Thursday, February 20, 2014

1976 - O Futuro da Globo

VEJA
Data de Publicação: 6/10/1976

O FUTURO DE UM IMPÉRIO
A Rede Globo de Televisão só tem medo de uma coisa: dela mesma

Cid Moreira dá uma última espiadela no espelhinho redondo de bolso e retoca a maquilagem. Tosse. Exercita os músculos da cara, retesando-os e afrouxando-os, seguidas vezes. Pega um pedacinho de papel em forma de confete, umedece com a língua e pergunta se não fica uma graça com uma pintinha na bochecha. Alguém avisa que chega de brincadeira, o programa já vai entrar. Desaparece o sorriso, cessa o pigarro, Cid olha firme para frente e compõe o sereno semblante que os telespectadores daqui a 1 minuto contemplarão.

Descabelada, sem maquilagem, calça de brim surtada, Nelma Célia Silva, a 100 metros do estúdio onde Cid arma seu glamour, vive os 60 segundos mais agitados e perigosos de seu dia. Ela é operadora do "Master" — seleciona as imagens e as coloca no ar. Nelma não pode errar nunca. A sua volta, tão nervosos quanto ela, trocando gritos e imprecações, quinze outros técnicos transformam a sala do controle-mestre num verdadeiro inferno. "Corta, corta, vai entrar o toque de 8 segundos." E entra. A TV Globo do Rio de Janeiro comunica às 22 emissoras da Rede Globo de Televisão que são 19 horas, 44 minutos e 52 segundos. Elas devem se unir incontinenti. Pois, com um último toque das mãos de Nelma, está no ar o "Jornal Nacional".

O programa de maior audiência da televisão brasileira é visto por 25 milhões de pessoas. A imagem empertigada de Cid Moreira atinge os 35% do território nacional onde vive metade da população do Brasil. Um horário estratégico — e caro. A Globo cobra 130.425 cruzeiros para transmitir um anúncio de 30 segundos de duração a esse formidável mercado.

Quem não sonha em ganhar sozinho a Loteria Esportiva? A Globo. Estima-se seu faturamento mensal em 10 milhões de dólares, ou 113 milhões de cruzeiros, ou ainda quatro consecutivos e solitários triunfos na Loteca. O pais sintoniza maciçamente as emissoras da Rede. A mais categórica prova dessa preferência está nas pesquisas de opinião pública — os dez programas mais vistos da TV brasileira são transmitidos pela Globo. É a maior indústria de comunicação já implantada no Brasil. Produz 75% da programação que vai ao ar entre 18 e 24 horas.

A Globo não inventou a telenovela. De seus estúdios, porém, partiu a contribuição decisiva para sua transformação em um gênero para-cinematográfico, de dimensões hollywoodianas, mas tipicamente brasileiro na linguagem, na temática e no alucinado ritmo de produção. Somadas, suas quatro novelas equivalem a um filme de longa metragem por noite. Um mercado de trabalho que a maioria dos artistas brasileiros preza e abençoa: dá-lhes fama ou, na pior das hipóteses, pagamento em dia. Pode, portanto, a Globo ostentar e manter o mais fabuloso elenco de astros e estrelas jamais reunidos por uma central de produção artística.

Do autor ao eletricista, do astro ao extra, 1300 pessoas participam da feitura diária dos capítulos, gravados em estúdios ou na mais hollywoodiana das criações da Rede Globo — a "cidade cenográfica". No quilômetro 78 da Rio-Santos, num aterro de 4.000 metros quadrados entre a estrada e o mar, Barra do Guaratiba é uma cidade de mentira. Lá, atualmente, são gravadas as cenas externas das novelas "O Casarão" e "Saramandaia".

Insólito lugar. Abre-se a porta da igreja, da prefeitura, de qualquer edifício, e não se entra em parte alguma. São só fachadas. E duram enquanto duram as novelas.

Pelo menos duas dezenas de artistas chegaram ao Olimpo global: ganham, por força de contrato, salários mensais que vão de 80.000 a 150.000 cruzeiros. E férias de três a nove meses. De segunda a sábado entre 6 da tarde e a meia-noite as novelas constituem a espinha dorsal da programação dessa Hollywood brasileira. Vão para o ar em horários cuidadosamente estudados de forma a manter seu espectador-padrão ligado. Ou melhor, ligada.

Desde 1971, a Globo realiza em média 10 milhões de entrevistas por ano. Anota os hábitos, o comportamento e as tendências de uma respeitável massa de telespectadores das cinco maiores cidades brasileiras — São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife. O resultado de todas as enquêtes é religiosamente encaminhado ao homem que as encomenda e estuda, Homero Icaza Sánchez, chefe do Departamento de Análise e Pesquisas da Rede Globo.

— Bruxo não dá entrevista, dá receita.

Mas Homero Sánchez abriu uma exceção para os dois repórteres de VEJA que foram descobrí-lo. Entre muitas risadas e com voz musical, sacode o corpo gordo pela sala ao representar o papel do tipo que descreve — o telespectador brasileiro, segundo o padrão Globo de audiência:

— É mulher. Casada, pouco mais de 30 anos, católica. Vai uma vez por mês ao cabeleireiro, faz as unhas em casa e acompanha o marido ao cinema nas noites de sábado. Ela é que compra tudo para o homem. O marido só escolhe mesmo o terno e a gravata. O resto, até as cuecas, ela compra. Mostra-se mais compreensiva e mais moderna que o companheiro. Do filho, espera que se forme; da filha, torna-se aliada.

Eis por que, para a casa dessa mulher está voltada toda a programação da Globo. Sánchez, um panamenho de 51 anos, ex-diplomata, narra o que faz acontecer em milhões de casas brasileiras entre 18 e 24 horas, de segunda a sexta:

"Entro às 6 horas com uma história juvenil, que faz a mulher recordar o tempo das avós, pureza, romantismo ('A Moreninha', 'O Feijão e o Sonho'). As 7, solto uma coisa ainda leve, mas já com alguns problemas, quase uma espécie de fotonovela ('Anjo Mau'). Agora, na novela das 8, meus amigos, aí a mulher faz a catarse — é o dia-a-dia, a vida dela, os filhos de Salviano Lisboa que são uns safados, o inferno da Lucinha ('Pecado Capital'), a neurose de Lina ('O Casarão'). Já na novela das 10 forneço uma leitura adulta. É um horário em que a gente pode se soltar mais, ousar mais, experimentar".

Mas, e o homem, e o homem?

Responde o alquimista:

"O homem chega em casa lá pelas 6 e meia 7 da noite. Vem do escritório, do trânsito, de um dia cheio de aborrecimentos. Precisa de uma descompressão. A cabeça dele parece estar dentro de uma caixa de vidro, ele não ouve nada. Vai sentar em sua poltrona, enfiar a cara num jornal, continuar inatingível durante o jantar. Só começará a se relaxar, se mexer, se sentir bem, quatro horas depois de chegar em casa. E aí o que que eu faço com ele? Jogo o que o cara precisa para se soltar de uma vez: muito tiro, soco, 'Kojak',

'Arquivo Confidencial', 'Controle Remoto', o nosso horário de ação".

Não foi à toa, portanto, que Sánchez deu um murro na mesa ao terminar à leitura da sinopse de "Estúpido Cupido", de Mário Prata. Lá estavam, apontava ele aos assessores, qualidades indispensáveis a uma boa novela das 7: volta à pureza de uma época ainda recente, 1961; início da discussão de temas controvertidos até hoje, como à pílula anticoncepcional; um forte apelo musical com ampla possibilidade de comercialização; e, finalmente, o .detalhe que apaixonou Sánchez: o concurso de Miss Brasil, sonho dourado da telespectadora-padrão da Globo ("mais de 30 anos...") que certamente acompanhará, roendo as unhas, a escalada de Maria Teresa (Françoise Fourton) rumo à capa da então viçosa revista O Cruzeiro.

O segundo programa de maior audiência da Rede Globo é ou a novela das 7, ou a novela das 8 — depende de qual esteja estreando ou terminando. De qualquer maneira, raramente uma das duas bate o campeoníssimo "Jornal Nacional". Mas, se a mulher é o alvo da Globo, e, as novelas, o forte da Rede, como explicar a quase invencibilidade do noticioso? Armando Nogueira, diretor responsável pela Central Globo de Jornalismo, desvenda a estratégia:

— O "Jornal Nacional": tem que durar 15 minutos. Mais, não pode. Senão a dona-de-casa muda de estação e passa a ver a novela de outro canal.

Mas na Hollywood brasileira todo mundo é artista. Até mesmo os locutores de telejornais. Sérgio Chapelin, por exemplo, que costuma indignar-se quando o tratam meramente como um homem bonito, pelo menos uma vez por mês assume o papel de galã e anima bailes de debutantes nos subúrbios do Rio e no interior do pais. Igualmente precavido, o veterano Cid Moreira (25 anos de locução) só concede entrevista depois de indagar sua finalidade. "Todos pensam que os locutores são apenas tipos de beleza, sem nada na cabeça. É preciso respeito pelos profissionais." Como seus colegas, ele não revela quanto ganha. A Globo, ele diz, não interfere em sua apresentação pessoal: "Cada um corta o cabelo onde quer". Uma coisa, porém, Cid Moreira não pode negar: recebe uma média de 100 cartas de fãs por mês.

Na seção de correspondência da emissora, Clarinha e Márcia, duas moças simpáticas mas levemente entediadas, abrem milhares dessas cartas toda semana. Em julho, por exemplo, elas atenderam a 13.366 pedidos de fotos de artistas e locutores da casa. Cada missivista recebeu, como resposta, uma foto 18 x 24 autografada por seu astro favorito Cada foto custa à Globo 6 cruzeiros.

Mas quem recebe mais cartas? Eis os dez mais do mês de agosto: Mário Gomes (2.117 cartas); Mário Cardoso (1.656) Lauro Góes (1.531); Dênis Carvalho (1.502); José Wilker (1.362); Francisco Cuoco (1 131); Pepita Rodrigues (1.041); Regina Duarte, embora há quase dois anos afastada da televisão, foi lembrada por 1.021 telespectadores; Suzana Vieira (909); e, finalmente, Débora Duarte (790).

Terrível é o "Tarado", que envia mensagens desvairadamente pornográficas às atrizes da Cilobo. Dele, sabem-se apenas as iniciais (C. Z.), que mora em São Paulo e usa sempre a mesma agência dos correios, na alameda Glete. C. Z. é mesmo um tarado sem qualquer critério. Tanto escreve para jovens e deslumbrantes atrizes como para respeitáveis senhoras. Nem Zilka Salaberry escapou.

As mulheres que escrevem para os galãs falam principalmente de amor. A maioria recorre ao subterfúgio da narração de sonhos para sugerir, ou mesmo claramente expressar, a atração sexual que sente por seu ídolo. Mas o que aconteceu com Dênis Carvalho, o "Atílio" da segunda fase da novela "O Casarão", é rigorosamente inédito. Ele conta que recebeu certa vez uma carta de uma estudante de psicologia do Ceará. A moça dizia querer ardentemente um filho dele. Mas que Dênis, pelo amor de Deus, não pensasse mal dela. Queria um filho, mas não pelo método secularmente consagrado: ". ..mande num vidrinho, pelo correio".

"Virei até bonito. De repente, entro para a Globo e sou lindo. O galã triste." O neoformoso Ney Latorraca, 32 anos, o Mederiquis de ''Estúpido Cupido", paga com prazer o preço da fama. "Fãs me agarrando, puxando o cabelo, rasgando a roupa, gritaria, delírio, já passei por tudo isso. E gostei. Antes eu era sério, só lia Grotowski, Stanislavsky. Aí entrei de sola no esquemão. Quando fazia só teatro em São Paulo, eu era um tipo meio maldito na família. Agora, o que está aparecendo de Latorraca pelo Brasil é fantástico. Gente que eu nem sabia que existia me escreve indicando parentesco. Na Globo amigo, o ator deixa dc ser marginal. O sonho de todo ator é trabalhar na Globo."

Sandra Brea que o diga. A Globo a lançou em sua primeira novela em cores, "O Bem-Amado", de Dias Gomes, em 1972. Hoje, aos 24 anos, apontada por muitos como a primeira estrela fabricada pela televisão (e não importada do teatro, como de hábito), ela se expressa e se comporta de maneira bastante afetada. No camarim do restaurante Vivará, no Rio, minutos antes de entrar em cena no show "Bananas e Paetês", com seu inseparável partner Mièle, Sandra Brea pede champanha para ela e cafezinho para o repórter Joaquim Ferreira dos Santos, de VEJA. Que não perde a oportunidade de lhe perguntar:

- Você acha que a Globo é a Hollywood brasileira?

- Vamos ficar na base. Ela tem dinheiro.

Guta, uma mulher de seus 50 anos, pequena, desde menina sofre de um problema dc coluna. Usa colete de aço e sente dores permanentemente. As de cabeça, em particular, são terríveis. Só costumam melhorar quando toma Aracin, aspirina pura, concentrada. "Não tem no Brasil. Eu mando vir dos Estados Unidos." Todo dia às 9 da manhã, ela se acomoda em sua cadeira acolchoada e começa a trabalhar. Maria Augusta B. de Matos dirige o Departamento de Elenco da Rede Globo. Tem sempre ao alcance da mão cinco cadernos de endereços: a qualquer momento, Guta pode contatar 95% da classe teatral do eixo Rio — São Paulo. Mais 3.000 pastas reúnem dados pessoais e fotos de candidatos a artistas, ocasionalmente convidados, pelos comandados de Guta, para uma "ponta" ou mesmo um papel nos programas da Rede. A sala de Guta entra obrigatoriamente na rotina diária dos artistas da Globo. Nela, são distribuídos os capítulos de novelas que os atores devem decorar e afixados os roteiros de gravação.

Ali chega também toda a correspondência endereçada aos astros e estrelas da casa. O espaço em volta desta enérgica e poderosa mulher é bastante escasso.

Mesa, cadeiras, um sofá, uma estante, um aparelho de TV em cores e 47 posters de artistas — todos dedicados a Guta, Gutinha, Mãezinha — compõem o mobiliário.

— Oi, mãe! — aparece Françoise Fourton exclamando e beijando Guta.

Sentado no sofá, Ney Latorraca assiste à efusão da colega e faz beicinho de enciumado. O teatrinho dos três não dura mais de 2 minutos e termina com risos e abraços. Semblante severo, mas em tom indisfarçadamente maternal Guta aponta o dedo para Ney:

— Vou anunciar que você vai deixar de fumar. Quero ver o senhor não parar.

Maria Della Costa chega resfriada de São Paulo. Guta não tem um remedinho bom para gripe? Claro que sim. A diretora do Elenco transformou em farmácia uma prateleira da sala. Amostras grátis e remédios para todos os males do corpo, da mente e, principalmente, os da pura e simples hipocondria. Ela própria admite: artista vê doença em toda parte. "Os atores estão acostumados a viver vidas alheias", ela explica. "Têm a sensibilidade à flor da pele. Quanto mais sensíveis, mais problemáticos. Mas eu sei lidar com eles. E eles aprenderam a confiar em mim." Tanto que vários deles entregam a Guta a gerência de seus negócios. Ney Latorraca, por exemplo, comprou justamente o apartamento que Guta escolheu para ele.

A visão romântica do trabalho do ator, que Guta não perdeu em trinta anos de trabalho no rádio, na publicidade e na televisão, não a impede, porém, de por vezes tomar o partido da casa e não o do artista. Ela reconhece que muitos intérpretes sentem dificuldade em adaptar-se à frenética maratona da TV. E cita o caso de Joel Barcelos, contratado por 40.000 cruzeiros mensais para atuar em "Estúpido Cupido". Escolado no cinema, Joel não gravou mais que alguns capítulos. "Não agüentou o ritmo do trabalho e pediu demissão", exclama Guta. "Ele sentou aqui na minha frente e eu disse: 'Aqui não é Cinema Novo, não! Estou tentando fazer de você um ator do Sistema Globo'". A diretora do Elenco pode definir tal espécime? Pois não: "Na televisão, o que interessa é talento, estampa e texto na ponta da língua".

Guta que o perdoe, mas Joel Barcelos não concorda com ela:

— Texto não se decora, se impregna.

Lima Duarte está de férias da Globo até abril de 1977. Sem deixar de receber, durante todos esses meses, seu salário de 50.000 cruzeiros mensais. "Para o ator, essas paradas são muito boas. E para a TV Globo muito mais. Fico armazenado como num silo. Quando ela precisar do produto Lima Duarte, vai lá e me tira."

Outra lição que Lima aprendeu: a televisão não admite o fracasso. "Quando fracassei na direção da novela de Bráulio Pedroso, 'O Bofe', um diretor da casa me chamou para dizer que não tinha mais interesse em mim. Mas que eu continuaria recebendo até o final de nosso contrato. Foi aí que me deram o papel de 'Zeca Diabo' em 'O Bem-Amado'. Colou, fiz sucesso, continuei. Na Globo é assim: se você trabalha bem, ótimo. Caso contrário, rua."

Mas, afinal, quanto ganham os artistas? O mais alto salário da Hollywood brasileira sai fora da área das telenovelas para cair na do humor — é o de Chico Anísio — 250 000 cruzeiros, basicamente para fazer "Chico City"e aparecer no "Fantástico". Quanto aos demais, torna-se praticamente impossível apurar. Primeiro, porque eles não contam — ou mentem. Sabe-se, no entanto, que os superstars — Francisco Cuoco, Regina Duarte, Tarcísio Meira e Glória Menezes — ganham ordenados seguramente superiores a 100.000 cruzeiros.

Constituem, na verdade, uma minoria. E, de resto, cada caso é um caso. Tempo de casa, prestígio nos palcos ou nas telas, preferência popular, tudo pode influir na discussão dos termos de um contrato.

De qualquer forma, trabalhar na Globo é como estar numa vitrina. E proporciona oportunidades paralelas de aumentar a renda mensal. Podem surgir convites para gravar comerciais, comandar bailes, integrar o elenco de uma peça ou filme. A própria Globo, aliás, através da onipresente Guta, fixou a tabela de preços que seus atores devem cobrar.

Onde é o baile? Longe? Norte, nordeste, Mato Grosso, Goiás? 20.000 cruzeiros, mais estada. Felizardas, as debutantes do sudeste e do sul precisarão desembolsar apenas 15.000 cruzeiros, mais estada, para receber um belo Sérgio Chapelin em sua festa. Pechincha da tabela: baile no Rio, 10 000 cruzeiros. Aviso: inútil convidar Dênis Carvalho, Mário Cardoso, Lauro Góes, Ney Latorraca e Carlos Eduardo Dollabela para qualquer début — eles estão com a agenda tomada até o fim do ano.

Ganham os atores quando a Globo os chama para trabalhar. Mas ela ganha também. "Quantas e quantas vezes gravei cenas de novela onde ficava horas olhando tristemente o horizonte, sem dizer nada, apenas olhando, e aquela música tocando no fundo, o tema de Simone, o tema de Simone..." Regina Duarte sabia muito bem, naqueles instantes, que seu meigo e desprotegido ar de mocinha triste estava sendo usado para vender uma música gravada num disco da Som Livre, etiqueta fonográfica que integra o conglomerado Globo.

A linda Renée de Vielmond e o cobiçado Mário Gomes estão sentados num bar gravando uma cena dc "Anjo Mau". Travam um rápido diálogo:

— Quer tomar alguma coisa?

— Uma Coca-Cola — ela responde.

A isso também se chama merchandising. Ao contrário do anúncio, que pretende vender um produto, o merchandising apenas mostra uma preferência. Sônia Braga, ex-Gabriela, hoje vivendo a tórrida "Marcina" de "Saramandaia", desabafava com um repórter de VEJA: "Só quero ver se essa semana vou ter falas ou se tudo vai ser de novo no estilo maratona. Minhas marcas são assim: 'Marcina entra na farmácia'; 'Marcina sai da loja do Gibão'; 'Marcina passa pela praça'. Lá vou eu, mas haja paciência!"

Terá o autor da novela condenado sua heroína a um perene caminhar? Não, Dias Gomes não tem nada com isso. Marcina vai à farmácia porque lá está afixado um anúncio de Coristina. Na frente da loja do Gibão, um cartaz proclama: "Manah adubando, dá". E, exatamente na praça onde Marcina tanto passeia, existe um alvirrubro comercial da Coca-Cola.

Octávio Olive, diretor do Departamento de Merchandising da Rede Globo de Televisão, admite estar interessado em comercializar também "o enorme intervalo que separa um bloco de comerciais do outro". Ou seja: os próprios programas. Olive diz que a Globo ainda não sistematizou tal recurso. Mas não tardará a fazê-lo: "Queremos, de fato, vender a presença, no vídeo e/ou no áudio, de produtos e marcas. Tudo, naturalmente, dentro de um certo limite, de modo a não constranger a liberdade das pessoas e o desenvolvimento da produção de qualquer programa da Rede".

A força da Globo como emissora dc televisão não tardou a se fazer presente em outras áreas da indústria do entretenimento. Em 1971, ela entrou no mercado do disco e fundou a Sigla (Sistema Globo de Gravações Audiovisuais) uma empresa com 100.000 cruzeiros de capital. Passados cinco anos, já com 300 títulos em catálogo, à Sigla pertencem 20% do mercado total de vendas de discos no Brasil. "Faturamos 22 milhões de cruzeiros no mês de julho", revela João Araújo, diretor geral da gravadora.

Num pequeno sobrado de seis salas na Lagoa, Rio funcionam a Sigla e seus três selos: Som Livre (trilhas sonoras de novelas), Sape (discos baratos de música sertaneja) e Soma (reedições). Seu último sucesso: o LP "Anjo Mau'`, que vendeu 470.000 exemplares. "Pagamos 5 milhões de cruzeiros em direitos autorais e artísticos por trimestre. E 2 milhões a músicos e arranjadores", especifica Araújo.

Augusto Graça Mello, o "Guto", 28 anos, músico, arranjador e maestro, é gerente de produção da Sigla e diretor musical das novelas da Globo. Em torno de uma mesa de reunião, Guto e Maurício Sherman, diretor geral de "Fantástico" discutem as próximas atrações musicais do programa.

"Paulinho da Viola não", diz Sherman. "Ele dubla muito mal." E Cely Campello? "Anda dizendo tanta besteira, a Cely", interrompe o diretor. "Ela diz que tudo que é cantado em português é brasileiro. Assim não dá." Simone também não serve: "Muito classe A". Ao telefone, alguém informa que Elizeth Cardoso quer 30.000 cruzeiros para cantar um número no "Fantástico". Clara Nunes pede 10.000. A Divina ficou para outro domingo.

Sherman define o programa que dirige: "É um funil da programação da Rede Globo, envolve os núcleos de show e de jornalismo, e é o programa de maior orçamento da emissora". No mês de julho, para fazer cinco "Fantástico" a Globo gastou 1,8 milhão de cruzeiros — um pouco mais de 300.000 por domingo. Em compensação, cada anúncio de 30 segundos de alcance nacional rendeu 126.810 cruzeiros — 4. 227 o segundo.

— Tenho condições de deslocar Hélio Costa para qualquer região do mundo desde que eu perceba que a viagem pode render uma boa reportagem. Não há limitações financeiras — gasta-se o que for necessário.

José Itamar de Freitas comanda há dois anos a equipe de quatro repórteres, três editores e um produtor encarregado de preparar o bloco de 40 a 45 minutos dedicados ao jornalismo a cada "Fantástico". Segundo Itamar, "é assustador o alcance das reportagens feitas por Hélio Costa". Um exemplo: 5.000 cartas de todo o Brasil chegaram à Globo solicitando o endereço de uma clínica de marca-passo que o repórter apresentara no programa. Mais tarde, uma pesquisa revelaria que 89% dos telespectadores entrevistados queriam mais matérias cientificas.

Provavelmente terão. Pois o luxo de poder contar com um correspondente internacional especializado em curiosidades da ciência está incluído na previsão de gastos do Departamento de Jornalismo — 80 milhões de cruzeiros. E as maravilhas científicas, se despertam o interesse do telespectador, apresentam igualmente a vantagem de evitar certo tipo de problemas. Pois, como afirma o diretor responsável Armando Nogueira, os noticiosos da emissora enfrentam "pressões maiores que qualquer jornal".

— Uma noticia aqui pode atingir 30 milhões de pessoas.

Quando da morte do presidente Juscelino Kubitschek, por exemplo, após uma edição extra de 3 minutos, à tarde, Nogueira recebeu telefonemas de diretores da estação que por sua vez haviam recebido chamadas de autoridades. A recomendação: no "Jornal Nacional", a notícia da morte de JK deveria ser dada "com menos emoção. Por exemplo, a cena daquele homem chorando não pode entrar de novo", diziam a um Nogueira preocupado em compreender o grau exato de emoção que poderia ir ao ar.

Na última semana de setembro, Nogueira se inteirava de outra proibição: a Rede Globo de Televisão não podia dar nenhuma noticia sobre a bomba que fora jogada na casa do dirctor-presidente da Rede Globo de Televisão, Roberto Marinho.

Atribulações semelhantes afligem Walter Avancini, diretor do núcleo das novelas das 22 horas. "Estou tendo muito problema em encontrar textos para as próximas produções. já tivemos três sinopses censuradas: 'Baby Stompanato', de Bráulio Pedroso; 'Dona Flor e Seus Dois Maridos', baseada no romance de Jorge Amado; e 'A Vida como Ela', um trabalho de Walter George Dürst baseado em crônicas e personagens de Nelson Rodrigues. A Globo está aberta aos intelectuais. Eu os convido a virem lutar aqui". conclama Avancini.

Saibam, contudo, eventuais interessados, que o trabalho não será nada fácil. O autor deve escrever vinte páginas por dia — o equivalente a um romance por mês. Com imaginação e capacidade de trabalho tal obstáculo talvez não seja tão difícil de transpor. Duro, para o escritor de novelas, é ver a conduta de suas personagens deixar de ter lógica por interferência da Censura.

No momento, excetuada a novela das 18 horas, as outras três estão povoadas de personagens obrigadas a alterar suas características. Em "Estúpido Cupido", de Mário Prata "Olga" (Maria Della Costa) viu-se compelida a enviuvar porque uma senhora desquitada ainda não ganhou o direito de namorar às 19 horas. Em "O Casarão", o desquite tornou-se o menor dos males: Lina (Renata Sorrah) teve de apressar e oficializar sua separação de "Estêvão" (Armando Bógus) para poder namorar "Jarbas" (Paulo José). E, em "Saramandaia", novela de Dias Gomes, 22 horas, ninguém mais corre perigo de ser chamuscado: Marcina (Sônia Braga) que tinha (ou teria) fogo no corpo a ponto de literalmente incendiar lençóis, recebeu ordens de casar logo com Gibão (Juca de Oliveira).

O maior, e pior, acidente na linha de produção de novelas da Globo aconteceu com "Roque Santeiro", de Dias Gomes, no ano passado. Com sessenta capítulos já gravados, a dois dias da estréia, a Censura vetou a novela. Na época, calculou-se em 3 milhões de cruzeiros o prejuízo que a proibição acarretou — dezenas de atores contratados, figurinos executados, cenários prontos para a novela inteira. "Se a TV Globo não tivesse uma saúde financeira de ferro, não teria agüentado. Três milhões, assim de repente — isto é o faturamento bruto de outras emissoras."

Essa análise de um dos membros da cúpula global bastaria para justificar a existência na Globo do cargo de "revisor de textos". José Leite Otati, que chefiou o Serviço de Censura Pública do Rio de Janeiro durante 25 anos, entre 1943 e 1968, tem por obrigação ler cada capitulo de novela e indicar à direção da emissora cenas, falas e situações que correm o risco de ser cortadas ou vetadas pela Censura Federal. Advogado, professor de Latim e Português, Otati fala inglês com desembaraço e afirma já ter lido os clássicos de Shakespeare, Sófocles e Molière. "Conheço tudo isso aqui", repetia ele a Guilherme Cunha Pinto, editor-assistente de VEJA, enquanto dava palmadinhas quase carinhosas em seu velho exemplar do Código de Censura. "E não é por adivinhação. Sei as leis e suas possíveis interpretações. O censurável me vem pelo ar, como música." José Leite Otati é praticamente surdo e trabalha numa sala mal iluminada e silenciosa.

"Faço aqui um pré-exame dos textos. Por um problema industrial da empresa, ela não pode se arriscar a gravar capítulos e depois perdê-los. Mas eu só dou o alerta. A direção aceita ou não."

Como é que um censor se sente em ação?

"Normalmente mal, porque ele é muito malvisto e mal interpretado. Procuro ser um censor simpático e dialogável, mas o trabalho é difícil, chato e antipático. É aquela história: de médico, poeta, louco e censor todos nós temos um pouco. O pessoal fica como na arquibancada do Maracanã, tomando sua cervejinha e gritando: 'O Zico é grosso! Perdeu o pênalti!' Falar da arquibancada é fácil. Mas vai lá no campo, vai lá bater o pênalti. É a mesma coisa: todo mundo xinga o censor, acha errado tudo o que ele faz. Mas vai la fazer censura para ver se acerta."

Cercada de palmeiras imperiais e pelas matas do Corcovado, o núcleo central da Rede Globo de Televisão se espalha por um arquipélago de prédios, casas e lojas do bairro Jardim Botânico, no Rio. Ali, na rua Von Martius, 22, num prédio de três andares, quatro estúdios e 8.200 metros quadrados, inaugurou-se, em 23 de abril de 1965, a ZYD-81, TV Globo, canal 4 do Rio de Janeiro.

— A TV Globo não está pronta. E esperamos que nunca esteja pronta.

Com estas palavras de Roberto Marinho, dono da nova estação, entrava no ar o primeiro programa da casa — "Uni-Duni-Tê". Hoje, o funcionário mais antigo da Globo, Duarte Franco, ainda recorda o tombo que o padre levou ao descer as escadas, após a bênção das instalações. Nesses onze anos, o prédio pegou fogo duas vezes. E tornou-se pequeno demais para abrigar 2.500 empregados. Tornava-se urgente a construção de um novo edifício.

Lá está ele, batizado de "Vênus Platinada", porque pintado de azul e prata, as cores oficiais da Hollywood brasileira. Uma ponte de aço e plástico, apelidada "Waterloo", une o reluzente espigão de dez andares — o centro do poder — aos familiares contornos amarelados da sede antiga — o centro de produção — agora conhecida como "a velha estação".

Raramente se vê por ali o dono de tudo, Roberto Marinho, um fiel observador da discrição. "Nasci homem de imprensa", disse ele numa conferência. "Fui, sou e serei sempre homem de imprensa. Vivo, dia a dia, hora a hora, a vida do jornalista. Sou avesso a confissões de público. Devemos, o quanto possível, não ser notícia."

Infelizmente, Roberto Marinho não pode deixar de ser notícia. Aos 71 anos, é diretor-presidente de um multimilionário conglomerado de empresas de comunicação(*), entre elas a Rede Globo. Seu gabinete permanece onde sempre esteve, no prédio do jornal O Globo. Dali, via telefone direto, ele despacha com seus principais assessores. Como diz Marinho, trata-se de uma equipe excepcional e de talento invulgar".

Essa gente extraordinária fica encastelada nos três últimos andares da "Vênus Platinada", servida por um elevador exclusivo. Nele, só são admitidos os quatro homens mais poderosos da Rede, os superexecutivos da Globo: Walter Clark, 40 anos, diretor geral; Joseph "Joe" Wallach, 51 anos, superintendente da Central Globo de Administração; José Ulises Alvarez Arce, 51 anos, superintendente da Central Globo de Comercialização; e José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o ''Boni", 39 anos, superintendente de três centrais — Produção e Programação, Jornalismo e Engenharia.

No alto da Vênus Platinada", mesmo nos dias mais tórridos de verão, o clima está sempre pouco abaixo dos 20 graus. Ali, entre samambaias e secretárias impecáveis, trabalha Walter Clark Bueno, o executivo número 1 e o salário maior da casa. Com a participação de 1% sobre o faturamento da Rede, há dois anos já se estimava sua retirada mensal em 1,3 milhão de cruzeiros. Terno invariavelmente bem cortado, sempre de colete, por onde passa Walter Clark manda fechar janelas eventualmente abertas para que a temperatura se mantenha naturalmente fria. Alguns sinais exteriores podem ser relacionados para demonstrar que Clark sabe usar, para conforto próprio, os bons rendimentos que aufere. Tem dois carros: um Dino Ferrari azul-marinho e um Mercedes — prateado, naturalmente. Mora num apartamento duplex com piscina, na Lagoa. Tem ainda uma casa com praia particular em Angra dos Reis, onde atracam seus dois barcos.

Walter Clark assumiu a direção da Globo no dia 2 de dezembro de 1965, exatamente sete meses e cinco dias depois de inaugurada a estação. A ele é creditada, correntemente, a revolução desencadeada pela emissora. Mas talvez haja pormenores a esclarecer melhor.

"A revolução da Globo começa na adaptação que fez, para o Brasil, do sistema americano de exploração comercial da televisão", comenta Mauro Salles, primeiro diretor de jornalismo da emissora, dono hoje da Mauro Salles/Inter-Americana de Publicidade. "A televisão passaria a ser vendida com um todo", acrescenta ele, "e não mais em cima de horários ou programas isolados. Simultaneamente, a Globo se organizaria nas áreas administrativa e de produção."

Fundamentais, nesse processo, seriam os acordos entre a Globo e o grupo americano Time-Life para a construção da "velha estação" e também para assistência técnica. Também decisiva, na ocasião, seria a presença do argentino Goar Mestre, ex-produtor nos Estados Unidos. Chamado ao Brasil para repetir o que já fizera em Cuba (no tempo de Fulgencio Batista), na Venezuela e na Argentina, Goar Mestre encontrou, ao desembarcar no Rio, outra das peças definitivas da revolução global, o americano Joseph Wallach, administrador enviado pelo Time-Life.

Hoje naturalizado brasileiro e poderoso superintendente da Rede Globo de Televisão, Wallach tinha então a experiência dc dez anos como administrador de uma pequena estação em San Diego, na Califórnia. "Os primeiros cinco anos da Rede Globo foram de luta pela sobrevivência", recorda-se ele. "Não havia recursos técnicos nem financeiros, passamos todo esse tempo tentando fazer da Rede Globo uma empresa."

E foi bem nesse princípio que Walter Clark se incorporou ao grupo, com a missão de comandar o processo. Apesar de contar com Wallach e Goar Mestre, sentia falta de seu amigo e ex-colega de outras estações, Boni. "Eu não via outro sujeito para implantar a televisão que eu imaginava no Brasil", afirma Clark. "O Boni é um prussiano."

Mas só no ano seguinte, 1967, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho sairia de São Paulo para o Rio, para a Globo — onde acabaria por se converter, como previra Clark, no nome mais falado, mais ouvido e mais temido. Como um feitor, presente em todo instante da produção, ele é capaz de ter escrito, só neste ano de 1976, 850 memorandos — inclusive um que proibia seus subordinados de adotarem seu estilo. Muitas vezes acusado, o próprio Boni admite que teve de ser duro. "Para impor todo esse processo de produção", conta ele, "tive de sair no pau, na briga pessoal mesmo, quebrar, amassar, jogar fora, pular em cima das coisas."

Pela primeira vez na história da televisão brasileira, postos-chaves de comando, com carta branca dos patrões, eram entregues a homens oriundos da publicidade, e não do rádio.

A Clark e Bôni — igualmente publicitário de formação — se juntaria o americano José Ulises Alvarez Arce, filho de uruguaios e naturalizado brasileiro, ex-funcionário das agências Norton e Benson, e, mais tarde, proprietário da Gallus.

E seria através de um audaciosa idéia de Arce, no dia de setembro de 1969, que a Rede Globo (até então com emissoras apenas no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte) começaria a tomar conta do telespectador brasileiro. O próprio diretor geral Walter Clark, voltando da Europa surpreendeu-se ao ler em jornal brasileiro, no avião: naquele dia, pela primeira vez, iria ao ar o "Jornal Nacional".

Tomava forma, assim, um novo estilo, diferente de tudo o que se conhecia de televisão no Brasil. "A realidade da televisão brasileira não é a Globo, são as outras emissoras", define Manoel Carlos, homem de TV há mais de vinte anos, produtor do "Fino da Bossa", grande sucesso da década de 60. "No Brasil", lembra ele, "nenhum empresário havia sentido, até então, o alcance do veiculo." E cita exemplos: "Assis Chateaubriand passava com uma mala pelo caixa, perguntava quanto tinha e levava embora", apesar de já contar com a mais extensa rede de rádio, TV e jornais do país. Outro: "Nos áureos tempos da Record, dava pena ver o dr. Paulo Machado de Carvalho curvado sobre um desse livros de caixa de armazém marcando entrada e saída, como se TV fosse uma loja de secos e molhados".

Sete anos depois desse grande lance, é justamente sobre o horário do "Jornal Nacional" que Arce pode desenvolver ao máximo, as combinações de suas indústrias de segundos. A Rede Globo, hoje, opera verdadeiros milagres de multiplicação de tempo, entre 19h45 e 20 horas. Cada vez que o apresentador Cid Moreira sai do ar por 1 minuto, abre-se para cada uma das emissoras Globo a possibilidade de faturamento local. E são cinco geradoras de propriedade da Globo, às quais se somam dezoito "afiliadas".

É todo um potencial imenso a desenvolver — e em desenvolvimento. Como a Central de Produção tem o apoio de Homero Icaza Sánchez e suas pesquisas de comportamento também a comercialização se alimenta em fonte fértil — o Mercado Global. Promovendo pesquisa de mercado e de produtos nas mais diversas áreas alcançadas pela estação, o departamento dirigido por Sinval Leão já se transformou em dois anos e meio, num verdadeiro banco de dados. Mensalmente, esse trabalho é levado a 12.000 leitores da revista Mercado Global.

A maior sofisticação comercial da Globo, no entanto ainda está por ser implantada. No ano que vem, segundo cálculos já terminados, estarão funcionando, principalmente para a comercialização dos segundos da Globo, um serviço de telex próprio e um DDD interno. Mais ainda: em tempo não muito distante, a central de comercialização se dispõe a instalar terminais inteligentes de computação iguais aos de companhias aéreas para reserva de passagem. De qualquer uma das grandes praças brasileiras, assim, o cliente saberá prontamente se há vaga para seu anúncio e em que parte do país. Para tanto, bastará que se apresente no escritório local da Globo.

Por que isso? Quem responde é Otacílio Pereira, diretor de administração: "Eu vendo segundos, produzo segundos. E 1 segundo perdido, não vendido, não se recupera mais".

Para espíritos menos grandiosos — menos ambiciosos — não haveria necessidade de tão grande volúpia, pois a fatia da Globo é seguramente a mais generosa entre todas as distribuídas pela indústria de propaganda. No ano passado, calcula Mauro Salles, essa indústria investiu 740 milhões de dólares, cabendo à televisão 53% desse total e à Globo, com sua audiência maciça, reservou-se a maior parte.

"Esse é o poder da Globo" resume Walter Clark. Em linhas mais gerais, ele aponta algumas das razões de tal sucesso: "Administrar em padrões modernos, até com computadores de terceira geração. Dar importância ao departamento comercial. E ter sucesso com a programação em rede, o que possibilitou o ritmo industrial, a produção paracinematográfica das novelas". Mesmo grandiloqüente, ele compara: "O processo de conquista de audiência da Globo foi como empurrar um carro sem ignição: depois que começou a descer a ladeira, não parou mais".

Boni, a mola de toda a Central Globo de Produções, vai além ao resumir o que seja seu maior problema: "A Globo é muito grande para o Brasil". Seria como se uma fábrica de automóveis se instalasse num lugar onde não existisse uma indústria de autopeças para supri-la. "A Globo", informa Boni, "tem quase 70% de sua produção nacional feita por ela mesma e o investimento ficou tão grande que, se ampliarmos um pouco mais, a empresa passa a correr risco."

Conhecedor das grandezas e fraquezas da empresa, Boni se recusa a classificar a Globo como "a Hollywood brasileira". "Dou um esculacho em quem disser isso", ameaça, bem ao seu modo. Em seguida, porém, esclarece: "Não é, estamos muito distantes disso. É verdade que nenhuma televisão, no mundo inteiro, produz tanto quanto nós. Mas o nosso processo ainda é artesanal".

No mesmo 9.° andar da "Vênus Platinada" onde fica a suite de Boni, o superintendente da Central Globo de Comercialização, Joe Wallach, parece inibido com a presença do repórter Hamilton Almeida Filho, de VEJA. Ele é um homem extremamente educado, gentil e elegante. Pede desculpas com seu sotaque invencível — nos seus onze anos de Brasil, nunca deu uma entrevista à imprensa. Pelo contrário muitas vezes se escondeu das bisbilhotices dos inimigos da casa:

"Finalmente nacionalizamos nossa empresa a partir de 1969 e liquidamos toda a dívida com o grupo Time-Life em 1971. Por isso, nos cinco anos seguintes, a Rede Globo deu seus grandes passos para a criação da televisão brasileira. Para mim, a verdadeira história da Globo começa em 1969 com a saída do Time-Life, o lançamento do 'Jornal Nacional' e o boom da telecomunicação que ligou o pals. Este é o marco da TV no Brasil".

Fincado o marco, sobreviveria a expansão, acelerando-se incontida até as proporções de gigantismo dos dias atuais. E o que virá depois? Qual o futuro da Rede Globo? Respondem seus homens fortes:

Wallach: "Os próximos cinco anos da televisão brasileira irão dar mais opções, mais canais, mais programações, principalmente na parte de educação. Com a nova tecnologia, será a época do vídeo-cassete, do vídeo-disco e a entrada do satélite doméstico. A TV vai atingir 85% dos brasileiros, ou seja, 100 milhões de pessoas. Com a metade de nossa população com menos de 20 anos, a TV será a maior força de informação e orientação".

Bôni: "Vamos entrar numa fase crescente de recursos que jamais foram sonhados pela TV brasileira. Estamos comprando 9 milhões de dólares de equipamentos que só se tornarão obsoletos em 1990. Toda a nossa produção será apoiada na eletrônica. Nós queimamos a etapa do cinema. Graças a Deus, nós pulamos etapas".

Walter Clark: "Eu não sei onde vai parar. Ninguém sabe. Além de um certo limite não é mais possível".

(*) Jornal O Globo; Sistema Globo de Rádio composto de cinco emissoras cariocas e duas paulistas; o Sistema Globo de Televisão formado por cinco emissoras próprias e geradores de programacão (Globo do Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Brasilia e Recife) e mais dezoito "afiliadas" além de centenas de retransmissoras; a Rio Gráfica Editora que edita revistas em quadrinhos; Sistema Globo de Gravações Audiovisuais (Sigla); Industria Eletronica S.A. (Telcom); Instalações de Telecominicações Ltda (Instelcom); Vasglo, empresa de promoção de espetáculos; e Galeria Arte Global no Rio, São Paulo, Belo Horizonte e Recife.

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