faziam-se sugestões sobre como melhorar a sinalização do tráfego. Outros programas de competição promovem as atividades familiares e os esportes.

Há uma série policial popular, mas dificilmente se assemelha a Starsky e Hutch ou Baretta. Chama-se Os Especialistas Investigam e baseia-se no trabalho da policia (as tramas provêm de material extraído dos arquivos policiais). Mas não se vê nenhuma violência sensacionalista, e as origens sociais de atividades anti-sociais são acentuadas, como o são a infalibilidade e a eficiência da polícia. Semelhantes em tônica foram duas séries populares sobre os espiões soviéticos durante a Segunda Guerra Mundial.

Outra série dramática, Em Nosso Circulo, aproxima-se da telenovela americana, mas com uma diferença - conta a vida diária da família Kuznutsov, evidentemente sem adultérios, abortos e outros acontecimentos negativos. Contudo, o programa talvez mais popular é a série Incrível, Porém Verdadeiro, cujo apresentador é o filho do famoso físico soviético, Peter Kapitsa. Esse programa, que diz ter uma audiência de mais de 150 milhões, é transmitido quinzenalmente e aborda temas científicos populares. Duas outras séries que tiveram tremenda popularidade eram importadas: a série americana Lassie e a dramatização pela BBC da Crônica dos Forsyth, romance em vários volumes de John Galsworthy.

Além das séries, o espectador russo prefere filmes - muitos dos quais vêm de países socialistas -e espetáculos de variedades. óperas, balés e sinfonias, integrais. também são transmitidos, mas as pesquisas indicam que são muito mais preferidos pelas classes de educação superior do que pelo espectador médio.

E, finalmente, há um maciço empenho em programas infantis e de notícias. A programação para as crianças inclui desenhos pela manhã (com ênfase nos bons modos e na moralidade) e, após a escola, urna variedade de coisas: filmes sobre a natureza e de viagens, instrução em jogos e esportes, leituras e encenações de livros. Também há competições e jogos para equipes de crianças, com ênfase na disputa coletiva e cooperativa para alcançar as metas. Vidas de heróis militares e outros russos famosos são apresentadas como modelos para serem imitados. O noticioso mais importante, Vremia (Vida), é transmitido durante meia hora várias vezes por dia. Começa com noticias do Governo soviético, depois vêm os assuntos internos (principalmente econômicos), o noticiário regional - ainda interno - e finalmente as notícias internacionais. Encerra-se com três ou quatro minutos de esportes e dois minutos de previsão do tempo. No todo os assuntos internos tomam quase dois terços de cada meia hora transmitida. Evidentemente noticia na União Soviética é o que o Governo deseja informar à população.

Surpreendentemente, apesar dessas profundas e óbvias diferenças, o impacto da televisão na sociedade soviética é o mesmo que na sociedade americana. Um dos motivos é que outros tipos de atividade de lazer foram desgastados após a introdução da televisão. Como na América, ouvir rádio, ler livros e ir ao cinema e ao teatro. são hábitos que decaíram. Por exemplo, nos Estados Unidos, entre 1950 e 1960, o número médio de idas ao cinema por habitante urbano caiu de 21 para 12. Na União Soviética, entre 1960 e 1976, o número médio caiu de 22 para 16. Uma recente pesquisa sobre hábitos de frequência ao cinema descobriu que, em conseqüência da concorrência dos filmes na televisão, todo mês os cinemas de Moscou perdem 1 milhão 200 mil ingressos ou, por cima, 18 milhões por ano. Isso corresponde a uns 15% da venda planejada de ingressos por ano. À medida que a televisão deixar de ser novidade, pode ser que a freqüência aos cinemas suba de novo, mas isso ainda não ocorreu.

Os defensores da televisão, lá como cá, levantam a possibilidade de que ela estimule outras atividades de lazer. Do mesmo modo comi nos Estados Unidos romances encenados pela televisão soviética vendem fenomenalmente bem após a exibição dos programas. Mas a sobriedade volta quando se nota que para cada aumento de livros lidos ou de idas a cinemas e teatros corresponde um decréscimo cinco vezes maior devido à televisão. Além disso, as atividades sociais estão em extinção. As visitas a amigos e parentes, mesmo a conversa, estão declinando. Os cidadãos soviéticos vão menos a conferências (um gigantesco departamento de conferencistas, a Sociedade do Conhecimento, cobre o país com palestras sobre todos os assuntos), participam menos de atividades recreativas em clubes, gastam menos tempo em hobbies. Em contradição direta às normas ou objetivos do socialismo tornaram-se, no todo menos sociais e menos criativos.

Essas cifras globais tendem a mascarar grandes diferenças entre classes sociais e outros grupos dentro do público soviético. Nem todos os grupos, lá, reagiram do mesmo modo à revolução da televisão. A educação parece desempenhar um papel crucial na disposição do cidadão soviético a mudar de hábitos. Nas áreas mais baixas do espectro, as pessoas com educação primária ou inferior (calculadas em 15 a 20% da população adulta de algumas cidades e numa porcentagem mais alta nas áreas rurais), a televisão eliminou praticamente quase todos os outros veículos e atividades de lazer. O aparelho fica ligado quase todo o tempo. Contudo, os programas sobre temas políticos e sociais (que têm alta prioridade na televisão soviética) simplesmente não são entendidos por 93% desses espectadores.

Na outra extremidade do espectro, o cidadão com grau universitário da União Soviética vê muito menos televisão - cerca de um terço menos - do que a média nacional de 12 horas por semana. Além disso, as pessoas saídas das universidades são muito mais críticas em relação aos programas oferecidos. E não permitiram] no todo, que a introdução da televisão desgastasse seus hábitos de leitura. Os americanos formados nos primeiros tempos da televisão tinham cuidado com o veículo e viam muito menos do que a média nacional. Mas o tempo que dedicam ao aparelho tem aumentado gradualmente com o passar dos anos e hoje vêem apenas 30 minutos menos (ou 16% ), por dia, do que a média nacional.

As diferenças dentro dos grupos no público de televisão, lá como aqui, também dependem de quais opções o cidadão tem, isto e, que outras coisas, e em que quantidade, há de interessante fora de casa, e até onde ele pode se permitir essas coisas. Por exemplo, em ambas as sociedades, o processo de envelhecimento traz consigo mudanças no estilo de vida. Há menor mobilidade, às vezes doença. Os velhos geralmente vivem de uma aposentadoria, e isso introduz apertos financeiros. Para esse grupo, aumenta o tempo dedicado à televisão. Também é grande o tempo dedicado pelas crianças, que parecem sentir um desordenado fascínio pela telinha. Garotos de menos de 15 passam hoje, na União Soviética, pelo menos tanto tempo diante do aparelho quanto na escola.

As pessoas pobres não podem se dar ao luxo de outro divertimento além da televisão. Nos Estados Unidos, elas passam mais tempo diante do aparelho do que qualquer outro grupo. O mesmo ocorre na União Soviética. Embora não sejam qualificadas como pobres, as pessoas que moram nas cidades soviéticas, mas não têm educação formal e vieram de zonas rurais são relativamente desprivilegiadas. Como grupo social, são praticamente impermeáveis aos meios e cultura soviéticos; tentam manter seus padrões rurais de vida e tendem a juntar-se em áreas urbanas onde podem fazer isso. Sua renda e mobilidade no emprego são limitadas. Não lêem muito jornal, não vão a teatros, cinemas ou museus, seus contatos de amizade são restritos. Mas vêem televisão.

1978 - Dancin' Days Vem Aí!

Amiga TV
Data de Publicação: 19/7/1978

DANCIN'DAYS, A BUSCA DE UMA NOVA CHANCE 

Gilberto Braga, autor de Dancin'Days, acha que o fato de suceder O Astro tem aspectos positivos e negativos: ''É bom para o autor suceder uma novela de sucesso, porque ela deixa um vácuo positivo de audiência; por outro lado, vou encontrar espectadores críticos e céticos, daqueles que dizem: 'É impossível que seja tão boa quanto a outra.' Tenho minha visão do mundo e me preocupei com uma boa história, elementos de gancho. Ser polêmica, tratar de problemas que interessem, vem naturalmente; quando digo polêmica, quero dizer feminista. A novela é muito sobre mulher."

- O primeiro capítulo de Dancin'Days já mostra as dificuldades de Júlia (Sônia Braga) para voltar a uma vida normal. Com a aproximação do final de sua pena, ela tem direito a visitas domiciliares para readaptação. Yolanda (Norma Bengell), a irmã, seria a responsável, mas Júlia não tem mais contato com a família. É a assistente social que procura Yolanda por conta própria e o capítulo termina com sua chegada à penitenciária. De um modo geral, como explica Gilberto Braga, o resumo da trama está na disputa de duas mulheres por uma menina. ''Júlia, a verdadeira mãe esteve presa por onze anos e, nos primeiros capítulos, está prestes a deixar a penitenciária: Sua filha Marisa (Glória Pires) não sabe que a mãe esteve presa; pensa simplesmente que está viajando há onze anos, e talvez não volte mais. Yolanda criou a sobrinha e é apegada a ela como se fosse sua verdadeira mãe. Vai inaugurar uma discoteca com o marido, que ela já não ama. Yolanda tem medo que a presença de Júlia possa exercer sobre Marisa uma influência negativa e faz tudo para separar as duas. Talvez seja, em linhas gerais, uma história sobre a posição confusa da mulher no mundo em que vivemos. Yolanda não teve outra opção a não ser o casamento, depende financeiramente de um marido que possa apoiá-la. Júlia, uma intuitiva, apesar de pouco preparada, sabe que será melhor para sua filha que ela própria possa encontrar soluções de vida. adote uma atitude criativa, ao invés de deixar que Yolanda faça a sua cabeça. A discoteca, que dá título à novela, só aparecerá depois do capítulo 60. Há ainda duas famílias muito importantes na novela: a de Alberico (Mário Lago), em cuja casa Júlia vai morar, e a de Cacá (Antônio Fagundes), um diplomata que vai se apaixonar por Júlia.

Saturday, March 15, 2014

1970 - TV Piratini, Canal 5 de Porto Alegre, Rede Tupi

O Cruzeiro
Data de Publicação: 5/5/1970
Autor: Roberto Nazareth
A MELHOR IMAGEM DO SUL
TV Piratini

Cobrindo uma área demográfica de mais de cinco milhões de pessoas, entre rio-grandenses e catarinenses, a TV Piratini vem se firmando no conceito de seus telespectadores como uma das mais dinâmicas emissoras do Sul. Com uma programação variedades, ela procura atingir a todos os gostos, a somente no RS, onde esta sua sede, ela mantém presentemente 78 repetidoras em funcionamento e mais 17 ainda em instalação.

Em Santa Catarina, a penetração da Piratini (que pertence à Rede Associada de TV) se faz em toda a faixa litorânea, alcançando Florianópolis com uma excelente imagem.

A BOA PROGRAMAÇAO

Os pontos de destaque da programação do Canal 5 são: Diário de Noticias na TV, Atualidades Catarinenses: Almoço com Sucessos e o Programa Júlio Rosemberg.

O primeiro é um noticioso que vai ao ar às 19h15m, resumindo os principais fatos do dia em todo o mundo. Atualidades Catarinenses va ao vídeo

aos sábados, às 12h50m, com uma programação dirigida ao público catarinense. Almoço com Sucessos prepara e realiza entrevistas variadas, com pessoas ligadas ao mundo artístico e cultural brasileiro, assim como políticos, homens públicos e administradores. Seu horário: sábado, às 13h15m. No intervalo das entrevistas são apresentados números musicais com artistas locais do melhor gabarito.

Mas o quente da programação está mesmo no domingo, quando o auditório da Piratini lota para receber o público do Programa Júlio Rosemberg, Das 3 às 6 da tarde, uma seqüência vibrante de calouros e cartazes nacionais desfilam no palco, perante as câmeras do Canal 5. Trata-se de um programa dedicado à juventude, e conta ainda com um júri selecionado para analisar o desempenho dos concorrentes.

PEQUENA HISTÓRIA DA PIRATINI

A TV Piratini, Canal 5, começou a funcionar em dezembro de 1959. Através da sua esta

ção geradora em Porto Alegre, 168 comunidades rio-grandenses recebem a imagem e o som do Canal 5, perfazendo, em números redondos, 5.900.000 habitantes. Em Santa Catarina, através de 20 repetidoras, cobre uma área de 1.200000 habitantes.

O DENTE DE LEITE

O campeonato Dente de Leite, promoção da Piratini, que reúne equipes de futebol de crianças, terá sua segunda realização este ano. Foram inscritas 129 equipes somente na Grande Porto Alegre (capital e cidades próximas até 50 quilômetros), das quais foram selecionadas 64 para a etapa classificatória, que se estenderá até setembro. Paralelamente, serão realizados os torneios nas cidades do interior, para apurar o campeão estadual. Este, a exemplo do que foi feito no ano anterior, jogará contra as equipes uruguaias que participam do Baby Football.

Dia 5 de abril, quando da festa de aniversário do Ginásio Beira-Rio, houve o desfile inaugural do certame Dente de Leite com a presença de 62 das 64 equipes selecionadas, que proporcionaram um espetáculo de mais de uma hora diante de grande público.

Agora, os craques mirins iniciam o grande torneio que será desdobrado com jogos todos os domingos em dois estádios, simultaneamente.

Esta é mais uma das grandes promoções da Piratini, que ajuda, assim, o futebol brasileiro na sua indispensável renovação de valores.

1970 - Censura Mata Geraldo Del Rey

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 11/3/1970
Autor: José Carlos Oliveira
PROIBIÇÃO 70
Andei investigando quem matou Luciano. Ora, por que me interessaria descobrir quem matou Luciano? Já me explico.

Interessa-me a sorte de Renato. Estou convencido de que Renato é um santo, ou melhor - ou a mesma coisa - um idiota, no sentido dostoievskiano da palavra. Nele reaparece o Príncipe Mishkin. Bondade e sacrifício são as únicas obrigações que conhece. Moralmente mutilado, como um burro, uma criança ou um deus, obedece apenas ao que lhe sugere o Bem, não por escolha própria, e sim por ser congenitamente surdo à voz do Mal. Surdo e cego - incapacitado que nasceu igualmente, para contemplar o Mal quando projetado por outra pessoa. Ele simplesmente desconhece a contrapartida das virtudes teologais .

Pois bem: Renato está preso, e na iminência de ser julgado pelo assassinato de Luciano. Sei que ele não mataria uma simples mosca - embora, paradoxalmente, matar mosca seja uma ação praticada de preferência pelos homens bons... Pouco importa; o fato é que está preso, vai ser julgado e possivelmente confessará um homicídio que não cometeu, recebendo em troca um longo castigo, que não merece.

Que Renato seja condenado, admito, já que nasceu com a vocação do sofrimento; mas que isto resulte na prevalência do verdadeiro culpado... não! Mil vezes não! Como poderia eu dormir com a consciência tranqüila? Se Renato não matou Luciano, quem matou Luciano? Eis a razão da minha pesquisa: sou contra os soníferos, prefiro dormir em paz comigo mesmo.

Lamentavelmente, não vi os primeiros capítulos da novela Véu de Noiva, escrita por Janete Clair e apresentada de segunda a sábado na TV Globo. Sendo assim, nada tenho da vitima além deste nome: Luciano. E com o tempo venho colecionando as circunstâncias em que ocorreu o assassínio. Luciano era - seria? - amante de Andréia (Regina Duarte), mulher de Marcelo (Cláudio Marzo), e de Flor (Miriam Pérsia), que dele teve um filho póstumo. Enfim, Luciano era um craque - que Deus o tenha. Mas, em telenovela, sendo a vida um assunto local - o que deve fazer a felicidade da poeira em que se encontra hoje a aparência do velho Aristóteles; no que, aliás, estamos citando o Chaplin da fase derradeira. . . - bom, sendo então a vida um assunto local, outros conflitos interferem, para desgraça de Renato, e impunidade, ao menos até agora, do verdadeiro homicida. Tais conflitos, pela ordem - e nem todos serão mencionados:

1. Renato é irmão de Cláudio Marzo - mas os pais, principalmente a mãe (Glauce Rocha) - o repudiaram em tempo hábil.

2. Renato foi perfilhado pelos pais de Andréia - o que tem por consequência uma curiosa relação incestuosa: é irmão do filho de seu pai e da filha de seu pai adotivo, filho e filha que por sua vez sso marido e mulher. . . O incesto, se me entendem, está na cabeça dos mal-pensantes, o que não deixa de ser salutar.

3. Quando a telenovela iniciava sua luta pelos pontos do IBOPE, Luciano (Geraldo del Rey) foi contratado pela TV Tupi. Nos bastidores, então, começou outra luta. Quem dá mais? A Globo ou a Tupi? Ganhou a TV Tupi.

Recapitulemos. Geraldo del Rey era uma figura de capital importância em Véu de Noiva, de Janet Clair. Mas, antes que as situações se delineassem, para compreensão dos espectadores, Glória Magadan conseguiu aliciar Geraldo del Rey para outra novela, em outro canal. Cuja novela tem um nome bastante sugestivo: E nós... aonde Vamos? E eis que Geraldo del Rei é assassinado no Canal Quatro, para reparecer, não apenas vivo, mas vivíssimo, no Canal Seis!

Respondam-me agora: quem matou Luciano? Janete Clair, para não prejudicar a continuidade de seu trabalho, ou Glória Magadan, para atrair, juntamente com o IBOPE, o falecido Geraldo del Rey?

Quanto a isto, sou indiferente; só não quero que Renato seja condenado. E para que tal injustiça não se cometa, dou o nome do assassino. Senhores jurados, só pode ter sido o Censor!

(Escândalo. O Acusador protesta. A Defesa se inflama. O Réu está perplexo. Mas não desliguem agora a televisão, que esta é uma novela de um só capitulo).

Senhores jurados: diz a lógica dos fatos que o Censor matou Luciano. Muitos meses depois do assassinato de Luciano, e algumas semanas depois da estréia de E Nós... Aonde Vamos?, o Censor, o Indigitado Criminoso, reincidiu. Imaginem os senhores que foi lançada, aliás com grande e merecido estardalhaço, uma terceira novela, intitulada Pigmalião-70. E nessa novela há um personagem que, a fim de pagar dividas de jogo, torna-se ladrão da própria irmã! Até aqui, tudo me parece real... Mas o desfecho, ou anticlímax, dá vontade de chorar. Ouçam: o Censor impugnou a situação, a menos que, em quatro capítulos sucessivos, o irmão fosse punido pelo delito! Ouçam bem: quatro capítulos, e não três, nem 27, nem 432 mil!

Razão pela qual denuncio: quem matou Luciano foi o Censor. E se não foi, esperemos que seja castigado assim mesmo.

1970 - Telecatch

Correio do Estado (MT)
Data de Publicação: 27/2/1970
Autor: João Rodolfo do Prado
REALEGO
"Quem não se comunica se trumbica", eis a frase que resume a televisão. E seu autor, Chacrinha. conhece o assunto. Todo mundo cita, repete e assina, mas não há contestação. E isto é muito importante.

Comunicar é ser compreendido, quanto mais se comunica, mais se é entendido. Mas também: quanto mais se comunica, menos se dizem coisas novas. Quando a comunicação é absoluta, tudo indica que nada de novo foi dito, tudo que se transmitiu já era esperado e sabido.

"Quer não se comunica, se trumbica'', o lema da nossa televisão. Isto quer dizer que ela não está preocupada em oferecer conhecimentos novos, informações. O grande púbico sabe A-B-C e a televisão se encarrega de transmitir A-B-C. Quando, por razões diversas, o público incorpora o D, passa-se a oferecer o D. A mecânica é bastante elementar.

Elementar e pobre. Quando se passam horas e horas e recebemos o que já temos, pode-se ter certeza de que o estado de espirito predominante é o tédio, a imobilidade. E, o que é muito pior, sente-se que a realidade parou, repete-se indefinidamente. Afinal, o moto-perpetuo!

Mas, que diabo, a realidade não parou, muito pelo contrário. Cada vez movimenta-se em maior aceleração, e ontem já era amanhã. E explode a contradição: a televisão, que é o veiculo mais rápido para a comunicação do homem em nível de massa (igual ao rádio, só que mais amplo: oferece a imagem também), pois é eletrônico, vive a reboque da realidade. O universo de conhecimentos do homem urbano já esgotou todas as letras do alfabeto e a televisão insiste: A-B-C... e D. Cada vez comunicando mais. E informando menos.

II

Horário vago.Opção: criar um programa novo ou relançar alguma coisa já gasta; a segunda hipótese vai garantir uns quinze pontos no IBOPE, a segunda é indefinida. Opta-se pelos quinze pontos, ou melhor Tele-Catch.

O quadro é triste, mas há saídas. Por acaso (ou será que foi proposital?) faz-se uma novela baseada na realidade: sucesso, novas faixas de público a assistem, a nova pólvora. Sentindo a pressão, a emissora concorrente areja suas novelas, providencia temas atuais, melhor acabamento industrial, músicas especialmente compostas por artistas de sucesso. Afinal, o público não amava (e era irredutível) as novelas de capa & espada? O dramalhão não era o que o público queria? Como, então, houve a mudança?

III

"Quem comunica, não se trumbica'' é uma verdade. Mas, "quem informa com comunicação, também não trumbica", igualmente o é. E é mais criativo e útil. Não proponho um hermetismo incoerente com o veículo, mas sim uma ação ativa, enriquecidora. Podem estar certos, o público possui uma vivência muito mais rica do que imaginam. E, afinal de cantas, televisão não é realejo.

1970 - Falando Mal da Hebe Camargo

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 27/2/1970
Autor/: Valério Andrade
SEMPRE AOS DOMINGOS
Hebe Camargo transformou o auditório da Rua Augusta em sala de visitas e lá recebe os convidados que os cariocas vêem em vídeo-tape, através do Canal 13, domingo à noite.

Salvo raras exceções, como quando Hebe resolve visitar alguém na própria casa, seu programa torna-se uma minimaratona para o telespectador, já que a maxi, como se sabe, é patrimônio exclusivo de Sílvio Santos, o Risadinha.

Há muito que o cameraman desistiu de tentar imprimir algum dinamismo visual ao Hebe Camargo Show. O desfile obedece ao mesmo esquema, mudando apenas, o rosto dos participantes. Dependendo dos convidados, o show será mais ou menos monótono, mais ou menos emocionante para o auditório.

A platéia esteve particularmente excitada no último domingo. Explica-se. Com grande euforia, debaixo de uma salva de 21 adjetivos, feliz, da vida, Hebe anunciou a presença daquele que é o orgulho do parque industrial (perdão, musical) paulista: Roberto Carlos.

Não é preciso dizer que o auditório entrou em transe. Finalmente a coisa se acalmou e então Hebe iniciou o diálogo com o jovem monarca. Mais tarde, o Rei resolveu satisfazer os anseios e as súplicas dos súditos, cantando cinco números, dos quais três de olhos fechados, compondo á sua nova imagem (musical) .

- Mais um, mais um, mais um - exigia o público, enquanto o Rei desaparecia, dando lugar a um dos príncipes, também convidado pela risonha Hebe.

De cabelos cortados, fato salientado pela anfitrioa, Antônio Marcos apareceu de mãos dadas com sua namoradinha, a cantora Vanusa. A platéia suspirou, emocionada com a beleza do jovem casal. Sempre juntinhos, fizeram confidências, contaram segredos, estimulados pela curiosidade de Hebe, que, naquele momento, mostrou que está apta a escrever fotonovelas quando o Ibope se voltar contra ela.

Felizmente, depois do comercial, surgiu alguém capaz de afastar o tédio e o clima meloso daquele quadro sentimentalóide. Para o telespectador, a presença de Mièle (sem Bôscoli) foi um alivio uma pausa humorística, a calmaria que antecede à tempestade. E o que se seguiu foi uma tempestade de ridículos.

Aconteceu no clímax do Show, quando o palco da TV Recorde transformou-se numa passarela carnavalesca. Até aí, nada de mais, apenas monótono. De repente, Mauro Rosas, um dos fantasiados, aproveitou a ocasião para abrir a boca, naquele tom de voz. Foi a hora da fofoca e das frases brilhantes:

- Minha mãe é uma santa que está aqui no céu (supõe-se, como a dita cuja está viva, que se referia à Terra).

E eis a que mais sucesso causou no auditório:

- Esse é o país (ele exaltava São Paulo e não o Brasil) que mais cresce no mundo.

Felizmente, Clóvis Bornay esteve ausente, pois um só já é demais. E também o horário das visitas estava encerrado, naquele domingo.

1970 - Quem Tem Medo da Verdade e Cidinha Campos

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 17/2/1970
Autor: Valério Andrade
A REPULSA QUE CONSAGRA
Na última pesquisa divulgada pelo IBOPE, o programa Quem Tem Medo da Verdade? figurava como líder de audiência em São Paulo.

Fosse lançado no Rio pelo Canal 4 ou o 6, ele certamente estaria figurando entre os campeões de audiência. Aliás, o mesmo se verifica em relação ao Dia D, também produzido pela Recorde e igualmente popular junto ao telespectador paulista, que aqui tem passado despercebido, pelo mesmo motivo: a indiferença do grande público pelo Canal 13.

Os dois programas justificam a audiência paulista. O Dia D, com a repórter Cidinha Campos, é ritmicamente dinâmico, geograficamente livre, sem aquela atmosfera de sala de visitas característica de Hebe Camargo. Enquanto Quem Tem Medo da Verdade?, além de seu tom polêmico, foge à rotina e à monotonia emocional da maioria dos nossos habituais programas diários .

De fato, Quem Tem Medo da Verdade? consegue mexer com os nervos do público, despertando reações, tirando o telespectador da sua sonolenta passividade. Por isso mesmo, tem sido alvo de criticas e, por imposição da censura, teve o seu horário modificado: é lançado no Rio às 22 horas do domingo.

A fórmula de Quem Tem Medo da Verdade? é simples e funcional. Uma personalidade é submetida a uma espécie de jogo da verdade - semelhante àquele revelado por Marcel Carné em Os Trapaceiros e que por muito tempo foi cultivado em reuniões sociais - esquematizado na forma de um julgamento. A pessoa, no caso réu, se compromete a responder a verdade, somente a verdade, nada além da verdade. Uma série de perguntas é formulada tendo como base os itens estabelecidos pela acusação, que, por sua vez, baseia-se em acontecimentos de domínio público.

Vejamos, como exemplo, o caso de Dalva de Oliveira. Ela fora acusada de:

1. Continuar cantando quando deveria se aposentar. Segundo a acusação, sua voz já não é a mesma, ela desafina e insiste em permanecer cantando;

2. Ter explorado, para proveito profissional, através de uma série de cancões, o seu desquite com Herivelto Martins. O episódio do desquite, como se sabe, foi relatado em capítulos (no Diário da Noite), pelo jornalista Davi Nasser;

3. Ter provocado a morte de três pessoas. Fato ocorrido em agosto de 65, no desastre automobilístico, causado pelo carro da cantora.

Terminado o interrogatório, feito nos moldes do cinema americano, a acusação (que, no caso, é formada pelo próprio grupo de jurados) cede lagar ao advogado de defesa. No caso em foco, a missão coube a César de Alencar, que, para surpresa geral, saiu-se extremamente bem desenvolvendo com fluência verbal e imaginação, cada um dos itens, Após a brilhante defesa, extremamente simpática à vitima, para contrabalançar a conduta antipática da acusação, Dalva de Oliveira foi absolvida por unanimidade.

Depois de alguns momentos de tensão, coadjuvados por lágrimas registradas pela câmara insistente e atenta, o happy end veio debaixo de palmas e risos, com Dalva cantando, conforme começara o programa, isto é, o julgamento simulado.

Segundo consta, algumas pessoas têm ficado chocadas com a veemência da acusação, identificando-se com a vítima, tal qual acontece nos filmes. Essas mesmas pessoas, - e algumas acham que o programa deveria ser proibido - estão semanalmente diante do aparelho de TV, de olho grudado no programa, saboreando, horrorizadas o jogo da verdade. De fato, se não chega a ser original, também não deixa de ser atraente esse tipo de (falsa) repulsa.

1970 - Topo Gigio e Agildo Ribeiro

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 5/2/1970
Autor: Valério Andrade
MISTER TOPO GIGIO
Depois de ter inspirado compositores, virado tema musical, Topo Gigio vai servir de tema carnavalesco.

Wilza Carla, com seus cento e tantos quilos, já anunciou, com seu habitual estardalhaço, que será a ''noivinha de Topo Gigio" neste carnaval. Por sorte, o ratinho acha-se ausente do Rio, desfrutando merecidas férias italianas, após vitoriosa e fulminante carreira no vídeo carioca.

A estréia do ratinho é forte e deverá sobreviver ao peso do compromisso imposto pela aliança dos quatro dias com Wilza Carla.

Quanto ao sucesso de Topo Gigio na TV, esse não só é normal como também, se levarmos em conta os seus antecessores no cinema, perfeitamente compreensível e lógico.

O império de Walt Disney começou justamente com um membro ilustre da família de Topo Gigio: o célebre camundongo Mickey. Tempos depois, explorando rivalidade milenar, os estúdios do Leão conquistaram crianças e adultos com a dupla Tom & Jerry.

Diante desses antecedentes, só por acaso Topo Gigio deixaria de trilhar o caminho da glória, até porque, como se sabe, ele foi idealizado dentro dos moldes de seu meio de comunicação. Na tela grande, conforme se viu no cinema, ele perde grande parte do seu encanto, ao evidenciar limitações que passam despercebidas no vídeo.

Apesar da ausência temporária de Topo Gigio, que estará de volta ao Rio a partir de março, o programa Mister Show continua sendo apresentado com Agildo Ribeiro. Vez por outra, Agildo apela para o inseparável companheirinho que, em video-tape ressurge em cena, para manter viva a sua imagem junto à garotada.

Independente da presença de Topo Gigio, responsável pela súbita consagração de Agildo Ribeiro junto ao público infantil, Mister Show é um programa tecnicamente bem feito, musicalmente atraente, capaz de agradar aos adultos.

Os números musicais geralmente são bons, refletindo um dinamismo coreográfico - produto de cuidadosos ensaios - raro em nossa TV, onde a improvisação já é um novo dado em sua linguagem. Mesmo quando o número repousa num cantor, como aconteceu com Romuald, a câmara não abre mão de sua natural mobilidade, enquanto os bailarinos dão vivacidade ao quadro. Às vezes, o número é executado fora do estúdio, aproveitando cenários autênticos, recurso explorado pelo cinema e raramente aproveitado pela televisão.

Simpático e eficiente, Agildo Ribeiro, sempre de olho nas crianças - veja-se a forma como conduz a parte dedicada aos calouros-mirins - acha-se enquadrado no espirito e no tom de Mister Show. É, de fato, o partner ideal para Topo Gigio.

1970 - O primeiro Padre-Cantor

O Globo
Data de Publicação: 25/1/1970

JESUS CRISTO CONSAGRADA NA VOZ DO PADRE-CANTOR
O Padre Simeão Goossens - que se diz o único brasileiro nascido na Holanda - cantou a música ''Jesus Cristo", no encerramento da "Buzina do Chacrinha", e, antes de sua apresentação - delirantemente aplaudida pelo auditório e pelo corpo de jurados do programa -, disse que a composição de Erasmo Carlos e Roberto Carlos deveria ser divulgada ao máximo e que nada tem de sacrílega nem de irreverente, como afirma um deputado pernambucano.

Padre Simeão - que promove missas com iê-iê-iê na Igreja do Santuário das Almas de Niterói, todos os domingos, as 18h30m - acrescentou que náo compareceu ao programa para se promover ou promover a sua paroquia e sem para desagravar a dupla de compositores, que vem recebendo uma agressão das mais violentas por parte de um parlamentar.

DOMÍNIO ABSOLUTO

Padre Simeão foi ouvido em silêncio no início de sua apresentação e, do meio da música para diante, pediu a participação do público, que passou a cantar em coro com ele e a bater palmas, marcando o ritmo, conforme esta gravado nos discos de Roberto Carlos e da cantora Cláudia.

Padre Simeão disse a O GLOBO que a letra de Erasmo e Roberto deve ser lida com mais freqüência, para que todos percebam, quando cantarem a música "Jesus Cristo", a mensagem da dupla.

A apresentação do Padre Simeão alcançou tanto sucesso que o repórter José Luís Furtado, responsável pela produção de reportagens e entrevistas do programa "Som livre exportação", convidou-o para uma série de debates sobre a popularização da música sacra no Brasil e também para cantar no encerramento do próximo programa musical da Rede Globo de Televisão.

Padre Simeão, que vai hoje a Minas tomar parte num congresso de religiosos, que se realizará na capital mineira, já combinou com o apresentador Abelardo Barbosa uma apresentação especial na "Discoteca do Chacrinha", quarta-feira, quando cantará a música em companhia de seus criadores e da cantora Cláudia, que também gravou "Jesus Cristo",

EM JULGAMENTO

Após a apresentação do Padre Simeão, o juri da "Buzina do Chacrinha" - ontem especialmente "reforçado", pela Irmã Tambellinipronunciou Irma, que já levantou nove mil cruzeiros para suas obras assistenciais em São Paulo - assim se pronunciou

Irma Tambeliini: "A musica 'Jesus Cristo', tão pelo Padre brilhantemente apresentada pelo

Padre Simeão, e uma maravilhosa mensagem de amor e paz a todos os povos que crêem na existência de uma forca superior a guiar nossos caminhos. Nota cinco".

Cantor Nílton César: "Esse deputado pernambucano vai ficar cada vez mais sozinho em sua campanha contra "Jesus Cristo". Eu, que creio na existência de um Deus, acho até que Roberto e Eras mo Carlos foram iluminados na hora de compor essa maravilhosa música."

Cômico Zé Trindade: "É uma lastima que o povo pernambucano tenha um homem como o Sr. Nílson Carneiro para representá-lo numa assembléia. Eu pessoalmente, acho que o próprio Vaticano poderia providenciar a gravação dessa música para divulgá-la em todo os países cristãos. Quanto ao fato de o referido deputado atacar, de preferência, os cantores e compositores cabeludos, Freud explica: o Sr. Carneiro é inteiramente careca."

Cantor Ronnie Von: "Sobre a composição prefiro não falar. Não acho produtivo discutir com um deputado sobre a qualidade de uma música No entanto, tenho de reconhecer a extraordinária poder de comunicação desse atualíssimo padre-cantor que sabe estabelecer um diálogo com os jovens, numa época em que todos temem que a cibernética, o cérebro eletrônico e a tecnologia continuem afastando os homens de Deus".

Cantora Vanderléia: "Eu quero ver uma missa do Padre Goossens. Ainda não vi nenhuma cerimônia religiosa com fundo de músicas populares. Estarei em Niterói assim que os meus compromissos me permitirem e, pelo que vi aqui com o Padre Simeão, já recomendo a todos uma visita à Paroquia do Santuário das Almas."

Apresentador Sargentelli: "Eu acho que nós só não caímos numa esparrela, promovendo tanto uma opinião tão infeliz como a do Deputado Carneiro, porque o Padre Simeão está aqui para nos encantar. Mas acho que se o deputado entrou na briga fazendo uma denúncia tão irresponsável, agora ele tem deve arcar com as conseqüências. Nas próximas eleições, ele terá muito que explicar aos seus eleitores, se ainda conseguir localizâ-los."

Mariza Urban: "Lastimo as palavras do deputado pernambucano, que diz falar en nome de alguns católicos, e agradeço a vinda do Padre Simeão a este programa."

Jurado Mascarado: "Se o deputado não gosta mesmo de "Jesus Cristo", ele foi eleito por um lastimável engano dos eleitores pernambucanos que felizmente. terão oportunidade de corrigir o erro de sua eleição na primeira oportunidade".

1970 - Os Melhores Programas da Televisão Brasileira

Revista: O Cruzeiro
Data de Publicação: 1/1/1970

OS MELHORES DA TV
Uma grande pesquisa no Rio de Janeiro, escolheu, entre os telespectadores os melhores da TV

A pesquisa também revelou que é bastante significativo o número de aparelhos desligados. Em um milhão, pelo menos quatrocentos mil são apenas enfeite

De um milhão de aparelhos espalhados no Grande Rio, quatrocentos mil, alternando-se, estiveram permanentemente desligados no ano de 1969. As crianças, sobretudo, não atenderam os apelos publicitários dos "capitães" Aza e Furacão, pois os índices do IBOPE chegaram a assinalar até oitocentos e cinqüenta mil aparelhos desligados nos programas vespertinos. O horário nobre, das dezoito às vinte e duas horas, porém, foi disputado palmo a palmo durante o ano: o Show Sem Limite, de J. Silvestre, conseguiu o grande recorde ultrapassando os setenta por cento duas semanas seguidas com a última etapa de respostas e o casamento da Noivinha da Pavuna, enquanto que o "Festival Internacional da Canção", que custou .... NCr$ 2 milhões, atingiu apenas quarenta e oito e meio. As novelas foram, no entanto, a tônica da televisão brasileira no ano que está por se findar: em todas as casas de todas as classes nem mesmo as visitas conseguiram interromper Beto Rockfeller; Nino, o Italianinho, Antônio Maria, A Rosa Rebelde, Véu de Noiva ou A Ponte dos Suspiros, mas não há como se negar que foi Antônio Maria D,Alencastro Figueiroa quem dominou inteiramente as emoções do público telespectador. Ao fim de mais um ano as mesmas criticas de quase duas décadas: a imaginação dos homens que cuidam de "bolar" a TV está em pane, os programas são primários e a técnica desaproveitada - embora as imagens via satélite estejam anulando distâncias, pois assistimos a jogos de futebol na América Latina e a um Festival de Música, de Lucarno, diretamente da Suíça. O humor talvez tenha sido a face mais critica da TV, pois enquanto o show de Chico Anísio no teatro da Lagoa era assistido por quase um milhão de pessoas, Mister Show, da TV Globo, o de maior audiência, não conseguia atingir, na sua contagem máxima de pontos, sessenta por cento de sintonia dos aparelhos ligados. Em síntese, mais uma vez, altos e baixos na TV que os números demonstram com fria eficiência: o que é preciso mudar?

ESCRAVIDÃO DA PESQUISA - Publicitários, público e jornalistas, até mesmo ligados à televisão, estão inteiramente desinformados sobre a estrutura das pesquisas de audiência. A falibilidade das entrevistas domésticas é evidente: há quem tema dar declarações a desconhecidos, por ignorância, ou quem simplesmente não se recorde do que tenha visto no dia anterior. Pode ocorrer ainda que, quando o entrevistado se libere das perguntes, o dial de seu aparelho já esteja marcando outro canal, pois a luta da família diante do vídeo é constante. Além disso o gosto é variável, pois se em determinado momento o público se entusiasma com uma novela, pode perder o interesse dias depois e passar a assistir a um filme ou a um show na TV vizinha. Muitos telespectadores rodam de uma para outra na expectativa de um bom número musical ou de um fato que mais lhe interesse. Basta citar sobre isso a própria pesquisa do IBOPE, que dá na semana de 27 de outubro a 2 de novembro o segundo lugar em audiência ao programa do Chacrinha, com sua discoteca, e que na semana anterior não chegara sequer ao décimo lugar. Tanto o IBOPE quanto a MARPLAN podem argumentar que o índice de suas médias pode ser comprovado com os resultados eleitorais, já que o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística acertou os números da vitória do sr. Negrão de Lima como candidato ao governo carioca, com uma diferença de vinte mil votos, que deve ser considerada como irrisória. Mas é que no voto popular as opções são menos variadas, mais constantes e sobretudo taxativas. O espectador de TV não se interessa, atualmente, nem mesmo por programas, mas sim pelo que pode ver na hora em que liga o aparelho, havendo caso até de quem acompanhe duas novelas ao mesmo tempo, aproveitando-se dos anúncios. Porém o temor da televisão pelos índices é tão grande que, sobretudo nas novelas, vai espichando os programas que agradam mais, como no caso da novela Antônio Maria, que chegou a ser repetida em video-tape no dia seguinte.

VENCEDORES DO ANO - Depois do extraordinário sucesso da TV Tupi com o casamento da Noivinha da Pavuna, a velha fórmula de comunicação parece insurgir-se contra a revolução dos métodos da propaganda: o sonho realizado da classe pobre e média trouxe lágrimas aos olhos e pontos no IBOPE. Sem ordem de colocação, segundo nossa pesquisa, foram os seguintes os dez programas de maior audiência: 1) Show Sem Limite, de J. Silvestre, 2) Discoteca do Chacrinha, 3) Novela Antônio Maria, 4) Novela Beto Rockfeller, 5) Mister Show (Topo Gigio), 6) Bibi ao Vivo, 7) Novela Nino, o Italianinho, 8) Novela Véu de Noiva, 9) Novela A Rosa Rebelde e 10) A Grande Chance, de Flávio Cavalcanti. Também pesquisamos a preferência do público por dia da semana e obtivemos o seguinte resultado: Segunda feira: Show Sem Limite; 3a feira: Alô Brasil; 4a feira: A Discoteca do Chacrinha; 5a feira: Mister Show; 6a feira: Bibi ao Vivo; sábado: Véu de Noiva, e domingo: Blota Jr .

PRÓXIMO ANO - O próximo ano parece estar marcado para ser um dos mais importantes na televisão brasileira. Será o ano da Copa do Mundo no México, provavelmente com transmissão direta, pela primeira vez no Brasil; será o ano primeiro da Década da Educação proposta pelo deputado João Calmon e que a TV Tupi está levando a efeito através da ação de Gilson Amado e de seus cursos de alfabetização, já iniciados, que poderão ensinar a ler e a escrever uma grande parcela de analfabetos. Também em 1970 deverão prosseguir e chegar ao seu climax as novelas que retratam mais direta e menos emocionalmente a realidade, como Beto Rockfeller e Verão Vermelho, tão bem recebidas na TV como o foram as duas maiores "lacrimosas": O Direito de Nascer, de Caignet, e Antônio Maria, com Sérgio Cardoso. Os salários continuarão em ascensão, Chacrinha poderá ultrapassar seus atuais NCr$ 140 mil, Flávio Cavalcanti seus NCr$ 80 mil e assim sucessivamente, pois até em futebol os contratos foram atingidos pela alucinação: Rui Porto dirige a equipe esportiva da TV Tupi com NCrS 12 mil mensais e na TV Globo a Grande Resenha Esportiva não faz por menos com Armando Nogueira, que recebe quase o dobro. Foi assim a televisão brasileira no ano de 1969.

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